sábado, 27 de agosto de 2011

JULIO SENNA E O MEIO AMBIENTE

JULIO SENNA E O MEIO AMBIENTE

 
            Estamos no século XXI e a preocupação atual com relação ao meio ambiente já era denunciada pelo Engenheiro Julio Senna quando fez o mapeamento em Ceará-Mirim a partir dos anos 1930.
            Ele escreveu a respeito do desmatamento de nossas matas em função do plantio da cana-de-açúcar em seu livro Ceará-Mirim exemplo nacional, publicado em 1976.
            De acordo com as palavras de Senna, a partir da pg 259 de Ceará-Mirim - exemplo nacional – vol. I: seria demasiado infantil isolar a ação estrangeira da devastação das florestas nordestinas. O português monocultor tinha aversão às árvores brasileiras, chamando-as de mato ou ainda pé de pau.
            O português gostava de doce, de açúcar e os frutos encontrados eram azedos e contrários ao seu paladar. Maus frutos, árvores más. O senhor do engenho criou medo do ar, do sereno, da água, do sol, da mata. As casas foram fechadas e ficaram sem árvores próximas.
            Circunstâncias desse jaez, aliadas à cultura empírica das queimadas, ao medo dos bichos do mato, ao receio de tocaia indígena, criaram o ambiente da devastação, que se realizou vertiginosamente.
            O negro africano, exaurido do trabalho escravo, procurando adaptar-se à natureza, fugindo à canga patronal, fez do juazeiro ou do oiti o seu teto, a sua sombra, o seu ponto de descanso. E amou a árvore, poupando-a ao sacrifício da morte. E amou o fruto bravio, incluindo-o na sua dietética.
            Enquanto o português trazia a cabra para ajudar a devastação, o guaxinim estragava o canavial; enquanto o machado derrubava a maçaranduba, o pão-de-galinha matava a cana-de-açúcar; enquanto o cavalo penetrava a floresta para recambiá-la à fornalha do engenho, a varejeira o sangrava abrindo enormes buracos; enquanto o escravo madorrento puxava o carro de boi cheio de lenha, a jararaca lhe abocanhava o pé.
            A luta biológica foi um esforço de Hércules. Venceu o mais forte. Cumpriu-se a lei da seleção natural. Caiu a floresta na sua quase totalidade e surgiram os campos e os canaviais. Foi um bem??? “Dolorosa interrogação!”
            A incúria do monocultor não alcançava o desastre das queimadas. Ignorando até o nome das árvores, considerando a mata casa de bichos, reino de miasmas, não fazia mal que o fogo a devorasse.
            Depois de um ano de cultura era necessário buscar outra terra. Aquela estava usada, não prestava mais. Outra queimada, outra devastação.
            A terra sombreada ficou desnuda e seca. A água evaporou-se. É palpável! E ainda existem cegos que negaceiam o valor das matas!
            O corte de lenha tem assumido tais proporções que espantam ao mais precavido observador.
            A vida municipal tem base no combustível vegetal. Possuindo engenhos para o fabrico de açúcar, quase todos a vapor, é a lenha que move as suas máquinas, hoje em número de 36 e outrora 56.
            Ora, cada engenho gasta, em média-baixa, 2.000 metros cúbicos por safra (anual). Em 1845 já possuía o município 43 engenhos e algumas engenhocas. Calculando o gasto de lenha para 45 banguês, desprezando as engenhocas, dessa data até hoje, temos: 8.370.000 m3 de lenha (oito milhões trezentos e setenta mil metros cúbicos).
            Computando o gasto de 5 caieiras a 6.000 m3, temos para 50 anos: 300.000 m3 de lenha. A Estrada Ferro Central, desde 1908, levou aproximadamente 60.000 m3. Somando temos 8.730.000. Acrescentando a lenha fornecida para olarias, beneficiadoras de algodão (2), usina de iluminação, 124 casas de farinha (fornos), fábrica de doce e destilarias, podemos arredondar, folgadamente, para 9.000.000 m3 de lenha.
            A salvação da floresta tem residido no poder vegetativo da catanduba. Esta árvore, cortada abruptamente, depois de quatro anos, já os rebentos estão capazes de novo corte. Nenhum industrial lembrou-se, até hoje, de replantar a catanduba do arisco potiguar.
            Apesar do grande consumo de madeiras, nunca o assunto obteve os cuidados merecidos da administração municipal.
            O fícus benjamim entrou no município como árvore ornamenta, um pouco mais tarde apareceu como árvore de sombra à porta de algumas fazendas.  O africano, trouxe o dendezeiro (Elais guineensis) e o holandês nos doou a pimenta-do-reino (piper nigra).
            A mungubeira andou pelas ruas da cidade e fugiu... não a encontramos na nossa peregrinação municipal. A sensitiva anda junto com o tira-fogo à beira das estradas do vale. Somente assim puderam escapar ao martírio do machado. Para essas duas plantas não encontramos classificação, ou, melhor, nome científico ou botânico. A sensitiva é uma árvore de 4 a 5 metros de altura e de porte muito elegante.
            Ao jenipapeiro, o senhor de engenho declarou guerra. Alguns exemplares ainda existentes estão ao redor de casas de caboclos. A cajazeira somente escapa ao machado quando serve de estaca para cerca. O imbu-cajá, a imburana e o pinhão-bravo são companheiros da cajazeira do stacame os cercados feudais.
            O catolé, pobre palmeira nacional, está relegado ao esquecimento. Entretanto é uma árvore providencial, que produz um fruto bastante apreciado. O coco do catolé produz óleo d primeira ordem.
            Tatajuba, pau-brasil, cedro, existem alguns exemplares, por milagre. Gulandins, só em Manibu, no baixo-vale do Ceará-Mirim. Aroeiras e oiticicas, quase todas roletadas todos os anos, para a fornalha dos engenhos de açúcar. Ainda assim, os anos, permanecem vivas, rebentando como novos brotos.
            Juruparana, árvore amiga do índio, nem mais um exemplar! A sua lembrança nos vem do nome de uma propriedade existente no arisco do baixo-vale. Oiti-trubá, uma doce recordação. Madeiras de lei, já quase não possui o município. O município foi queimado e o dono da terra, o índio, expulso de sua oca.
            O clamor público contra a extinção das espécies florestais de natureza econômica criou um atmosfera de protesto entre as pessoas de responsabilidade do estado. E desse protesto surgiram as leis de proteção para a carnaubeira, para a oiticica, para a maniçoba e para a mangabeira.

