quinta-feira, 14 de julho de 2011

47º FESTIVAL DE OLCLORE DE OLÍMPIA/SP

ATENÇÃO AMIGOS QUE ESTÃO NA REGIÃO DE SÃO PAULO, MINAS GERAIS, MATO GROSSO, RIO DE JANEIRO... entre os dias 23 e 31 de julho, Ceará-Mirim estará representado com três exposições fotográficas e o grupo Cabocolinhos, no 47º Festival de Folclore de Olímpia/SP, conforme os folders abaixo: Nos visitem!!!


EXPOSIÇÕES FOTOGRÁFICAS

1. DONA MILITANA: IMAGENS E VERSOS
Do Jornalista e Fotógrafo Wagner Varela
A exposição apresenta fotos documentais da Romanceira Dona Militana...

2. SÃO GONÇALO DO AMARANTE: “O PAÍS DO FOLCLORE”
Do Jornalista e Fotógrafo Wagner Varela
3. FEIRA LIVRE
Do pesquisador Alexandre Campestre

4. CEARÁ MIRIM E SUAS TRADIÇÕES
Do historiador e professor Gibson Machado

5. RENDEIRAS DE JACUMÃ e a produção artística cearaminense

Do historiador e professor Gibson Machado

6. FOLCLORE DE CEARÁ MIRIM: Força de Uma Terra de Canaviais

Do historiador e professor Gibson Machado

7. OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU – A SAGA DA FÉ
Do pesquisador Padre Antonio Murilo de Paiva – Capelão dos Mártires de Uruaçú
8. COLETÂNEA – PASTORIL DE SÃO GONÇALO DO AMARANTE Fotografias de Antonio Scarpinelli (Unicamp/SP), Isaias Carlos, Jr Figueiredo e Lenilton Lima e do Acervo Particular de Professor Deifilo Gurgel.
9. ACERVO DA COMISSÃO DE FOLCLORE DO RN
10. BRINQUEDOS POPULARES DO RIO GRANDE DO NORTE – Prof. Lerson
11. ACERVO DA FUNCARTE – Fundação Capitania das Artes e do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão
12. ACERVO DA TV UNIVERSITÁRIA – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
13. ACERVO PARTICULAR DO PROFESSOR DEIFILO GURGEL
14. ACERVO PARTICULAR DE ALCIDES SALES
15. ACERVO DE ANCHIETA XAVIER

ABRANGÊNCIA DO FESTIVAL:
Público Estimado: 250 000 mil pessoas (31.250/dia)
Potiguares envolvidos: 280
Abrangência da Mídia: 3,5 milhões de pessoas
Área compreendida diretamente: Noroeste Paulista, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Noroeste do Paraná.
Intenção de retorno: 87%.
Estandes Comerciais: 70
Praça de Alimentação: 03 restaurantes com capacidade de 800, 05 capacidade de 100 pessoas.
Estados participantes: 13
Grupos participantes: com 83 grupos
Total de Apresentações de Danças Folclóricas: 250
Total de Componentes: 3.500
Refeições servidas: 26 mil
Escolas Participantes: 11
Artesões Participantes: 260
Concurso de Arte: 210 artistas
Parque de diversões: 01
Empregos diretos: 800
Empregos indiretos: 3.500
Empresas que participam com cotas de patrocínio no ano de 2010: 98 (noventa e oito)

LIVROS


Folclore e Cultura Popular, de Severino Vicente

Acervo da Fundação José Augusto

Espaço e Tempo do Folclore Potiguar, de Deifilo Gurgel

CEARÁ MIRIM: MEMÓRIA ICONOGRÁFICA – Gibson Machado Alves


AMIGOS LEITORES QUE ESTIVEREM NAS REGIÕES PRÓXIMA A OLIMPIA COMPAREÇAM PARA VISITAR O PAVILHÃO DO RIO GRANDE DO NORTE - ESTADO HOMENAGEADO NO EVENTO.

sábado, 9 de julho de 2011

A RUA DAS CASAS GEMINADAS

A RUA DAS CASAS GEMINADAS
Ao meu amigo e confrade Gibson Machado, historiógrafo e historiador do Ceará-Mirim





Rua da Aurora - foto de JulioSenna -1939


Até construirmos a casa definitiva, tivemos um ciclo de casas alugadas. Rua da Estação, Rua São João, Rua Pedro Correia e Rua São José. Evidentemente os nomes das ruas guardam conformidade com o tempo em que as habitamos. Dessas,... cada uma com a sua história apreciável, destaco as casas geminadas da rua Pedro Correia (antes Rua da Aurora, hoje Heráclio Vilar).
Situava-se no centro da cidade e tínhamos uma vizinhança privilegiada: o cinema de Jorge Moura, a “venda” de Chico Dantas, a escola de Dona Alzira de Sá Pereira, esposa do comerciante Chicó Pereira, nossos vizinhos; o palacete de Doutor Canindé Cavalcanti, onde também funcionava o seu gabinete dentário, a casa de “Batú” de Sá, o responsável pelo primeiro “grito” de carnaval, o Zé Pereira, O Bar de Sílvio Brandão e o “Café” de Cleto Brandão, seu irmão.



Bar O Moderno de Silvio Brandão



Valmir Varela e , ao lado, parte do Cinema de Jorge Moura


A casa de Jorginho Barreto e dona Nilsen me chamava atenção, porque o piso se situava abaixo do nível da rua, diferentemente da casa da matriarca dona Coryntha Barreto, mãe de Jorginho, em frente à casa do filho, cujo piso se elevava uns dois metros do calçamento da rua. Mais adiante, Clóvis Soares conservava dois leões de cerâmica como guardiões do seu bangalô. Ainda mais adiante, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, convergência de toda o ecantamento da cidade.
O calçamento da rua era de pedras, depois substituída por paralelepípedos. (Lembrava-me sempre daquela marchinha – “se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de brilhante...”). Os canteiros guardava os pés de fícus benjamim, dividiam a rua e moderavam o trânsito de carros, carroças e animais pelo estreitamento das vias laterais.
Depois que Jorge Moura, o dono do cinema, decidiu morar em Natal, a sua casa foi adquirida por Aurelino Marinho e dona Augusta, pai e mãe dos meus amigos Franklin e Guilherme (este, já falecido). “Seu” Aurelino, todas as tardes deliciava os meninos de seis a sessenta anos, com o famoso “leite no peito da vaca”. Trazia uma ou duas vacas de leite e as postavam no canteiro em frente à sua casa onde um vaqueiro extraia do úbere do animal um leite quente que era injetado diretamente num copo já misturado com açúcar e Toddy .
“Seu” Alegria, o mágico, era dono de um circo com o seu nome. Vinha à cidade uma vez por ano para alegria da população inteira que era apaixonada por espetáculos circenses: a meninada, pelo palhaço, as mulheres, pelos “dramas”, os homens, pelas dançarinas, e todos, pelos malabaristas, trapezistas e mágicos. Registro a passagem de uma famosa rumbeira, Mascotinha, que despertou tanta paixão num dos rapazes da rua, filho de um figurão da cidade, que, se não fosse a malícia e autoridade do pai, teria fugido em companhia da estonteante artista da dança.
A maior atração do “seu” Alegria era fora do circo. Quando passava pela nossa rua, tirava folhas dos pés de fícus, as dobrava ao meio no sentido longitudinal, punha-as na boca e com um assopro que a nós parecia especial, extraia famosas melodias então em voga, para surpresa da garotada.

Valmir Varela e dona Celina, moravam no cruzamento com a rua São José, numa casa encravada num terreno aterrado, muito alto, bem acima do nível da rua. Dona Celina e sua filha Adália eram uma das maiores atrações da nossa rua. A qualquer hora podia-se ouvir as belíssimas composições tocadas no piano, especialmente no final da tarde, quando, improvisadamente, havia um duelo musical entre os Ferreiras Varelas (Celina e Adália) e os Cavalcanti (Anchieta e Lourdinha), também exímios pianistas.

