quinta-feira, 14 de maio de 2020



SALVE MESTRE TIÃO OLEIRO

Em outubro de 2018 o Brasil se despedia de uma grande estrela da cultura popular, o Mestre Tião Oleiro, cuja luta em defesa das tradições de sua terra, o levou ao mais alto reconhecimento quando recebeu as medalhas do Mérito Cultural pelo Governo Federal, Medalha Djalma Maranhão pela Assembleia Legislativa do RN e Medalha Deífilo Gurgel pelo Governo do Estado do RN. Todas as homenagens dentro das comemorações pelo seu centenário em 2014.

Ainda em 2014 solicitei ao presidente da Câmera de vereadores, Renato Martins, que apresentasse projeto tornando 14 de Maio Dia Municipal da Cultura. Renato apresentou o projeto e o então prefeito Peixoto sancionou a Lei.

Conheci o Mestre lá pelos idos de 1999 em um passeio de bicicleta com o amigo Mucio Vicente. Naquela oportunidade Mucio me levou até a residência do velho Griô. Fomos apresentados e marcamos outra visita para que pudéssemos conversar melhor e alongar a prosa por mais tempo.

Foi a partir dessa prosa que iniciamos uma história de vida até o dia de seu encantamento. Foram muitas experiências vividas durante nosso tempo de convivência. Cada encontro com o sábio ancião era uma nova oportunidade de aprendizagem. Foram muitos ensinamentos.

Em 2002, aluno do curso de Arte pela UFRN, fizemos uma atividade para a disciplina de Folclore Brasileiro onde pesquisamos o grupo folclórico Congos de Guerra de Guanabara que era liderado pelo Mestre Tião. Durante a culminância do projeto de pesquisa, o grupo folclórico se apresentou no Teatro do Deart na UFRN. Foi uma apresentação inesquecível. Aquele dia foi o início de nossa luta em defesa da valorização, fortalecimento e preservação dos grupos tradicionais da região de Ceará-Mirim.
Em 2004 quando monitor do PROJETO MOVA BRASIL – alfabetização de Jovens e Adultos, fizemos pesquisas com os alunos sobre a cultura popular de Ceará-Mirim destacando Mestre Tião e seu grupo folclórico Congo de Guerra de Guanabara. O projeto foi classificado para ser apresentado no FÓRUM SOCIAL NORDESTINO em Recife no ano de 2004. O Fórum deu oportunidade para os Mestres Tião Oleiro e Zé Baracho mostrarem todas as suas qualidades e capacidades criativas.
Em 2008 o Canal Futura produziu um documentário chamado “A beleza do meu lugar” que homenageava 16 mestres de cultura popular de todas as regiões do Brasil e o mestre Tião estava entre eles. Esse material é divulgado em todos os países que transmitem as programações do Canal Futura. Dessa forma o mestre ficou conhecido em várias partes do mundo. O documentário concorreu ao 19º prêmio internacional de curtas em São Paulo no ano de 2008

Ainda em 2008 o Projeto Vernáculo, coordenado por Cleidiane Vila Nova, Ianne Maria e Rita Machado, produziu um vídeo sobre o Congo de Guerra de Guanabara onde apresentava a luta dos mestres Tião Oleiro e Zé Baracho pela preservação do grupo. O documentário concorreu ao 9° Prêmio de Curtas Potiguares em 2009.
Em 2009 recebeu o título de Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte através da Lei do Registro do Patrimônio Vivo do RN. O Prêmio concedeu uma bolsa mensal até o final de sua vida.

Apesar de agricultor e foguista de engenho de açúcar, a arte era o alimento da alma do bardo ancião, era mestre de cultura popular, sanfoneiro e cantador de coco. Viajou muito pelo interior tocando seu fole de oito baixos. São muitas histórias que um dia serão contadas.

Ficaram suas lembranças e seus ensinamentos e, o que levarei para sempre, é que nunca deixe de lutar, mesmo que a esperança esteja minada de incertezas, é preciso seguir em frente!!!

Que a arte consiga superar todas as formas de incompreensões tendo como resposta o bom combate, criatividade e muitos questionamentos!!

Textos sobre Mestre Tião:

segunda-feira, 11 de maio de 2020


Copiado do Face da ACLA Pedro Simões Neto

Dando continuidade às publicações históricas, a ACLA apresenta o segundo fragmento do livro "MUNICÍPIOS DO RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM", de autoria de Nestor dos Santos Lima.
O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM
Nestor dos Santos Lima
PARTE 2


A 29 de setembro de 1821, o Senado da Câmara de Extremoz jurava as bases da Constituição, sendo presidente o alferes Alexandre da Silva de Andrade, Francisco Xavier Torres e Luiz José da Penha.
Na madrugada de 21 de dezembro desse ano, surgiu um movimento de rebeldia contra o vigário João Ignácio de Britto.
Para diretor da vila dos índios era proposto, em verea-ção de 25 de janeiro de 1822, Manoel Ferreira Nobre.

A proclamação da Independência Nacional, em 1822, foi recebida pelo Senado da Câmara de Extremoz, composto de Pedro Paulo Vieira, João José de Mello e Francisco Xavier de Souza, que prestaram juramento de fidelidade ao Imperador D. Pedro I, de cuja aclamação só tiveram conhecimento oficial, na vereação de 15 de janeiro de 1823.

A 4 de junho de 1825, foi jurada solenemente a Constituição de 25 de março de 1824.
Os índios vilados em “Veados” eram dirigidos por cidadãos indicados ao governo da capitania pelo Senado da Câmara. Foram diretores ali, Hyppolito da Cunha Conceição, em 1822, Manoel Ferreira Nobre, em 1824, José Alves de Carvalho, em 1825, e Clemente Pio de Andrade, em 1832.

Informava, a 7 de setembro de 1839, o presidente D. Manoel de Assis Mascarenhas, à Assembleia Provincial, que “os índios de Extremoz, em número de 700, tinham uma légua de terras na cidade dos Veados, pouco trabalhavam em agricultura, viviam de pesca e de trabalhar a jornal”. (Vide Relatório, 1839).

A primeira escola primária oficial foi instalada em 1832, sob a regência de Antonio Victorino Ferreira Nobre, substituído em 1840, por José Bento da Fonseca.
A primeira Câmara Municipal de Extremoz foi eleita a 1º de junho de 1829 e empossada a 27 do mesmo mês e compunha-se dos cidadãos Manoel Varella do Nascimento, Gonçalo Ferreira da Rocha, Francisco Xavier de Souza, Felippe Varella Santiago, Francisco de Paula Soares da Câmara, Antônio Felix de Carvalho e Francisco Xavier de Carvalho.