            O texto acima foi escrito entre os anos 1930 e 1940. É certo que as leis ambientais existem, no entanto impossível fazê-las “valer”. Em pleno século XXI, somos surpreendidos com verdadeiros crimes ambientais: desmatamento da Mata do Diamante e de outras similares nas ribeiras, queimadas temporárias em períodos de safra da cana, poluição de nossas bacias hidrográficas e, também, devastação das matas ciliares de nossos rios, levando ao desaparecimento as nascentes e olheiros que brotavam em todos os lugares de nosso vale.
            Das árvores descritas por Julio Senna já não existem mais exemplares e analisando os textos sobre fauna e flora em seu livro, verificamos que sobreviveram apenas aqueles seres que circundavam as moradias. Onde estão os animais selvagens de Diamante? As árvores nobres? Os poucos Pau D’arcos que víamos do Patu, são apenas recordações, ou, às vezes, um “Ipê-teimoso” brota na colina que margeia o vale irradiando e colorindo de amarelo ou roxo nossos olhos saudosos.
            Vale a pena uma nova publicação de Ceará-Mirim – exemplo nacional – o livro certamente contribuirá para futuros estudiosos de nossos problemas como foi o grande mestre Julio Gomes de Senna. 

 Início da Mata do Diamante
Hoje fui à Mata do Diamante com alunos do curso de Ciencias Biológicas da UFRN: meu filho Rafael, Natália e Harison. Fizemos um breve reconhecimento da floresta e coletamos algumas amostras da flora e fauna existente no local. 
Há poucos exmplares de árvores nobres na região, no entanto,  ainda é possível encontrar Ipê, Pau Ferro, Sucupira, Peroba, Massaranduba, Guabiraba, entre outras. Seria muito importante que fosse realizado um mapoamento do que ainda resta de nossas matas nativas.  É necessário preservar estes patrimônios ambiemtais que circundam a cidade de Ceará-Mirim. São pequenas ilhas, mas, importantes reservas de fauna e flora nativa.
 
 Grande Tamboril em um cruzamento de picadas no interior da mata
Rafael, Natália e Harison

Iremos buscar parcerias que a possivilidade de um projeto de extensão da UFRN em nossa cidade a fim de realizarmos as pesquisas destes ambientes. 
Fico muito feliz em ver o interesse de Rafael pelas coisas de Ceará-Mirim, principalmente, quando inclui em suas pesquisas científicas a questão do reflorestamento e estudo da fauna e flora de nossa província bacuipiana. Quem sabe, dando continuidade às pesquisas do grande cientista cearamirinnse Julio Gomes de Senna. Devemos nos preocupar com o futuro de nossa terra, pois, é responsabilidade dos filhos presentes, garantir a preservação das tradições e de nosso ambiente, às gerações futuras.
 
Rafael catalogando um Pau Ferro


MESTRE ARIANO SUASSUNA

GRANDE ARIANO




CRÍTICA DE ARIANO SUASSUNA SOBRE O FORRÓ ATUAL

'Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.
Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.
Porém o culpado desta 'desculhambação' não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo est tico. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esqu ecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.
Ariano Suassuna

terça-feira, 23 de agosto de 2011

47º FESTIVAL DE FOLCLORE DE OLÍMPIA/SP – 2011

47º FESTIVAL DE FOLCLORE DE OLÍMPIA/SP – 2011
Mestre Dedé do Boi Pintadinho de São Gonçalo do Amarante

