quinta-feira, 17 de maio de 2012

FOTOPOEMA

Vendo velhos arquivos, encontrei um poema do saudoso amigo Bartola. Este poema foi presente para um de meus registros fotográficos... Agora, transformei a saudade do mestre em FotoPoema...


CAVACO CHINÊS


O CAVACO CHINÊS

Outro dia estava na praia de Maxaranguape e ouvi um “tingo lingo lingo”... falei para minha filha que era o som do vendedor de cavaco chinês. Voltei ao tempo de menino e corri para localizar de onde vinha o som, daí, comprei alguns pacotes da guloseima e distribuí com a turma que estava proseando no alpendre de casa.
Ninguém conhecia a tal guloseima que me deixara tão eufórico. Expliquei que o cavaco chinês era um tipo de biscoito muito fininho feito de farinha de trigo, e que, segundo o folclorista Teo Brandão, “parece que feita exclusivamente para aguçar a fome - com um baú cilíndrico às costas e a agitar o característico triângulo numa inconsciente aplicação prática da ação do som sobre a secreção salivar, vibrava nesses tímpanos e espremia nossas glândulas salivares enquanto anunciava:
- Ôie o cavaquinho chinês".

O cavaco chinês era muito comum no tempo de minha infância. O vendedor passava pelas ruas tocando seu triângulo feito de ferro e oferecendo a casquinha doce, parecendo casquinha de sorvete, só que muito mais gostosa.

Dizem que o baião de velho “Lua” foi inventado depois ele viu um vendedor de cavaco chinês tocando seu triângulo pelas ruas. Daí, Gozaga introduziu o Zabunda e o triangulo à sua sanfona e deu no que deu.

Ceará-Mirim também teve essa figura tão popular, Inacio Magalhães de Sena, inclusive ele fala sobre isso em seu livro “Memórias quase líricas de um ex-vendedor de cavaco chinês:
Lata passada com tira de couro nas costas, triângulo e ferrinho na mão, eu descia e subia as ruas do Ceará-Mirim. Além do toque “clássico” eu fazia mil variações.

A grande esperança de que vende bagana é o choro das crianças que obriga as mães a comprar. Tinha um velho que gritava assim: “Chora menino, pra comprar cacete doce”!
Outras pessoas por gaiatice, chamavam cavaco chinês de “casca de pau”. E assim, tocando triângulo, eu marquei um período lírico de minha vida. Eu era agente de Deus e grande clown desta mágica terra do rio da água azul”.

Seria muito importante que pudéssemos reviver e saborear as velhas tradições de nossa culinária, tipo, alfenim, mariola, tareco, cavaco chinês, pirulito de pauzinho, rolete de cana, cestinha de castanha e tantas outras guloseimas....essas delícias que  foram se perdendo com o progresso e o dinamismo da cidade. 


Vila do Bispo comemorou o "Dia Internacional dos Monumentos e Sítios"

 


O aluno Adelmo da Escola Básica do 1.º Ciclo de Vila do Bispo da turma 
2.º/3.ºB, apresentando o projeto “Onde se fala Português”, auxiliano 
pelo Artur de Jesus (historiador da Câmara Municipal). 
No palco, compondo a mesa, estão: Exmo. Presidente da Câmara Municipal 
- Sr. Adelino Soares;  Sra. Maria Conceição Câmara (Ceicinha Câmara) 
- criadora e dinamizadora do Blog “Notícias da Lusofonia”, brasileira, poeta 
e ativista cultural e a Diretora Regional de Cultura do Algarve - Dr.ª Dália Paulo.


Comemorou-se no passado dia 21 de abril o “Dia Internacional dos Monumentos e Sítios” com o título “Vila do Bispo, o Cabo do Mundo, lugar de encontros” no Auditório do Centro Cultural de Vila do Bispo, região Algarve - Portugal.




A cabo-verdiana "Diolanda" vestida à caráter.



Através da evocação da partida de uma Caravela, da zona do Cabo de São Vicente, no dia 22 de Março de 1455, que rumou à costa Ocidental de África, mais concretamente à Guiné, fez-se um percurso pelas Descobertas Marítimas Portuguesas e pelo Património Cultural a que deram origem em vários pontos do globo terrestre, pelas visões do Mundo, por parte dos Portugueses e dos Povos por eles conhecidos, terminando com uma reflexão sobre a presença na comunidade local, nos nossos dias, de elementos da Comunidade Lusófona. O grande objetivo deste evente foi a celebração da Pessoa como Monumento e Património. O ponto alto da iniciativa foi a apresentação do projeto “Onde se fala Português” da autoria de 3 alunos da Escola Básica do 1.º Ciclo de Vila do Bispo da turma 2.º/3.ºB que, orientados pelas docentes Andréa Duarte e Ângela Almeida, o fizeram perante uma plateia de 30 pessoas. Os pequenos alunos deram a conhecer, também, todas as informações recolhidas (situação geográfica, clima, bandeiras nacionais, capitais, potencialidades económicas, natureza e a fauna) sobre os Países onde se fala a Língua Portuguesa: Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Brasil. Não foram, igualmente, esquecidos os territórios indianos (Goa, Damão e Diu) e a cidade de Macau. Esta celebração, festiva e colorida, da lusofonia foi, ainda, abrilhantada com a apresentação de objetos do norte de Moçambique, com a participação da poetisa "Ceicinha Câmara", de Ceará-Mirim/RN - Brasil, declamando uma poesia de sua autoria, bem como com a declamação de alguns poemas (com especial destaque para os de Fernando Pessoa) por parte de alguns adultos e crianças, relacionados com o tema do Patrimônio Mundial Português no Mundo e com a sua continuidade na nossa Comunidade Local, neste caso de Vila do Bispo.