Casarão de Luis Ferreira - pai de Dona Celina



Manhãzinha cedo e ao por do sol, um cheiro irresistível de pão assado descia do beco da padaria de João Neto, dobrava a casa de Aurelino, no sentido da igreja, e de Doutor Canindé, no caminho das usinas. A este aroma se associava o do café pilado e torrado em casa, fervendo no fogão de lenha de todas as casas.
Em frente ao Café de Cleto, os trabalhadores das usinas vinham em grupos, a pés, em lombos de burros e cavalos ou nas carrocerias dos caminhões. Expressões cansadas e ansiosas, chapéu de palha enterrado na cabeça, foice sobre o ombro, roupa surrada de trabalho e uma piúba no canto da boca, assuntavam o trivial do trabalho e as expectativas da noite.
Foi defronte à casa do casal Chicó e Alzira, onde se exibiu o primeiro ônibus da linha Ceará-Mirim-Natal, de propriedade de Lauri Farias, então noivo de Ieda, filha do casal. Tive a honra de ser, ainda muito criança, um os passageiros do passeio inaugural pelas ruas de Cará-Mirim, distinguido pela dupla condição de aluno de dona Alzira e filho dos diletos amigos e vizinhos da família.
Nos dias de cinema, desfilavam os pipoqueiros, os vendedores de confeitos, pirulitos, cocadas , bolos e roletes de cana. Dentre eles se destacava Inácio, que carregava um tabuleiro de madeira preso ao pescoço com uma tira de couro, contendo confeitos, chicletes, pastilhas e chocolates. Depois viria a ser Inácio Magalhães de Sena, um respeitado intelectual autodidata.
Zé Félix, uma das mais pitorescas e populares atrações da cidade, apresentava-se nos “Domingos Alegres” no cinema de Jorge Moura. Numa dessas apresentações, caracterizou-se como Carmem Miranda interpretando o “Tabuleiro da Baiana”. O público delirou de tanto prazer que a partir daí conquistou a merecida fama de maior artista da cidade. Nessa época o cantor e transformista trabalhava como servente do bar de Silvio Brandão, vizinho ao cinema.

Era em frente à casa de Batu de Sá, que os blocos carnavalescos faziam as suas melhores evoluções. Era lá que Aluizio Alves, conhecido como Aluizio “pipilza”(ou piu-piu), apresentava-se com as suas melhores fantasias. Lembro de duas “performances”: do sapo (ao som da música “Sapo não lava o pé...”) e de Disco Voador (“Eu vi, eu vi, eu vi sim senhor, n Barra da Tijuca um isco voador...”). Era lá também que se formava o bloco dos casados, a que Clóvis Soares deu o nome de “Chamas que não aquecem”.
Era no “Beco de Chico Dantas” que os casais “pecaminosos” realizavam os seus atos de amor, acobertados pelo escuro e o vazio de casas. Tempos depois, a “esquina de Chico Dantas” abrigaria a rapaziada preocupada com o futuro da cidade, do país e do mundo. Era também por lá (ou na esquina da loja de Manoel Correia) que em noites de lua MIsael afinava seu violão e aguardava os seresteiros para se perderem nos caminhos da boemia que findava no Cipó.
E também onde Antonio Domingos, a locomotiva humana, soprava baforadas de fumaça e assobios na condução do seu trem imaginário. Onde Maria Leonor e outras devotas, pelas cinco e meia da manhã, se dirigiam contritas e disciplinadas à primeira missa do dia.
Onde os cachorros cachorravam, os gatos azunhavam, os caminhões apitavam naquele som fanhoso e desafinado que só ele, as bicicletas avisavam os pedestres com os seus “trim-trim” e “fon-fon”. Os botadores d´água, com os burros carregados de barris, estalavam os seus chicotes estimulando os “roxinhos” a espantarem a preguiça.
E onde Café Filho, no fim dos anos quarenta/início dos anos cinqüenta, realizou um comício de sua cruzada sindicalista que lhe valeu o titulo de comunista, apoiado pelo usineiro e ex-prefeito da cidade, Luiz Lopes Varela, depois senador da República, assumindo o mandato de Café, de quem era suplente, quando este se elegeu Vice-Presidente da República na chapa de Vargas.
Comício de Café Filho na rua da Aurora


Esta é uma das ruas de Ceará-Mirim, terra onde cada uma das casas, calçadas e pedras das vias públicas, contam uma história de passado picaresco, heróico, dramático e glorioso.
Por isso digo como Fernando Pessoa que nenhum rio é mais belo que o Baquipe, porque este é o rio que banha a minha aldeia.

PEDRO SIMÕES, escrevente juramentado da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Rio dos Homens.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

AO AMIGO QUE PARTIIU: BARTOLOMEU CORREIA DE MELO



BARTOLA, OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM. Breve e imperfeita louvação de amigo.

No sábado passado, às 16.30, Bartolomeu Correia de Melo deixou-nos para atender a um chamado do Criador. Estava já no limiar de sua resistência física e moral, de tanto lutar para viver – ele, um guerreiro digno, obstinado e forte. Lutou enquanto pôde. Não que resistisse à fatalidade, pois era um crente nos desígnios de Deus, mas dizia a si mesmo que glorificaria o Pai, preservando, no esforço da superação e da resistência, o bem mais precioso que Dele recebera – a vida.

Nós, seus amigos, acompanhamos a luta desigual, entre o Davi que ele Ra e o Golias das insidiosa s patologias que se alojaram no corpo do guerreiro, e por isso mais valorosa. Entre o hospital e o confinamento doméstico obrigatório, vivia , no entanto, como se nada estivesse acontecendo. Mas não se enganava, nem nos enganava. Queria sorver a vida, que sempre tivera em plenitude, com sofreguidão, até o último instante.

Eu mesmo, um privilegiado, tive a alegria de receber dele uma demonstração de afeto e desprendimento, quando, já cheio de dores, que se agravaram com a descoberta de mais uma agressão à saúde, compareceu com o seu anjo da guarda, Verônica (Vera), a uma sessão da Câmara de Vereadores de Ceará-Mirim, onde apresentei um plano de revitalização e Desenvolvimento da cultura local.

Estávamos ligados por uma série de circunstâncias: éramos cearamirinenses adotivos e elegemos a cidade como a nossa pátria afetiva – compromisso de vida inteira. Por isso ele quis ser sepultado no cemitério de lá, de frente para o vale que nos embriagava desde a infância, uma referência imorredoura. Também quero depositar nele os meus restos de vida física.

Amávamos a literatura e nela encontramos uma maneira de registrar a vida que tivemos, dar o nosso testemunho da mágica e extraordinária realidade que não era visível aos olhos dos que não enxergavam. Uma realidade fantástica, que não se oferecia aos circunstantes preocupados apenas no sobreviver.

Era preciso uma lente extra-sensorial para captá-la e uma linguagem adequada para expressá-la. E Bartola conseguiu esse milagre.

Tornou-se, sem produzir-se, conduzido apenas pela sensibilidade e desejo quase obsessivo de exibir o seu povo – o nosso povo – razão maior das nossas investigações, o maior ficcionista do Rio Grande do Norte e dos maiores contistas do Brasil.

A literatura de Bartola distingue-se das demais, porque ele transcende, nas suas escrituras, a mera construção vocabular, a originalidade forçadamente distintiva, o recurso criativo extraído da fertilidade imaginativa. Diversamente de outros criadores (Guimarães Rosa e Manoel de Barros, por exemplo) ele não criou as expressões que apropriou em sua linguagem literária. Nem as utilizou em exercícios lúdicos.

Ele as recolheu nas andanças pelos caminhos do sertão e do litoral - pois sempre foi um andarilho deslumbrado - no cordel, nos repentes, nas emboladas, nas feiras livres e nas toadas dos brincantes das nossas festas populares.

Aquilo que não ouviu, intuiu, e apenas deu extensão e liberdade à linguagem popular que se escondia no pensamento e no imaginário do nosso povo. Eu lhe disse isso, certa vez e ele ficou matutando, ensimesmado, e de repente deu-se conta de que se tratava, de fato, de uma observação pertinente e me disse: sabe que você está certo? Às vezes me vejo diante de um silêncio mais falador do que todas as falas do mundo. Até de quem bebeu água de chocalho.

Os dois livros de contos que escreveu, “Lugar de Estórias” e Tempo de Estórias”, podem e com certeza serão incluídos em qualquer antologia do conto brasileiro. Nenhuma contribuição à literatura brasileira, especialmente representativa da nossa região, merece tanto destaque quanto esses dois. E não pensem que exagero, ou que aplique sobre a obra a visão de um amigo e admirador.