O município de Extremoz compreendia, a esse tempo, uma Igreja Matriz, uma capela nos Touros, 5 povoações, 2 escolas particulares, tendo a da vila 12 alunos e a dos Touros 20.
A última sessão da Câmara de Extremoz, antes da mudança, foi a 22 de janeiro de 1857.
A resolução provincial n. 321 de 18 de agosto de 1855 elevou a povoação de “Boca da Mata” à categoria de Vila, com o nome de Ceará-Mirim, e para ai transferiu a sede do município. Outra resolução n. 345 de 4 de setembro de 1856 suspendeu a execução da anterior, mas, finalmente, a de n. 370 de 30 de junho de 1858 mandou efetuar a mudança. Durante 21 meses, não funcionou a Câmara Municipal, de modo que, só a 14 de outubro de 1858, é que se realizou a primeira sessão na nova vila de Ceará-Mirim, sob a presidência de Francisco de Paula Soares da Câmara e sendo vereadores Miguel Germano de Oliveira Sucupira, José de Goes de Vasconcellos Borba, Bento Gervásio Freire do Revorêdo, Padre João Coelho de Souza e Joaquim Romão Seabra de Mello.

Entre outros presidentes da Câmara Municipal, encontrava-se o cel. Luiz Antonio Ferreira Souto, no quatriênio de 1864 a 1867, quando renunciou, por ter mudado residência para Assú.
Em 1882, foi a Câmara Municipal suspensa quando era presidente o dr. Heráclio de Araujo Villar, assumindo a administração municipal o padre Antonio de Oliveira Antunes.

Ao tempo da grande seca de 1877-1879, o governo provincial criou em Extremoz uma colônia de flagelados, denominada “Sinimbú” à margem esquerda do rio “Mudo”, ou “Caratan” contendo 1.200 palhoças para 6.600 habitantes, sob a administração de Arsênio Pimentel e Westremundo Coelho.
Era presidente da província o Dr. Elyseu de Souza Martins.
Mais tarde, porém, em 1878, o vice-presidente Dr. Manoel Januário Bezerra Montenegro extinguiu a colônia “Sinimbú” e mandou arrolar o respectivo material.


Texto copiado do Face da ACLA Pedro Simões Neto


A ACLA inicia, hoje, uma série sobre as obras literárias clássicas que narram a História da nossa cidade. Com isso, a Casa de Pedro Simões tenta aproximar o passado do presente a todos os ceará-mirinenses. A organização da apresentação dessas obras foi pensada com o fim de possibilitar uma leitura gradual e progressiva, buscando manter a média de 3 páginas.
A ACLA, como guardiã da cultura de Ceará-Mirim, espera contribuir com o sentimento de identidade do nosso povo e deseja a todos uma boa leitura.
Nesta primeira parte da série, apresentaremos o primeiro fragmento da obra "MUNICÍPIOS DO RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM", de autoria de Nestor dos Santos Lima.


O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM
PARTE 1


O território do importante e rico município de Ceará-Mirim, outrora de Extremoz, limita-se ao norte, com o município de Touros, pelo rio Maxaranguape, até a sua barra no Atlântico; a leste, com o oceano e o município de São Gonçalo, desde a barra do rio Guajerú, ou Rio Doce, passando pela lagoa de Extremoz e até a Massaranduba, pelo riacho desse nome; ao sul, com essas divisas de São Gonçalo, e a oeste, com o município de Taipu, segundo a linha estabelecida pela lei estadual n. 422 de 28 de outubro de 1917, que assim dispõe:
“Ao norte, partindo da foz do Riacho Seco, a ponta da Lagoa do Mato, pelo lado de cima; dai, em linha reta, à Passagem das Pedras; dai, à Cruz do Salvador; desta, pela estrada de Macaíba, ou das ‘Boladas’, até o Riacho do Mudo, e por este acima, até a Trempe dos Municípios, no lugar denominado ‘Poço do Juazeiro’.”.

A superfície territorial é de cerca de 2.880 quilômetros quadrados, medindo de norte a sul 48 quilômetros e de leste a oeste 60.

As terras que hoje constituem o município de Ceará-Mirim, foram concedidas a vários donatários, no início da colonização da Capitania.

Jeronymo de Albuquerque, capitão-mor do Rio Grande do Norte, concedeu várias sortes de terras, entre outros, a Affonso Alvares, em 7 de março de 1604, a Braz de Mesquita, em 2 de Junho de 1604, a Manoel de Carvalho, a Gaspar Rabello, a Domingos Álvares, a Jeronimo de Athayde e aos padres da Companhia de Jesus, em 7 de janeiro de 1607, terras essas situadas, ora na Várzea, ora no rio Seará. O capitão-mor Francisco Caldeira Castel Branco também concedeu terras na várzea do Seará, na testada das da Companhia de Jesus, a Beatriz de Paiva, filha do alferes Luiz Gomes, em 4 de outubro de 1613 (Ver. Do Inst. Hist., vol. VIII, págs. 30 a 72).

Quando, no ano de 1614, vieram a Natal o capitão mor de Pernambuco Alexandre de Moura e o desembargador Manoel Pinto da Rocha, afim de executar a provisão regia que mandava repartir e dar de novo as terras concedidas e não cultivadas, encontraram as datas concedidas no rio e na várzea do Seará umas bem aproveitadas e outras absolutamente incultas e devolutas, que eles deram a terceiros.
Segundo refere Ferreira Nobre, na sua “Breve Notícia da Província do Rio Grande do Norte”, 1877, os índios potyguares teriam fundado um estabelecimento junto à lagoa Guajeru, (hoje Extremoz) e os padres jesuítas fundaram um convento, uma bonita Igreja e um prédio com acomodação para a Câmara Municipal e Cadeia.

Não padece dúvida que os jesuítas, tendo obtido uma vasta sesmaria de quatorze léguas, que pegava da gamboa do Jaguaribe, à margem do Potengi, defronte da cidade de Natal, correndo para oeste até emparelhar com a lagoa do Guajerú, três mil braças e dez palmos, em direção ao noroeste seiscentas braças e daí até o “Mar Salgado”, (data 102 do auto de repartição de terras, cit. Ver., pág. 40), embora só tivessem ali, até 27 de fevereiro de 1611, “dois currais de vacas, algumas éguas, e dois escravos da Guiné”, tiveram necessariamente de povoar e aproveitar as ditas terras, onde fundaram o aldeamento de Guajeru, com o convento, a Igreja e mais acessórios.