            A possibilidade de participar do festival de folclore de Olimpia surgiu em 2010 quando fui convidado pela professora Sephora Bezerra para realizar uma exposição fotográfica sobre Ceará Mirim e suas tradições. Imediatamente aceitei o convite e iniciei a coleta de material para o evento.
            Foram 12 meses de trabalho e pesquisas em que tivemos a grata satisfação de colher, no cotidiano e nos álbuns fotográficos, duzentas fotografias, que retrataram a história de nossa Ceará-Mirim.
            A exposição foi organizada em três temas: Ceará-Mirim e suas tradições; As rendeiras de Jacumã e o artesanato cearamirinense; e Danças folclóricas em terras de canaviais.
Os registros fotográficos retrataram a cidade em vários períodos e, na atualidade, procuramos levar aos expectadores o cotidiano de nossa gente, principalmente, na maior representação social do município, que é a feira livre. Além disso, a exposição mostrou as atrações do litoral, a culinária e o nosso folclore, através dos folguedos populares como Congo de Guerra, Pastoril, Cabocolinhos e Boi de Reis.
A programação do evento constava de vários grupos folclóricos do Rio Grande do Norte, estado homenageado na edição 2011. Entre os folguedos do nosso estado, estavam os grupos folclóricos cearamirinense Congo de Guerra e Cabocolinhos. O primeiro não entrou na programação do evento devido o falecimento do Mestre/Embaixador Zé Baracho. Os Cabocolinhos estavam na programação do festival, no entanto, não conseguiram apoio da prefeitura de Ceará-Mirim e do governo do Estado para representá-los no evento, uma vez que é o único grupo “Patrimônio Vivo do RN” que está plenamente em atividade.
É impressionante como cultura não é prioridade para o poder público, nesse caso, seja municipal ou estadual. Essa turma paga um rio de dinheiro para que bandas animem as festividades populares em praça pública, no entanto, não têm recursos para viabilizar a participação de um grupo tão importante para o estado e município, no festival de folclore nacional.
Os Cabocolinhos têm uma tradição secular e fazem referências às origens caboclas, indígenas e africanas em seus bailados de guerra. Há, nas expressões corporais e musicalidade, tradições transmitidas de geração em geração e, é um grupo especial, porque seu estilo é o único do Brasil, inclusive, citado por vários estudiosos.
Recentemente, cooperei com um aluno de doutorado da UFRN que fazia pesquisa sobre os gaiteiros nordestinos, e o mestre/doutor, ficou impressionado com a musicalidade do gaiteiro dos cabocolinhos, uma raridade que nós não devíamos abandoná-lo a própria sorte. O mestre Manuza tem várias composições de sua autoria, além de, armazenar na memória, as melodias tocadas pelo primeiro gaiteiro do grupo, mestre Mané Droga.
A importância dos Cabocolinhos para o Rio Grande do Norte é evidente quando se trata da autos-populares e preservação de danças tradicionais. O grupo está na mesma família há mais de oitenta anos, levando para a comunidade, os lindos bailados e as mais variadas coreografias, envolvendo crianças, jovens e adultos da mesma estirpe por, pelo menos, três gerações. Há de se respeitar e valorizar essas manifestações populares porque, assim, estaremos fortalecendo e preservando nossas tradições.
Tenho absoluta certeza que nossos CABOCOLINHOS teriam representado nosso estado e nosso município com muita honradez e, principalmente, apresentariam para os espectadores e telespectadores do mundo inteiro o que Ceará-Mirim tem mais significativo: SUA CULTURA.
Somos brasileiros e nordestinos e não desistimos nunca! Portanto, vamos começar a trabalhar para levarmos os Cabocolinhos para o 48º Festival de Folclore de Olímpia em 2012. Essa será nossa meta para o próximo ano. Tudo é possível e, seguramente, “milagres acontecem”!!!
A exposição fotográfica sobre Ceará-Mirim estava localizada dentro do pavilhão destinado ao Rio Grande do Norte. Estima-se que, diariamente, uma média de dez mil pessoas visitavam os estandes e as exposições sobre o estado. Consequentemente, esses visitantes passaram e conheceram um pouco da história e cultura de Ceará-Mirim.
A mostra trouxe muitos dividendos positivos, pois, lá, conheci vários pesquisadores de cultura popular, do Brasil e de várias partes do mundo. Inclusive, tive o privilégio de conhecer Ana Maria Cascudo, filha do maior folclorista do Brasil, Luís da Câmara Cascudo. A simpática amiga foi palestrante no evento e estava acompanhada pelo esposo Camilo e a filha Daliana. Eles me deixaram muito à vontade, inclusive, conversamos por muito tempo e, em várias ocasiões, o que, certamente, seria muito difícil fazê-lo aqui no estado, devido nossas ocupações diárias.
Na abertura do evento tivemos a visita da Secretária de Cultura do Estado, Izaura Rosado, que prestigiou nossa exposição e, segundo sua assessora Marcia Moreno, ficou interessada em realiza-la, também, aqui no estado do RN. Além desse convite, tivemos algumas conversas para participar, em 2012, do festival de Lagarto/SE e, estamos analisando proposta para ir expor em Portugal.

Pastoril Dona Joaquina - liderado pelo palhaço chapuleta
 Apesar de ter sido o único cearamirinense a participar do festival, tive a felicidade de conhecer o pessoal do Pastoril Dona Joaquina, de São Gonçalo do Amarante, grupo homenageado no festival. Fui apresentado pela coordenadora do Pastoril, professora Sephora - a quem agradeço de coração - e ficamos hospedados na mesma escola. A convivência com a turma foi muito gratificante, lá conheci vários jovens e, principalmente, o “jovem e inoxidável” ator Alexander Ivanovisk – Alex - Palhaço do Pastoril – um cara impressionante e prestativo – ao lado da amiga Fatoca, do pandeirista e (fazedor de café) o amigo Cabaço, o violonista Germano e finalmente, o fotógrafo Isaias Carlos. Não tivemos tempo para se entrosar com todos, devido as atribuições e preocupações com ensaios, passagens de musica, essas coisas que fazem do Pastoril Dona Joaquina, um dos mais importantes do estado.
A participação no festival também proporcionou fazer novas amizades com a turma que “carrega o piano”, a turma que trabalhou para deixar o pavilhão maravilhosamente organizado a fim de receber os visitantes: A amiga Ked, Alexandre, o escultor Aldo, Graça e Cristina das cachaças Maria Boa e Mocambo, Wescley, Márcia Moreno e outros cujos nomes não recordo, mas, que ficarão guardados na memória. Infelizmente não pude ficar muito tempo junto com a turma, devido a distância de nosso alojamento e o fato de ter adoecido durante o evento. Ficou a saudade dessa galera e o desejo de poder participar de outros encontros.
Apesar de ter sido tudo maravilhoso, houve um acontecimento que me deixou muito triste. Todos os conterrâneos conhecem minha dedicação e apreço pelas coisas de Ceará-Mirim, sabem da seriedade com que busco pesquisar, registrar e arquivar a memória de nossa gente e de nossa terra.
Amigos leitores, quando estava preparando as fotografias para a exposição, solicitei uma foto do trem o forró a senhora Michele, secretária adjunta de Turismo do município, que imediatamente concordou em ceder o material. No dia seguinte, recebi um telefonema daquela secretaria, me orientando que fizesse um requerimento solicitando o material e que, naquele documento, constasse para quê e como ia usar a imagem. Fiquei perplexo com o tratamento recebido pelo pessoal da prefeitura.
Desde que pesquiso sobre Ceará-Mirim tenho contribuído com a prefeitura, inclusive, nessa atual administração, tenho proferido palestras em escolas, acompanhado alunos pelos engenhos, fornecido material quando solicitado, e, recentemente, acompanhei, por dois dias, o pessoal da BAND durante o documentário feito na cidade. Nunca pedi nada em troca pela prestação de serviço. Fiquei surpreso com a atitude da senhora Michele. Em minhas reflexões durante a viagem, cheguei à conclusão que, talvez, o meu maior erro tenha sido: “AMAR CEARÁ-MIRIM” e achar que “CEARÁ-MIRIM TEM JEITO”!!!

Exposição fotográfica: Ceará-Mirim e suas tradições


Agradecimentos:

Agradecimentos especiais para alguns amigos que acreditaram e acreditam em nosso trabalho e que, espontâneamente, ofereceram apoio para que pudesse participar do festival:

* Maria de Lourdes Freire;
* Manoel Gusmão;
* Felipe Pinheiro;
* Joaquim Neto;
* Evilasio Lima;
* Carlos Lopes Junior (CEC).