VEJA A PARTICIPAÇÃO DE 




CEICINHA CÂMARA NESTES LINKS DO 


YOU TUBE QUE ESTÃO ABAIXO:

No 1º vídeo, Ceicinha Câmara (mediadora do blogue: NOTÍCIAS DA LUSOFONIA) foi convidada para participar deste evento, por ela ser brasileira e esta radicada já a 9 anos em Vila do Bispo, pois o grande objetivo deste evento foi a celebração da PESSOA como Monumento e Património. Ceicinha falou um pouco sobre sua cidade brasileira (Ceará-Mirim/RN) e citou algumas coincidências relacionadas entre sua cidade e Vila do Bispo, demonstrando seu amor e carinho por este Concelho da Região do Algarve - Portugal. A Ceicinha estava um pouco nervosa, mas como a maioria do público era composto por crianças da escola primária de Vila do Bispo, ela tentou ser clara, simples e rápida.


Neste vídeo, o Exmo. Presidente da Câmara Municipal de Vila do Bispo, Sr. Adelino Soares agradece aos presentes e diz à Ceicinha Câmara que... "se ela gosta de cá está, nós também gostamos que ela cá esteja e que fique cá por muito tempo, não só ela, mas todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, são de outros países, mas tem este vínculo conosco, que é a língua portuguesa. Não só a língua portuguesa, mas a forma de estar no sítio onde estamos". Em seguida a Ceicinha recitou uma poesia que conta um pouco da história do Infante Dom Henrique, a mais importante figura portuguesa do início da era das descobertas, popularmente conhecido como Infante de Sagres ou O Navegador.



 FOTOPOEMAS





Daniel Torres
Artista cearamirinense apresentando sua arte para o mundo.


http://in360.globo.com/rn/noticias.php?id=10452



Pérola encontrada nos velhos arquivos...
Jornalzinho manuscrito “A Esperança”, nº 36, publicado em 25 de março de 1907, pelas poetisas Etelvina Antunes e Izaura Carrilho.
O jornal “A Esperança” teve sua primeira edição em 25 de março de 1903. Era manuscrito e exclusivamente editado por mulheres cearamirinenses.
Abaixo um soneto da colaboradora Eunice Rangel..

SONETO
Eunice Rangel

Lucro cantar ao som da tua falla,
Toda a ventura e célica alegria,
Que o meu coração acaricia,
E a doce esperança, que me embala.

E quero ouvindo rios de prazer,
Sob o fulgor do teu olhar ardente,
Recordar o passado simplesmente...
Hei de sonhar, feliz hei de viver.

Será a vida sorridente aurora.
Um perfumoso lyrio – o coração,
Que o orvalho da ventura irrora...

É tarde! A noite é lúgubre e sombria...
Eu apenas pedia inspiração,
Para compor um hinno de alegria.

98 anos de vida e 90 anos contribuindo com a cultura popular do Brasil
Mestre Tião dos Congos de Guerra

Há certos acontecimentos na vida da gente que é inexplicável.

Conhecer Mestre Tião é um desses fatos que não posso jamais esquecer. São 13 anos de convivência, amor, carinho, respeito... uma irmandade de "bisavô".

Quando estou com ele o mundo fica mais brilhante, os passarinhos gorjeiam fortemente e as rosas parecem borrifar o perfume mais intensamente... Romântico não é? Pois, é isso mesmo o que acontece quando estou junto ao mestre... ele canta, toca sua acordeon ou o famoso pé de bode, dança e, principalmente, narra poeticamente suas aventuras...um menestrel do canavial. Uma contribuição incalculável para a memória de Ceará-Mirim.

Sinto-me muito honrado em fazer parte dessa história vivida tão profundamente. Não sei como vamos suportar, e conviver, quando chegar o seu encantamento. Até lá, quero aproveitar cada dia vivido ao lado deste meu amigo-irmão-pai-avô... afinal, são 98 anos de existência completados dia 12 de maio. 

Domingo estaremos comemorando mais um degrau nesta sua longa escada da vida... Infinita??? Provavelmente... na memória de nossa gente!!!