Também escreveu livros infantis, “O fantasma bufão” e “A roupa da Carimbamba” e um dos seus contos (“Da janela”) foi adaptado para o teatro, numa peça de um só ato.

Não sou crítico literário nem um esteta com tanta erudição que me seja dado o benefício da credibilidade. Entretanto, sou um instigador, um provocador, alguém que não se compraz em estabelecer verdades pessoais, mas em argumentar dialeticamente ou comprovar pela amostragem a verdade que se coaduna com o senso comum.

Leiam os livros de Bartola, e concordem comigo pelas evencias. Releiam, os que já o fizeram, mas desta vez com espírito crítico, analítico, sem preconceitos. Com aquela disponibilidade Gideana que se deixa seduzir, se quiser, ou amaldiçoar, querendo, mas livres para voar.

Miguel Cirilo, um dos maiores poetas que o Rn já (des)conheceu, dizia: “Posso conviver com os anjos e não me converter; com os demônios e não me pervereter”. Que seja assim a abordagem dos neófitos nas Bartolomeicas narativas, ou na releitura dos céticos ou garimpeiros de verdades.

Mas mergulhem no universo de Bartola. Não se postem como Grieco que, à parte o seu valor como crítico literário, ficou conhecido pela negação ao seu próprio ofício: “Não li e não gostei”. Porque há também quem leia e não decodifica o frasead, nem descobre nas entrelinhas.

Devo dizer que o nosso estado, (e o Brasil), perdeu um dos seus mais importantes escritores. Se não pensarmos assim, depois de ter lido ou relido os livros de Bartola, é porque somos preconceituosos, invejosos ou sofremos do complexo de inferioridade de alguns nordestinados. Aprendi que contra fatos não há argumentos.

Li e reli os dois livros, porque apaixonei-me perdidamente à primeira vista e tive que retornar a eles para uma releitura menos emocional, mais depurada, mais isenta. E aí foi que me perdi definitivamente. Passou a ser um amor infinito que, diversamente do descrito por Vinicius, seria infinito porque duraria aternamente.

Perdemos também, os seus amigos, o convívio de uma criatura a um só tempo, afável, dono de uma humanidade que porejava evidente nos gestos mais comuns, e ao mesmo tempo um homem de muito espírito, que transitava com desenvoltura do humor fescenino ao comentário satírico, passando pelas citações e reflexões eruditas.

Só não tínhamos afinidades político-ideológicas. Nesse terreno tínhamos discussões acaloradas. Ele, conservador, eu, socialista. Mas a nossa amizade estabelecia limites. Quando chegávamos às raias dos achincalhes e agressões, transigíamos nas coisas menores que não alcançavam o cerne das nossas idéias, aceita por ambos como um sinal de pacificação, uma trégua.

Cumprimentou-me civilizadamente quando Dilma foi declarada vencedora, mas não resistiu e vaticinou as piores desgraças para o nosso país, nas mãos da “camarilha” comunista. Era assim o Bartola, carne, ossos e emoções afloradas. Ele era ele, sem receio de ser o que Ra. Autêntico.

Esgotei as possibilidades de caracterizar o Bartola que muitas vezes tomei como personagem, quando o perfilei no meu livro “A Intriga do Bem”, onde o dava como anjo-torto, encarregado por Nossa Senhora da Conceição de estabelecer as fundações de Ceará-Mirim.

Perdi um amigo e um companheiro de divagações e inquietações. Perdi um contendor leal a precioso, culto e coerente com as questões de princípios que adotou, alguém que fazia diferença na cosntrução de uma convivência democrática da diversidade político-ideológico.

Ceará-Mirim e o Rio Grande do Norte perderam a sua maior expressão literária. Os humanistas, um dos seus mais renitentes retratistas e ativistas Verônica e os seus filhos, um companheiro e um pai devotado.

Que Nossa Senhora da Conceição o receba como seu acólito e o recomende ao seu filho para que ele tenha um brevíssimo estágio, pois já chegou preparado, e retorne logo a esse nosso plano para completar a sua missão.

OBS – Deixou-me o encargo de editar o seu livro de poesias “Musa Cafuza”, pois era um bom poeta embora se confessasse “intruso” nesse gênero.

Natal, madrugada de segunda –feira, 20.06.11

Pedro Simões

sábado, 18 de junho de 2011

COLOQUIO CULTURAL



Caro(a) Amigo(a):

A parceria constituída pela poetisa cearamirinense e divulgadora cultural CEICINHA CÂMARA (membro da SPVA-RN e Poetas del Mundo), pela CÂMARA MUNICIPAL DE VILA DO BISPO, pela JUNTA DE FREGUESIA DE VILA DO BISPO e pela ADC-ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA E CULTURAL DE VILA DO BISPO leva ao vosso conhecimento a realização do "COLÓQUIO CULTURAL: TRÊS TEMAS - TRÊS AUTORES", com os palestrantes: Dr. Rubens Azevedo/RN-Brasil; Dra. Selam Calazans/Rio de Janeiro-Brasil; e Dr. Carlos Morais/Lisboa-Portugal, que será realizado no dia 20 de Junho de 2011 (próxima Segunda) pelas 20:00, no Auditório do Centro Cultural de Vila do Bispo. Este evento será a concretização do intercâmbio cultural entre BRASIL (Ceará-Mirim/RN) e PORTUGAL (Vila do Bispo/Algarve), feito pela poetisa CEICINHA CÂMARA, cidadã brasileira, radicada em Portugal.

Portanto, peço apoio de divulgação. Para isto, envio cartaz em anexo e imagens dos logotipos dos patrocinadores: Restaurante Solar do Perceve (onde a Ceicinha trabalha); Ourivesaria Luz; Restaurante Ribeira do Poço; e o Hotel Mira Sagres (onde os palestrantes vão se hospedar). E os logotipos dos apoiantes: SPVA; Poetas del Mundo; Câmara Municipal de Vila do Bispo; Junta de Freguesia de Vila do Bispo e ADC-Vila do Bispo. Eles merecem ser divulgados, por acreditarem nesta minha iniciativa e apoiarem a CULTURA. Por favor, repasse esta mensagem aos seus amigos e aos que puderem comparecer, serão bem vindos.

Agradeço antecipadamente,

CEICINHA CÂMARA

Organizadora do Evento

-De Ceará-Mirim/Rio Grande do Norte/Nordeste Brasileiro.
-Radicada atualmente em Vila do Bispo/Algarve/Portugal.
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_europa.asp?ID=6981

quinta-feira, 9 de junho de 2011

AO AMIGO QUE PARTIIU: ZÉ BARACHO




Ao amigo que partiu...
Sabe amigo, já se vão muitos anos, talvez, poucos, para você que viveu 81. São, na verdade, doze anos de convivência e amizade. Nesse curto espaço de tempo aprendi a amá-lo e respeitá-lo como a um pai.
Parece que foi ontem, que me encontrei com você pela primeira vez. Fazia um passeio de bicicleta com meu amigo Mucio Vicente, quando ele convidou-me para visitar Tabuão. Disse que lá havia um mestre de congo, uma dança folclórica... estávamos em 1999. Na época não me interessava pelas coisas da cultura de Ceará-Mirim.


Assim, conheci mestre Tião e ele me apresentou você como embaixador de congo. Sabe companheiro, não tinha ideia que aquele encontro seria o início de uma grande e verdadeira amizade e, também, me direcionaria para um dos mais importantes períodos de minha vida. Foi por vocês que me interessei pelas histórias de nossa gente e resolvi buscar, na pesquisa, os registros de nossas memórias.
Sua figura singela e personalidade forte sempre foi sua principal característica e todas as vezes que íamos para qualquer apresentação você estava lá, às vezes invocado com alguma coisa, porém, fazendo sua parte no brinquedo.