Precisamos ampliar o número de pessoas que acreditam ser possível fazer alguma coisa pela cultura de nossa Ceará-Mirim. Obrigado a todos que, como eu, lutam e têm fé, que Ceará-Mirim tem jeito!!!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

CONGO DE GUERRA DE GUANABARA - TABUÃO - CEARÁ-MIRIM/RN

Mestre Tião, Gibson MAchado e Pablo Capistrano

CONGO DE GUERRA

Fomos a comunidade de Taboão, em Ceará Mirim na companhia de Gibson Machado, pesquisador e ativista cultural do vale do Ceará Mirim, para registrar o depoimento de Mestre Tião e Zé Baracho, respectivamente mestre e embaixador do Congo de Guerra.

 O Congo vem sendo apresentado desde trezentos anos passados. É uma espécie de teatro, onde o espectador precisa imaginar o cenário evocado, os reinos africanos de outrora: Os reis orgulhosos e seus fiéis guerreiros. Todos os personagens assumem papeis dramáticos. A narrativa se dá a partir de temas religiosos e temas sociais, como o amor, a escravidão, o trabalho e costumes antigos.

Embora existam diversificações no enredo, variando de região pra região, levando a se criar sinônimos: Congo(s), Congada (s), pretinhos-do-congo, etc. Em todos é possível identificar as raízes formadoras (embaixadas e nações africanas). Mantendo o mesmo fio condutor, ou seja, as características gerais que permitem identificar o folguedo como um Congo.

Desde o Brasil colônia, elegia-se entre os negros, um rei e uma rainha, cargos honorários, aceitos pela igreja e apoiados pelos senhores escravocratas. O régio casal de negros era escoltado por seus companheiros de senzala até a igreja onde acontecia a coroação, com muita música e dança, estas, por sua vez, variavam de acordo com as etnias africanas e influências regionais. Rufas, rabecas e maracás fazem o fundo musical, juntamente com as cantigas que ora são; toadas de viagens, outras louvores a virgem do Rosário (Nossa Senhora do Rosário) ou louvações ao nascimento do Messias e em muitos momentos, cantos de chamadas de atenção aos moradores do lugar. Há também a presença de cantigas de possível inspiração totêmica e cantares lúdicos irônicos. A variedade de peças cantadas é imensa e se sucedem até o momento da representação das embaixadas, ponto alto do folguedo.
Professor Pablo entrevistando um marujo do Congo

 Ao questionarmos alguns brincantes do Congo, sobre a sua dança, obtivemos as seguintes respostas: “Estamos perdendo uma batalha, o Congo de Guerra está morrendo. É preciso que a nova geração siga o exemplo do embaixador, cantando com emoção”. Diz O mestre José Baracho, embaixador do Congo de Guerra e Poeta do Vale do Ceará Mirim. E acrescenta: “A velha Taboão há de ser lembrada.”
O mestre Tião (atual mestre do Congo de Guerra), hoje com 96 anos, nascido em Ceará Mirim, em 14 de maio, filho do antigo mestre João da Rocha. É morador, desde menino da comunidade de Taboão, município desta cidade e trabalhador, por longos anos, do engenho da família Sobral. Alerta: “Um dia eu morrendo e também o grande José Severino (outro brincante), o grupo Congo perde roteiro, Ceará Mirim perde a cultura, ficando só uma lembrança obscura, de dois velhos bem nordestinos”. Logo em seguida, o “embaixador” José Baracho, acrescenta: “Talvez se acabe os Congos guerreiros, mas, as lutas dos dois Congueiros, ficarão gravadas nesta cidade”. Sendo indagado ao atual mestre, Seu Tião, sobre o que ele achava da possibilidade de outros grupos darem continuidade à brincadeira, e estes, fazerem alterações na representação, ele respondeu: “Pode mudar as vestimentas, o lugar onde se dança, acrescentar fatos, assim como eu mesmo fiz, ao receber o Congo de Taboão do meu pai; ouvi notícias no rádio sobre movimentos revolucionários da década de 30, e acrescentei elementos a este auto, mudando inclusive o nome, passando a se chamar Congo de Guerra”.
Mudanças podem ser feitas contanto que a jornada (passos da dança) permaneça. É a dança que mantém a tradição.
Em nossa visita à Ceará Mirim, percebemos a preocupação dos mestres no que diz respeito à continuidade da sua dança. Eles têm a consciência e o entendimento das transformações que podem vir a acontecer para que a dança se mantenha viva. O que importa é que o fio condutor da narrativa não se perca.

 Depoimentos dos mestres Tião e José Baracho

Assim como existem formas de vida naturais as diversas expressões culturais humanas tem também seu tempo histórico. A grande questão é saber como manter viva a tradição sem perder o fio do tempo, que traz para as comunidades humanas, novas demandas e novas perspectivas.

Mestre Tião e Zé Baracho talvez, enquanto o tempo da vida permitir, possam nos ensinar como fazer isso.

Fonte:
http://www2.ifrn.edu.br/culturapotiguar/?page_id=453

Alguns dias após a entrevista, o Mestre José Baracho faleceu deixando Ceará-Mirim muito triste. O encantamento do Mestre foi uma baixa na luta pela preservação da congada. Resta o herói "Mestre Tião Oleiro". Esrtaremos juntos na batalha a favor dos marujos do Congo de Guerra.

sábado, 20 de agosto de 2011

VELHO ENGENHO


Em fevereiro/2009 o Mestre Edgar Barbosa - se vivo fosse - completaria 100 anos e para que os conterrâneos tenham conhecimento de sua obra, postei uma de suas melhores crônicas, como diz Nilo Pereira: "crônica de pura e lírica evocação, de rara beleza impressionista."

VELHO ENGENHO
Edgar Barbosa - Imagens do Tempo - 1966

Dentro do nevoeiro do vale mal se entrevem os despojos do velho engenho morto.