Quem viver verá, por isso, que CEARÁ-MIRIM TEM JEITO!!

sábado, 17 de março de 2012

FOTO CONTEMPLATIVA I

FOTO CONTEMPLATIVA I - FOLHA SECA

GENTE DA GENTE DE CEARÁ-MIRIM

Poetisa e Professora Vanilde Machado

RIO CEARÁ MIRIM: O GRANDE BAQUIPE.

Recentemente fui ao rio Ceará-Mirim na companhia do amigo Lelo, da turma de meu filho Rafael – grupo de pesquisa e trabalho científico da UFRN, do curso de Biologia e do professor Sergio (UFRN) – o objetivo era a escolha de alguns pontos no rio, onde fosse possível coletar amostras de peixes para o estudo da diversidade e da influência de agentes poluentes na preservação das espécies.
Rafael Sobral, ( ? ), Lelo, Harryson e Prof. Sergio

Fiquei surpreso com o grau de poluição da bacia do Ceará-Mirim, onde registramos lixos acumulados nas margens do rio, esgotos sendo jogados no leito e a ausência de mata ciliar, tanto no Ceará-Mirim quanto nas margens de seus afluentes, provocando um enorme assoreamento.
Apesar de seu avançado estágio de poluição, muitos populares sobrevivem da pesca artesanal no rio, além de muitas crianças que o usam como balneário, fatos comprovados, quando visitamos a pequena barragem, abaixo da ponte da usina São Francisco.
Publicarei o artigo do professor Dr. Francisco Vitorino Junior, do livro Ceará-Mirim tradição, engenho e arte, edição SEBRAE/UFRN/Prefeitura de Ceará-Mirim – 2005, que discorre sobre o Rio Ceará-Mirim.


RIO CEARÁ MIRIM: O GRANDE BAQUIPE.
Francisco Vitorino de Andrade Júnior.


Rio Ceará-Mirim

Em decorrência da presença do povo tupi na região do Mato Grande, o rio que nasce na serra de Santa Rosa, localizada no município de Lages, recebeu a denominação de Baquipe, que significa Rio Pequeno.
O rio, ao contrário do que grande parte da população do município de Ceará Mirim pensa, não tem origem em uma nascente permanente. Suas águas se avolumam à medida que as chuvas, escassas na região do Cabugi, escoam pelos paredões da Serra de Santa Rosa, enegrecendo as pedras que testemunham a origem da vida de um recurso natural que representa a alegria de famílias de agricultores. Outras serras contribuem, em menor grau de importância, para o “nascer” do Baquipe, como as serras do Feiticeiro, Maniçoba e Bonfim.
No município de Pedra Preta recebe o nome de Rio Salgado ou Salgadinho, em decorrência do gosto insalubre das águas que permanecem sob seu leito seco, e que, em tempos de estiagem, surgem com facilidade a centímetros da superfície da terra, tão logo agricultores a escavam com mãos e “ferros”. Em tempos de chuvas o líquido precioso corre sobre um estreito leito, origem do diminutivo de seu nome. Nos períodos de inverno farto, suas águas fazem a alegria das populações de outras cidades, como João Câmara, Poço Branco, Bento Fernandes, Taipu, Ceará-Mirim e Extremoz.
A fartura e alegria trazidas pelas águas, no entanto, também ocasionam o paradoxo do Ceará-Mirim. As constantes inundações, ocorridas freqüentemente no grande vale, trazem destruição e consternação para famílias de agricultores que nele produzem e dele retiram seus víveres. Essas ricas terras se estendem desde Taipu, município onde a calha do seu leito se alarga e passa a formar o vale.
A cidade de Ceará Mirim é a mais atingida pelas constantes inundações, que decorrem, também, da ação humana. As plantações de cana-de-açúcar em vastas áreas, sem qualquer controle ambiental, degradou a mata ciliar e atlântica, provocando o assoreamento do leito do rio e a poluição de suas águas, processo que continua, na atualidade, provocado pela cultura do mamão. Além disso, o estuário do rio vem sendo gradativamente poluído pela instituição de outras atividades econômicas, em particular a criação de camarão em cativeiro.

Nascente do rio Água Azul - engenho Nascença

Contudo, o Ceará Mirim resiste às condições adversas, recebendo águas dos seus principais afluentes: Maceió (Diamante) e o Água Azul. Este “flui paralelamente ao Rio Ceará Mirim, no próprio vale, ao longo de mais de vinte quilômetros, como que relutasse a juntar-se ao coletor”. Citado por autores como Nilo Pereira e Júlio Gomes de Sena, o Água Azul, mais conhecido pela população cearamirinense por Rio Nascença (em conseqüência de suas fontes se localizarem na Fazenda Nascença) é o principal responsável pela perenidade do Ceará Mirim nas terras da cidade do mesmo nome.
Barragem no rio Ceará-Mirim - abaixo da usina São Francisco

Essa perenidade, estabelecida a partir do vale do Ceará Mirim, permite que o rio sobreviva, apesar das interferências do homem. Assim, depois de uma longa jornada, o grande Baquipe se encontra com o mar na praia de Barra do Rio, município de Extremoz, mantendo sua imponência. Em tempos áureos, em virtude de sua vazão, alguns faziam analogia entre o Ceará Mirim e o Nilo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O SOBRADO

O SOBRADO
Imagens do Ceará-Mirim – Nilo Pereira – 1969 – pgs. 90, 91, 92.



