terça-feira, 2 de junho de 2026

A ULTIMA VIAGEM DE TIO ZÉ

 


A Última Viagem de Tio Zé

Hoje o tempo parece caminhar mais devagar. O céu parece guardar um silêncio diferente, daqueles que somente as grandes despedidas conseguem produzir. Hoje nos despedimos de José Fabrício, nosso querido Tio Zé, que concluiu sua jornada neste plano e seguiu viagem para horizontes que nossos olhos ainda não alcançam.

Partiu o homem, mas permaneceu a obra. Permaneceu a palavra. Permaneceu a memória.

Há pessoas que atravessam a vida deixando rastros discretos, e há aquelas que iluminam caminhos. Tio Zé pertenceu à segunda categoria. Foi um farol aceso em meio às tempestades, uma bússola para os que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.

Ao recordar sua trajetória, as lembranças surgem como páginas de um livro antigo, daqueles que carregam o perfume do tempo e a beleza das histórias eternas. Vejo novamente as manhãs na casa de nossa avó Doralice, quando ele nos confiava uma missão que, para nós crianças, parecia simples, mas que mudaria nossas vidas para sempre: ler.

Em sua vasta biblioteca repousavam mundos inteiros esperando para serem descobertos. Entre aquelas estantes, viajamos sem sair do lugar. Conhecemos heróis e sonhadores, navegamos pelos mares de Júlio Verne, enfrentamos as injustiças de Victor Hugo, refletimos com Machado de Assis e aprendemos a enxergar a vida através da poesia de Fernando Pessoa e Mario Quintana.

Enquanto muitos nos ofereciam brinquedos, Tio Zé nos presenteava com universos.

Foi ele quem nos ensinou que os livros não eram apenas objetos, mas pontes. Pontes que ligam o homem ao conhecimento, à sensibilidade e à compreensão do mundo.

Mais tarde, dividindo com ele o mesmo quarto durante os anos de estudo em Natal, descobri um mestre ainda maior. Entre conversas que avançavam pela noite, aprendi sobre história, espiritualidade, filosofia, maçonaria e, sobretudo, sobre humanidade. Não ensinava apenas conteúdos; ensinava a pensar. Não transmitia apenas informações; despertava consciências.

Sua própria vida parecia um romance de aventuras.

Menino inquieto das ruas da Ribeira, protagonista de travessuras que contava com brilho nos olhos, transformou-se em marinheiro e conheceu mares distantes. Navegou por águas desconhecidas, visitou cidades lendárias e acumulou histórias que encantavam quem tivesse a sorte de ouvi-las. Em cada porto, uma descoberta. Em cada viagem, uma lição.

Professor apaixonado pela História, transformava datas em narrativas vivas. Fazia reis, revoluções e civilizações caminharem diante de nossos olhos. Talvez por isso tantos tenham aprendido com ele muito mais do que constava nos livros escolares. Ensinava porque amava ensinar.

Servidor público exemplar, advogado respeitado, auditor dedicado, construiu uma trajetória marcada pela honestidade, pelo compromisso e pela dignidade. Por onde passou deixou não apenas trabalho, mas admiração.

Mas, acima de todos os títulos e funções, foi na convivência familiar que revelou sua maior grandeza.

Era o conselheiro atento, o observador cuidadoso, aquele que corrigia quando necessário e orientava quando percebia que alguém precisava de direção. Suas palavras, às vezes firmes, nunca nasceram da severidade, mas do afeto. Eram formas de proteger, de ensinar e de amar.

Sua paixão pelos livros encontrava paralelo em sua paixão pela música. Sua casa era um verdadeiro templo da cultura. Entre estantes repletas de obras e coleções de discos cuidadosamente preservadas, ele compartilhava tesouros. Foi através dele que muitos de nós conhecemos o samba de raiz, os clássicos da MPB, as grandes vozes internacionais e a beleza das melodias que atravessam gerações.

Hoje, ao nos despedirmos, sentimos a dor inevitável da ausência. Contudo, existe um consolo que o tempo jamais poderá apagar: homens como Tio Zé não desaparecem.

Eles permanecem nos livros que indicaram, nas histórias que contaram, nos valores que transmitiram e nas vidas que ajudaram a transformar.

Permanecem em cada conversa inspirada pelo conhecimento.

Em cada página aberta.

Em cada música que desperta lembranças.

Em cada gesto de generosidade reproduzido por aqueles que aprenderam com seu exemplo.

Tio Zé fez sua última viagem. Talvez a mais misteriosa de todas. E enquanto seguimos por aqui, enfrentando nossas próprias travessias, levamos conosco a luz que ele acendeu.

Seu corpo parte. Sua presença permanece.

Seu silêncio agora fala através das memórias.

E seu legado continuará vivo em cada um de nós.

Descanse em paz, querido Tio Zé.

Que os ventos dos mares que tanto navegou conduzam sua alma serenamente para os portos da eternidade.

 

Até um dia.