Prisão do embaixador do congo


Não tenho ideia de quantas vezes estivemos juntos, gravando, dançando, brincando, cantando, viajando, tomando conhaque, que importava o tempo, porque, como diz o poeta Alceu: “ele se dilata como um fio, elástico, caminho, estrada que nos transporta... E a gente segue o tempo e ninguém nota, seus caminhos, suas rotas, por onde o tempo seguiu”.
De repente o fim do caminhar e aí, a despedida certa, de uma realidade viva entre tantos bem-quereres, mas, a vida continua, e nos restam as reminiscências, como diz o profeta: “que vosso presente abrace o passado com nostalgia e o futuro com ânsia e carinho”.
Tenho na lembrança alguns retalhos de nossas andanças nos caminhos da cultura. Lembra da apresentação na cidade de Pureza? Andamos entre ruas e becos a procura daquelas bodegas onde encontraríamos o néctar mágico...Ufa, até que enfim vencemos o desafio e a noite foi maravilhosa!



Mestre Tião - Professor Deífilo Gurgel e Mestre Zé Baracho


Naquele dia na cidade de Pureza, mais uma vez, você surpreendeu a todos os presentes, quando na sua fala, recitou um poema improvisado, e nele, cantou e contou a história da cidade desde seu primeiro nome que se chamava Pau Darco...Aprendi mais uma naquela noite! Assim, fui digerindo todos os seus conhecimentos e, certamente, os levarei por toda minha vida e, enquanto eu tiver oportunidade, os repassarei para as futuras gerações, senão eu, mas o farei, através destes modestos escritos, que estão fluindo de dentro de minha alma.

Apresentação de Mestre Zé Baracho - Fórum Social Nordestino de 2004 - Recipe/PE

Um dos momentos mais importantes de nossa caminhada foi no Fórum Social Nordestino em 2004, na cidade de Recife. Apresentávamos a história do Congo de Guerra para uma grande plateia e, na sua fala, você perguntou aos pernambucanos se sabiam o porquê do nome Pernambuco? Eles não responderam e você falou sobre Joaquim Nabuco e, em seguida, nos presenteou com um hino tradicional de Olinda ou Leão do Norte: “os caminhos congressos sagrados, Pernambuco seguiu varonil...Recife te vê lado a lado....Na pedra onde reza o Brasil... És tu Leão, Leão do Norte...” No final, a plateia cantando o refrão Leão do Norte, o aplaudiu de pé. Foi emocionante vê-los eufóricos e felizes, porque, um potiguar estava ali, lhes ensinando um hino tradicional, que a maioria não conhecia.
Foram muitos momentos de emoção, é impossível mensurá-los, pois, faltariam linhas para descrevê-los. Um deles foi quando gravávamos uma entrevista e você cantou o romance de Dom Jorge! Fiquei encantado com sua lembrança, pois, aquele romance era cantado pelos menestréis na Idade Média e, você, estava lá, contando a história através da música: “Que que tu tem Juliana, que estás tão triste a chorar....minha mãe eu soube ontem que dom Jorge ia se casar...”.




Mestre Tião e Mestre Zé Baracho - a última vez que o vi


Nosso último encontro foi no aniversário de Mestre Tião, no domingo, 15 de maio, quando comemorava seus 97 anos. A lembrança mais recente sua, foi quando mestre Tião, tocava seu surrado pé de bode, uma acordeon de oito baixos, e cantávamos juntos a música de entrada do Congo de Guerra: nas horas de Deus amém...é padre filho e espírito santo... essa é a primeira cantiga, que nessa casa eu canto...
É madrugada e estou congelando de frio, vez em quando, entra um fio de cruviana que passa soprando suavemente, a sensação é boa e ajuda a escrever essas mal-traçadas linhas. Meu pensamento projeta quadros cinematográficos que passam velozmente deixando registrados na memória todos nossos momentos juntos...estou muito emocionado e no silêncio da sala reflito o quanto você foi importante para mim.
Vou me finalisar com um trecho da despedida do profeta de Gibran:


“Adeus, povo de Orphalese.
O dia já se foi.
E está se cerrando sobre nós, como o nenúfar se cerra sobre seu próprio amanhã. O que aqui nos foi dado, nós o conservaremos. Mais um curto instante e minha nostalgia começará a recolher argila e espuma para um novo corpo. Mais um curto instante, mais um descanso rápido sobre o vento, e outra mulher me conceberá.
Meu adeus a vós e à Juventude que passei entre vós. Foi somente ontem que nos encontramos num sonho. Cantastes para mim na minha solidão, e eu, com vossas aspirações, construí uma torre no céu. Mas agora, nosso sono fugiu, e nosso sonho desvaneceu-se, e já não é mais a aurora.
O meio-dia nos abrasa, e nossa sonolência transformou-se em pleno despertar, e devemos nos separar. Se nos encontrarmos outra vez no crepúsculo da memória, conversaremos de novo e cantareis para mim uma canção mais profunda.
E se nossas mãos se encontrarem noutro sonho, construiremos mais uma torre no céu."

É isso meu querido mestre, sua hora chegou. Que Deus o tenha em seus domínios eternos e, de onde você estiver, olhe por aqueles que aqui ficaram lutando pelo reconhecimento e fortalecimento de nossa cultura popular.
AVE, AVE, MESTRE ZÉ BARACHO!!!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GENERAL JOÃO VARELA



O General de Brigada João da Fonseca Varela, nasceu em Ceará-Mirim, em 2 de dezembro de 1850 e morreu em Natal, aos 81 anos completos, no mesmo mês do nascimento, dia 12, em 1931.
Herói da Guerra do Paraguai, último comandante da Fortaleza dos Reis Magos, Chefe de Policia (equivalente a Secretário de Segurança) e abolicionista, foi promovido a general por ato do Presidente Epitácio Pessoa. Recebeu inúmeras distinções, entre elas a Medalha de Bravura Militar, as Medalhas das Imperiais Ordens de Cristo e da Rosa e a da Campanha do Paraguai.
Homem de muita bravura, civismo (alistou-se para a campanha do Paraguai quando tinha apenas 16 anos) e integridade moral, é motivo de orgulho para a sua cidade de nascimento e para o próprio Rio Grande do Norte e um estímulo para os seus descendentes e conterrâneos.
Nenhuma voz é mais credenciada do que a de Câmara Cascudo que a ele dedicou uma de suas Acta Diurna, publicada em 2 de julho de 1943(*):
“O Presidente Epitácio Pessoa pelo Decreto 3.958, de 24 de dezembro de 1919, conferiu aos oficiais veteranos da Campanha do Paraguai as honras de General de Brigada.
Por isso João da Fonseca Varela era o General Varela.
Recordo-o com saudade. Ato, forte, claro, a longa barba branca descendo para um busto de atleta, parecia um daqueles boers do Transval, soldados natos e comandantes desde o batizado.
Cercava-o um halo de veneração irresistível. A onda nacionalista, deflagrada por Olavo Bilac, encontrava no velho Varela um centro de atração para o nosso entusiasmo.
Em todas as festas militares ou civis onde houvesse multidão, estava presente o veterano do Paraguai, possante, sereno, fardado, o peito coberto de condecorações.
Quando as bandas executavam o hino nacional em continência à bandeira ele tirava o boné da cabeça e ficava hirto. Não fazia continência à bandeira da República porque não era a sua, a de Caxias, Osório, Porto Alegre e Pelotas, seus ídolos.
Disciplinado, saudava apenas a bandeira de sua Pátria.
Republicano na Monarquia, era monarquista na república. Monarquista platônico, respeitador das leis, lembrando sempre o imperador.
Nascera num aniversário de D. Pedro II, 2 de dezembro de 1850. Com dezesseis anos, fugindo de casa, alistou-se voluntário para a guerra contra o ditador Francisco Solano Lopez, o tiranillo do Paraguai, a 9 de março de 1865.
Seguiu no 28º Batalhão até S. Borja, onde este se dissolveu, comandado pelo norte-rio-grandense José da Costa Vilar. Incorporou-se ao 36º de Voluntários da Pátria. Alferes, passou para o 36º e depois para o 48º Batalhão e foi extinto depois de Avaí.
Varela ficou adido ao 2º batalhão de Infantaria e posteriormente ao 18º.
Bateu-se em Avaí, em Curuzu, em Curupaiti, na ponte de Itororó, em Humaitá, na batalha-modelo de Lomas Valentinas.
(...)
Feita a paz voltou a Natal e regressou ao Exército, sendo alferes efetivo.
(...)
No Rio Grande do Norte teve várias comissões, todas militares. Comandou a Fortaleza dos Reis Magos, em 1888. Ingressou no Corpo Policial da Província, sendo capitão e o seu comandante. Enfrentou, em diligências ásperas, os cangaceiros no interior norte-rio-grandense e paraibano.”
O notável Mestre de todos os norte-rio-grandenses ainda relata que o general vira Caxias, Osório, Porto Alegre, Pelotas e Fernando Machado, seus heróis, nos acampamentos e nos campos de batalha, cada qual com a sua característica, todos, entretanto, bravos guerreiros.
DIZ AINDA O GRANDE HISTORIADOR POTIGUAR QUE DIAS ANTES DE MORRER, ERGUENDO-SE COM MUITA DIFICULDADE, O VELHO GENERAL FARDOU-SE E FOI À PRAÇA PEDRO II (HOJE JOÃO TIBÚRCIO), ONDE SE ERGUIA O BUSTO DO IMPERADOR. DIANTE DO BUSTO, PERFILOU-SE, BATEU UMA CONTINÊNCIA E VOLTOU PARA CASA. PARA MORRER.