            Muitas vezes, quando a noite era silenciosa, o sobrado estava aceso. Destacava-se bem no alto da cidade, dominando o vale. Era dali que se podia ter a melhor visão do Guaporé, enclausurado na verde moldura “como um cisne de níveas asas repousando de um misterioso vôo”, na expressão ou, antes, na imagem realmente muito feliz de Madalena Antunes Pereira. Até hoje não vi melhor imagem do Guaporé do que essa. O cisne  está, com efeito, em repouso. Voou muito. E chegou cansado, aturdido. Voltou do mistério do seu próprio destino e guardou o seu segredo.
            Uma vez, no sobrado, numa tarde de intensidades tropicais, o vale verde como nunca, minha avó, Isabel Augusta Varela Pereira, a nossa Dobé, me perguntou:
            - Meu filho, quer ver o Guaporé pelo binóculo?
            Estávamos no sobrado, já o disse. Binóculo era ainda coisa para mim ignorada. As grossas lentes mágicas me transportaram, de repente, à velha casa em descanso, mas ainda viva. Não eram os meus olhos que iam até lá; era eu todo, numa afetuosa bilocação instantânea, miraculosa. Vi pessoas entrando e saindo. A fachada da casa estava nítida e tangível. Tive vontade de pôr a mão em tudo, pois eu estava lá, num transporte espantoso.

           

 O sobrado, além de tudo, me oferecia essa magia. Mas dele me ficou, principalmente, a visão noturna e festiva, em horas de rumor e de graça senhorial.
            Umberto Peregrino já fez a descrição dessa velha casa afidalgada, das suas reuniões, talvez as últimas da aristocracia canavieira, pois a própria cidade estava mudando, os senhores de engenho já começavam a residir em natal, e o Ceará-Mirim imergia docemente no seu sonho de Bela Adormecida no Vale.
            Nunca me esqueço da visão fantástica que, uma vez tive do sobrado. Tudo estava iluminado e sonoro. A cidade, aos seus pés, dormia feliz e repousada. Não a perturbavam os sons do piano que enchiam de valsas a atmosfera quieta e romântica. Era o dono daquela noite sua e daqueles que, ali, vinham mostrando que o Ceará-Mirim das melhores tradições estava ainda de pé.



            O sobrado – quem não o sabe? – era o de tio Olimpio e tia Madalena, construído por um homem que fez do trabalho a sua religião: - José Antunes de Oliveira. Suas linhas sóbrias e corretam, denotam o bom gosto de quem o concebeu. E o lugar onde foi elevado era já, só por si, uma impressão de domínio urbano e rural. Por ali passaram os intelectuais da cidade e os de Natal, os homens-bons da terra, os rapazes e as moças do tempo, os bacharéis e médicos que tanto realce tinham nessa velha sociedade de estruturas ainda patriarcais.
            Lembro-me muito de ter visto lá o médico Gavião Gonzaga, que se tornou, depois notável sanitarista. Tocava piano. Outro médico, que se ligou a Ceará-Mirim, foi o Dr. Waldemar Sabino Pinho, também pianista. Encontrando-me com este último em Goiana, tive oportunidade de recordar esses velhos tempos, dizendo que era capaz de solfejar ainda a valsa que ele, preferencialmente, tocava no sobrado. Admirou-se de minha memória e me disse, então, que ainda naquele momento era essa a sua valsa preferida, tantos anos decorridos.
            Por ocasião do centenário do Ceará-Mirim sugeri, em discurso, que o velho sobrado fosse adaptado para nele funcionar o Museu do Açúcar. Quanta coisa ainda a recolher e preservar da destruição! O sobrado se presta, admiravelmente, para essa função, que a própria história do Ceará-Mirim reclama.
            A idéia não caiu no vazio. O atual proprietário do sobrado, o senhor de engenho Ruy Pereira, fê-la a doação, num gesto que só merece melhor o melhor registro. Resta, agora, que o Museu seja criado ou pela própria Secretaria de Educação do Estado, ou pela Municipalidade cearamirinense. A verdade é que a cidade reclama essa realização da mais alta significação histórica e social.
            O sobrado ficou ali como um símbolo de tudo isso. Outro que também se recolheu à quietude – embora não guardasse nem o ruído nem o esplendor do primeiro – foi o palacete “toscano” de José Inácio Fernandes de Barros, na Praça da Matriz, hoje Colégio Santa Águeda.
            Um período histórico havia passado. Mas dentro daqueles casarões andava uma alma – a alma do tempo, que não se separa das coisas e só por isso é que elas não morrem. Pois até na solidão e no abandono há vida.
            Por isso mesmo o velho sobrado parece às vezes reanimar-se, como que tocado por uma varinha de condão, que é a lembrança de suas festas e dos seus encantos. Mas ele está solitário, fechado, silencioso, à espera do destino que lhe dará a história, sempre fiel à imortalidade das instituições e dos homens.

