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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CENTENÁRIO DO MESTRE TIÃO OLEIRO

100 ANOS DE CULTURA POPULAR
MESTRE TIÃO OLEIRO – SEBASTIÃO JOÃO DA ROCHA
Por Gibson Machado - Professor de Arte e Pesquisador


         A vida de Sebastião João da Rocha – Tião Oleiro - se confunde com a história de Ceará-mirim. Nasceu em 14 de maio de 1914, no engenho Grande, propriedade de Antônio Sobral e Dona Bela. Sua infância foi nos terreiros dos engenhos e nas grotas do rio Ceará-Mirim onde brincava de galinha Gorda, Tica e de escorregar nas ribanceiras lisas do rio, porém, foi na bagaceira do Engenho Grande que viveu parte de sua vida.

Muito pequeno observava a labuta dos mais velhos nos eitos dos engenhos. Assim, foi adquirindo experiências e, em pouco tempo, estava trabalhando na porteira da bagaceira e espalhando a bandeira da cana. Foi seu primeiro trabalho e, por esse serviço, recebia três tons!

Costuma dizer que o Engenho Grande foi seu maior professor. Foi seu Mestre! E lá exerceu todas as funções, começando na bagaceira até o último posto, o de foguista, onde trabalhou enquanto o “velho engenho grande” estava de fogo aceso!

Durante o período em que trabalhou nos engenhos, aprendeu a tocar acordeon, comprou uma sanfoninha de oito baixos, e, nas horas de lazer e folga, animava, como músico, os bailes de pastoris, boi de reis e pagodes no vale do Ceará-Mirim, profissão que exerceu depois que deixou de trabalhar nos engenhos.

A grande contribuição do Mestre Tião para a cultura de Ceará-Mirim e do Brasil foi conseguir, durante 90 anos, preservar as tradições populares do Congo de Guerra, grupo folclórico, criado por seu pai João da Rocha, no final do século XIX.

A congada é um auto popular que faz referências às lutas medievais entre cristãos e mouros, e, também, às embaixadas, da rainha Jinga, soberana africana, que viveu na África no século XVI. Portanto, uma manifestação popular, que traz em suas raízes a pluralidade cultural transmitida por várias gerações.

O mestre é uma enciclopédia viva e, apesar da senilidade, está generosamente à disposição para dividir o que sabe com aqueles que têm interesse e necessidade de conhecer as raízes da existência.

Pela sua contribuição à cultura do Ceará-Mirim, em 2004, o mestre Tião e seu Congo de Guerra, foram ovacionados quando apresentamos um grupo de trabalho no Fórum Social Nordestino, na Universidade Federal de Pernambuco, na cidade de Recife.

No ano de 2005, o Canal Futura, através da Fundação Roberto Marinho, criou o programa “A beleza do meu Lugar” baseado na luta de Seu Tião em prol da cultura popular. Neste programa foram documentados 16 mestres brasileiros. Três do Rio Grande do Norte, entre eles, o nosso Tião Oleiro. Este programa vai ao ar, diariamente, pelo Canal Futura, em todas as redes associadas da Rede Globo de Televisão. Por este documentário, a Fundação Roberto Marinho mandou pintar um mural no corredor de sua sede no Rio de Janeiro com a imagem de Seu Tião. Este documentário concorreu ao 19º Premio de Curtas de São Paulo naquele ano.

Ainda em 2005 a equipe do Projeto Vernáculo documentou a história de Mestre Tião e o Congo de Guerra. Este documentário concorreu ao 9º Premio de Curtas Potiguares.

Neste mesmo ano, o então Presidente da Câmara de Vereadores, Ronaldo Rodrigues fez homenagem ao Mestre pelos serviços prestados à cultura do município.
No ano de 2009 ele foi reconhecido como Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte pela Fundação José Augusto, através do projeto RPV de autoria do deputado Fernando Mineiro.
Ainda em 2009, o então presidente da Câmara de Vereadores Julio Cesar, atendendo uma solicitação nossa, homenageou os mestres Tião Oleiro e Zé Baracho, durante a Câmara Itinerante na comunidade de Massangana.

No ano de 2011, os professores do IFRN Pablo Capistrano e Suély Souza, fizeram o documentário “Seu Tião e a História do Congo de Guerra” para o Projeto de Cultura Potiguar exibido naquela instituição.

Neste ano de 2014, a Academia Cearamirinense de Letras e Artes, homenageou o mestre Tião pelos serviços prestados à cultura do município.

Dia 22 do mês corrente, foi homenageado, nacionalmente, pela Teia Nacional da Adversidade 2014, evento realizado em Natal com todos os pontos de cultura do pais.
          
         Em maio de 2014, fizemos solicitamos ao vereador Renato Martins que elaborasse um Projeto de Lei criando o 14 de maio como Dia Municipal da Cultura. O projeto apresentado pelo vereador Renato Martins foi aprovado por unanimidade e em 09 de julho de 2014 foi sancionada a Lei que cria o “14 de maio” como Dia Municipal da Cultura em homenagem ao nascimento do Mestre Tião Oleiro.


          Este ano de 2014 o Ministério da Cultura apreciou o mérito de 206 propostas, que dentre as indicações foram acatadas 30, para apreciação do Conselho da Ordem e posterior publicação por meio de Decreto. Em 05 de novembro de 2014 o Ministério da Cultura e a presidência da República entregará a Ordem do Mérito Cultural ao mestre Tião Oleiro pelos serviços prestados a cultura do país.  A Ordem do Mérito Cultural, instituída pelo art. 34 da Lei n.º 8.313, de 23 de dezembro de 1991, e regulamentada pelo Decreto n.º 1.711, de 22 de novembro de 1995, tem por finalidade premiar personalidades nacionais e estrangeiras que se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Cultura.

A cada edição do prêmio o Ministério da Cultura almeja, também, homenagear personalidades da cultura nacional, entre outros grandes nomes, o Ministério homenageou, em edições anteriores, a vida e obra de Heitor Villa-Lobos, Luiz Gonzaga, Oscar Niemeyer e Tomie Ohtake.




quinta-feira, 14 de maio de 2020



SALVE MESTRE TIÃO OLEIRO

Em outubro de 2018 o Brasil se despedia de uma grande estrela da cultura popular, o Mestre Tião Oleiro, cuja luta em defesa das tradições de sua terra, o levou ao mais alto reconhecimento quando recebeu as medalhas do Mérito Cultural pelo Governo Federal, Medalha Djalma Maranhão pela Assembleia Legislativa do RN e Medalha Deífilo Gurgel pelo Governo do Estado do RN. Todas as homenagens dentro das comemorações pelo seu centenário em 2014.

Ainda em 2014 solicitei ao presidente da Câmera de vereadores, Renato Martins, que apresentasse projeto tornando 14 de Maio Dia Municipal da Cultura. Renato apresentou o projeto e o então prefeito Peixoto sancionou a Lei.

Conheci o Mestre lá pelos idos de 1999 em um passeio de bicicleta com o amigo Mucio Vicente. Naquela oportunidade Mucio me levou até a residência do velho Griô. Fomos apresentados e marcamos outra visita para que pudéssemos conversar melhor e alongar a prosa por mais tempo.

Foi a partir dessa prosa que iniciamos uma história de vida até o dia de seu encantamento. Foram muitas experiências vividas durante nosso tempo de convivência. Cada encontro com o sábio ancião era uma nova oportunidade de aprendizagem. Foram muitos ensinamentos.

Em 2002, aluno do curso de Arte pela UFRN, fizemos uma atividade para a disciplina de Folclore Brasileiro onde pesquisamos o grupo folclórico Congos de Guerra de Guanabara que era liderado pelo Mestre Tião. Durante a culminância do projeto de pesquisa, o grupo folclórico se apresentou no Teatro do Deart na UFRN. Foi uma apresentação inesquecível. Aquele dia foi o início de nossa luta em defesa da valorização, fortalecimento e preservação dos grupos tradicionais da região de Ceará-Mirim.
Em 2004 quando monitor do PROJETO MOVA BRASIL – alfabetização de Jovens e Adultos, fizemos pesquisas com os alunos sobre a cultura popular de Ceará-Mirim destacando Mestre Tião e seu grupo folclórico Congo de Guerra de Guanabara. O projeto foi classificado para ser apresentado no FÓRUM SOCIAL NORDESTINO em Recife no ano de 2004. O Fórum deu oportunidade para os Mestres Tião Oleiro e Zé Baracho mostrarem todas as suas qualidades e capacidades criativas.
Em 2008 o Canal Futura produziu um documentário chamado “A beleza do meu lugar” que homenageava 16 mestres de cultura popular de todas as regiões do Brasil e o mestre Tião estava entre eles. Esse material é divulgado em todos os países que transmitem as programações do Canal Futura. Dessa forma o mestre ficou conhecido em várias partes do mundo. O documentário concorreu ao 19º prêmio internacional de curtas em São Paulo no ano de 2008

Ainda em 2008 o Projeto Vernáculo, coordenado por Cleidiane Vila Nova, Ianne Maria e Rita Machado, produziu um vídeo sobre o Congo de Guerra de Guanabara onde apresentava a luta dos mestres Tião Oleiro e Zé Baracho pela preservação do grupo. O documentário concorreu ao 9° Prêmio de Curtas Potiguares em 2009.
Em 2009 recebeu o título de Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte através da Lei do Registro do Patrimônio Vivo do RN. O Prêmio concedeu uma bolsa mensal até o final de sua vida.