Mas, tendo o alvará régio de 1755 expulsado do reino de Portugal a Companhia de Jesus, mandou vilar os índios domesticados, concedendo-lhes terras, de uma légua, em quadro, e submetendo-os a uma administração civil.
No desempenho dessa missão, o desembargador Bernardo Coelho da Gama Vasco criou a Vila de Extremoz e a instalou no dia 3 de maio de 1760, desmembrando-a da cidade de Natal, a quem pertencia.

O aldeamento jesuítico, então transformado na Vila de Extremoz, era denominado “Aldeia do Guajeru”, sob a invocação de São Miguel, compunha-se de índios caboclos da língua geral e tapuyos da nação dos Payacús (Ver. Inst. Vol. XI-XIII, pag. 178).

Outras aldeias também se formaram no aludido território doado à Companhia, como sejam a de Potyguassú ou Camarão, em Igapó, e a de Jacaúna, nos terrenos do norte, em Conapolumirim, ou Porto-mirim, como entendia o des. Luiz Fernandes (Ver. Cit., vol. VIII, pag. 102).
A mais próspera das aldeias era a de Guajeru, que se tornou “vila”, em 1760, e tal foi o seu desenvolvimento, que foi considerada “Cidade”. (V. Questão de limites entre Rio Grande do Norte e Ceará, vol. 2, pág. 55).

Os demais núcleos ficaram simples povoados, que ainda são.
O território do antigo município de Extremoz se estendia até ao de Lages, hoje; mas, os moradores dessa povoação, em virtude da Lei n. 10 de 6 de março de 1835, ficaram pertencendo à freguesia de Sant’Anna do Mattos. A área municipal correspondia à da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres e 
São Miguel de Extremoz, (lei n. 264 de 7 de abril de 1852).

Poucos anos depois de criado o município, a vila e a freguesia, isto é, em 1775, Extremoz do Norte compreendia, pelo poente, as terras até Aguamaré, onde dividia com Assu, e pelo lado leste, vinha até os limites de Natal, pelo rio Guajerú. Contava 16 fazendas, 484 fogos, e 1.123 pessoas de desobriga, sendo caboclos da língua geral 194 fogos e 194 pessoas e portugueses 208 fogos e 1.097 pessoas. (A República, de 1892, num. 159).

Erigida a vila de Extremoz e instalado o Senado da Câmara, segundo o livro mais antigo, aberto a 27 de julho de 1776, foi o município dirigido por José Gomes de Mello, como presidente do Senado, Francisco José de Amorim, como juiz ordinário, e Antônio dos Santos Vila Nova, como vereador mais velho. Depois de várias administrações locais, em que figuram os ancestrais das mais distintas famílias do município, entre as quais o sargento-mor Domingos Gomes Maciel, Alexandre Pereira de Britto, José Fernandes Carrilho, Manoel Rodrigues Braga da Luz, sargento-mor Ignácio Duarte, comandante Pedro Paulo Vieira, como juízes presidente e vereadores, eis que em 1828, foi extinto o Senado da Câmara, substituído pela Câmara Municipal, que foi instalada a 27 de julho de 1829, sob a presidência de Manoel Varella do Nascimento, que se conservou por dois quatriênios, de 1829 a 1832 e de 1837 a 1840, José Francisco Xavier da Silva, de 1833 a 1836, Joaquim José Pinto, de 1841 a 1844 e de 1845 a 1848, Manoel Teixeira da Silva, de 1849 a 1852, padre Cândido José Coelho, de 1852 a 1856, e Francisco de Paula Soares da Câmara, eleito para o quadriênio de 1857 a 1860, quando ocorreu a mudança da sede da vila e município para o lugar “Boca da Mata”, que é hoje a bela cidade de Ceará-Mirim.

Texto copiado do face da ACLA Pedro Simões Neto

A VEZ DA BARONESA DE CEARÁ-MIRIM
André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes
Presidente da ACLA


Com a morte do Barão de Ceará-Mirim (Manoel Varella do Nascimento), em 01.03.1881, era chegada a vez de sua esposa, Bernarda Varella, a Baronesa, assumir, aos 59 anos, os negócios da família e o protagonismo da elite aristocrática de Ceará-Mirim. Tal situação, diga-se de passagem, era de raríssima exceção no modelo de sociedade patriarcal vigente. Tanto é, que no famoso Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, de Eduardo Von Laemmert, pouco se vê mulheres como proprietárias de engenhos ou fazendas. Ao que tudo indica, a Baronesa era uma mulher de forte personalidade e muito respeitada, daí porque não se pode afirmar que sua posição, como chefe da família Varella, foi, simplesmente, por carregar o título nobiliárquico do seu falecido marido.

Seu nome de batismo é Bernarda Dantas da Silveira, mesmo nome de sua avó materna e, também, de uma tia. Nasceu em 17.06.1821, provavelmente no reduto de seu pai, Capela, em Ceará-Mirim, mas que, à época, tinha em Extremoz a sede municipal. Os pais da Baronesa foram Francisco Teixeira de Araújo, filho do português José Teixeira da Silva e de Teresa Duarte de Jesus, e Isabel Duarte Xavier, filha de Francisco Xavier de Sousa Jr. e de Bernarda Dantas da Silveira – mesmo nome da neta.

Sua ascendência, de acordo com o manuscrito de Manoel Maurício Correia de Sousa, primo da Baronesa, datado de 08.08.1840, cuja transcrição está publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, edição nº 96 (2018), de que tive o privilégio de ser coautor, ao lado do respeitado genealogista João Felipe da Trindade, vai até os Santos Mártires de Uruaçu.

Também eram primos da Baronesa dois dos meus tetravós, José Dantas Correia e Maria Cândida de Sousa Sobral (casados entre si). A Baronesa e seus primos são, pois, hexanetos de Estevão Machado de Miranda e heptanetos de Antônio Vilella Cid, ambos Santos Mártires, vítimas, em 03.10.1645, do morticínio ocorrido em Uruaçu.

O baronato de Bernarda Varella durou 16 anos: de julho de 1874 a julho de 1890, quando morreu. Desse período, foram 6 anos e sete meses como esposa do Barão, e, depois de viúva, foi Baronesa de fato por mais 9 anos e cinco meses. Foi de fato, e não, de direito, haja vista que o título nobre foi concedido ao seu marido, sendo que os títulos não se transmitiam para os cônjuges. Um bom exemplo disso é que no Almanak Laemmert de 1885, isto é, onze anos após a morte do Barão de Ceará-Mirim, era o nome de Manoel Varella do Nascimento, e só dele, que constava no rol dos nobres do Império.