 A casa está em ruínas e uma erva hostil cresce, silenciosa, por toda a bagaceira, invadiu os alpendres e assenhoreou-se do chão onde nunca mais pisou o pé humano.
Que fim levaram os antigos moradores? Onde os meninos trêfegos, os mestres, os cambiteiros, os animais e as aves que alertavam as madrugadas?
Tudo parece morto, não há sinal de vida dentro do grande vale onde outrora ecoavam os rumores do trabalho e as alegrias das safras exuberantes. Os próprios caminhos estão ocultos ou se tornaram sendas misteriosas de um mundo perdido. As chuvas os transformaram em barrancos, as formigas, às suas margens, construíram sossegadamente o seu reino. E à noite, sob as estrelas, as corujas desferem o seu canto soturno e imprimem ao velho engenho um aspecto de câmara ardente.
Entretanto, a terra, em redor, clama por que a fecundem. As árvores, embora maltratadas e esquecidas, guardam no porte a majestade dos dias que foram belas. Coroando o outeiro, como um penacho real, ergue-se um pau darco de cem anos, que ainda floresce como no tempo de jovem. E tudo isso paira, ali, no exílio, como se fosse um continente ignorado, lembrando a terra depois do dilúvio.
Eis um crime para o qual não há pena. Esse êxodo de ingratos e de emasculados, que arrancaram suas próprias raízes para ir vegetar adiante, como parasitas, mereciam um castigo. Eles, os senhores, meninos que se tornaram velhos, perderam-se nas ruas, passeiam displicentemente pelo asfalto das cidades, entretêm-se com as músicas e os cinemas, dançam e cantam nos clubes. A sua vida parece a dos presidiários que se consolam com o simples passar dos dias e das noites. A diferença é que esses fugitivos, sem alma nunca têm remorsos.
O velho engenho lá ficou, desmanchando-se pedra por pedra.
Os maquinismos foram vendidos ou enferrujam, na sepultura das moitas,
enquanto a erva cresce, silenciosa, afogando os alpendres, cobrindo como um sudário implacável, a bagaceira morta.
Aqui está essa crônica do grande mestre Edgar Barbosa. Quarenta e dois anos depois, está atualíssima, é como se tivesse sido escrita hoje para celebrar os 150 anos de emancipação de nossa Dileta Ceará-Mirim. 

Meu Deus como somos cegos!!! Nossa história está sendo consumida pelo progresso, pelo desenvolvimento econômico, sendo tragada pela fulingem da cana e levada na ventania do amanhã, pelo crepúsculo do crescimento. Um dia procuraremos nossas raízes e perceberemos que o dia amanheceu cinza... e que apesar de verde, a aquarela acabou! A manhã da criação: evaporou como evapora a neblina do vale.

Gibson Machado 

Fonte: 
http://gibsonmachado.fotos.zip.net/arch2009-01-01_2009-01-31.html

AO AMIGO QUE PARTIU: MESTRE LUIZ DE AMÉRICO

Em 29 de junho de 2009 entrevistei o maior vaqueiro de nossa região, Luis Cabral de Oliveira - o Mestre Luiz de Américo. Recentemente recebi uma ligação de seu sobrinho,  Ionaldo Oliveira, informando que o grande vaqueiro tinha se encantado. Daí, resolvi postar novamente a entrevista para homenageá-lo.