Apesar de agricultor e foguista de engenho de açúcar, a arte era o alimento da alma do bardo ancião, era mestre de cultura popular, sanfoneiro e cantador de coco. Viajou muito pelo interior tocando seu fole de oito baixos. São muitas histórias que um dia serão contadas.

Ficaram suas lembranças e seus ensinamentos e, o que levarei para sempre, é que nunca deixe de lutar, mesmo que a esperança esteja minada de incertezas, é preciso seguir em frente!!!

Que a arte consiga superar todas as formas de incompreensões tendo como resposta o bom combate, criatividade e muitos questionamentos!!

Textos sobre Mestre Tião:

domingo, 25 de outubro de 2009

HOMENAGEM AO MESTRE TIÃO OLEIRO E MESTRE JOSÉ BARACHO

HOMENAGEM AOS MESTRES TIÃO OLEIRO E JOSÉ BARACHO

Hoje, 25 de outubro de 2009, no distrito de Massangana, foi realizada ação de cidadania pela Câmara Municipal de Ceará-Mirim, cujo proponente foi o vereador Julio César.
A Câmara Municipal com essas ações vem cumprindo seu papel como instituição do povo. É importante promovê-las uma vez que são beneficiados vários cidadãos através de carteira de identidade, carteira de trabalho, certidão de nascimento, higiene bucal, atendimento médico, atendimento jurídico, palestras,lazer para as crianças presentes e etc.
Fiquei muito feliz porque o vereador Julio César sensibilizou-se e homenageou o Mestre Sebastião João da Rocha – o Tião Oleiro e José Severino da Silva – o José Baracho, durante o evento em Massangana.

Gibson Machado fazendo a apresentação dos mestres

Na oportunidade fui convidado para apresentar os homenageados à população e falar um pouco sobre suas trajetórias de vida. Segue abaixo o que pude dizer a respeito dos senis amigos... a emoção tomou conta de mim porque é difícil proporcionar momentos como este e, entre a voz e as mãos trêmulas, fui discorrendo sobre cada um deles e de sua importância para o desenvolvimento sócio-cultural de nossa Ceará-Mirim:
"Quero agradecer ao presidente da Câmara o vereador Roberto Lima e ao vereador Julio César, proponente desta homenagem, pela oportunidade de apresentar duas personalidades tão importantes na formação cultural de nosso município.
É com muita alegria que venho nesse momento apresentar duas personalidades muito importantes para a história e a cultura de nosso município, e por que não dizer, do nosso país.

Vereador Julio César durante a entrega da placa ao mestre Tião Oleiro


É um fato a questão da desvalorização dos atores culturais no Brasil. Há uma grande batalha pela preservação e fortalecimento de nossas tradições, através da tenacidade e da luta heróica de seus representantes populares.
Hoje a Câmara Municipal de Ceará-Mirim, através do vereador Julio César, vem reconhecer a importância do Mestre Sebastião João da Rocha – o Tião Oleiro e de José Severino da Silva – José Baracho – na divulgação e preservação das tradições seculares através da transmissão de valores e costumes referentes às culturas ameríndias, africanas e européias, às novas gerações.


Prefeito Antonio Peixoto fazenda a entrega da placa ao mestre José Baracho

O mestre Tião, nasceu em 14 de maio de 1914, foi menino de engenho logo cedo, cuidando da porteira da bagaceira, e, ao longo da vida labutou desde carreiro de boi, inclusive, trabalhando em Marcualhada, fazenda de propriedade do bisavô do vereador Julio César, Manoel Juvêncio. O mestre passou por todas as etapas de engenho e, entre o lazer, identificou-se com a cultura popular.
Em 1935 reestruturou a congada no engenho Guanabara, herança de seu pai o mestre João José da Rocha. Desde então tem procurado divulgar a tradição em todo o território nacional. Seu brinquedo, hoje, é conhecido no Brasil e em vários países, através do programa Toda Beleza exibido pelo Canal Futura e Fundação Roberto Marinho.
O Mestre Tião recentemente foi selecionado, pela Fundação José Augusto, como Registro do Patrimônio Vivo do RN, projeto do deputado Mineiro, que selecionou sete mestres e três grupos folclóricos do RN. Ceará-Mirim foi contemplado com a seleção do Grupo Cabocolinhos e com o mestre Tião.
O Bardo Menestrel José Baracho nasceu José Severino da Silva em 04 de julho de 1929 e, desde os 12 anos assumiu a responsabilidade da casa quando seu pai Faleceu. Ainda criança tomou para si a responsabilidade sobre seus irmãos e sua mãe e desde então nunca parou de trabalhar.
Sempre teve sua vida voltada para a agricultura, no entanto, ouvindo os cantadores de viola, que floreavam o vale com suas canções e romances medievais, resolveu que seria poeta e divulgador das histórias e romances do seu povo. Além de poeta José Baracho participou de muitas tertúlias onde a atração principal era o côco de roda, tem orgulho de ser poeta, de recitar poesias medievais em décima, sétima, oitava e decassílaba, não importa a rítmica do poema, o que interessa é interagir com a platéia improvisando e recitando uma longa toada onde o mais importante são os temas, os motes...os galopes à beira mar: "mulher nova bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor"... assim é o mestre.
Aos dez anos tomou gosto pela congada, brinquedo popular que faz referência a batalhas medievais travadas entre moiros e cristãos, mulçumanos e europeus e, também, a rainha Ginga, soberana africana que muito contribuiu para a história de nossa formação etnológica.
A Câmara Municipal de Ceará-Mirim, através do vereador Julio César, faz, hoje, o reconhecimento da contribuição que esses dois heróis têm dado para a formação da história sócio-cultural de Ceará-Mirim, que, apesar, de anônimos desconhecidos, construíram, ao longo de suas vidas, um verdadeiro patrimônio histórico, uma biblioteca de saberes populares que somente aqueles que têm sensibilidade, poderão digeri-los intelectualmente.
É preciso que valorizemos nossos pares, nossa terra, o berço onde nascemos, como diz o grande Picasso, para pintar o mundo, é preciso começar pintando nossa aldeia. E esse amor à terra está explícito na frase do mestre José Baracho: Em Tabuão eu nasci... em Tabuão eu cresci... e em Tabuão hei de morrer!!!"
Na oportunidade o vereador Julio César falou da honra que sentia em poder homenagear pessoas tão importantes e que apesar da humildade davam exemplo de dignidade e coragem em lutar pela preservação e divulgação de nossas tradições.
O prefeito Peixoto externou sua preocupação como administrador do município a respeito dos valores culturais e falou que a trajetória dos mestres servissem de exemplo e fossem seguidos pelos jovens para que as tradições fossem preservadas.
Dra. Leonor iniciou sua fala dizendo que ficou emocionada, pois sabia que este colunista, estava muito emocionado porque, certamente, aquele era um momento ímpar e acreditava na minha insistência com relação a divulgação de nossa história e que as memórias dos mestres fossem registradas e no futuro servissem de estudo e instrumento para o desenvolvimento intelectual das futuras gerações e parabenizou seu filho Julio Cesar por todas as iniciativas em prol do povo de Ceará-Mirim.