(*) – Cascudo, Luis da Câmara – “O livro das velhas figuras” – IHGRGN. 1976 (pgs. 84/86)

Fonte: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1391412562442&set=a.1298548760905.32674.1745986839&type=1&ref=notif¬if_t=photo_comment#!/photo.php?fbid=219759128042982&set=a.192837620735133.47892.100000266882272&type=1&theater

domingo, 29 de maio de 2011

Apresentação das: Banda de Música Tenente Djalma Ribeiro, Escola de Música Márcia Pires e Coral Araraú.

Realização da Fundação Nilo Pereira em parceria com os maestro Kleber Jonatan e Marcos Machado.

O evento aconteceu na Praça Barão de Ceará-Mirim em dezembro de 2007.

Esperem o vídeo abrir porque vale a pena!

http://www.youtube.com/watch?v=wTas_dG9_K0&feature=mfu_in_order&list=UL

domingo, 22 de maio de 2011

RENDEIRAS DE JACUMÃ


Eu entregando a revista Preá sobre Ceará-Mirim em que saiu reportagem sobre as rendeiras.

RENDEIRAS DE JACUMÃ - tradição das praias de Ceará-Mirim. Arte transmitida de geração a geração. As rendas produzidas em Muriu e jacumã, no passado, sustentavam as famílias das artesãs. Elas voltaram à atividade em 2003 e, atualmente, as mais velhas, se encantaram, restam apenas sete artesãs produzindo renda. É uma preocupação porque não há incentivo para atrair as mais jovens no sentido de aprender as técnicas.
É emocionante o depoimento de Marta quando diz que ama aquele ofício e fica muito triste porque tem certeza que a renda se acabará em nossas praias uma vez que elas não poderão repassar sua sabedoria às novas gerações. Marta além de confeccionar a renda, cria todos os desenhos... É uma artesã completa. É importante o poder público olhar com carinho para as rendeiras de Jacumã. Vamos pensar em incentivos para a Associação e, assim, elas possam ensinar as jovens da comunidade.
Por que não associar as rendeiras de Jacumã à produção artística do saudoso Mestre Etevaldo? As rendeiras de cerâmica do Mestre correram o mundo. Ele foi premiado com suas rendeiras em todas as feiras de artesanato que participou. Vamos fazer o marketing cultural do município com as rendeiras, assim, como o galo de São Gonçalo, o Cristo Redentor no RJ, O Laçador Gaúcho no RS.
Temos o privilégio de ter várias manifestações populares para escolher como marca de nossa cultura: Cabocolinhos (patrimônio vivo do RN). Mestre Tião (patrimônio vivo do RN), as rendeiras, a obra de Mestre Santana, entre outras. Porém, na minha humilde opinião, as rendeiras de mestre Etevaldo seria a principal delas. Os filhos do mestre, Edvonaldo e Edvaldo, continuam a produção das rendeiras herdadas pelo pai.
No restaurante Naf Naf há uma loja de artesanato e os produtos expostos são oriundos de outros estados do Nordeste. Por que não há obras de nosso Santana e dos meninos de Mestre Etevaldo lá??? Ambos, Santana e Etevaldo estão entre os mais importantes do Estado do RN. Santana inclusive representará Ceará-Mirim e o RN em São Paulo no mês de julho. Fica o questionamento para reflexão.
Quem se interessar em conhecer a Associação das Rendeiras de Jacumã, ela está instalada na Praia de Jacumã. A comercialização das rendas é feita no Restaurante Naf Naf do empresário Jessé que gentilmente cedeu um espaço para onde as rendeiras vendem e confeccionam para os turistas que lá frequentam diariamente. Valeu Jessé, são atitudes como esta que precisamos seguir para fortalecer e preservar nossas tradições culturais.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AUTOESTIMA

Minha primeira leitura hoje pela manhã foi a crônica de meu amigo Pedro Simões: AUTOESTIMA. Refleti bastante a respeito do que o mestre escreveu e, por coincidência, estava super indignado com algumas situações que acontecem em nossa província baquipeana:
Por exemplo:
1. Os servidores se dirigem ao Banco do Brasil ou Caixa Econômica e não conseguem retirar o salário porque não há dinheiro nos caixas eletrônicos. Esse final de semana o Banco do Brasil não tinham abastecido os caixas. Muitos clientes reclamavam à saída do Banco. Felizmente (ou não) nós somos pessoas “muito conformadas” e pacatos cidadãos.
2. Em pleno século XXI, regredimos ao início do século XX quando foi inaugurada a Agência dos Correios em Ceará-Mirim. Para receber correspondências temos que nos dirigir a um anexo (muito apertado e quente) do correio e enfrentar enorme fila, para receber as correspondências. Isso acontecia no incío da implantação dos Correios em Ceará-Mirim. Como ficam os pagamentos que vêm pelo Correio e chegam com atrasos? Nós que temos que pagar as multas. Há poucos carteiros para uma população “urbana” de mais ou menos 40 mil habitantes!
3. Não precisa citar os outros absurdos que acontecem pelo país, principalmente, entre àqueles que deveriam dar exemplos de cidadania, como os políticos e gestores.
4. Até quando suportaremos essa malvada larva???
Apesar de tudo isso concordo com Pedro. Devemos amar as cores da Bandeira, ter orgulho de ser Cearamirinense, Potiguar, Nordestino e Brasileiro.

Pedro Simões


AUTOESTIMA – Deveríamos ampliar a nossa justificável meta de auto-valorização. Que ela não se restrinja apenas à nossa individualidade, mas alcance também os valores que compõem a nossa identidade, à nossa personalidade, que nos fazem ser o que somos. Exemplo: temos o hábito de apequenar, senão ridicularizar aquilo que nos cerca – nos...sa cidade, nossa região, e em última escala, o nosso país. O que é fruto da nossa cultura, natalense, potiguar ou nordestina, é desprezível, salvo se reverberar do eixo do sul maravilha ou do exterior.
Lambo os beiços com o hábito dos americanos de se sentirem apenas o máximo por sua nacionalidade. Usar as cores nacionais e a própria bandeira e de gabarem a sua superioridade. Do seu civismo em relação à defesa nacional e à adoção do “american way of life”, sem se preocupar se é ou não politicamente correta a sua opção: ela é americana? Então é boa e me convém.
Fico pensando que tenho dois orgulhos bem próximos de mim: Ceará-Mirim e Natal. A cidadezinha salpicada de verde, azul e amarelo que guarda num relicário a minha infância e juventude. E a capital do meu estado, com as mais belas praias do mundo, um povo cosmopolita e hospitaleiro que nunca perdeu o ar provinciano, marca que deve ser computada como vantagem, já que os “metropolitanos” se tornaram impessoais e robóticos. Um amigo de São Paulo que se mudou para cá me dizia que a vantagem dos potiguares sobre os paulistas, além das evidentes opções de qualidade de vida, era o modo com que nós “familiarizavamos” as personalidades públicas. Que aqui, à moda norte-rio-grandense, ele aprendeu a tratar com pessoas e não com instituições.
À época dizia que falava com “Gueire” (Garibaldi) e não com o governador, por exemplo. Aqui, comprava fiado na mercearia da esquina e recebia em sua casa os passarinhos, os vizinhos e amizades adquiridas instantaneamente. Na sua cidade, morou dez anos num apartamento e nunca se relacionou com o vizinho, a quem apenas cumprimentava no elevador.
Há uma coisa que lugar algum pode superar o nosso: o acervo de memórias e os testemunhos existenciais da nossa vida. E outra coisa: as provas e referências da nossa identidade.
Tenho muito orgulho de ser brasileiro, jamais pensei em ter outra nacionalidade. Cresço com o país – e como já cresci! – e tenho certeza de que os meus netos herdarão uma pátria notável, poderosa e magnânima, comprometida com a justiça social. Orgulho-me de ter dupla cidadania: cearamirinense e natalense, embora mon coeur balance pour Ceará-Mirim. E, finalmente, tenho um orgulho superlativo por ter sido nordestinado. Não recebo essa destinação como fatalidade, mas como benção, pois desde criança me assumi um lutador, aquele que viabiliza a própria sobrevivência tirando leite de pedras.
Tenho autoestima cívica também, não apenas pessoal. Por isso, não me sinto diminuído quando meus filhos e netos, entre zombeteiros e carinhosos, me tratam de “careca”, “gordo” ou “velho”. Porque, além de me saber bem conformado nos padrões individuais de medianos para superiores, sou cearamirinense, norte-rio-grandense, nordestino e brasileiro – nesta ordem. Uma glória.