O certo é que, seja por tradição, seja pela imponência de sua figura, aliado, ainda, a uma necessidade de Ceará-Mirim se sentir parte da nobreza, Dona Bernarda continuou ostentando o título.

Na sua trajetória, ela esteve sempre acompanhada pelos filhos mais influentes, José Félix da Silveira Varella, coronel da Guarda Nacional e proprietário do Engenho Ilha Bela, e Alexandre Varella do Nascimento (Xandu), os quais já acompanhavam o pai, no final de sua vida. O outro filho, Carlos Varella do Nascimento (Carrinho), era doente, não casou nem teve filhos. As filhas estavam muito bem casadas: Ana contraiu núpcias com o Dr. José Ignácio Fernandes Barros, juiz de direito de Ceará-Mirim, ao passo que Izabel casou-se com o Dr. Vicente Ignácio Pereira, médico, político e proprietário do exuberante Engenho Guaporé.

Pois bem. Em 15.08.1882, houve a famosa visita do bispo de Olinda a Ceará-Mirim, muito bem relatada em “Visita Episcopal do Exmo. e Revmo. Sr. D. José Pereira da Silva Barros a algumas paróquias do Rio Grande do Norte”, do Dr. Luís Carlos Lins Wanderley, primeiro médico potiguar, e que, à época, era deputado provincial, tendo acompanhado D. José a Ceará-Mirim. Não tive acesso à referida obra, mas, na parte que trata de Ceará-Mirim, socorro-me de Magdalena Antunes, cuja transcrição está no seu livro Oiteiro: Memórias de uma Sinhá-Moça (1958).

O Dr. Wanderley dá a exata medida de que tudo em Ceará-Mirim girava ao redor da família Varella. O bispo de Olinda adentrou em Ceará-Mirim na luxuosa carruagem de Xandu Varella, que era do tipo caleça (ou caleche), importada da Europa. As carruagens desse tipo eram destinadas a passeios, tinham quatro rodas e puxadas por quatro cavalos. Eram cobertas, possuíam portas e janelas e contavam com dois assentos duplos, um de frente ao outro. O cocheiro responsável por conduzir D. José, foi Antônio Gangorra, escravo de muita estima de Xandu.

Na cidade, D. José foi recepcionado pelos genros da Baronesa, o Dr. Vicente Pereira e o Dr. Fernandes Barros, cabendo a este último ser o anfitrião do bispo, no seu palacete (onde funcionou o Ginásio Santa Águeda), com direito a um grandioso banquete. O Guaporé, do Dr. Vicente Pereira, também acolheu o bispo, sendo oferecido outro banquete. Com a palavra, D. José ofereceu três brindes: o primeiro à majestade da família, representado pela Baronesa; o segundo à majestade do Estado, o Imperador; e o terceiro à majestade da Igreja, o Papa Leão XIII.

Mas a Baronesa não se ocupava apenas de solenidades pomposas. A educação era, para ela, assunto do mais elevado relevo, assim como foi para o Barão, cujo título decorreu por causa da doação de cinco contos de réis para a construção de uma escola em Ceará-Mirim. O jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, do dia 03.09.1887, noticiou que a Baronesa, então com 66 anos, mandou distribuir para as crianças pobres das escolas municipais da Corte, 100 exemplares da Encyclopedia Popular, de Dias da Silva Junior. Na mesma ocasião, o Barão de São Geraldo (MG) mandou distribuir 50 exemplares – a metade – da referida obra. Diante desse cenário, cabe um questionamento: quem influenciou quem? O Barão ou a Baronesa?

O intrigante disso tudo, é que apenas um filho do casal de nobres buscou se instruir, qual seja, Manoel Varella do Nascimento Junior, ao estudar na Faculdade de Direito do Recife. Por ironia do destino, morreu no quinto e último ano do curso, sem voltar à Ceará-Mirim como doutor. Os outros filhos, como assevera Câmara Cascudo, “(...) foram senhores de engenhos. Nenhum funcionário público. Nenhum emigrou”.

E, aos poucos, a Baronesa foi conseguindo suprir a lacuna da liderança, deixada com a morte do Barão, passando a ser, ela, com o poder da sua nobreza, a nova referência de Ceará-Mirim.

quinta-feira, 18 de julho de 2019


LAMENTO I

Hoje acompanhei alguns estudantes e professores da EITI Barão de Ceará-Mirim em uma viagem pela história de Ceará-Mirim. Iniciamos com uma breve parada no local onde antigamente havia uma fonte de água (olheiro) que, provavelmente, foi a responsável pelo povoamento do lugar Boca da Mata. Aquele olheiro abasteceu o povoamento, depois a Villa e posteriormente a cidade, desde sua fundação.

Fazia parte do cotidiano da cidade o fluxo constante de pessoas, animais e carros pipas transitando pelas ruas e comercializando água para a população. Isso acontecia até os anos 1970 quando chegou a água vinda da Lagoa de Extremoz e o abastecimento passou a ser diretamente pelas torneiras.


Dizem que no final do século XIX o imperador D. Pedro II liberou uma verba para que fosse construída uma casa de proteção sobre o olheiro com o objetivo de evitar que as águas da chuva e a lama se misturassem à água que era servida à população.


A tal casa resistiu até os anos 1980 quando foi demolida e no seu lugar colocaram uma laje de cimento protegendo a caixa do antigo olheiro. Esse local era usado para abastecer carros pipas que transportavam água para alguns distritos onde a “água encanada” ainda não tinha chegado. Além disso, servia também para que a população fizesse uso da água que saia pela tubulação para lavagem de roupas.

Em 2017 o velho olheiro sofreu mais uma intervenção, dessa vez, muito preocupante, pois, retiraram a laje de cimento que havia sobre a caixa que protegia a água para que fosse feito uma restauração, uma forma de valorizar o espaço turisticamente. Pois bem, quando foram retirar a proteção, os fragmentos da laje devem ter caído dentro da fonte o que levou ao entupimento da mesma.