Discurso da ex-vereadora Leonor em homenagem aos mestres e ao seu filho o vereador julio Cesar

Acredito que as preocupações do prefeito Peixoto e do vereador Julio César com o fortalecimento e preservação de nossas tradições venham proporcionar estudos e ações voltadas para a cultura e arte de nosso município.
As ações e políticas de governo relacionadas a cultura devem ser implementadas com urgência, porque nosso patrimônio material e imaterial está sendo corcomido pela ação do tempo, pelas novas tecnologias, e, principalmente, pela falta de sensibilidade e desconhecimento da história e cultura de uma terra que já foi berço de grandes intelectuais e contribuiu para o desenvolvimento sócio-cultural do Estado do rio Grande do Norte .
As chaminés, esfíngies do vale, não podem deixar que o enigma da cana desapareça, na fulingem do tempo.

sábado, 28 de agosto de 2010

ENTREVISTA NO "CONVERSANDO COM O POVO"

ENTREVISTA NO PROGRAMA “CONVERSANDO COM O POVO” DE ELTON MARQUES NA 87 FM

Pintura do Mestre Tião Oleiro na galeria da Fundação Roberto Marinho no Rio de Janeiro - Junto a foto a coordenadora do Canal Futura para o Nordeste Ana Amélia.

Sábado, 28 de agosto de 2010, fui convidado pelo amigo Elton Marques para participar de seu programa semanal, “Conversando com o povo”.
A pauta da entrevista foi o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim. O tema é muito abrangente e não tivemos tempo de discorrer sobre tudo quanto desejávamos.
Iniciamos a entrevista falando da atual situação do Museu Nilo Pereira, que todos de Ceará-Mirim já conhecem, pois, recentemente foi pauta na programação de televisão no estado. Durante a conversa sugeri que nossos representantes políticos se juntassem e recomendassem aos seus candidatos que registrassem uma carta de compromisso prometendo entregar o museu restaurado à municipalidade e, também, construir a casa de cultura, sonho de todos os artistas de Ceará-Mirim.
Em todo o estado do Rio Grande do Norte há Casas de Cultura em várias cidades e, Ceará-Mirim, com o potencial histórico, cultural e turístico tão rico, sempre ficou em segundo plano quando trata-se de beneficiar sua população, como diz o poeta Ivanildo Vila Nova: entra ano e sai ano e nossa cidade continua ao Deus dará...”.
Nossos patrimônios materiais e imateriais estão se extinguindo numa velocidade impressionante. É fácil verificar esses acontecimentos, basta visitar nosso vale e retornar alguns meses depois, então, confirmaremos as ocorrências, citando como referências, engenho Divisão, engenho Trigueiro, engenho União, usina Santa Tereza, engenho São Leopoldo, engenho Timbó, engenho Santa Rita, usina Guanabara, usina Ilha Bela e tantos outros que desapareceram abocanhados pela voracidade da “cana de açúcar”.
Com relação à sabedoria dos mestres de cultura popular, não precisa visita-los, é necessário somente vê-los se encantando paulatinamente, como foi o caso de tantos que por aqui passaram: Etevaldo Santiago, José Gago, Raimundinho, Seu Déo, Isabel Poti, Mané Rabequinha, José Luiz, Alzira Sá, Belchior, Amarildo, Mizael e tantos outros, que se fosse elencá-los, ficaria muito cansativo, basta representá-los pelos que aqui estão.
Atualmente todos os grupos folclóricos estão em total desamparo, pois, resistem à extinção, pela tenacidade de seus mestres, no entanto, não é suficiente para preservá-los e mantê-los atuante.
É preciso que o poder público proporcione urgentemente ações de governo para mantê-los em atividade. É importante frisar que esses folguedos não têm as mínimas condições de se manterem sozinhos e seus mestres precisam repassar seus conhecimentos às gerações mais novas.
Existe toda uma formação cultural que deveria permanecer viva nas comunidades e nas pessoas, principalmente a valorização das tradições que são passadas de geração a geração. O que verificamos é que essas reminiscências estão sendo substituídas por novos costumes através do dinamismo da própria cultura e não estamos tendo o cuidado de mantê-los juntos - o velho e o novo – de modo que nossa memória seja garantida às futuras gerações.
Fala-se muito da falta de cultura na nossa cidade e, sempre que surgem oportunidades, alguns insistem em dizer que isso é um fato rotineiro. Discordo com a afirmativa, pois, entre os anos de 2005 e 2007 foram realizadas algumas ações relacionadas as atividades culturais do município. Estou afirmando porque tudo quanto for relatado aqui têm imagens comprobatórias.
Apesar de muitos assegurarem que aquelas ações eram “cultura para elite”, no entanto, todos os eventos realizados foram em praça pública e direcionados para toda a população.
A Escola de Musica Marcia Pires atendia anualmente alunos oriundos da escola pública aprendendo teoria musical e tocar vários instrumentos e, quando havia recital, era em praça pública.
Foi criado o Coral Municipal Araraú cujas apresentações eram para o público em geral e seus componentes eram funcionários públicos e todos voluntários. Muitas vezes o coral fez ensaios concerto no palco dentro do Mercado Público.
Foi criado o projeto Olheiro das Artes cujo objetivo era proporcionar, aos alunos das escolas públicas do município, o acesso à cultura através de oficinas com artistas e artesãos dentro do Mercado Publico, todas as quintas-feiras. Esse projeto teve parceria com o Canal Futura e foi o único no Brasil que era realizado dentro de um mercado e tinha o contato direto com a população. A importância do Olheiro das Artes garantiu sua publicação no catálogo anual das ações do Canal Futura.
O Olheiro das Artes proporcionou, também, fazermos oficinas semanais com palestras, dentro do mercado, sobre o patrimônio cultural e a plateia eram alunos das escolas públicas e público em geral. Naquela oportunidade a coordenadora geral do Canal Futura, a Senhora Mariza, visitou o projeto e assistiu depoimentos de vida dos mestres Luiz Chico do Boi de reis de Matas e de Tião Oleiro do Congo de Guerra.
A visita da senhora Mariza a Ceará-Mirim inspirou a criação do projeto “Toda Beleza” realizado pela Fundação Roberto Marinho/Canal Futura e, o mesmo, foi baseado no mestre Tião. Em todo o Brasil foram selecionados 16 mestres de cultura popular para participar do documentário, entre eles, está o nosso mestre Tião Oleiro. Esse programa é transmitido diariamente em toda a programação do Canal no mundo todo, estimando-se uma média de 25 milhões de telespectadores.
Nesse período foram realizados dois fóruns de Cultura e Arte onde os participantes foram todos os grupos de cultura popular e pessoas interessadas no tema, Na oportunidade foram homenageados o escultor Etevaldo Santiago no primeiro fórum e, mestre Tião, no segundo.
Durante o intervalo dos anos citados foram publicados diversos livros com apoio publico. Além do apoio àquelas publicações, foram editados o livro Ceará-Mirim tradição, engenho e arte, pela UFRN-SEBRAE e Prefeitura de Ceará-Mirim e, o livro Ceará-Mirim memória iconográfica.
É evidente que os projetos culturais sonhados não foram realizados plenamente porque não havia políticas públicas direcionadas para a cultura e, também, os recursos não eram destinados ao órgão responsável pela cultura. As ações, por pequenas que tenham sido, foram conseguidas com muito esforço e, refletiram positivamente naqueles aos quais foram direcionadas, basta perguntar aos alunos da Escola de Música Marcia Pires, aos músicos da Banda de Musica Tenente Djalma, aos artistas, aos artesãos, aos componentes do coral, aos alunos e professores das escolas publicas que participaram dos projetos, a “todos” os grupos de cultura popular...
Todos os projetos que o mestre Tião e o Congo de Guerra participaram foram muito significativos para a divulgação dessa tradição em todo território nacional. Em 2004 apresentamos o trabalho de pesquisa, através do Mova Brasil, no Forum Social Nordestino em Recife. Em 2009 o mestre Tião e o grupo Cabocolinhos foram classificados como Patrimônios Vivos do Rio Grande do Norte. Em 2010 o mestre Tião foi classificado no projeto Culturas Populares 2009, realizado pelo Ministério da Cultura. Ele concorreu com 3000 candidatos em todo o país. São ações dessa natureza que nos confortam e, estimulam a continuar plantando as sementes... um dia abrolharão!!!
Todos conhecem minha luta pela memória de nossa cidade e, poucos, têm a consciência da importância de nossas pesquisas para o futuro de nossos conterrâneos. O tempo será a testemunha invisível das lutas incansáveis, e evidentemente, cobrará o desamparo, o desrespeito e a desvalorização pela identidade de nossa gente.
O que ameniza o desrespeito, a desvalorização, a falta de reconhecimento são aqueles que estão ligados a tudo que estamos produzindo. São pessoas que aprenderam a amar e respeitar nossa cidade através das leituras de matérias publicadas nos jornais e no blog. São elas que ajudam a criar forças para continuar tentando... São meus alunos que diariamente solicitam histórias de nossa terra e, quando os sacio com informações, tenho certeza que os ajudei a crescer intelectualmente.
A internet diminuiu a distância e facilitou o acesso à informação e, são essas informações que ajudam as pessoas distantes de sua terra, ficarem próximas... As pessoas que desconhecem suas raízes, aprenderem sua história, e, através dela, valorizar e lutar por uma terra melhor, onde a ganância e o individualismo sejam suprimidos pela solidariedade, pelo coletivo, pela honestidade, e, sobretudo, pelo amor, assim, ensinaremos nossos filhos a respeitar e preservar nossas origens.