            Em 1978 o velho solar foi restaurado e transformado em sede da prefeitura de Ceará-Mirim. Depois de mais de 30 anos o sobrado está praticamente abandonado, sem manutenção, isolado, voltou ao tempo em que Nilo Pereira escreveu o texto: Ele está solitário, fechado, silencioso, à espera que o destino que lhe dará a história, sempre fiel à imortalidade das instituições e dos homens.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ANA LOURDES E A SAGA DE EMMA


Minha filha Ana Lourdes (5 anos) vem pedindo para conhecer o túmulo de Emma há vários dias. Ela se interessou pela história da inglesinha depois de uma pesquisa feita para escola onde estuda (SECAT).

Pois bem, entreguei o material para que pesquisasse e fizesse as devidas anotações (Ana lê e escreve) sobre a lenda/história de Marcelo Barroca e Emma Campbel e desde aquele dia, ela vem cobrando a visita ao tão famoso túmulo.

Fiz questão de chegar ao local exatamente a tardinha quando o sol inicia sua saída crepuscular. Queria que Ana percebesse o que os enamorados  presenciavam e sentiam quando se deslocavam para a colina todas as tardes. Ela estava encantada por aquela aventura no alto do oiteiro do Verde Nasce...certamente, uma experiência marcante em sua vida!

Eis a história da inglesa Emma:

Marcello Olympio de Oliveira Barroca era filho de Victor José de Castro Barroca e nasceu em Ceará-Mirim no dia 16 de janeiro de 1856 e faleceu em São Gonçalo do Amarante.
Estudou na Inglaterra e lá conheceu a inglesa Emma Campbel nascida em 30 de novembro de 1854. Emma casou-se com Marcello e veio morar no Brasil, precisamente em Ceará-Mirim, no Engenho Verde Nasce.
Em 1880 Emma fica grávida de uma menina e, no dia 07 de fevereiro de 1881, quando está para dar à luz de sua filha, o parto complica e ela vem a falecer.
Marcello manda sepultá-la no ponto mais alto de uma colina na propriedade do engenho Verde Nasce, um lugar especial onde o jovem casal ia todas as tardes apreciar o pôr-do-sol que desaparecia à sombra do canavial. Tal atitude se deu porque a igreja não permitiu que sua esposa fosse sepultada no cemitério da cidade, uma vez que ela era de religião anglicana.
Seu túmulo foi mandado construir com proteção de grade de ferro vindas da Inglaterra e sua lápide foi confeccionada em Mármore de Carrara e trazia inscrito: “Sacred to the memory Emma – the beloved wife – Marcello Barroca. Born November 30 th 1854. Died February 7 th 1881”.
O casal teve uma filha que se chamou Emma Barroca em homenagem à mãe. Quando Emma completou 17 anos, em 03 de dezembro de 1898, casou-se com seu tio (viúvo) Apolônio Victor de Oliveira Barroca. Desse casamento nasceram 04 filhos, deixando descendência: Maria do Carmo de Oliveira Barroca; Jayme de Oliveira Barroca; Clarice de Oliveira Barroca e Maria de Oliveira Barroca.
Muito tempo depois, quando o Verde Nasce já não pertencia mais a família, começaram a surgiu histórias sobre as jóias que teriam sido enterradas com a jovem Emma e, também, começaram a surgir causos de assombrações em que a inglesa aparecia pedindo para que recuperassem aquele tesouro.
Ninguém sabe ao certo se a história procede ou se apenas são causos do imaginário popular. O certo é que o túmulo foi violado e, atualmente, restam os escombros do antigo jazigo. As grades de ferro e a lápide de mármore estão guardadas com os atuais proprietários do engenho.
O diretor da Fundação Nilo Pereira Waldeck Araújo tentou fazer a restauração do túmulo, no entanto, a proprietária do engenho solicitou que ele se retirasse do local e que ela não autorizava tal ação.
É lamentável um caso como esse porque todos esses anos a velha ruína ficou em total abandono, exposta às intempéries do tempo. Esperamos que os proprietários do Verde Nasce, principalmente àqueles da área onde está localizado o túmulo, tenham um projeto que o salve da total destruição, afinal, é um monumento que faz parte da historia daquela região e precisa ser urgentemente restaurado, quem sabe, com isso, a inglesa possa descansar em paz (e nós também!!).
Deve haver uma forma de salvá-lo do total desmoronamento, seria interessante que o poder público o transformasse em patrimônio municipal.