O VAQUEIRO LUIZ DE AMERICO
O VAQUEIRO LUIZ DE AMÉRICO - LUIZ CABRAL DE OLIVEIRA 

                Hoje, 29 de junho 2009, tive o prazer de conhecer o Mestre Luiz de Américo, tio do meu amigo Ionaldo Oliveira, que me apresentou ao grande vaqueiro. Homem de riso fácil, humilde e cativante... Fui conquistado pelo seu carinho! Esse dia ficará gravado para sempre.
                Em 08 de outubro de 1918 nascia em Ceará-Mirim Luiz Cabral de Oliveira, filho de João Maximiniano da Mota e Isabel Cabral de Oliveira. Dois dias após seu nascimento, sua mãe faleceu deixando nove filhos, sete homens e duas mulheres.
                Após a morte da mãe, o menino Luiz foi morar com um tio chamado Américo, irmão de Isabel, que tinha propriedade na localidade de Gravatá, no município de Ceará-Mirim. Além de criá-lo, Américo cuidou também de seus irmãos Orlando e Francisco. Em virtude de ter sido criado por esse tio o menino passou a ser conhecido por Luiz de Américo.
                Como não havia recém nascidos na região, ele foi amamentado por uma vaca muito mansa chamada Mimosa. Enquanto o animal era alimentado com capim, Luiz se deliciava em suas têtas. Tempos depois, a empregada que cuidava dele, a pedido de seu patrão, o ensinou a tirar o leite que colocava dentro de uma pequena cabaça, e misturava com farinha para se alimentar. Para seu grande amigo o ex-governador Cortêz Pereira aquele leite que bebera na infância tinha sido o “imã do gado” para Luiz de Américo.
                Cresceu nos arredores da Lagoa de Gravatá banhando-se e correndo atrás de gado, que era seu maior divertimento.
                Américo era homem de posses, além da propriedade, foi também proprietário – por arrendamento – do engenho Divisão que arrendou de Henrique Torres por um período de cinco anos. Luiz não se interessou pelas coisas do engenho porque o que ele queria mesmo era ser vaqueiro, campear o gado. Quando seu tio e pai Américo o mandava para a escola, no distrito de Capela, ele desviava o caminho e se embrenhava nas capoeiras em busca de gado para campear. Um dia seu pai descobriu a “mutreta” e deu-lhe uma boa sova, como ele mesmo descreve: “meu pai só dava duas braçadas, mais ninguém esquecia”.
                 Na era de 1920, quando tinha seis anos viu o ex-presidente da República Afonso Pena que veio para a inauguração de uma Estação Ferroviária entre Lages e Macau. Após as festividades Afonso Pena retornou e permaneceu em Ceará-Mirim onde teve uma grande festa em sua homenagem. Foi a primeira vez que Luiz assistiu uma vaquejada tão grande. O pátio foi montado em frente a igreja matriz, no centro do largo, que era limitado por duas fileiras de fícus benjamim. Ali nascia o vaqueiro que seria conhecido em todo o Rio Grande do Norte e Nordeste do Brasil.
                Quando seu pai faleceu, tinha 15 anos, então, sai da cidade e vai trabalhar em outros lugares. Ao regressar segue o conselho de Américo que um dia disse: “você comece a pensar na vida e se encoste numa pessoa que tenha nascido com posses, porque vão desaparecer seu pai, sua mãe e um grande amigo e você precisa vencer. Pensando nisso, procura trabalho com um grande fazendeiro da região conhecido como Major Vital Correia.
                Passou parte de sua vida trabalhando com o Major Vital Correia, que o considerava homem de confiança nas competições de vaquejada. Prova disso é que só quem montava o cavalo conhecido como “Patas Brancas” eram eles dois.
                No final dos anos 1940 Major Vital o mandou trabalhar em suas terras no sertão. Lá, conheceu Angelita e iniciou um romance através de olhares e conversas “relâmpagos”, pois flertavam em segredo. Desses olhares nascia uma paixão que levou Luiz a pedir a mão da donzela em casamento aos seus tutores. Não satisfeito veio à Ceará-Mirim falar com o pai da moça que era subdelegado na cidade de Pedro Avelino, para confirmar sua intenção e receber autorização deles para o matrimônio. Com o consentimento, regressou à fazenda e acertou com ela o contrato.
                O vaqueiro saiu do sertão deixando sua amada esperando por um bom tempo. Nesse período eles não se corresponderam e nem se viram, foi um afastamento de um ano. Quando resolveu que tinha chegado a hora, pediu permissão ao Major Vital para ir buscar sua amada. O Major prontamente o atendeu dando-lhe dinheiro e total apoio para a viagem. Casou-se em 1950 e permanecem juntos até os dias atuais.
                Esse grande vaqueiro representou o Estado do Rio Grande do Norte ajudando a divulgar o esporte de vaquejada em todo território nacional.
                Em 1942 o Major Vital Correia promoveu uma grande vaquejada para o General do Exercito Brasileiro Cordeiro de Farias, uma vez que o mesmo não conhecia o esporte. O evento aconteceu na fazenda Betânia e o maior destaque daquele dia foi o vaqueiro Luiz de Américo.
                Em 1953, no governo de Silvio Pedroza, foi realizada a primeira grande vaquejada em Natal, no Estádio Juvenal Lamartine. O evento foi organizado pelos esportistas Dr. Estelio Ferreira e José Ubarana. Foi uma disputa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba e Luiz de Américo deu o 1º lugar ao Estado do Rio Grande do Norte.
                Tem orgulho de ter sido convidado pelo então deputado Teodorico Bezerra para representar o Rio Grande do Norte, em 1955, na cidade de Santa Cruz do Inharé quando o presidente Juscelino Kubitschek visitou o estado. A festa foi muito concorrida, as pessoas vinham para conhecer o presidente. Nesse dia, o vaqueiro Dão João puxou um boi e partiu seu rabo, fato que o presidente viu e pediu o pedaço do rabo enrolando-o em jornal para levá-lo como lembrança.              
                Em seu tempo as vaquejadas eram organizadas de forma que os bois eram classificados em Gado Duro (de mais de 20 arrobas – acostumado a ser puxado); Gado Médio (de 15 a 19 arrobas – acostumado a ser puxado) e Gado mole (de 8 a 14 arrobas – que nunca tenha sido puxado) e cada rês só poderia correr uma única vez, conforme escrita no capítulo IV do Regulamento  da Vaquejada “Jubileu de Ouro” realizada nos dias 28 e 29 de maio de 1955, na cidade de Natal/RN.
                Uma grande frustração aconteceu no ano de 1958 quando não terminou a competição entre os estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas. Ele fazia dupla com o saudoso Roberto Varela e estavam em primeiro lugar quando, na penúltima disputa, foi acidentado e lamentavelmente não pôde continuar. Nesse dia os louros foram para os norte-rio-grandenses Estelio Ferreira e Pedro Bento.
                Esse grande mestre dedicou toda sua vida às vaquejadas, onde divulgou e deu glórias ao Estado do Rio Grande do Norte. Lamenta ter sido esquecido pelas autoridades do Estado. Foi lembrado durante o governo de Cortês Pereira, que o convidou para ser administrador do Parque 13 de Maio a principal praça esportiva de vaquejada.
                Hoje aos 90 anos o mestre vaqueiro olha para o horizonte e lembra um passado de vitórias e glórias que eram embaladas por aplausos e reconhecimentos de uma arte nascida no sertão do Seridó, onde os grandes protagonistas eram o valente peão, o cavalo e o boi.
                Considerado como PATRIMÔNIO VIVO, Seu Luiz reside, com sua eterna companheira,  em Igapó, e lamenta não ser reconhecido como um homem que passou toda sua vida trabalhando pela cultura de sua terra e levando a arte do vaqueiro a todos os recantos do Nordeste.
                Como cearamirinense que é, o mestre poderia ser homenageado em sua terra e, quem sabe, nossos representantes encontrem uma forma de gratificá-lo com uma aposentadoria reconhecendo seu valor como Patrimônio Cultural e, também, possam refletir em um projeto que beneficie todos os grandes mestres que estão no anonimato, esquecidos e que deveriam ter um salário vitalício como forma de incentivá-los a repassar seus conhecimentos às novas gerações contribuindo para o fortalecimento e preservação de nossas tradições.
                Nossos mestres estão à espera de uma política de cultura que os façam “existir” como representantes legais de nossa cultura e não simples brincantes que eventualmente aparecem fantasiados dançando ou correndo como meros “marionetes”. Vamos lutar em respeito a todos esses grandes filhos de Ceará-Mirim: Luiz de Américo, Tião Oleiro, Luiz Chico, Maria do Carmo, Birico, Belchior. Zé Rodrigues, Luiz de Julia e tantos outros que estão ofuscados pela luz da incompreensão e falta de conhecimento.

sábado, 13 de agosto de 2011

POSSE DA ACLA - Academia Cearamirinense de Letras e Artes

MENSAGEM DE AGRADECIMENTO DO DR. CARLOS GOMES A ACLA- ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS


INSTALAÇÃO DA ACLA - ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES

Foi uma noite histórica, com a presença de intelectuais, autoridades e do povo de Ceará-Mirim, tudo conduzido magistralmente pelo Presidente Pedro Simões Neto, que proferiu, de improviso, um discurso que marcará definitivamente o evento, rememorando a terra dos canaviais e sua gente.
A sessão foi aberta pelo escritor Diógenes da Cunha Lima, Presidente da ANRL, que transferiu o seu comando ao Presidentge Pedros Simões Neto.
Muitos homenageados e, ao final, a execução do hino do Município, cantado com entusiasmo contagiante. PARABÉNS.
Aproveito para apresentar os meus agradecimentos pela outorga do título de Sócio Benemérito, o que muito me engrandece e orgulha.