sábado, 2 de junho de 2012

VIVA TIÃO OLEIRO - 98 ANOS



            Em 14 de Maio de 2012, o Sr. Sebastião João da Rocha, o Tião Oleiro, que é o mestre dos “Congos de Guerra de Guanabara”, completou 98 anos de vida, desses, (90) noventa dedicados à cultura popular e (78) setenta e oito ao grupo folclórico Congo de Guerra, que foi revitalizado em maio de 1934.
            O artista popular nasceu em 14 de maio de 1914, no engenho Guanabara, em Ceará-Mirim/RN. Quando criança frequentava os terreiros dos engenhos onde brincava e, ao mesmo tempo, observava a labuta dos mais velhos. Quando podia, sua diversão era abrir cancela e pegar carona nos carros de bois, por conta disso, muitas vezes apanhou de seus pais, no entanto, entre uma surra e outra, foi aprendendo o traquejo das tarefas desenvolvidas pelos agricultores nos partidos de cana. Logo cedo, aos seis anos, ajudava o pai na lavoura, cuja tarefa era espantar os passarinhos.
            Na adolescência o menino Tião ajudava no engenho e, dessa forma, aprendeu todas as tarefas necessárias ao bom funcionamento da fábrica de mel, açúcar e rapadura.
            Chegado o período das moagens, o Senhor Joel, proprietário do engenho Grande testava os maquinários, gerando uma expectativa muito grande nos moradores da região, principalmente quando as máquinas eram colocadas em funcionamento e surgiam os primeiros sinais de fumaça na grande chaminé. Era uma alegria indescritível, todos os empregados ficavam felizes e faziam festa. Começava uma fase de bonança, onde todos teriam condições de viver bem, como ele costuma dizer, de barriga cheia.
            O mestre lembra das madrugadas quando o apito do engenho Grande quebrava o silencio do vale, era hora de iniciar as atividades e, ele, era o primeiro a chegar, pois, muito jovem, corria para tomar garapa de cana. Seus olhos brilham, parecendo sentir o cheiro e sabor do líquido açucarado.
            Certo dia, o gerente de Seu Joel, o velho Estevão, o convidou para trabalhar no engenho, sua tarefa seria alimentar a caldeira. Botar fogo na fornalha. Aos quinze anos iniciou sua vida na labuta dos engenhos, aprendendo o ofício de folgueiro, ensinado pelo velho gerente. Quando era dia de pagamento, ele ficava muito satisfeito e recebia feliz seus dez tons pelo fogo botado na fornalha.
Mestre Tião e Gibson Machado

            A vida de agricultor foi totalmente dedicada ao engenho Guanabara, tudo que aprendeu foi lá. As experiências transmitidas pelos mais velhos, pelos pais, pelos filhos, pelos amigos, cada dia era um ensinamento, por isso, diz nostálgico, “adoro aquele pedaço de barro”. O Guanabara foi seu professor e, por isso, não gosta de andar pelo vale que o viu nascer e crescer, são muitas lembranças boas e não se conforma em vê-lo acabado, abandonado, um patrimônio importante que deixaram morrer.
            Suas lembranças estão vivas e uma das coisas que mais lembra é o respeito que tinham pelo gerente do engenho. Ele era um pai para todos. Nunca foi preciso recorrer as autoridades para resolver as questões pessoais e de trabalho do engenho. A justiça era feira pelo gerente e o dono. Não eram permitidos desentendimentos entre os trabalhadores. Isso era muito bonito porque passava tranquilidade e todos viviam felizes.
            Para o mestre Tião, o engenho Guanabara foi o patrimônio mais bonito de Ceará-Mirim. Lamenta ver todos os engenhos acabados e não entende porque deixaram tantos patrimônios abandonados, principalmente porque eles sustentavam todas as famílias. Os moradores dos engenhos plantavam de tudo. O vale era muito rico, plantavam feijão, milho, batata, arroz, algodão... tinha de tudo. Esses alimentos abasteciam as cozinhas das casas e sobrava para vender na feira de Ceará-Mirim. Toda essa riqueza saia do vale. O povo plantava e comia dali. Os engenhos tinham bons sítios, tinham patrões e moradores. Infelizmente hoje não existem mais patrões, existem empregadores e, estes, não querem ver os empregados.
            A proximidade do engenho Guanabara com o Laranjeiras contribuiu para que o menino Tião tivesse uma relação amigável e fraterna com as crianças de Joca Sobral. Brincavam muito juntos. Lembra que as brincadeiras eram de meninos e meninas. Brincavam de tica tica e, principalmente, de dar balão no rio. Quando anoitecia brincavam com cantigas de rodas, cirandas, atirei o pau no gato. Os pais e as mães ficavam assistindo as brincadeiras. Ainda lembra de uma música: “Senhora dona Viúva, com quem tú quer se casar, é com o filho do rei ou é com o do generá, generá?? E respondiam: “Eu não quero esses homens que não chega para mim. Sou uma pobre viúva e coitada de mim, de mim. Ô valentin, tim, tim, Valentim, meu bem”. Com o olhar distante e pensativo, diz que essas brincadeiras da infância distante é cultura popular. É folclore.
            Foi um jovem muito curioso e obstinado, por isso, aprendeu a tocar fole sozinho. Seu irmão era tocador, mas, não queria ensiná-lo. Na sua ausência aprendia a tocar escondido. Sua primeira experiência foi em um baile. Tocava com um amigo mais experiente e, no meio da festa, o colega o abandonou e teve que terminar sozinho. Foi o início de sua vida como artista e sanfoneiro.

            Tocava em todas as comunidades, principalmente no povoado de Palmeiras onde havia muitos pastoris nos sábados. Gostava de tocar no Pastoril. As moças começavam a dançar, então, o cavaleiro oferecia, na época, por exemplo, dez contos para dançar com uma pastora escolhida. Outro concorrente oferecia doze contos para aquele parar de dançar. Assim, no final da festa, o dinheiro recolhido era dividido com o sanfoneiro. Foi um tempo que não havia maldade, desavenças, as pessoas respeitavam as outras.
            Em 1935, ele teve uma experiência muito ruim. Tinha estourado a revolução e no engenho só tinham notícias vagas, não sabiam o real perigo que aquilo representava. Seu Tião veio a Ceará-Mirim com três amigos para fazer uma visita ao seu pai que se encontrava no Lazareto, que era um leprosário. Quando falou com o pai, este o aconselhou para que não passassem no mercado, pois estava muito perigoso. A curiosidade dos jovens foi maior e eles resolveram passar pelo local. Chegando lá foram abordados por um sargento do exército revolucionário que estava acampado na antiga delegacia.
            Foram levados para a delegacia e receberam rápidas instruções de como manuseariam os rifles e para espanto de Seu Tião, o sargento entregou-lhe um bornal com 40 balas e disse-lhe que iriam atacar Touros bem cedo, mas antes ficariam de guarda na ponte de ferro sobre o rio Ceará-Mirim.
            Qualquer carro que cruzasse a ponte era para atirar, com exceção de Juca Fonseca. De madrugada, um frio de medo e de temperatura o deixava trêmulo, até que apareceu um carro e o soldado de sentinela o mandou para a ponte a fim de interceptar o veículo. A ordem era atirar nos pneus. Para sorte de seu Tião, o carro era de Juca Fonseca e ele escapou do primeiro tiroteio.
            Quando chegaram pela manhã na delegacia, ele pediu ao sargento para ir tomar um café na casa de seu tio que ficava ali perto. O sargento o fez prometer que voltaria e o deixou ir. Ao sair da delegacia ele tomou o caminho de casa de uma carreira só e quando chegou no engenho Guanabara soube que a revolução tinha terminado e que os soldados tinha sido dominados em Ceará-Mirim, embaixo de um forte tiroteio, que foi escutado por ele, quando fugia, assim escapou do segundo tiroteio.