ADEUS, BELO ANJO!!!

Maria da Conceição - 97 anos de cultura popular - Belo Anjo do Pastoril


Hoje o dia amanheceu triste, o ar ficou pesado, as nuvens enegrecidas e carregadas, simbolizavam luto pelo encantamento da amiga Maria da Conceição de Brito (97 anos), avó de Neto do grupo Renovação, Ela era o Belo Anjo do Pastoril. São nossos patrimônios culturais que estão cumprindo sua meta entre nós, pobres e incompreensíveis mortais.
Em agosto de 2010 escrevi no blog a respeito de Dona Maria. E, na oportunidade, solicitava as autoridades públicas a atenção para a valorização de nossas figuras populares. Personalidades que representam a memória de nossa cidade, suas tradições, suas histórias e estórias. Era necessário um olhar responsável para que pudéssemos revitalizar e valorizar as manifestações tradicionais que ainda resistiam à extinção.
Infelizmente, até o momento, nada foi feito, para que realizassem ações que ajudassem aos grupos populares e, aos atores culturais do município. Estamos prestes a sediar uma Copa do Mundo e ninguém ouve falar nada a respeito. Como vamos receber turistas que, certamente, virão conhecer a cidade com seus casarios imperiais e seus engenhos aristocráticos?
Meus sentimentos à família de Dona Maria da Conceição, em nome de todos, que como ela, lutam pela preservação e valorização de nossas tradições populares e, oremos, para que de onde ela estiver, possa nos proteger ajudando àqueles responsáveis pelas políticas públicas locais para que eles sejam, sensíveis e aprendam a valorizar e amar esta Ceará-Mirim tão castigada e esquecida.

Segue o texto que publiquei no blog em agosto/2010:



Gibson Machado e Maria da Conceição - O Belo Anjo

Sempre que falamos sobre cultura, sua preservação, sua valorização, o assunto se torna repetitivo, e, algumas vezes, inibe certas discussões em torno do tema.
Tenho falado frequentemente a respeito do cuidado que precisamos ter para manter preservadas as tradições de nossa gente e, de certa forma, proteger os patrimônios, sejam material ou imaterial, não importa, é preciso fazer alguma coisa, porque os mestres estão morrendo e não têm como passar seus conhecimentos para as futuras gerações.
O trabalho que faço na tentativa de, pelo menos, registrar as manifestações populares e as memórias dos anciões, guardiões de nossa história, é muito fragilizado, pois é impossível realizar as pesquisas e fazer os devidos registros, uma vez que o custo é alto e o tempo não é suficiente.
É necessário que o poder público tome alguma atitude nesse sentido, enquanto ainda restam, alguns mestres de nossa cultura popular, vivos e em condições de repassar seus conhecimentos.
Eu sei que há muitas dificuldades para a administração, mas, provavelmente, se todos os poderes públicos se unissem, seria possível encontrar soluções para esta grave situação.
Segunda-feira, 02 de agosto, a matriarca da família Brito, Dona Maria da Conceição de Brito, 96 anos, deu o maior susto nos familiares quando teve uma indisposição. Na idade que ela está qualquer problema de saúde, é muito preocupante. Dona Maria é avó de Neto, coordenador do grupo Renovação, e sempre esteve envolvida com a cultura popular do município, Ultimamente, era a personagem “Belo Anjo” do Pastoril, cuja mestra era Dona Maria do Carmo, que por sinal, mudou-se da cidade porque não encontrava apoio para continuar brincando com suas pastoras.
A última apresentação de Dona Maria da Conceição – O Belo Anjo do Pastoril - foi em 2007 quando nos apresentamos no Centro Esportivo e Cultural durante o encontro do Projeto Vida Nova, criado por mim e voltado para a terceira idade. Penso que aquela foi sua última apresentação no grupo e felizmente filmamos e fotografamos todos os eventos.

Pastoril - apresentação no Vida Nova

É por isso que são necessárias ações de governo que revitalizem, preservem e protejam esses mestres da cultura popular, pois, são evidentes suas fragilidades e, enquanto é tempo, precisamos fazê-los repassar seus conhecimentos às novas e futuras gerações, uma vez que já estamos lutando contra o avançado estágio de vida dos mestres, a exemplo de Dona Maria da Conceição, Zé Baracho, Luiz de Julia, Cícero Américo (palhaço do pastoril) e tantos outros anônimos que precisam ser descobertos e protegidos do esquecimento.



Cícero Américo - Palhaço do Pastoril

Tenho Saudade do Pastoril de Dona Maria do Carmo. Estivemos juntos em várias apresentações aqui em Ceará-Mirim e em outras cidades do estado. Parece que estou vendo sua emoção quando a levei para gravar as músicas do brinquedo no estúdio. Ela estava muito feliz porque sabia que todo seu esforço estava gravado e ela poderia morrer tranquila, pois, pelo menos, o registro das músicas estava garantido.


Mestra Maria do Carmo e Gibson Machado

Infelizmente o Pastoril conduzido pela família Américo está desativado e restam algumas pastoras que resistem e estão tentando manter a dança folclórica com as músicas gravadas por mim em estúdio. Espero que o grupo coordenado pelo professor Renato Brandão tenha êxito para manter-se em atividade e estarei sempre disposto a contribuir para que nossas pastoras e brincantes se mantenham vivos.

domingo, 1 de maio de 2011

DOMINGO ENSOLARADO

Panorâmica da antiga Pracinha Barão de Ceará-Mirim.


No centro a inesquecível sorveteria de José Bonifácio - demolida pelo ex-prefeito Edgar Varella


O amigo Pedro Simões continua seus ensinamentos... são importantes situações que nos faz refletir a respeito do amor à nossa terra. Suas crônicas despertam um sentimento de pertença que, na maioria das vezes, hibernam e, de repente, são eclodidos em busca de um horizonte "perdido".

Sua crônica "Domingueiras" me fez voltar ao passado e escrever algumas lembranças da infância.

Fonte da crônica:



Crônica de Pedro:

QUE FAZER DESSE SOL DOMINGUEIRO VERANEADO?