SEU MANOEL DO GELÉIA


Hoje ao entardecer, caminhava pela Rua Dr. Meire e Sá, quando encontrei com seu Manoel do geléia, pedi para que ele me desse um dedinho de prosa, pois tinha intenção de entrevista-lo para meus arquivos de memória da gente de Ceará-Mirim. Marcamos o dia da entrevista e eu lembrei que tinha apresentado o famoso doceiro, ao jornalista Sergio Villar, quando da entrevista para a Revista Preá, nº 20 – outubro/novembro de 2008.

Segue a publicação da Preá- nº 20 – pg. 61.

GELÉIA NA CABEÇA E DISPOSIÇÃO NOS PÉS

Andar três horas ininterruptas é cansativo. Com uma espécie de tabuleiro repleto de doce em cima da cabeça, a situação piora. E quando se é idoso, só mesmo com disposição e saúde. Essa rotina se repete durante 55 anos. Foi vendendo geléia de côco que Manoel  Pereira dos Santos, 73, construiu e sustenta a família de seis filhos.

Antes o doceiro trabalhava no roçado. “Era mais leve”. Hoje, já durante a manhã ele raspa o côco na vasilha junto com o açúcar. O segredo para dar “o ponto” ele afirma ser a pedra úmida – uma espécie de pedra de sal. O côco na verdade, é o “carro-chefe” da produção totalmente artesanal. Mas Manoel Pereira diz que basta ter a fruta que ele faz o doce.

Às 14h ele  parte com o tabuleiro na cabeça. Mais da metade é de côco. O resto dos sabores varia: goiaba, maracujá, mamão. Nem sempre o tabuleiro volta vazio. O doceiro reclama que a geléia já foi mais aceita, sobretudo nas feiras. Uma época mais doce, talvez. Mas seu Manoel não pretende parar. “Enquanto tiver em pé vou estar na rua vendendo geléia”.

domingo, 6 de novembro de 2011

CULTURA NÃO TEM COR PARTIDÁRIA

Navegando e pesquisando na internet, encontrei esse artigo que é exatamente o que penso em relação a produção cultural de nossa terra brasilis e, também, da província bacuipeana de Ceará-Mirim.
Amigo leitor, substitua no texto, Pernambuco e Recife por Rio Grande do Norte e Ceará-Mirim e ele será totalmente verde-valeano, bacuipeano ou cearamirinense!!!

ARTIGO: MENDONÇA FILHO - CULTURA NÃO TEM COR PARTIDÁRIA
Por Mendonça Filho

Aprendi muitas lições com a experiência da vida pública, entre elas a de que a cultura tem um valor em si mesma: enriquece o imaginário social; capacita as pessoas para melhor decidir sobre seu próprio destino; realça a beleza da diversidade; torna as sociedades mais humanas e democráticas. Por isso, nascer e viver no Recife, uma cidade com riqueza histórica e uma diversidade cultural única no País, é motivo de orgulho.
Esse sentimento, ao mesmo que envaidece, gera preocupação com a preservação da nossa arte e da nossa cultura, que está sendo produzida nos quatro cantos da cidade. E exige discussão sobre o papel da gestão municipal na definição de uma política cultural que respeite a liberdade de criação, valorize o artista local, trabalhe com previsibilidade e induza o Recife a "falar para o mundo" e não apenas para si mesma ou no máximo para Pernambuco.
Nas minhas conversas que venho mantendo com o povo do Recife e com os artistas constato que a cultura é riqueza coletiva e gênero de primeira necessidade. Tanto que nas nossas periferias a arte e a cultura produzidas, principalmente pelos nossos jovens, "teimam" em nos alertar que é insuficiente tratar a cultura nas estreitas dimensões do entretenimento e do bem econômico.
A cultura entre tantos valores tem um de cunho social, que é o de seduzir nossos jovens para um mundo de criação, expressão e produção, afastando-os de um futuro sem perspectiva e da marginalidade. O que reforça a opinião que ouvi de um artista, segundo a qual, uma criança que toca um instrumento não rouba. Opinião com a qual concordo plenamente, pois a solidez cultural da comunidade é o alicerce de uma cidadania esclarecida e emancipada.
Na sua nobre função de ampliar a consciência individual e social, a cultura produz uma riqueza imaterial que pode e deve produzir riquezas materiais para uma complexa cadeia de produção. Deve-se respeitar a produção artística e cultural nas suas etapas principais: a formação, o processo e o produto final. O Recife não tem uma política cultural com essa amplitude de visão.
Os nossos artistas e a nossa produção cultural não podem ficar a mercê de um suposto planejamento que reduz a nossa expressão cultural basicamente a três momentos no ano: o carnaval, o São João e o Natal. Muito menos a falta de previsibilidade sobre a participação num evento deste. Tenho conversado com artistas e escutado relatos freqüentes de que a confirmação da participação só se dá na véspera, com "oferta" de um cachê mísero e na base do "é isso ou nada". O que é inadmissível por ser, na melhor das hipóteses, desrespeitoso a um dos bens mais precioso de um povo, o artista.
Nos meus 42 anos de vida aprendi a lição de apreço à cultura e de admiração por todos aqueles que produzem um bem imperecível e de fruição coletiva. Os homens do poder passam. A história julga e pode lhes reservar bons e maus veredictos; o esquecimento ou a glória póstuma. Os homens da cultura não passam porque constituem a alma da Cidade e a alma não morre. Diferentemente do que ocorre com os simples mortais, a glória dos artistas é uma recompensa antecipada no tempo.
Pernambuco e o Recife têm um dos patrimônios culturais mais ricos e diversificados do Brasil. O povo se revela na sua imaginação criadora, através dos seus artistas, insubmisso a rótulos e escolas. Essa imaginação criadora vai além e ultrapassa as fronteiras de um formalismo vesgo que separa o erudito e o popular. E que papel caberia aos governos, especialmente, ao governo municipal diante do patrimônio cultural da cidade?
Tenho convicção de que ao governo municipal cabe as tarefas de permitir a liberdade plena de criação; viabilizar recursos orçamentários e dos incentivos fiscais e financeiros; difundir e distribuir a produção artistico cultural; planejar com antecedência o calendário dos eventos para dar o devido valor a quem produz e ao bem produzido de modo a alcançar resultados eficazes; proteger a produção local de invasões que prejudiquem a produção local sem que isto signifique aversão ao que é bom e vem de fora.
Considerando que a cultura é elemento da identidade de um povo que se reconhece na medida em que conhece sua cultura, aos governos cabe oferecer a liberdade plena para criar; respeitar as preferências e os alinhamentos ideológicos e jamais discriminar ou excluir os artistas pelos seus pensamentos ou palavras. Meu compromisso com o Recife é com a valorização dos artistas locais e com o respeito às manifestações mais autênticas do povo para que o Recife assuma sua vocação de capital da cultura.