 Apresentação do Congo de Guerra em 06/12/2011

           Quando criança, aos Oito anos, brincava no Congo de Saiote do pai João da Rocha. O Congo é um folguedo popular que faz referências às lutas medievais e embaixadas a soberana africana Jinga. Aprendeu as jornadas e músicas do brinquedo com seu pai, quando ia para o roçado. Iniciou no brinquedo como marujo no final da fila.
            Em 1934 recebeu do pai a responsabilidade de não deixar o brinquedo morrer. Assim o fez. São (78) setenta e oito anos lutando contra a ignorância, a falta de incentivo e, principalmente, pela preservação daquela tradição centenária, pois, existe desde 1900 quando foi criado pelo velho João e o ex-cativo Pedro Macenas.
            Conhecer o Mestre Tião é uma viagem à história de Ceará-Mirim. Sua simplicidade nos faz sonhar, imaginar e viajar em seus contos, nas histórias da bagaceira, sentindo o cheiro da cana, ouvindo o barulho das máquinas e o cantar das rodas do carro de boi.
            Minha relação com o artista já somam 13 anos. Nesse período temos travado muitas lutas pela valorização e reconhecimento de seu esforço para manter seu grupo folclórico vivo.
Em 2007 a Fundação Roberto Marinho, através do Canal Futura fez um documentário sobre o Mestre. As filmagens aconteceram na comunidade de Tabuão no mês de setembro. O documentário foi “A beleza do meu lugar” e foram escolhidas 16 figuras populares em todo o Brasil. O documentário do Mestre Tião Concorreu ao XIX Festival de Curtas de São Paulo.
Em função do documentário a Fundação Roberto Marinho mandou pintar um painel do Mestre Tião na galeria de sua sede no Rio de Janeiro.
Coordenadora do Canal Futura Nordeste Ana Amélia em frente ao painel de Mestre Tião - RJ

Ainda em 2007 as meninas do Projeto Vernáculo fizeram o documentário sobre o mestre e o Congo de Guerra, que concorreu no Festival de Curtas Potiguares.
Em 2009 inscrevemos o Mestre no Programa da Fundação José Augusto “Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte”, onde o mesmo foi selecionado, recebendo uma bolsa mensal pro resto de sua vida.
Ainda em 2009, concorreu à premiação do “Culturas Populares Mestre Dona Isabel” do Ministério da Cultura. Ele foi selecionado entre mais de 2000 candidatos em todo o Brasil. Infelizmente até hoje não recebeu a premiação. Atualmente estamos reivindicando junto ao Ministério da Cultura o pagamento do prêmio.
Valorizando a cultura popular e suas figuras importantes, os vereadores Ronaldo Venâncio e Julio Cesar fizeram duas homenagens ao mestre. O primeiro o homenageou na Câmara Municipal em seu mandato anterior e o segundo, o fez, na comunidade de Massangana juntamente com o mestre José Baracho já falecido. Ainda restam algumas esperanças com relação a preservação de nossas manifestações populares. Uma prova que a cidade tem muitos talentos, e com um pouco de sabedoria e compromisso, podem explodir para o mundo. Como diz meu amigo Pedro Simões, nosso presidente da ACLA, “CEARÁ-MIRIM TEM JEITO!!!”
Diante de toda essa linda história, temos obrigação de reverenciar esta figura tão importante para a cultura do Brasil e agradecer pelo que fez pela preservação de nossas manifestações populares, através do folguedo Congos de Guerra – como ele mesmo diz: “sou feliz e morro satisfeito por ter preservado esse brinquedo”.
            Ave, Ave, Ave, MESTRE TIÃO!!! Que sua luta nos contagie, fortalecendo ainda mais essa vontade de” fazer e fazer”... “Qualquer hora chegaremos lá!!!”

sábado, 15 de maio de 2010

MESTRE TIÃO - 96 ANOS


VIDA VIVA E BEM VIVIDA!

Gibson Machado e Mestre Tião com sua "concertina"


Hoje é mais um dia especial! Especial porque, depois de tantas tentativas de visitar meu amigo Mestre Tião, consegui superar os tropeços diários da falta de tempo.
Ontem, 14 de maio de 2010 foi mais um dia inesquecível na vida do mestre Tião Oleiro do Congo de Guerra de Tabuão. Há 96 anos nascia um caboquinho, um neguinho – como ele costuma dizer – no eito do canavial, cheirando a bagaceira e mel de engenho.
São anos de experiências enveredadas por caminhos diversos, caminhos que, muitas vezes, foram tortuosos e amargos. No entanto o que torna esse relicário humano especial é sua forma de viver. Sua senectude é a prova maior de que a vida está sendo generosa, pois o que mais o faz feliz é poder contar com a presença de seus familiares e amigos.
O mestre em sua plena sabedoria entende que a idade altera a forma como se sente a vida. Lembra que a mocidade, quando no frescor da vida, envolve quimeras e utopias, otimismos e uma intensidade de anseios que os mais velhos não têm… e que a passagem da juventude, à maturidade e à velhice, envolve experiências, verdades, reflexões novas, que alteram os nossos valores e a forma como vemos e sentimos a vida.
Cada ano que passa é como uma fita cinematográfica cujos quadros se projetam na tela da memória e contam toda sua trajetória de vida: a lembrança do tempo de pastorador de porteira na bagaceira do Engenho Grande, as brincadeiras com os meninos do Engenho Laranjeiras de Joca Sobral.
São vivencias que o ajudaram a construir uma vida repleta de experiências cujos fragmentos de memória fazem marejar os olhos sulcados pelo tempo, esse senhor passageiro que, como diz Marco Aurélio, imperador e filósofo romano, “é de uma voragem tremenda; assim que uma coisa nos é trazida à vista, logo é dela varrida, e outra toma o seu lugar, antes de também ela desaparecer. Dessa forma a vida do homem na natureza, nasce, vive e transcende e diante do mistério da vida, nos comparamos ao inexistente, que segundo Pascal, na natureza somos um nada comparado ao infinito, um tudo comparado ao nada, algo intermédio entre o nada e o tudo. Somos incapazes de ver o nada de que somos feitos, o infinito em que estamos engolidos.
Minha visita à comunidade de Tabuão foi muito gratificante, pois tive a felicidade de levar comigo dois amigos muito especiais: O pintor e poeta Vilella e Mestre Joaquim, um octogenário no alto dos seus 86 anos, que nos presenteou com o inseparável companheiro de 78 anos, um surrado cavaquinho cujos acordes nos fazia sonhar junto ao mestre.


Mestre Joaquim (86 anos) e seu inseparávl cavaquinho


Ao chegar à comunidade fizemos uma surpresa ao Mestre Tião, pois o mesmo fazia muito tempo que não encontrava seu amigo e companheiro de congada Joaquim. Foi uma verdadeira festa que ficou mais emocionante quando o velho embaixador do Congo de Guerra Zé Baracho se juntou ao grupo. Fiquei um bom tempo observando a sintonia que existia entre os amigos e, nesse ínterim, cantavam, tocavam e relembravam tempos pretéritos de orgias e festas. Eu, que não fui bôbo, filmei e fotografei aquele momento inesquecível.


Mestre Zé Baracho, Mestre joaquim, Gibson Machado, Mestre Tião e familiares

Não esperava que fosse ser uma tarde de grande significado cultural. Para se ter uma idéia da importância desse dia, os mestres juntos somam 262 anos de vida e, desses, 226 anos foram dedicados a cultura popular. Mestre Tião começou a brincar congo aos oito anos, portanto, são 78 anos de folclore; o Mestre Zé Baracho tem oitenta anos e setenta de folclore; o Mestre Joaquim, tem oitenta e seis anos e 78 de folclore, portanto, esses baluartes são bastiões de nossa cultura popular e tem toda uma trajetória de vida dançando, cantando e conduzindo uma tradição popular secular, cujo fim, infelizmente, é a eminente extinção, uma vez que nossas manifestações tradicionais estão esquecidas e não temos meios para fazê-las resistirem ao abandono.
Atualmente nossas manifestações populares estão tendo um tratamento secundário, talvez, a situação financeira que o país passou tenha contribuído para que nossos grupos folclóricos não tenham sido convidados para nenhum evento, sejam privados ou públicos, e, também, é incompreensível como os autênticos representantes de nossas tradições não tenham participado dos encontros de cultura realizados no município e no Estado. Penso que é necessário romper as barreiras do individualismo forrento e buscar soluções coletivas que salvem nossa história, nossa memória, nossas tradições da invasão de culturas alienígenas, introduzidas em nossas vidas através da globalização e da aculturação feroz que nos impõem as esferas superiores.
Na Lei Orgânica do Município de 2006, no capítulo VII da Educação, Art. 115, § 2º diz que: As escolas de primeiro e segundo graus incluem entre as disciplinas oferecidas o estudo da Cultura norte-rio-grandense e cearamirinense, envolvendo noções básicas de literatura, artes plásticas e folclore do Estado e do Município, bem como noções básicas de agricultura, pecuária, especialmente, nas escolas da zona rural. Diante disso, é preciso refletirmos, enquanto educadores, se realmente estamos cumprindo o que a Lei orienta. Sinceramente, não acredito que isto esteja sendo feito em todas as escolas. Certamente há algumas isoladas que obedecem essa orientação. Outras, o fazem em datas comemorativas cujos trabalhos são praticamente os mesmo ano após ano.
É imprescindível que os educadores da rede estadual e municipal, façam capacitações dentro da área de estudo solicitada pela Lei, para que possam ajudar nossos estudantes a conhecer sua história e, com isso, aprender a valorizar e proteger as tradições, a memória e, acima de tudo, crescer como cidadão amando sua terra, aquilatando cada pedacinho deste vale suntuoso e ubérrimo.
Há a esperança de que haja uma sensibilização por parte dos gestores municipais quando sinalizam com possíveis políticas públicas culturais que, provavelmente, venham fortalecer e valorizar nossas tradições e, assim, tenhamos a certeza de que os verdadeiros representantes de nosso folclore sejam redescobertos e que tenham oportunidades de mostrarem, enquanto vivos, a potência de seus conhecimentos, porque somente eles, são capazes de repassá-los às novas gerações, por isso, é imprescindível que as ações de governo sejam implementadas urgentemente antes que nossos mestres de encantem.