Cultuo a idéia de que uma homenagem como esta não deve ter a simploriedade de apenas um muito obrigado. Seu significado é bem maior, pois engrandecido pelo chão sagrado da terra dos canaviais, berço de história e de cultura, que enobrece, não apenas os seus conterrâneos, mas todos aqueles que apreciam a beleza, a literatura e a arte, na placidez deste vale.

Cerca nossa memória os meninos do Ceará-Mirim, que se entrelaçaram na contemporaneidade e na cultura – EDGAR BARBOSA e NILO PEREIRA, quando dizia o primeiro: “Ninguém permanece vivendo mais o Ceará-Mirim do que Nilo – o menino que o descreveu entre sonhando e sorrindo já se descobre desde as primeiras linhas – no seu livro “Imagens” de Ceará-Mirim”. Nilo, por sua vez, não faz por menos, confirma o amigo com a bela alegoria: “Menino é aquele que cresce no adulto, a vida o levou por longas terras, a cumprir o seu destino. Mas ele volta sempre: e voltar é ver de novo”.

Ambos contaram e cantaram a mesma terra-berço. Vê-se, assim, que Edgar está em Nilo e Nilo em Edgar, caminhos que se cruzaram num tempo, corpos que se separaram em outro e se reencontraram na grandeza da eternidade.

O mesmo diria dos outros Patronos desta Academia de Cultura, desde ADELLE DE OLIVEIRA, a professora daqueles meninos, até o último que RECENTEMENTE se encantou – BARTOLOMEU CORREIA DE MELO, cujos perfis serão traçados doravante pelos intelectuais que honram suas cadeiras.

Cadeira n.1 – Nilo Pereira;
]Cadeira n.2 – Edgar Barbosa;
Cadeira n. 3 – Juvenal Antunes;
Cadeira n. 4 – Maria Madalena Antunes Pereira;
Cadeira n. 5 – Adelle de Oliveira;
Cadeira n. 6 – Augusto Meira;
Cadeira n. 7 – Rodolfo Garcia;
Cadeira n. 8 – Júlio Gomes de Sena;
Cadeira n. 9 – Inácio Meira Pires;
Cadeira n. 10 – Jayme Adour da Câmara;
Cadeira n. 11 – Padre Jorge O´Grady de Paiva;
Cadeira n. 12 – Elviro Carrilho da Fonseca;
Cadeira n. 13 – Herculano Bandeira de Melo;
Cadeira n.14 – José Emidio Rodrigues Galhardo;
Cadeira n. 15 – José Alcino Carneiro dos Anjos;
Cadeira n. 16 – Francisco Pereira Sobral;
Cadeira n. 17 – Etelvina Antunes Lemos;
Cadeira n. 18 – Antonio Glicério;
Cadeira n. 19 – Dolores Cavalcanti;
Cadeira n. 20 – Francisco de Salles Meira e Sá;
Cadeira n. 21 – Anete Varela;
Cadeira n. 22 – Rafael Fernandes Sobral;
Cadeira n. 23 – José Pacheco Dantas;
Cadeira n. 24 – Manuel Fabrício de Souza (Amarildo);
Cadeira n. 25 – Bartolomeu Correia de Melo.

Assim, ‘gratidão’ é a sensação de saber que se recebeu algo muito precioso, é aquilo que sentimos dentro do nosso íntimo, como se nossa alma abrisse um sorriso interno, muito gostoso. Por isso, precisamos HONRAR O QUE FOI RECEBIDO.

AGRADECER TAMBÉM É UM ATO DE AMOR. É um sentimento que traz junto de si uma série de outros sentimentos: ternura, fidelidade, amizade, cumplicidade

É importante não confundir gratidão com atitudes de lisonja ou bajulação, pois não há hierarquias na gratidão e não há diferenças.

Quem não ama (seja que tipo de amor for: de pai, de mãe, de irmão, de namorado ou esposa, de amigo) não é grato. Quem não ama não é aquele que odeia, mas sim aquele que ignora, que é indiferente. A falta de gratidão é resultado da incapacidade de dar e por isso mesmo está ligada ao egoísmo e à insensibilidade, afinal agradecer é dar, é dividir.

A gratidão não nos tira nada, ela é um dom de troca, é amor puro e verdadeiro e por isso ela se aproxima tanto da caridade, que acrescenta bondade ao espírito, como algo incondicional.

Enfim, a gratidão é um mistério, não pelo prazer que temos com ela, mas pelo obstáculo que com ela vencemos. É a mais agradável das virtudes, e o mais virtuoso dos prazeres. A gratidão é, definitivamente, o caminho para trazer mais para sua vida, pois tudo em que pensar e agradecer será trazido a você. OBRIGADO. (CRMG)
FONTE: www.mirandagomes.blogspot.com

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

POSSE DA ACLA

Finalmente chegamos ao fim da primeira caminhada. Dia 10/08/2011 será a solenidade de posse da ACLA - Academia Cearamirinense de Letras e Artes.