Naquela oportunidade limparam o local, pintaram a proteção de branco e fizeram a inauguração em uma Semana de Meio Ambiente. Foi a atração principal do evento. Quando vi a tal restauração, pensei que iam construir uma réplica da antiga casa que era um símbolo da memória da cidade. Engano meu, fizeram a festa e depois o abandonaram à própria sorte, convidaram as lavadeiras para saírem do local porque poluía a água e, atualmente, o entorno do espaço está totalmente coberto de mato e o interior da caixa do antigo olheiro poluído com tudo que existe, inclusive uma água parada, suja e fétida, repleta de larvas de mosquito o que, obviamente, põe em risco à população, principalmente, em um tempo de surtos de dengue, zika, chikungunya e outras milacrias.
Não sei qual o projeto desta administração para aquele espaço, uma vez que todo o Largo Julia Genoveva está em total abandono, inclusive, o prédio da velha estação apresenta muitas infiltrações comprometendo todo o equipamento.
Cá com meus botões, não custava nada a prefeitura manter aquele espaço limpo e bem cuidado, já que a sua “restauração”, penso, que de fato ficou inviável. Não é prioridade!! De qualquer maneira, o velho olheiro será o primeiro e principal Cartão Postal de Ceará-Mirim quando o turista entrar no corredor fantasmagórico dos engenhos. Ninguém, nenhuma administração municipal, apagará sua contribuição para a memória da cidade!! Isso é fato!! Mesmo que aterrem o lugar.
Há muitos vereadores jovens, que estão iniciando na política, que poderiam refletir sobre o importância do velho olheiro para a memória da cidade e propor projetos que viabilizassem sua verdadeira restauração e o trouxessem à vida. Há recursos para isso. Busquem emendas com seus deputados para que justifiquem os votos que tiveram aqui no município.  Pelo menos na teoria, foi para isso que foram voltados, para representar o interesse da comunidade.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Amiga Gracinha Barbalho B. Teixeira... texto maravilhoso. Veja essa fotinha para ilustrar sua crônica. Seresteiros do vale na década de 1970...Provavelmente em uma das serestas na época. Raimundinho, Zequinha, Vicente Barbosa, Gerson, meu pai, Jadson Queiroz Alves, meu Tio Manoel Fabrício...

SERESTEIROS 
Por Gracinha Barbalho B. Teixeira
Minhas lembranças de Ceará-Mirim, são de ordem cômica, saudosa, mérito, amizade e romântica. Revive-las em cada linha que delineio no papel ou no computador, traz-me alegria e felicidade e uma delas é a serenata; que coisa linda, emocionante, amorosa e inebriante era acordar pela madrugada e escutar os acordes de um violão plangente, um sax tenor, um bandolim, um cavaquinho, acompanhados que eram de um pandeiro e de uma bela e sonora voz. O tempo em sua caminhada sem paradas, vai deixando para trás coisas que à época tinham significados em seus mais diversos matizes tornando-as para os que vem depois, apenas como “coisas das antigas”, de gente velha em seu passado. Assim digo, que a beleza desse passado não está na juventude que envelheceu, até porque o envelhecimento faz parte da vida, nem tão pouco a ilusão do passado, mas na sensibilidade que atravessa o corpo e pousa na alma lá ficando para sempre. Os seresteiros da minha terra natal tem seu lugar ao sol em minhas lembranças de menina e adolescente; ainda as recordo de modo prazeroso, lembrando nomes ouvidos em minha casa ainda criança e que o tempo ainda não se encarregou de apagar de minha memória; outros muito bem lembrados pela convivência in loco e suas maviosas vozes em noites de serestas frente ao janelão da minha casa na Rua do Patu. E é com grande carinho que faço destaque especial a todos os seresteiros ceará-mirinenses, e os trago até vocês meus leitores, nominando cada um deles na sonoridade de seus cantares, ecoando noite a dentro. Inesquecíveis lembranças. Nelson Moreira, Manoel Sobral, Waldomiro, Zé Moreira, Luiz de Júlia, Cirineu Campos, José Lemos, Francisco Barbalho, Canindé Pegado, Neto Cerqueira, Nenêm de Chico padre, Parú, Chico Pindoba, Zé gago, João do banjo, Ernani Soares, Diassis Barbalho, Edmundo Sobral, Canindé Costa, Ademar, Vicente Barbosa, Amarildo, Tita, Damião, Adamar Trajano, Carlos Afonso, Robério Câmara, Daniel, Pipi, João de Pedro Gomes, Pedrinho Costa, Fernando Campos. Deixo nessa crônica minhas doces lembranças das serestas e dos seresteiros do passado e dos contemporâneos. Que se faça jus aos cantores das noites enluaradas ou em época mais recente iluminadas pelas luzes de mercúrio ou fluorescente, romanceando a cidade, as ruas, a frente das casas de suas amadas.
Acorda minha bela enamorada...
A lua vem surgindo cor de prata...
Relembra as madrugadas que lá vão...
É tarde eu já vou indo preciso ir embora, té amanhã...
Sonhei que eu era um dia um trovador...
Silencio na noite, está tudo calmo a cidade dorme...
Aqueles olhos verdes, translúcidos serenos...
Quero beijar-te as mãos minha querida...
Ela se enamorou de outro rapaz...
Bandeira branca amor, não posso mais...
Sei que é covardia um homem chorar...
Tudo acabado entre nós já não há mais nada...
Ave Maria rogai por nós os namorados...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Querido Amigo Jorginho( Jardel Souto ) para que seu texto seja abastecido de boas memórias...a foto do nosso querido Zé Moreira de toca como relatado...
ESTÓRIAS DA HISTÓRIA DO CEARÁ-MIRIM
copiado do perfil da Acla Pedro Simões Neto
MINHAS ANOTAÇÕES – Jorge Xavier
A BOLA DE PITO
“Se esses boleiros de hoje metidos a craque tivessem jogado com as bolas do meu tempo, iam saber o que é bom pra tosse...” O desabafo é do ex-zagueiro Tonhão, titular de quase 10 anos do extinto Clube Atlético Potiguar, hoje falando dos seus 84 anos. Tonhão soltou sua opinião depois de ouvir no rádio que os jogadores estãorevoltados com a má qualidade da bola oficial do campeonato. Como ele vem ainda do tempo da bola de pito, o velho zagueiro do finado Atlético de João Machado. Tonhão diz não contar as vezes em que cabeceava e coincidia com a testa indo ao pito da bola. Era uma tremendacacetada na testa do jogador, lamentava-se o veterano raque rubro-negro. De fato, nas antigas fotos dos times potiguares, aparecem vários jogadores de defesa usando uma touca branca na cabeça, com isso amenizando a dor da pancada do pito.
Esse texto me traz a presença do nosso amigo Zé Moreira, que defendia o Centro Esportivo e Atlético, time de futebol, sendo um centrefor com especialidade em bater faltas, com o seu jeito macio e vagaroso, fazendo as redes balançar. No que se assemelha ao Tonhão é que usava uma touca branca, porém evitando ao máximo uma cabeceada, com medo do toque violento, que poderia causar uma pancada na testa, com possibilidade de ver estrelas...