O Centro Esportivo e Cultural sempre tem contribuído para que possamos realizar nossos contatos com os mestres e, também, possibilitado, na medida do possível, eventos culturais em nossa cidade. Agradecemos ao presidente da instituição Ubiratam Severo por ter nos doado o bolo do mestre Tião.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

CONGO DE GUERRA DE GUANABARA - TABUÃO - CEARÁ-MIRIM/RN

Mestre Tião, Gibson MAchado e Pablo Capistrano

CONGO DE GUERRA

Fomos a comunidade de Taboão, em Ceará Mirim na companhia de Gibson Machado, pesquisador e ativista cultural do vale do Ceará Mirim, para registrar o depoimento de Mestre Tião e Zé Baracho, respectivamente mestre e embaixador do Congo de Guerra.

 O Congo vem sendo apresentado desde trezentos anos passados. É uma espécie de teatro, onde o espectador precisa imaginar o cenário evocado, os reinos africanos de outrora: Os reis orgulhosos e seus fiéis guerreiros. Todos os personagens assumem papeis dramáticos. A narrativa se dá a partir de temas religiosos e temas sociais, como o amor, a escravidão, o trabalho e costumes antigos.

Embora existam diversificações no enredo, variando de região pra região, levando a se criar sinônimos: Congo(s), Congada (s), pretinhos-do-congo, etc. Em todos é possível identificar as raízes formadoras (embaixadas e nações africanas). Mantendo o mesmo fio condutor, ou seja, as características gerais que permitem identificar o folguedo como um Congo.

Desde o Brasil colônia, elegia-se entre os negros, um rei e uma rainha, cargos honorários, aceitos pela igreja e apoiados pelos senhores escravocratas. O régio casal de negros era escoltado por seus companheiros de senzala até a igreja onde acontecia a coroação, com muita música e dança, estas, por sua vez, variavam de acordo com as etnias africanas e influências regionais. Rufas, rabecas e maracás fazem o fundo musical, juntamente com as cantigas que ora são; toadas de viagens, outras louvores a virgem do Rosário (Nossa Senhora do Rosário) ou louvações ao nascimento do Messias e em muitos momentos, cantos de chamadas de atenção aos moradores do lugar. Há também a presença de cantigas de possível inspiração totêmica e cantares lúdicos irônicos. A variedade de peças cantadas é imensa e se sucedem até o momento da representação das embaixadas, ponto alto do folguedo.
Professor Pablo entrevistando um marujo do Congo

 Ao questionarmos alguns brincantes do Congo, sobre a sua dança, obtivemos as seguintes respostas: “Estamos perdendo uma batalha, o Congo de Guerra está morrendo. É preciso que a nova geração siga o exemplo do embaixador, cantando com emoção”. Diz O mestre José Baracho, embaixador do Congo de Guerra e Poeta do Vale do Ceará Mirim. E acrescenta: “A velha Taboão há de ser lembrada.”
O mestre Tião (atual mestre do Congo de Guerra), hoje com 96 anos, nascido em Ceará Mirim, em 14 de maio, filho do antigo mestre João da Rocha. É morador, desde menino da comunidade de Taboão, município desta cidade e trabalhador, por longos anos, do engenho da família Sobral. Alerta: “Um dia eu morrendo e também o grande José Severino (outro brincante), o grupo Congo perde roteiro, Ceará Mirim perde a cultura, ficando só uma lembrança obscura, de dois velhos bem nordestinos”. Logo em seguida, o “embaixador” José Baracho, acrescenta: “Talvez se acabe os Congos guerreiros, mas, as lutas dos dois Congueiros, ficarão gravadas nesta cidade”. Sendo indagado ao atual mestre, Seu Tião, sobre o que ele achava da possibilidade de outros grupos darem continuidade à brincadeira, e estes, fazerem alterações na representação, ele respondeu: “Pode mudar as vestimentas, o lugar onde se dança, acrescentar fatos, assim como eu mesmo fiz, ao receber o Congo de Taboão do meu pai; ouvi notícias no rádio sobre movimentos revolucionários da década de 30, e acrescentei elementos a este auto, mudando inclusive o nome, passando a se chamar Congo de Guerra”.
Mudanças podem ser feitas contanto que a jornada (passos da dança) permaneça. É a dança que mantém a tradição.
Em nossa visita à Ceará Mirim, percebemos a preocupação dos mestres no que diz respeito à continuidade da sua dança. Eles têm a consciência e o entendimento das transformações que podem vir a acontecer para que a dança se mantenha viva. O que importa é que o fio condutor da narrativa não se perca.

 Depoimentos dos mestres Tião e José Baracho

Assim como existem formas de vida naturais as diversas expressões culturais humanas tem também seu tempo histórico. A grande questão é saber como manter viva a tradição sem perder o fio do tempo, que traz para as comunidades humanas, novas demandas e novas perspectivas.

Mestre Tião e Zé Baracho talvez, enquanto o tempo da vida permitir, possam nos ensinar como fazer isso.

Fonte:
http://www2.ifrn.edu.br/culturapotiguar/?page_id=453

Alguns dias após a entrevista, o Mestre José Baracho faleceu deixando Ceará-Mirim muito triste. O encantamento do Mestre foi uma baixa na luta pela preservação da congada. Resta o herói "Mestre Tião Oleiro". Esrtaremos juntos na batalha a favor dos marujos do Congo de Guerra.

sábado, 5 de março de 2011

VISITA A TABUÃO



Mestre Joaquim, Gibson MAchado, Mestre Tião e Mestre Zé Baracho

05 de fevereiro de 2011.
Programei visitar os mestres Tião Oleiro e Zé Baracho na comunidade de Tabuão. Sabia que os encontraria, como de costume, sentados no oitão da casa, proseando como nos velhos tempos, relembrando fatos e causos que já vão distantes e somente a senilidade pode revivê-los com tanto sentimento.
Convidei outro companheiro de labuta e brinquedo, mestre Joaquim, para acompanhar-me no passeio. Ele aceitou e comunicou-me que levaria seu fiel escudeiro, um surrado cavaquinho, pois pretendia tirar umas cantigas com os velhos marujos do Congo de Guerra. Concordei e seguimos para Tabuão falando sobre os antigos engenhos e banguês do vale, suas riquezas, sua história e sua gente.

As reminiscências infanto-juvenis emocionavam o bardo menestrel, às vezes, sorria e lembrava fatos acontecidos na infância quando brincava nas terras do Engenho Laranjeiras, do velho Joca Sobral, pai de meu sogro Rafael Sobral. Dizia que sua vida foi passada nas bagaceiras e nos canaviais de Engenho Guanabara onde nascera, era um tempo que só volta nas lembranças, como uma quimera passageira, despertada pelo fantasmagórico apito das envelhecidas chaminés.

Os mestres cantando e tocando

Apesar de ser sábado de carnaval, marcando o inicio do período momesco, a comunidade parecia solitária, no entanto, lá estavam eles, sentadinhos como havia imaginado, conversando e fazendo previsões para o destino da cultura popular tão bem representada pelo brinquedo de Congo. Suas aparências melancólicas transformaram-se quando viram o velho amigo Joaquim, companheiro de tantos bailes e folguedos. A felicidade daquele encontro foi indescritível, eles falavam muito e lamentavam o tempo que não se viam.