DOMINGUEIRAS (01.05.11)
Já acordo no domingo procurando o meu cavalo branco (não o uísque, mas o animal) selado e arreado no terreiro de casa, pra me danar pelos ocos do mundo. Quando estou bem desperto descubro que estou em plena selva de concreto e asfalto, mesmo que algumas árvores dos cant...eiros da rua me remetam para o quintal do casarão de Ceará-Mirim. Fazer o que?
Vou para o meu “aquário”, um mirante que me expõe as ruas próximas e as dunas distantes, e encho os olhos de paisagens e de sonhos.
Um cachorro deposita os seus restos de lixo na calçada, e me lembro que quando criança nós entrelaçávamos os dedos indicadores e num repente, os excrementos do animal não fluíam mais, ficavam como que congelados entre o orifício e o espaço. Até que alguma senhora bondosa, numa zanga bem humorada nos fazia descruzar os dedos. E “plaft”, o sólido era atraído pela gravidade e se espatifava no chão.
A caminho do escritório, um sol veraneado e domingueiro me anima a tirar os óculos para captar de modo natural, sem anteparos, o mundo que me rodeia. É quando descubro um casal(?) de Galos de Campina. São velhos conhecidos. Quase sempre os encontro, no mesmo horário – entre 6 e 6.30 – bicando ciscos no chão.
Por isso tomei a decisão de sair todas as manhãs com a máquina fotográfica e nunca consegui flagrá-los, pois eles fogem tão logo me aproxime. Hoje tomei mais cuidado e fui me esgueirando pelo muro, sorrateiro, caviloso, dissimulado, e consegui chegar a uma distância que julguei suficiente para produzir uma obra de arte.
O sol no meu visor confundiu as imagens. E a minha visão, já cansada de 67 anos de “voyeurismo” existencial, sem os óculos, e com o olho direito aguardando o momento da cirurgia da catarata, completou o registro das dificuldades. Disparei o botão pedindo a Deus um milagre.
(Quando cheguei ao escritório e fui conferir as imagens, descobri que três das fotos esqueceram os pássaros e das três restantes, apenas uma distinguia as duas aves um exercício de adivinha. Estou decido a tratá-las no Photoshop para não admitir a derrota.)
A chave do cadeado escapuliu-me da mão e se projetou entre as grades do portão, caindo entre hibiscos do jardim da entrada. O portão impediu-me de recuperá-las. Pular o muro, nem pensar, com a cerca elétrica em funcionamento. Liguei para casa pedindo a duplicata e alguns minutos depois pude afinal entrar no meu refúgio.
Meu escritório é um caso à parte. É uma pequena construção térrea, composta por três peças: sala de estar/espera, sala de trabalho e banheiro. São apenas 40m² de área construída. Uma verdadeira caixa de Pandorra. Onde deveria ser a sala de espera, é também serventia de livros acondicionados em caixas de papelão e alguns equipamentos da antiga loja de artigos personalizados de minha mulher.
A sala de trabalho comporta a minha mesa de vidro em forma de “L”; três impressoras, um notebook e um computador de três módulos; duas poltronas azuis enormes; uma escrivaninha das antigas, integrante de um conjunto que inclui um divã em madeira e vime; uma mesa de reuniões com quatro cadeiras de vime; frigobar, som, estantes, estantes e estantes, livros, livros e livros.
Uma pequena pinacoteca com reproduções de Portinari (cangaceiros, instrumentistas e meninos caçadores e vendedores de pássaros); imagens de casarões e ruínas de Ceará-Mirim; e diplomas, títulos, medalhas. Um São Francisco de Assis Marinho e muitos gaveteiros.
É aqui que componho as minhas escrituras, reúno os amigos e atendo eventuais clientes.
Sentado diante do computador teclo essa crônica com o pensamento distante, embaralhando o que escrevo. Como estará Ceará-Mirim nesse dia de sol? Onde estaria no Ceará-Mirim o menino descalço, sem camisa, de calças curtas, mundo pequeno, curiosidade enorme, esperanças muitas, sonhos ilimitados?
Não sou lamurioso, nem vivo ancorado no passado. Sou homem contemporâneo, ajustado, tolerante, sem preconceitos. Mas que os domingos de sol veraneados são sumidouros de memórias, isso são...
Vou aguardar mais algum tempo para saborear um velho (Old) e honesto Parr e assuntar com os amigos e a família à beira da piscínica, os muitos ufanos da terra Brasílica, beijada pelo sol e pela brisa que balança a palha dos coqueiros e assanha os cabelos das morenas.
Que cada um reencontre o seu Ceará-Mirim.
Bom domingo.


Não me contive e, felizmente, pude escrever alguns retalhos da lembrança na tentativa de encontrar o meu Ceará-Mirim:

Amigo Pedro,
Menino em Ceará-Mirim, no meu tempo, bem próximo do seu, anos 1970, de pés descalços, estaria, nesse domingo, provavelmente em vários lugares imaginários e reais naquele tempo.
Normalmente, pelas 8 horas, a “fileira” de meninos fazia um cordão barulhento a caminho da residência de Antônio Potengi e Dona Ambrosina, nosso inesquecível Sítio do Pica-pau Amarelo. Nos finais de semana estaríamos jogando bola no campinho de Manoelzinho (do cartório) e seu irmão Carlos Gusmão. Certamente não existiam ali figuras mitológicas encantadas, mas, havia personagens inesquecíveis, atores de constantes batalhas futebolísticas interrompidas pelos xingamentos às mães e trocas de bofetes.
Quando não tinha futebol, como Pedrinho, Emília e Narizinho, brincávamos sobre as árvores ou correndo pelo sítio, e, muitas vezes, ficávamos sobre o “embuzeiro do sertão” pensando nas imaginárias namoradas do Instituto Imaculada Conceição.
Quem sabe, estaríamos, uma “reca” de meninos, brincando de “mãos para o alto” ou guerra de baladeiras cuja munição eram carrapateriras, no sítio da maternidade ou no Seu Antonio Ferreira, chefe da Estação Ferroviária.
Domingo ensolarado, é um dia perfeito para descer ao rio dos homens, rio do balão, brincadeiras de tica-tica no rio, pegar piabas em garrafas cheia de farinha, ou então, aproveitar o sol e sair matando “cobra rainha” com baladeira... Capturar muçuns nas locas do rio e, depois, arriscar um “roubo de cana” nos “partidos” da usina São Francisco, correndo o risco de ser pego pelos vigias.
Muitas são as atividades “traquinas” de nossa meninice, quando o domingo era dia chuvoso, aí sim, a programação era especial, se deitar nas enxurradas que desciam a ladeira do Patu e tirar as enquizilas nas águas que desciam das fortes “bicas” da casa de Seu Ozéias Araújo, famoso enfermeiro de nossa Ceará-Mirim ou então, banhar-se no olheiro, observando o vai-e-vem dos carros pipas que vendiam água na cidade.

Rua São José - hoje Manoel Varela - ao longe, a direita - a mangueira centenária de Dona Celina


Mas, falando de seu casarão na rua São José, (casa de Dr. Pedro Simões – era assim que a chamávamos – no tempo que morou por lá um rapaz chamado Aguiar) morei em frente, pelos idos de 1972, e, quando não havia ninguém na casa, pulávamos o muro, e nos deliciava com os suculentos Cajás, e muitas outras frutas que existiam no quintal. O pé de Cajá, para mim, era o mapa do Rio Grande do Norte, muito frondoso. Não lembro se cortaram a árvore, mas, parece que ainda sobrevive a nossa meninice, como a Mangueira Rosa de Dona Celina...firme e poderosa contando nossa história.
São apenas lembranças... Nossas peraltices infanto-juvenis passaram, mas a memória permanece viva pronta para viagens sentimentais e românticas.


É isso... um bom domingo ensolarado e chuvoso!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

BAÚ DE NOTÍCIAS

Ceará-Mirim, ao longo e sua história, sempre esteve envolvida com assuntos polêmicos que desagradavam a população. A imprensa procurava injetar palavras de estímulos aos concidadãos através de artigos que infamavam o ego e a auto-estima de seus leitores. Assim, garimpando meus arquivos, encontrei algumas dessas pérolas publicadas na Folha do Valle na década de 1930.

FOLHA DO VALLE ANNO 1 – HEBDOMADARIO DE LETRAS E NOTÍCIAS – NÚMERO 6 RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM, 31 DE MARÇO DE 1935


CEARÁ-MIRIM, ACORDA!


