A Última Viagem de Tio Zé
Hoje o tempo parece caminhar
mais devagar. O céu parece guardar um silêncio diferente, daqueles que somente
as grandes despedidas conseguem produzir. Hoje nos despedimos de José Fabrício,
nosso querido Tio Zé, que concluiu sua jornada neste plano e seguiu viagem para
horizontes que nossos olhos ainda não alcançam.
Partiu o homem, mas
permaneceu a obra. Permaneceu a palavra. Permaneceu a memória.
Há pessoas que atravessam a
vida deixando rastros discretos, e há aquelas que iluminam caminhos. Tio Zé
pertenceu à segunda categoria. Foi um farol aceso em meio às tempestades, uma
bússola para os que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.
Ao recordar sua trajetória,
as lembranças surgem como páginas de um livro antigo, daqueles que carregam o
perfume do tempo e a beleza das histórias eternas. Vejo novamente as manhãs na
casa de nossa avó Doralice, quando ele nos confiava uma missão que, para nós
crianças, parecia simples, mas que mudaria nossas vidas para sempre: ler.
Em sua vasta biblioteca
repousavam mundos inteiros esperando para serem descobertos. Entre aquelas
estantes, viajamos sem sair do lugar. Conhecemos heróis e sonhadores, navegamos
pelos mares de Júlio Verne, enfrentamos as injustiças de Victor Hugo,
refletimos com Machado de Assis e aprendemos a enxergar a vida através da
poesia de Fernando Pessoa e Mario Quintana.
Enquanto muitos nos
ofereciam brinquedos, Tio Zé nos presenteava com universos.
Foi ele quem nos ensinou que
os livros não eram apenas objetos, mas pontes. Pontes que ligam o homem ao
conhecimento, à sensibilidade e à compreensão do mundo.
Mais tarde, dividindo com
ele o mesmo quarto durante os anos de estudo em Natal, descobri um mestre ainda
maior. Entre conversas que avançavam pela noite, aprendi sobre história,
espiritualidade, filosofia, maçonaria e, sobretudo, sobre humanidade. Não ensinava
apenas conteúdos; ensinava a pensar. Não transmitia apenas informações;
despertava consciências.
Sua própria vida parecia um
romance de aventuras.
Menino inquieto das ruas da
Ribeira, protagonista de travessuras que contava com brilho nos olhos, transformou-se
em marinheiro e conheceu mares distantes. Navegou por águas desconhecidas,
visitou cidades lendárias e acumulou histórias que encantavam quem tivesse a
sorte de ouvi-las. Em cada porto, uma descoberta. Em cada viagem, uma lição.
Professor apaixonado pela
História, transformava datas em narrativas vivas. Fazia reis, revoluções e
civilizações caminharem diante de nossos olhos. Talvez por isso tantos tenham
aprendido com ele muito mais do que constava nos livros escolares. Ensinava
porque amava ensinar.
Servidor público exemplar,
advogado respeitado, auditor dedicado, construiu uma trajetória marcada pela
honestidade, pelo compromisso e pela dignidade. Por onde passou deixou não
apenas trabalho, mas admiração.
Mas, acima de todos os
títulos e funções, foi na convivência familiar que revelou sua maior grandeza.
Era o conselheiro atento, o
observador cuidadoso, aquele que corrigia quando necessário e orientava quando
percebia que alguém precisava de direção. Suas palavras, às vezes firmes, nunca
nasceram da severidade, mas do afeto. Eram formas de proteger, de ensinar e de
amar.
Sua paixão pelos livros
encontrava paralelo em sua paixão pela música. Sua casa era um verdadeiro
templo da cultura. Entre estantes repletas de obras e coleções de discos cuidadosamente
preservadas, ele compartilhava tesouros. Foi através dele que muitos de nós
conhecemos o samba de raiz, os clássicos da MPB, as grandes vozes
internacionais e a beleza das melodias que atravessam gerações.
Hoje, ao nos despedirmos,
sentimos a dor inevitável da ausência. Contudo, existe um consolo que o tempo
jamais poderá apagar: homens como Tio Zé não desaparecem.
Eles permanecem nos livros
que indicaram, nas histórias que contaram, nos valores que transmitiram e nas
vidas que ajudaram a transformar.
Permanecem em cada conversa
inspirada pelo conhecimento.
Em cada página aberta.
Em cada música que desperta
lembranças.
Em cada gesto de
generosidade reproduzido por aqueles que aprenderam com seu exemplo.
Tio Zé fez sua última
viagem. Talvez a mais misteriosa de todas. E enquanto seguimos por aqui,
enfrentando nossas próprias travessias, levamos conosco a luz que ele acendeu.
Seu corpo parte. Sua
presença permanece.
Seu silêncio agora fala
através das memórias.
E seu legado continuará vivo
em cada um de nós.
Descanse em paz, querido Tio
Zé.
Que os ventos dos mares que
tanto navegou conduzam sua alma serenamente para os portos da eternidade.
Até um dia.

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