Projeção do documentário do projeto Vernáculo

É difícil avaliar o tamanho da satisfação que tenho por ter proporcionado um momento tão significativo na vida dos companheiros de congada Tião, Zé Baracho e Joaquim, são muitos anos de convivência e vida: 96, 81 e 86 anos respectivamente, sobrevivendo a tantas diversidades e, apesar da importância de seus conhecimentos para a história e cultura brasileira, ainda são anônimos na terra em que nasceram e que ajudaram a construir com muito suor, lágrimas e desenganos, porém, a consternação é superada pelo reconhecimento e prazer que o folclore proporciona, embora, ultimamente, esteja em avançado estágio de hibernação cultural.
O objetivo da visita foi entregar aos mestres, os documentários que foram feitos com o grupo Congo de Guerra e projetá-los em telão para a comunidade assistir. Foi emocionante porque eles se viram e puderam sentirem-se como espectadores e o legal é que comentavam, cantavam e tocavam, acompanhando as jornadas. Foi uma tarde maravilhosa e inesquecível, um dia que ficará eternizado na memória de todos nós.

A próxima visita na comunidade será 10/03 – quinta-feira, quando farei reunião com a responsável pelo Centro Cultural, a jovem Emiliana, para tratarmos da continuidade do projeto Congo de Guerra e, também, do resgate das diversas manifestações populares que existiram na região e estão esquecidas, dessa forma, poderemos revitalizá-las dando um novo encaminhamento às propostas culturais local e, porque não, regional. Esse será o primeiro passo para podermos fomentar uma série de ações que possibilitem o reconhecimento e valorização das diversas tipologias artesanais tradicionais existentes e, também, revitalizar o Congo de Guerra, através de oficinas de dança e aulas teóricas sobre o fortalecimento da cultura popular.
Recentemente recebi o convite para participar do 47º Festival de Folclore de Olimpia no Estado de São Paulo, que se realizará nos dias 23 a 31 de julho. O convite se estende aos grupos folclóricos Cabocolinhos e Congo de Guerra. O festival homenageará o Estado do Rio Grande do Norte e Ceará-Mirim deverá, como outras cidades, representá-lo, pois o município tem o privilégio de ter dois Patrimônios Vivos que são Os Cabocolinhos e Mestre Tião Oleiro. É necessário que haja o apoio das instituições públicas para que nossa participação seja possível. Confiamos na sensibilidade daqueles que tem o poder de patrocinar um evento de tamanha importância para o município e, também, para o país, lembrando que no festival estarão representantes de vários estados brasileiros e diversos países.
A fim de fechar meu pequeno diário vou concluí-lo com um texto de Chaplin que fala da importância que é a amizade, a liberdade, a beleza e, principalmente da valorização da vida, sem cobiça, falsidade, desonestidade e tantas outras desumanidades. Um fragmento literário para reflexão:

“Caminho da Vida

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ENCONTRO DE HERÓIS

Bom dia a todos!


Próximo domingo estaremos festejando os 98 anos de Mestre Tião Oleiro. Serão momentos inesquecíveis, quando ouviremos o som do velho pé de bode de mestre Tião, acompanhado, do não menos popular, Mestre Joaquim (89 anos), com seu inseparável cavaquinho. Lembraremos velhas canções do Congo de Guerra, ameaçadas pelo esquecimento popular. Infelizmente, nosso saudoso Mestre Zé Baracho, não poderá está fisicamente conosco, em junho passado, encantou-se e estará cantando seu romances em outras dimensões....




Foto pelos 96 anos do Mestre Tião em maio de 2010.
Mestre Zé Baracho, Mestre Joaquim, Gibson Machado e Mestre Tião.


VIVA A CULTURA POPULAR!


CEARÁ-MIRIM TEM JEITO!!!

sábado, 26 de março de 2011

ENCONTRO EM TABUÃO - MENINOS DO CONGO

Gibson Machado, Emiliana e os meninos do Congo
Sábado, 19 de março de 2011, estive em Tabuão para nos reunir com os (ex) componentes do grupo folclórico Congos de Guerra.
Fiquei animado porque surgia uma luz no fim do túnel, havia interesse partindo da comunidade, através da jovem Emiliana, que junto com outras pessoas criaram o Centro Cultural de Tabuão.
O grupo tem como objetivo fomentar a cultura, o esporte e a educação no distrito, através de palestras, oficinas e, principalmente, o resgate das tradições populares como, danças, artesanato de palha de carnaúba e cerâmica, que eram, tradicionalmente, produzidos na região.
Foi difícil juntar os jovens para que fizéssemos uma explanação da importância do Congo de Guerra para o município de Ceará-Mirim e Estado do RN. Levei imagens que havia filmado ao longo desses 20 anos de pesquisas e dois documentários realizados sobre o grupo e o mestre Tião Oleiro.
O mestre Tião (96 anos) não estava presente, mas, foi substituído pela figura importante do embaixador do Congo, o mestre Zé Baracho (81 anos). Conversamos, eu e ele, por uma hora até que seis jovens apareceram para ouvir o que tínhamos pra dizer.
Mestre Baracho, muito triste, dizia que não valia a pena insistir naquele brinquedo porque as pessoas valorizavam apenas o football e aquela velha cultura, definitivamente, tinha se acabado, pois, ele e mestre Tião, não tinham mais fôlego para lutar pela revitalização do folguedo.
Procurei fazer com que os garotos compreendessem que o futuro da congada estava em suas mãos e que eles deveriam lutar para revigorar o brinquedo, pois, era uma tradição centenária e, precisavam protegê-la do abandono e da iminente extinção.
Saí de lá muito inseguro! Não sei se consegui despertar, neles, o interesse por ações que mobilizassem a comunidade em busca da preservação do Congo de Guerra. Recebi um telefonema de Emiliana informando que tinha conseguido dezessete adesões e que os meninos gostariam de marcar um dia para ensaiar as danças e as músicas.
Um novo amanhecer surgiu no crepúsculo da esperança, sei que não será fácil conduzir esse processo, no entanto, é preciso estar presente para dar força aos jovens de Tabuão. Haverá muita resistência, pois, nossos adolescentes não têm o hábito de cultuar as coisas passadas, é preciso enfrentar essa realidade e ensiná-los a valorizar e preservar a memória de sua gente.
Quarta-feira, 30 de março, estarei em Tabuão com dois professores do IFRN para que eles conheçam os mestres Tião e Zé Baracho e analisem a possibilidade de incluí-los em projetos culturais realizados por aquela instituição. Havia marcado para essa quarta-feira ensaio com os adolescentes do congo e, em virtude de acompanhar o professor Pablo Capistrano, irei na sexta-feira a tarde fazer o ensaio.