Ceará-Mirim já teve a sua época áurea de progresso material e intelectual. Em tempos idos, a cidade verde era uma affirmação de vida e de esforço de seu povo. Hoje, resta apenas, das recordações mais próximas, a tristeza do passado. A voragem do tempo já matou no coração dos filhos da gleba ubérrima, crostada pelos raios do sol tropical, a fé gloriosa nos seus destinos. Enquanto a população desiludida de melhoramentos se entrega aos seus quotidiannos affazeres, a terra verde alheia à sua própria sorte ...(texto ilegível) – a última esperança de seu sonho, de sua ilusão. Ceará-Mirim, acorda! Desperta dessa lethargia que te mata. Dize àqueles a quem criastes e alimentastes, que elles são os exclusivos culpados de tua decadência actual. Ensinaios a ser dynamicos e idealistas. É preciso, para tua completa rehabilitação no conceito dos centros adiantados, que não persistam as rotinas archaicas, a indifferença criminosa pelos elevados emprehendimentos, as (...) intestinas que não constroem, a prepponderância desaggregadora dos elementos alienígenas e a violentíssima e cruel hostilização dos legítimos rebentos do teu solo. Pobre cidade triste! Não passarás de uma vasta necrópole solitária e branca, onde mãos humanas e más plantaram as primeiras sementes do egoísmo e do pessimismo que teem desgraçado os homens.


“Aluizio Macedônio”

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ESTÓRIA DE OITIVA DA FEIRA DO CEARÁ-MIRIM



ESTÓRIA DE OITIVA DA FEIRA DO CEARÁ-MIRIM

Bartolomeu Correia de Melo


“Diz-que sucedeu nos meados dos oitocentos...” Assim começava meu avô, Joca Correia, recontando antigas estórias de paz e fartura, ouvidas quando inda menino, nos serões de debulha na Várzea de Dentro. Se bem que, no aqui-acolá da narração, tais singelos contares algum pouco destoassem dos livros de agora, nunca chegariam à desfeita de desmentir a sisudez da história. E assim como os antigos aconteceres do lugar sempre entretinham nossa gente, decerto que hoje agradariam a ilustres visitantes. “Boca da Mata era o nome da briosa vila, de poucas ruas banguelas e casario desigual. Naquele tempo, ainda não passava o trem; passava um rio salobro, correndo entre as carnaúbas, chamado Ceará-Mirim. De começo, aquele par de ruas em cruz, marcando dois caminhos; um do mar e outro do sertão. A via mais estreita - depois batizada São José - subia a beira do vale, em busca da Jacoca; a mais larga, se espraiava no rumo do sol, à direita do rio. Essa dita Rua Grande tinha mais casas do lado de riba, olhando pro verdume das matas que ainda tomavam quase todo vale. Se bem que, no ali-acolá do horizonte, já subiam pardas baforadas, marcando os primeiros engenhos de almanjarra. Carnaubal, Ilha Bela, Porão do Norte, Capela...

Ruínas do engenho Carnaúbal


Mode aumento das almas, pela chegança doutros engenhos, diz-que feirinha acanhada brotou daquela encruzilhada. Isso, debaixo dum pé-de-pau frondoso, quase defronte à bodega dum tal Chico Bernardo. No cedinho dos domingos, depois das rezas no oratório de Sant’Águeda, se botavam naquela sombra alguns taboleiros de engodos e baganas, como doces-secos, roletes-de-cana, alfenins, farinhas-de-castanha... E fativo que também umas poucas bancas de miudezas, coisas de mimo e devoção; medalhas e rosários, velas e fogos de papoco, pra louvar a santa. Com pouco, seu Chico estendia na calçada a mangalheira sortida; de anzol a chocalho, de espoleta a corrimboque, de quicé a ponta-de-linha... Chegavam outros com teréns de palha ou de barro; chapéus e urupemas, botijas e alguidares. Daí apareceram méis-de-abelha, raízes e cascas de chá, azeites de bati e dendê, bajens de ingá e baunilha, passarinhos de cores e de cantos – pois que a mata era rica e generosa. Carnes e couros de caça e criação, peixes frescos, secos e salpresos, trazidos por caboclos praieiros e matutos pras gentes do arruado. E tanto aumentaram as mercancias que findou carecendo estender latada de palha e bambu, pro melhor abrigo de quantas vendagens e vendedores.

Bem faria gosto voltar no tempo e apreciar aquilo tudo. Pois que apontavam cristãos de quantos lados; de Gravatá, Massangana, Itapassaroca e doutras bandas mais diversas e distantes. Montados ou apeados, de charrete ou carro-de-boi, conforme as devidas posses e importâncias. Tirante escravos, crias-de-casa e outros sem-eito-nem-eira, quase todos moradores remediados da vila eram donos dalgum chão de pomar ou roçado. Daí que, na feira desse tempo, por costume de fartura, frutas e verduras quase não se viam; pois que se davam, não se vendiam. E todo-mundo mantinha, nos terreiros e quintais, galinheiros e banquetas de temperos-verdes. Nas cozinhas, pequenos fabricos de velas, sabões, águas-de-cheiro, licores e lambedores, somente pro gasto de casa.


Na feira, pouco se compravam luxos; somente comeres de passadio, misturas sem muitas finuras e aquelas coisinhas de usança e precisão do todo-dia. Moradores e rendeiros vinham comerciar grãos e farinhas (sobras das safras de meia ou terça); além disso, mel-de-furo, açúcar-bruto, aguardente ou rapadura (havidos como pagas das tarefas de eito). Havia ainda os escravos-de-ganho, fazendo biscates de balaiagem ou apregoando a vintém coisinhas de taboleiro. A modo que, quase todos, da rua ou do mato, sempre tinham bens de extração ou fabrico, produtos de plantio ou criação, pra trocar, em moeda ou escambo, por artigos que não podiam ou não sabiam fazer. Apetrechos como fósforos e pólvora, breu e querosene, arreios e ferramentas, botões e colchetes e quaisquer versidades de avios e atavios de gringa feitura.


Inauguração das torres da igreja - 01 de janeiro de 1900


A feira crescia e a vila, mudada em cidade com nome do rio, crescia com ela. A antiga mata se afogando nas ondas dum mar de canas, donde brotavam riquezas e fidalgos; passadas grandezas e presentes nostalgias. Poesia semeada nos nomes dos engenhos - Paraíso, Belo Monte, Verde Nasce, Boa Vista, Primavera... Ergueu-se a matriz e, com ordem e progresso, retirantes se enraizavam, ruas se esgalhavam e a feira florescia todo sábado e domingo.


Houve uma data incerta, mais dita como ano-da-cheia-grande, assim lembrado pelo rol dos desmantelos, quando o rio esborrotou lambendo a feira. Consta que, já nesse então, outros empalhos e pendengas pediam a mudança de lugar. Pois, já bem posta em maior das redondezas, aumentara tomando toda rua e invadira – com sujeiras, malcheiros e xingações - as nobres calçadas dalguns maiorais do lugar. Além do que, por ordens de asseio, carecia melhor resguardo pras carnes e outras comidas tementes a podrura ou azedume.

Nesse quando, ao que parece, por falta de acertos ou recursos, os feirantes e vendeiros demoravam nas carecidas melhorias. Até que um rico-homem, coronel Onofre Soares, se dispôs a construir espaçoso e bem fornido prédio de mercado, entregue no ano de oitocentos e oitenta e um. O lugar escolhido, mais arriba da nascente Rua d’Aurora, ficava perto donde foi erguido o sobrado dos Antunes. Aceiros do povoado, pois que, fazia pouco, acolá fora chão bruto de roça, quase beirando o capão do Cipó, sobejo de mata, do lado sueste. Por vintena d’anos, como contrapartida, o benfeitor gozou usufruto de taxas e alugueres.


Mercado Público de Ceará-Mirim


Debaixo desse bom abrigo ficavam pedras de açougue e peixaria, fardos de charques e avoadores, pontos de leite e queijo, locais de grãos e farinhas, além de bancas de vendagens e merendas. No derredor da larga quadra, logo se abriram mercearias, armazéns de açúcar, lojas de panos e casas doutros negócios. Daí, no grande vão restante, se arrumou, mais limpa e adequada, a nova e esperada feira.


Tempos decorridos, no abrir dos novecentos, chegava ajuda do trem, trazendo moendas e caldeiras modernosas e levando açúcar refinado das usinas. E aqui me esbarro, pois quase que enveredo noutra estória.” Mais de século depois, bem conservado em feição e tradição, o antigo mercado abre portões e corações nas noites de quinta-feira. Pra quem quiser trocar alegria por arte, diversão por cultura ou fazer algum negócio prazeroso, como ganhar amizades e gastar conversa, apreciando a cachaça e as estórias do lugar.



Publicado no livro Ceará-Mirim Tradição, engenho e arte. UFRN/SEBRAE/Prefeitura de Ceará-Mirim - 2005.