PATRONOS/ACADÊMICOS
Cadeira n.1 – Nilo Pereira; Caio César Cruz Azevedo
Cadeira n.2 – Edgar Barbosa; Cléa Bezerra
Cadeira n. 3 – Juvenal Antunes; Paulo de Tarso
Cadeira n. 4 – Maria Madalena Antunes Pereira; Lúcia Helena
Cadeira n. 5 – Adelle de Oliveira; Ciro Tavares
Cadeira n. 6 – Augusto Meira; Emmanuel Cavalcanti
Cadeira n. 7 – Rodolfo Garcia; (Reservado para Roberto Furtado)
Cadeira n. 8 – Júlio Gomes de Senna; Gibson Machado
Cadeira n. 9 – Inácio Meira Pires; (Reservado para Múcio Vicente)
Cadeira n. 10 – Jayme Adour da Câmara;
Cadeira n. 11 – Padre Jorge O´Grady de Paiva; José de Anchieta Cavalcanti
Cadeira n. 12 – Elviro Carrilho da Fonseca;
Cadeira n. 13 – Herculano Bandeira de Melo;
Cadeira n. 14 – José Emidio Rodrigues Galhardo; Janilson Dias de Oliveira
Cadeira n. 15 – José Alcino Carneiro dos Anjos;
Cadeira n. 16 – Francisco Pereira Sobral;
Cadeira n. 17 – Etelvina Antunes Lemos; Sayonara Montenegro Rodrigues
Cadeira n. 18 – Antonio Glicério;
Cadeira n. 19 – Dolores Cavalcanti;
Cadeira n. 20 – Francisco de Salles Meira e Sá; Pedro Simões
Cadeira n. 21 – Anete Varela; Francisco de Assis Rodrigues
Cadeira n. 22 – Rafael Fernandes Sobral; Franklin Marinho de Queiroz
Cadeira n. 23José Pacheco Dantas; Leonor Soares
Cadeira n. 24 – Manuel Fabrício de Souza (Amarildo).
Cadeira n. 25 – Bartolomeu Correia de Melo; Ormuz Barbalho Simonetti
SÓCIO HONORÁRIO
Diógenes da Cunha Lima

SÓCIOS BENEMÉRITOS
Ana Maria Cascudo
José Sanderson Deodato Fernandes de Negreiros
Carlos Roberto de Miranda Gomes
Eduardo Gosson
Jansen Leiros Ferreira

SÓCIOS CORRESPONDENTES
Maria Conceição da Câmara (Ceicinha) - Portugal/ Vila do Bispo
Geraldo Pereira – Pernambuco/Recife
Hamilton de Sá Dantas – Brasilia/DF
José Fernandes Senna – Rio de Janeiro/RJ


terça-feira, 2 de agosto de 2011

ESTÓRIAS, LENDAS E TRADIÇÕES DE CEARÁ-MIRIM

ESTÓRIAS, LENDAS E TRADIÇÕES DE CEARÁ-MIRIM
Antônio Sérgio Medeiros da Silveira
XILOGRAVURA 1/20 LENDAS Gibson Machado Alves
Entre todos os povos, as lendas formam a tradição viva do pensamento primitivo. Constituem a base dos contos populares, são transmitidas oralmente e conservadas pelo costume. Elas crescem com os conhecimentos diários e se incorporam à vida cotidiana.
Em Ceará-Mirim, esse patrimônio de tradições é fruto de inúmeras estórias cultuadas por gerações e gerações. Refletem o desenvolvimento sócio-econômico e cultural de seu povo e se vinculam ao florescer da atividade agro-açucareira no vale. São relatos contados nas dependências dos velhos engenhos. Com o passar do tempo, foram sendo adoçados e se transformando noutros, misturando-se a elementos que expressam a formação étnica de seu povo.
Narram os antigos que em um dos engenhos se cometiam perversidades tais que causavam repulsa até mesmo aos outros proprietários do vale. Eram episódios que manchavam de vergonha, tamanha a sua crueldade, mesmo numa época em que era comum a aplicação de castigos físicos aos escravos. Tais castigos, para alguns, se assemelhavam ao próprio inferno vivenciado na terra.
Dizem que num túmulo do cemitério velho de Ceará-Mirim vive uma gigantesca serpente, que seria a personificação da antiga senhora desse engenho. Trata-se da lenda da mulher que virou serpente. Falecida repentinamente, como forma de tocar o coração do seu esposo e a pedido dos deuses, seu corpo teria se transformado numa grande serpente que devia ser contida. Seu túmulo foi concretado e acorrentado devido às grandes rachaduras ali surgidas.
Para os dogmas cristãos, essa transformação traduz a incessante luta entre o Bem e o Mal. Nos livros do Gênesis e de Isaías o Mal é textualmente chamado de Serpentem Tortuosum. Ele age em forma de serpente, representando as forças subterrâneas, misteriosas e identificadas como sendo o espírito das trevas. Por outro lado, essa manifestação reproduz o pecado original com todas as suas desastrosas conseqüências: o Tentador, a Tentação, a Queda e o Castigo, como se refere a Bíblia: Callidis Simum Omnium Animatium.
O senhor desse engenho exigia de seus escravos cega obediência e eles faziam de tudo para servi-lo. Segundo Madalena Antunes, no seu livro de memórias, Oiteiro, “quem tinha negro ruim, vendia ao dono daquele engenho ou, quando muito, uma simples ameaça era o suficiente para o infeliz, amedrontado, logo melhorar a conduta”.
Conta-se, ainda, que até os animais reclamavam dos abusos ali praticados. Das estórias narradas, uma se faz presente no cotidiano popular: “o boi que teria falado”. Num certo dia, como noutro qualquer naquele engenho, cansado da lida, um boi teria exclamado: “Não é possível que nem na sexta-feira santa se descanse nessa propriedade”.
Também faz parte do imaginário popular de Ceará-Mirim a estória da baleia que estaria dormindo num gigantesco berço posto em baixo do altar-mor da matriz. Conta-se que, após uma salutar disputa entre Santa Águeda e Nossa Senhora da Conceição, pela escolha da Padroeira da Cidade, Santa Águeda, derrotada, teria invocado a Deus que aprisionasse aquele animal, libertando-o somente quando as águas do Rio Ceará-Mirim banhassem a calçada da Matriz.
A lenda da Cabaça é outra narração que faz parte da imaginação popular, sendo alimentada pela existência de um grande rio subterrâneo que corta a cidade de ponta a ponta. Segundo os moradores do município, ao se mergulhar um porongo no Rio do Mudo, na Jacoca, ele é levado pelas águas, surgindo no Olheiro Pedro II, próximo à estação ferroviária da cidade. Conta-se que esse rio é a fonte principal a alimentar os olhos dágua do município.

Fonte: Ceará-Mirim tradição, engenho e arte - UFRN/SEBRAE/Prefeitura de Ceará-Mirim - 2005.