domingo, 11 de julho de 2010

O POETA ZÉ BARACHO - 81 ANOS

O poeta Zé Baracho - 81 anos

José Severino da Silva nasceu em Tabuão, ao meio dia de uma quinta-feira, 04 de julho de 1929 e quem o ajudou a vir ao mundo foi u
ma parteira chamada Angelina. Seus pais eram João Severino do Nascimento e Francisca Rosa da Conceição.
Seu pai nasceu no engenho Timbó no final do século XIX, quando ali ainda existia o cativeiro e o Major – como era conhecido Zumba – imperava naquele engenho-correção, pois para lá eram mandados os negros que resistiam à escravidão e, eram obrigados a respeitar seus senhores à força do chicote e tronco.
João Severino casou pela primeira vez com uma moradora do engenho Timbó e, depois de sua morte, casou com Dona Francisca, mãe do poeta Zé Baracho. Seu pai faleceu em 1946 e ficaram nove filhos pequenos, três homens e seis mulheres.
Quando seu pai faleceu Zé Baracho assumiu, com seu irmão Manoel, a responsabilidade da casa. Naquele tempo estava com doze anos e iniciava sua vida dentro do canavial onde cortava cana com uma mão e fazia a despalha (limpava a cana) com a outra. Era muito sacrificante para uma criança enfrentar tamanha dureza, mas o dever e a responsabilidade eram mais importantes e precisava manter sua família.
Gibson e Zé Baracho - homenagem em Massangana pelo Vereador Julio César
Lembra que seu pai falava muito do Coronel José Ribeiro Dantas Sobrinho - o Zumba do Timbó – dono do engenho Timbó. Dizia que ele era o chefe dos cativeiros e seu administrador ou feitor, era um primo de seu pai chamado Antonio Pinto. Era esse feitor quem cumpria as ordens de Zumba para judiar com os negros cativos.
Habitualmente mandavam prender os negros no tronco – diziam que era em um pé de tamarindo – em frente a casa grande. Ali os negros ficavam presos e eram açoitados com chicote de couro cru. Quando terminava a tortura os negros eram molhados com água e sal para ajudar a sarar os ferimentos.
Quando os negros se deslocavam para o canavial eram acorrentados pela perna com um molho de ferro e a cada tarefa, colocavam aquela corrente na cabeça e se locomoviam para fazer uma nova “limpa” de mais 15 braças de terra.
Contam que a meia noite, quando principiava o dia de São Sebastião o feitor Antonio Pinto mandou os negros do engenho Timbó irem à bagaceira encarrilhar os bois para fazerem o transporte da cana até o engenho. Naquela noite aconteceu um fato curioso e assustador. O boi chamado “Pensamento” não obedeceu ao apelo do seu condutor Mané Corujinha. Dizem que quando Mané Corujinha chamava o boi: “Pensamento, levanta para trabalhar, e, ele, bem tranqüilo falou: hoje não trabalho pois é dia de São Sebastião. O cativo repetiu aquela conversa por três vezes e todas recebiam a mesma resposta. Desesperado foi até a casa do Antonio Pinto e contou-lhe o acontecido. Não acreditando no negro, ele foi à bagaceira para verificar a veracidade daquele fato tão estranho e inacreditável. Para desespero do Mané Corujinha o feitor saiu de rebenque (chicote) na mão porque se não fosse verdade e o boi não falasse o coitado ia pro tronco.
O boi repetiu a mesma resposta e ao amanhecer o capataz do engenho foi à casa grande e chamou o Major Zumba para relatar o fato. Ao chegarem à bagaceira, o boi tornou a dizer que não trabalhava porque era dia de São Sebastião, então, o major soltou os animais e, a partir daquele dia, nunca mais eles trabalharam em dia santo.
Muitas histórias e causos são contados a respeito do engenho Timbo, de Zumba e sua terrível mulher Antonia Balbina Viana, que prendia as escravas no portal da casa e chamava para que lá ficassem pedaços da orelha.
A infância do Poeta José Severino, o Zé Baracho, foi na roça, cavando e limpando lerão. A vida deles era trabalhar alugado. Nos anos 1940, durante a II Grande Guerra, a borracha produzida no Amazonas ficou escassa e abriram um decreto em que o governo autorizava a extração do leite da Mangabeira para a produção da borracha. Muitas pessoas passavam o dia nos tabuleiros fazendo a coleta. No final do dia recolhiam as latas e iniciavam o processo para endurecimento do leite. Colocavam-no em uma lata, dissolviam pedra úmida e misturavam ao leite que instantaneamente ficava talhado. Logo estava sólido e pronto para comercializar.
A borracha extraída era comercializada com o Major Onofre Soares, do engenho Cruzeiro. Havia um armazém próximo ao Mercado Público. A produção se deu mais intensamente com a chegada dos americanos em Natal. O quilo era vendido por três mil réis. Foi um tempo bom porque eles produziam em torno de trinta quilos de borracha.
Naquele tempo com três mil réis comprava-se arroz, farinha, rapadura, açúcar bruto, peixe. A comercialização do peixe era uma fartura. Comprava-se por pedaço e não por quilo como feito atualmente e, ainda, havia uma variedade de espécies de primeira linha.
O poeta não guarda boas lembranças do tempo de escola. Ele não tinha muito gosto pelos estudos, uma vez que a vida era somente trabalhar alugado e, quando na comunidade, vendia jogo de bicho, sabia escrever, dezenas, centenas e milhares. Certo dia a professora Dona Ritinha, Juventina Gomes de Souza, fez uma conta e mandou que resolvesse, ele tentou de todas as maneiras, mas não conseguiu efetuar a operação. Quando a professora descobriu que não resolvia a conta deu-lhe uma tremenda pancada no pescoço com uma régua de madeira que o bardo rebentou-se no chão. A partir daquele dia nunca mais voltou aos bancos escolares. Do tempo de escola aprendeu a assinar o nome e diz que provavelmente se tivesse aprendido a ler e escrever sua vida teria sido diferente, mas se conforma quando diz que: Quem nasce pra ter, tem. Quem nasce pra não ter, não tem.
Tabuão era uma pequena comunidade com casas humildes espalhadas pelo vale e produzia tijolos em muita quantidade. A produção era transportada por trem para Natal. No tempo da guerra, com a chegada dos americanos, venderam muito tijolo que ia para Parnamirim e de lá mandavam para os Estados Unidos.
Além de tijolos havia a produção artesanal de panelas de barro, alguidares e até “pinico” para o asseio das mulheres. Nesse tempo a comunidade também fabricava produtos oriundos da palha de carnaúba, como chapéu e principalmente esteiras que eram comercializadas em Ceará-Mirim e exportadas para o sertão.
José Baracho passou sua vida trabalhando no ubérrimo vale de Ceará-Mirim prestando serviço nas fazendas da região. Na década de 1940 prestou também serviço ao governo durante a Campanha de Erradicação da Malária. Ele diz que na época morreram muitas pessoas acometidas da doença, a epidemia era tão grande que enterravam seus mortos em valas.

Zé Baracho e Gibson - Forum Social Nordestino - Recife 2004 - o mestre cantando o hino de Olinda/PE


O mestre teve seus primeiros contatos com a cultura popular quando ainda era criança e assistia as apresentações dos diversos grupos de congada que existiam na região. Um dia foi convidado pelo mestre Sebastião João da Rocha – o Tião Oleiro – para dançar na ponta do cordão como marujo. A partir daí nunca mais parou e lembra que durante os setenta anos que brincou no congo dançou em todas as categorias e a mais importante foi o posto de embaixador cuja função equivale a de contra-mestre. Atualmente não brinca mais porque está debilitado e seu velho coração não consegue acompanhar suas atividades.
Infelizmente estamos perdendo mais uma batalha para o tempo e o futuro do Congo de Guerra está cada vez mais comprometido, pois, não há interesse da comunidade em preservar esta manifestação popular. O mestre Tião está com 96 anos e é eminente seu cansaço apesar de sua insistência em manter o brinquedo vivo. É necessário tomarmos alguma atitude para criarmos meios que possam ajudar a valorização e preservação do folguedo.
Mestre Baracho sempre foi envolvido pela cultura popular. Na infância conviveu com seu avô que possuía uma grande sabedoria e ensinou-lhe algumas orações e receitas baseada na medicina do mato. Uma velha rezadeira passou-lhe seus conhecimentos que somente são usados quando há uma grande necessidade.
A poesia entrou em sua vida quando conheceu o cantador de viola e passou a acompanhá-lo em algumas apresentações de côco de roda, que o ajudaram a desenvolver suas habilidades de improvisação.
Recentemente quando o entrevistei gravamos alguns poemas e romances. É impressionante como um homem do povo, analfabeto, pode transmitir tanta sabedoria, pois ele apresentou, através da cantoria, romances medievais, como Carlos Magnos e os doze pares da França, A donzela Teodora, a história de Dom Jorge e alguns poemas conhecidos como a história do Pavão Misterioso e a famosa, um tostão de chuva.
Fiquei muito triste quando recebi a notícia de que meu estimado amigo estava muito doente e convalescia numa agonia ferrenha. Sábado 10/06, fui visita-lo em companhia de Mestre Birico dos Cabocolinhos de Ceará-Mirim. Ao chegarmos na comunidade de Tabuão o Mestre Tião me aguardava e conversamos a respeito de nosso dileto companheiro. Preocupou-me bastante o sentimento de Seu Tião ele estava muito triste e seu sofrimento pela saúde do amigo era visível.
Felizmente o Bardo Menestrel está muito bem cuidado por seus familiares. Suas filhas, filhos e esposa não o deixam sozinho em nenhum momento. O carinho de seus entes queridos provavelmente darão forças para resistir a mais essa batalha contra o tempo. Mesmo que o mestre não retorne de sua agonia fica o ensinamento que ele nos proporcionou. Eu aprendi muito com ele. Sua sabedoria ajudou-me a valorizar nossas manifestações populares e a compreender que é partindo do simples que conquistaremos o complexo.
É preciso sermos fortes para podermos enfrentar as dificuldades que a vida nos proporciona e lapidarmos as arestas irregulares de nossos aprendizados para garantimos um futuro digno de exemplos para nossos descendentes.