 Time do Centro Esportivo e Atlético







Dentro das quatro linhas a performance dos jogadores trazia a galera a forte vibração lá no campo do Centro Esportivo, que sequer havia proteção entre a beira do campo e o gramado.
Era sempre um domingo festivo, com os torcedores marcando presença e as mulheres, em sua maioria, eram arredias ao futebol. Havia uma exceção relevante, a nossa querida Neusa Medeiros, ferrenha torcedora que lá estava gritando calorosamente, incentivando os nossos ídolos.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Texto do facebook - Perfil da autora Gracinha Barbalho B. Teixeira
LAVADEIRAS
Houve uma determinada época em que a roupa suja, no bom sentido, era lavada fora de casa, melhor explicando, em rios e lagoas das cidades. Um dos locais mais procurados por essas trabalhadoras era o rio Ceará-Mirim, comumente chamado de Rio dos Homens, assim como as localidades de Capela, Maceió, Gravatá, Primavera e Lagoa Grande.
Era na segunda-feira que Dona Guiomar vinha pegar a roupa que minha mãe arrumava numa grande trouxa, incluindo duas barras de sabão Vencedor e dois tabletes de Anil Imperial. Ela chegava bem cedinho, tomava café, depois colocava a roupa na cabeça e descia ladeira abaixo até chegar ao seu destino, o rio ou lagoa onde de cócoras ensaboava e esfregava, colocando depois ao sol, em cima dos matos para quarar; depois de certo tempo recolhia, fazendo sempre o mesmo ritual: esfregava mais uma vez, lavava, enxaguava, colocava a água de anil na roupa branca e depois estendia ao sol. 


Olheiro Pedro II localizado por trás da estação de trem (demolido em 2017)
Nesse ínterim, caso tivesse levado, comia alguma coisa, e esperava que a roupa secasse, recolhendo-a, arrumando-a e fazendo uma nova trouxa limpa e cheirosa. Essas atividades duravam de dois a três dias, caso não chovesse. Quando a roupa já lavada chegava, minha mãe separava a que ia ser posta na goma e depois encaminhava para a casa de Águeda, a melhor engomadeira de Ceará-Mirim, diga-se, das pessoas que moravam lá em cima, na Rua do Patú; o restante se passava em casa mesmo com o “bendito” ferro movido a brasas, abanadas e assopros.
Creio que todas nós dessa geração presenciamos esses fatos e esse tipo de profissão tão árdua e cansativa. Além de dona Guiomar, também tivemos outra lavadeira, dona Zefinha, mãe de Neide e Dorinha. Ela também tinha um bebezinho, uma menina, que, muitas vezes, deixava lá em casa quando levava as duas maiores para poder lavar a roupa. Vida dura e sofrida dessas criaturas, muitas vezes maltratadas e humilhadas quando a roupa não chegava tão limpa como queria a “patroa”. A essas santas criaturas, o meu louvor, a minha gratidão e o meu respeito por tudo que tiveram que suportar de pessoas arrogantes que se achavam melhores que elas.
Coitadas dessas arrogantes, muitos anos depois vi as referidas patroas, lavando sua própria roupa. Seus tempos de bonança, para o uso de suas soberbas e luxo, não mais existiam. Assim é a vida, dia estamos muito bem, outros estamos à deriva. Quase nunca aprendemos as lições que a vida nos dá. Benditas sejam as lavadeiras de Ceará-Mirim, do passado e do presente, e de tantos outros lugares comuns.


Fonte: 
https://www.facebook.com/maria.barbalhob.teixeira?hc_ref=ARTfyXJ-d3C9YcRSPQ85zF1Pe-  PhXWxM_Hh9Hsn_WJHHMgjsLd9md9oQNLoEU3WU_P0&fref=nf&pnref=story