Fonte:
http://www.edmarlyra.com/2008/04/artigo-mendona-filho-cultura-no-tem-cor.html

Portanto, amigos leitores, revitalizar nossos folguedos populares e identificar os agentes culturais de Ceará-Mirim através da parceria com a Secretaria de Defesa Social do município, é, para mim, uma enorme satisfação, uma vez que terei oportunidade de contribuir para o fortalecimento das manifestações populares, local e regional, em que apresentam resultados positivos e, principalmente, atestam que os planejamentos das instituições públicas relacionadas à cultura devem priorizar ações efetivas onde promovam e valorizem as produções culturais do município de forma contínua e permanente, oportunizando o acesso e a divulgação dos artistas e produtores culturais.
Não é novidade para ninguém a preocupação com nossos valores artísticos e culturais, uma vez que são marginalizados e esquecidos diante de políticas públicas que não priorizam ações voltadas para o desenvolvimento sócio-econômico e cultural de nossa terra. É preciso sensibilidade e responsabilidade das gestões no que se referem ao resgate das tradições populares e da própria memória da gente desse vale ubérrimo e querido.
As administrações passam, porém, a produção artística e a história da cidade, permanecem escritas nas linhas do tempo e, nada, nada poderá apagá-las ou deletá-las da sabedoria popular, mesmo quando não há motivos para grandes registros, a história se encarregará de testemunhar e julgar as ações dos filhos – ou não – desta terra!!!
Não há, em mim, laços políticos nas ações e pesquisas realizadas em prol de nossa cidade, há, verdadeiramente, o desejo de deixar para as futuras gerações o registro das manifestações populares tão significativas na formação de nossa gente. Além disso, é prazeroso poder contribuir para que a história não fique órfã de sua própria memória. Assim, estarei sempre à disposição daqueles que amam nossa terra e se orgulham de ser filho deste vale; de pisar no massapê e acreditar que o sangue e suor derramados pelos nossos antepassados – nativos índios e negros, exterminados e escravizados, possam aflorar em todos nós, o sentimento de pertença e orgulho de ser cearamirinense!!!!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

REMINISCÊNCIAS

Garimpando no baú de fotografias antigas, encontrei a foto da Casa-Grande do engenho Oiteiro - datada de  1923. Imediatamente lembrei do texto de Madalena Antudes...


REMINISCÊNCIAS


“No outono da vida, recordar é abrir pontos de luz na estrada abandonada do passado.

Maio! Ainda hoje o contemplo, no milagre da imaginação, no pólen de suas flores, na renovação de suas messes, sentindo em tudo a poeira das desilusões, polvilhando a trilha do passado.

O encanto dos jardins do Oiteiro resumia-se em sua profusão de flores. Os canteiros eram orlados de fundos de garrafas e pedrinhas do sertão. As roseiras transbordavam de latas de querosenes, e os jasmineiros  cresciam pujantes, beirando os velhos muros, gretados, da Casa-Grande.