domingo, 3 de dezembro de 2017

POSSE DA CONFREIRA FRANCISCA MARIA BEZERRA LOPES


Discurso de FRANCISCA MARIA BEZERRA LOPES, proferido por ocasião de sua posse na ACLA, no dia 18 de novembro de 2017.
Excelentíssima Presidenta, da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes “Pedro Simões Neto”, Dra. Joventina Simões de Oliveira, autoridades presentes, acadêmicos, meus familiares, amigos e demais convidados, minhas Senhoras e meus Senhores...
Nesse momento de enlevo e emoção, peço a permissão, inicialmente, para fazer das minhas palavras um canal para transmitir aos presentes, o quanto me sinto feliz em poder dividir com todos, a grandeza do momento que ora vivencio.
Quero de antemão, agradecer aos acadêmicos dessa conceituada instituição cultural, em especial: Gerinaldo Moura da Silva, Gibson Machado e Sayonara Montenegro, que me incentivaram a pleitear a vaga existente da cadeira nº 4, que tem como patrono a imortal Maria Madalena Antunes Pereira, nascida em Ceará-Mirim, no Engenho Oiteiro, no dia 25 de maio de 1880. Mas, foi especificamente, sob o teto do Engenho Guaporé que viveu a maior parte da sua vida. Ambos situados no vale, região canavieira do estado. Seu falecimento aconteceu no dia 11 de junho de 1959, em Natal, na casa que residia, na avenida Hermes da Fonseca, vitimada por uma enfermidade, que a deixou impossibilitada de andar e praticamente cega. A sua morte, porém, não a tirou do contexto literário. Muito embora tenha publicado cartas no jornal “O Ceará-Mirim”, sob o pseudônimo de “Corália Floresta” e Hortência, foi mulher-escritora que publicou um único livro, “Oiteiro: Memórias de uma Sinhá Moça”, que se perpetuou na mente de quem o leu e, fez de si a primeira autora do gênero memória no Nordeste brasileiro.
Agradeço, ainda, aos demais acadêmicos pela demonstração do acolhimento a minha candidatura, mediante os votos obtidos. Este é um dos motivos pelo qual trago a público a minha gratidão nesta solenidade de posse.
Da terra do sal – Mossoró - quis Deus que eu viesse depositar minhas ações líteroeducativas na terra da cana de açúcar, da rapadura e do mel – Ceará-Mirim. Que eu pudesse desenvolver de forma intensa, como professora, o meu fazer profissional junto aos alunos das escolas cearamirinenses. Nas redes públicas ou particular.
O agora, trata-se de um momento muito singular da minha vida como educadora e escritora; amante da arte e da cultura. Sinto quão grande é a responsabilidade posta sobre mim. Farei o que estiver ao meu alcance para contribuir com o crescimento da ACLA, tão célebre instituição.
A partir de hoje, com muita honra, ocuparei a cadeira nº 4, não sem antes, porém, enaltecer a figura da confreira que me antecedeu.
Até onde me levem as flores quero conhecer montanhas
Escalar nuvens e grandes cumes,
Conhecer e amar as planícies esquecidas
E não enxergar mais nada, só o azul celeste
Banhando-me em nuvens cristalinas e perfumadas.
ATÉ ONDE ME LEVEM AS FLORES
Lúcia Helena Pereira – 2009
Não se pode falar em Lúcia Helena sem pensar nas flores. Sem adornar os seus saberes com o perfume que delas exalam em seus poemas. Sem extrair do seu âmago a pujança da sensibilidade poética que residia em seu ser. Sem percorrer nas páginas onde estão grafadas a sua história de vida, os caminhos por ela percorridos, para se tornar a mulher que viveu entre nós.
Enredada em lençóis literários, muito embora, historiadora, por graduação, não negou as suas origens, nem sucumbiu os seus impulsos na arte do bem escrever. Neta de Madalena Antunes e sobrinha de Etelvina e Juvenal Antunes, herdou a supremacia familiar da linhagem intelectual. Aos treze anos de idade já demostrava grande potencial por meio do qual conquistou o seu primeiro prêmio literário, pelo Instituto Maria Auxiliadora, por meio de Concurso alusivo ao dia das mães, com o texto intitulado “O dia das Mães é o grande dia dos Filhos”, publicado pelo jornal A República. O segundo, veio aos 17 anos, pelas mãos de Luís da Câmara Cascudo. Num concurso de oratória promovido pelo Colégio Imaculada Conceição, sob o tema: O papel da mulher na sociedade e no mundo. Angariou esse prêmio entre 27 concorrentes, do Norte e Nordeste.
A conquista do seu terceiro prêmio literário, se deu através do concurso lançado pela Rede de Hotelaria de Vitória/ES, sob a coordenação do engenheiro Dr. Francisco Jorge Rebouças Caldas. O tema deste concurso era livre e, deu a Lúcia Helena o primeiro lugar e duas menções honrosas. O texto com o qual concorreu tinha o título: Ceará-Mirim/RN - Minha Cidade encantada! Em dezembro de 2003, obteve o segundo lugar no Concurso Literário de Crônicas pela Sesmaria Cultural do Rio Grande do Sul- Concurso Rui Favali Bastide - com a crônica: Viagem de Regresso (uma evocação ao Ceará-Mirim). Vieram muitos outros prêmios, além destes, seguidos de diplomas e títulos.
Na sua trajetória compilou, do seu próprio universo de produção, palestras e conferências que ministrou em diversas cidades e estados brasileiros dentre os quais se destacaram: O Rio Grande do Norte nas cidades de Ceará-Mirim, Natal, Mossoró, Macau e Assu. Nos demais estados, o alvo da atuação foram as capitais: Recife, João Pessoa, Maceió, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Vitória, Fortaleza, Florianópolis, dentre outras localidades. Assim como também, participou de Congressos, Simpósios, Seminários e Encontros literários em Natal/RN e outros Estados.
Talento não lhe faltou para adentrar nos desafios e colecionar êxitos. Fez sucesso capturando das reservas acumuladas nas retinas dos olhos do mundo, as essências para entrelaçá-las com as que povoavam a sua mente, tornando-as corpos textuais.
Galgou espaços no meio literário a exemplo da avó Madalena Antunes.
Tornou-se Presidenta Regional da AJEB (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil), no ano de 1989. Nove anos depois – precisamente, entre os anos de 1998 a março de 2000, foi eleita em quatorze estados brasileiros a saber: Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Espírito Santo, Pará, Paraná, Santa Catarina, Pernambuco, Distrito Federal, Paraíba e Delegação de Minas Gerais para conduzir os destinos da supracitada e tão conceituada entidade cultural, em nível nacional.
Tornando-se, desta forma, a primeira mulher norte-rio-grandense a presidir uma entidade cultural em vários Estados. Ocupou a cadeira 08 da Academia Feminina de Letras, tendo como patrono a sua avó paterna Magdalena Antunes Pereira. Pertenceu a UBE (União Brasileira de Escritores), tendo sido eleita por unanimidade.
Contando com o patrocino da Fundação José Augusto, publicou o seu primeiro livro de poemas: Pássaro Azul de Asas Cor-de-rosa, em 1983, que foi prefaciado por Nilo Pereira, com orelhas escritas por Roberto Lima de Souza e depoimento de Cleanto Wanderley. No dia do lançamento chegou a autografar mil exemplares da obra poética no Aéro Clube de Natal.
Lúcia Helena autodefiniu-se quando afirmou: “Sou um poema inacabado.”
Talvez, com isso, quisesse estender aos renomados poetas do seu tempo a liberdade para acrescentar ao poema que foi a sua vida, novas metáforas, novas rimas e cadências para compor e dar ritmo ao seu ego poético, delineado entre os espinhos e o perfume das flores, dando-lhes a liberdade para cravejar de essência cada verso e estrofes das vertentes mais variáveis do seu ser. O seu lirismo se fez encanto e beleza. A sua voz ecoou muito além do seu fazer literário. Se fez ponte por onde transitou. Foi eclosão. Em Goiânia, visitou Cora Coralina realizando o sonho pregresso de conhecê-la pessoalmente. A reciprocidade entre as duas rendeu a Lúcia Helena a ímpar emoção e o estreitamento dos laços de amizade, forjados naquela visita, ainda mais, quando a poetisa goiana lhe presenteou com um lindo e delicado poema que o intitulou: À Menina Nordestina do Vale Verde.
No ano de 1998, essa mesma menina do vale verde da Ceará-Mirim canavieira, deitou-se, manhosamente, sobre os textos do seu tio - boêmio e irreverente poeta - Juvenal Antunes, para organizar, uma breve coletânea, publicando desta feita o seu segundo livro.
Colecionou méritos no seu percurso existencial. Foi amiga e foi amante da vida e das flores. Isso lhe rendeu a alcunha de Poetisa da Flores. Era amada, também. Numa conferência, sobre a História de Ceará-Mirim /RN, por ocasião da festa alusiva ao aniversário da cidade, conseguiu ajuntar, no Clube da USESP, um público de 560 pessoas somando entre elas, autoridades locais, alunos das escolas e conterrâneos.
Lúcia Helena Pereira, natural de Ceará-Mirim-RN, veio ao mundo no dia 09 de julho de 1945. Aos setenta e um anos de idade, mergulhou na eternidade, deixando para trás, numa manhã, do segundo dia da semana, em 11 de julho de 2016, as instituições que a eternizou, assim como, a ACLA Pedro Simões Neto.
É inegável que ainda, há muito a dizer sobre Lúcia Helena Pereira. Sua irreverência, seu jeito de ser, suas mudanças de temperamento... Porém, prefiro deixar que outros sintam o desejo de passear sobre as pegadas deixadas pelos caminhos aonde ela pisou e, sintam o gosto de desbravar o seu âmago desnudo no contexto sóciopoético e histórico; nos devaneios sentimentais exorcizados em textos onde mais significativo que o título ou o tema é tradução do emaranhado das teias que o tece como ocorre no seu poema – “Sem Tema” - numa demonstração de que não falou apenas das flores:
SEM TEMA
Lúcia Helena Pereira
Ouço canções de amor
Na brisa fresca da hora,
Quando a lua se despede da noite
E o sol agonizando no horizonte
Explode em raios luminosos!
À minha frente, a estrada escura e longa,
Onde moram anônimos poetas
E uma criança faminta
Brincando de ser feliz!
Mais adiante o proletário
Adentra em seu modesto casebre,
Está arfante, após o dia de trabalho
Na grande fábrica de suor e lágrimas.
E suas mãos mornas e molhadas
Acariciam a magra esposa.
Depois, resignadamente,
Come a pobre ceia.
Cansado sobe à velha rede para repousar
Enquanto a chuva, sem pedir licença,
Vai molhando o seu barraco.
Esperando um milagre
Fecha os olhos e adormece
Porque precisa sonhar, apenas sonhar!
E assim, mesmo revestida de saudades, você, Lúcia Helena reside entre nós, para demostrar que a efemeridade do tempo é como o toque da brisa sutil que imprime em nossa pele o frescor da existência cotidiana. Enaltecê-la, neste momento, é honrar o seu perfil existencial. É crer que ao mudar-se para a morada celeste, você escolheu viver na nova existência, regando as flores do jardim da eternidade e sorvendo delas um perfume que não se esvai. Obrigada por ter fincado com pinos de esmeraldas suas raízes nos nossos corações.
Muito obrigada a todos.

REVISTA DA ACLA


A REVISTA DA ACLA, lançada agora no dia 18/11/2017, durante as festividades de aniversário desta Academia, tem tido uma excelente aceitação. 
Trata-se de uma revista onde se conta a história do nosso município, enaltece vultos desaparecidos e registra estatísticas sobre educação e outros aspectos de interesse social.
Procurem adquiri-la, através do Acadêmico Vice-Presidente Gerinaldo Moura da Silva.

MULHERES INTELECTUAIS DO CEARÁ-MIRIM E SEUS JORNAIS MANUSCRITOS

MULHERES INTELECTUAIS DO CEARÁ-MIRIM
E SEUS JORNAIS MANUSCRITOS
Postagem da ACLA Academia Ceará-Mirinense de Letras e Artes Pedro Simões Neto
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No Ceará-Mirim de antigamente, tempo do apogeu intelectual, havia um grupo seleto de mulheres que, às escondidas, redigiam prosas e poesias, numa época em que esse mister era característica exclusiva dos homens. E iam além, editavam esses textos em pequenos jornais denominados “O SONHO” (comandado pela professora e poeta Adelle de Oliveira, que circulou de 1905 a 1910) e “A ESPERANÇA” (comandado pela professora e intelectual Dolores Cavalcanti, que circulou de 1903 a 1909), manuscritos numa caligrafia irretocável, e os faziam circular pela cidade.

Eram jornais destinados à divulgação da escrita feminina, cuja grande luta era na defesa de “instrução para todos”, já que às mulheres não era dado o direito terem conhecimentos aprofundados sobre qualquer tema que fosse. Preocupavam-se com a falta de instrução das mulheres e com o pouco ou quase nenhum espaço que podiam ter no ambiente literário.
Fazemos anexar cópias destes jornais, que foram objeto de inúmeros estudos e pesquisas e, entre tantos textos, citamos os seguintes:


O SONHO:

Esses pequenos jornais eram confeccionados pelas grandes intelectuais de então, a maioria delas, hoje, Patronas da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes “Pedro Simões Neto” – ACLA. 


Destacamos:
ADELE SOBRAL DE OLIVEIRA (Nascida no Vilar, Patrona da Cadeira no 5, ocupada por seu sobrinho-neto, Ciro José Tavares da Silva); 
ETELVINA ANTUNES (Nascida em Ceará-Mirim, Patrona da Cadeira no 17, ocupada por Sayonara Montenegro Rodrigues); 
MARIA DOLORES BEZERRA CAVALCANTI (Nascida no Engenho Ilha Grande, conhecido por Cajazeiras, Patrona da Cadeira no 19, ocupada por Maria da Conceição Cruz Spineli).
MARIA MADALENA ANTUNES PEREIRA (Nascida no engenho Oiteiro, Patrona da Cadeira no 4, inicialmente ocupada por sua neta, Lúcia Helena Pereira, já falecida e hoje ocupada por Francisca Maria Bezerra Lopes); 
Estas, citadas anteriormente, eram as mulheres que apareciam, sem temores, embora também houvessem outras de valor intelectualmente semelhante, mas que, temendo se identificar, usavam pseudônimos nas suas publicações.
Eram elas: Erlinda Carvalho, Tracilla de Carvalho, Izaura Carrilho, Adelaide de Melo, Maria Carolina de Araújo Maciel e que ainda contavam com colaboração de mulheres de outros estados.
A existência destes jornais manuscritos é objeto de estudo por todo o Brasil, entretanto o Ceará-Mirim, por não ter um repositório da sua história, não possui nenhum exemplar para mostrar aos jovens o valor destas mulheres do início do século XX. 
A ACLA soube, através de familiares de Maria Dolores Cavalcanti, que os exemplares dos jornais “A ESPERANÇA”, haviam sido entregues a uma escritora mineira radicada no Rio de Janeiro, muito amiga da professora, e que esta escritora os havia entregue à Biblioteca Nacional (BN). Imediatamente foi feito um ofício à BN, solicitando a devolução dos jornais para os arquivos culturais do município. Veio uma resposta para a Academia, informando que na Biblioteca Nacional não há nenhum registro desse jornal. 
As cópias destes dois exemplares, que pertencem ao acervo particular da ACLA, foram fornecidas pela família de Dolores Cavalcanti e pelo Acadêmico Ciro José Tavares, sobrinho-neto de Adelle de Oliveira, que os conseguiram resgatar.