Pelos vidros partidos das varandas, penetravam os “mimos de céu”, que aljofravam o solo, como róseas borboletas de asas despedaçadas rolando pelo chão.

Os rosedás embalsamavam o ar, paralelos os bogaris de folhas largas, delicadamente enrolados, quais brancos caracóis. As angélicas afloravam de varetas verdes, que se inclinavam salpicadas de estrelinhas brancas, como o cajado de São José.”



Maria Madalena Antunes Pereira em “Oiteiro memória de uma SINHÁ MOÇA” – Ed. Irmãos Pongetti – 1958.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SISTEMA ESTADUAL DE BANDAS DE MUSICAS

POSTADO DO BLOG DO DEPUTADO MINEIRO:
http://mineiropt.com.br/noticias/audiencia-discute-sistema-estadual-de-bandas-de-musica/

Notícias

06.10.2011

Audiência discute Sistema Estadual de bandas de música

 
Foto: Vlademir Alexandre

A audiência pública proposta pelo deputado Fernando Mineiro nesta última quinta-feira, 6, reuniu mais de 200 pessoas no plenarinho da Assembleia Legislativa e debateu o projeto de lei de Mineiro para a criação do sistema estadual de bandas de música. A audiência contou com apresentações musicais de bandas do interior do RN e homenagens a personalidades da música.
O evento começou às 15h com a apresentação das bandas Filarmônica de Cruzeta e da banda Euterpe de Jardim de Seridó na praça em frente à Assembleia Legislativa. As apresentações duraram cerca de 40 minutos e atraíram políticos, artistas e curiosos. A discussão sobre o projeto de lei do sistema estadual das bandas de música começou logo em seguida, no plenário Robinson Faria.
A audiência pública contou com a presença dos deputados Márcia Maia, Ricardo Mota e Hermano Morais, da secretária extraordinária de cultura Isaura Rosado e do representante do Ministério da Cultura para o Nordeste, Fábio Lima. Além deles, a coordenadora nacional de bandas de música da Funarte, Rosana Lemos, também participou da audiência pública.
Na ocasião foram homenageados o maestro Tonheca Dantas Filho, a banda Euterpe de Jardim do Seridó – banda mais antiga do Estado com mais de 150 anos de atividades – a Filarmônica de Cruzeta e in memoriam os maestros Tonheca Dantas e Felinto Lúcio. A audiência contou ainda com apresentações musicais.
O historiador Cláudio Galvão elogiou a iniciativa do deputado Fernando Mineiro em realizar a audiência pública e apresentar o projeto de lei da criação do sistema estadual de música. “Muitas bandas do interior dependem da boa vontade dos prefeitos da cidade”, lembrou. Galvão afirmou que a música é um aspecto importante para a educação. “É uma forma de educação mais esmerada e também uma oportunidade de trabalho”.
 A secretária de cultura Isaura Rosado também parabenizou a iniciativa do deputado Mineiro e reconheceu a importância do projeto para a cultura do RN. “Nós reconhecemos a importância das bandas de música e do sistema estadual de bandas”, afirma. O representante do Ministério da Cultura, Fábio Lima, enfatizou que o RN será o segundo estado do Nordeste a ter um sistema estadual de bandas. “É um avanço considerável”.
A representante da Funarte, Rosana Lemos, afirmou ter ficado orgulhosa com a iniciativa do deputado. “Queremos parabenizá-lo pela realização da audiência”, disse.
O deputado Fernando Mineiro ressaltou a importância das bandas para o interior e classificou a apresentação do projeto de lei do sistema estadual de bandas de música como “algo histórico”. “É o primeiro passo na história recente pra gente organizar as bandas na cidade do interior”, ressalta.  A audiência nasceu a partir da sugestão do maestro Bembem ao deputado Fernando Mineiro. 


Foto: Vlademir Alexandre 
 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A CASA GRANDE DO ENGENHO GUAPORÉ

A CASA-GRANDE DO ENGENHO GUAPORÉ

               A Casa Grande do Engenho Guaporé está localizada no alto de uma colina, em pleno vale do Ceará-Mirim, em um sítio que anteriormente tinha denominação de “Bonito”. Sua implantação é privilegiada, ficando em perfeita harmonia com a paisagem circundante.
               O Dr. Vicente Inácio Pereira era proprietário do sítio Ilha Bela, que herdara do seu sogro, o Barão do Ceará-Mirim. Houve uma permuta de Ilha Bela pela propriedade “Bonito”, local onde o dr. Vicente Inácio edificou um engenho, ao qual deu a denominação de Guaporé, desaparecendo em conseqüência o primitivo topônimo (Bonito).

               No engenho Guaporé, também foi edificado um casarão, na 2ª metade do século passado, para servir à família do Dr. Vicente Inácio, que era casado com d. Isabel Augusta Duarte Varela.
               O Dr. Vicente Inácio Pereira nasceu no dia 3 de Maio de 1833, e faleceu em 22 de novembro  de 1888. Foi o segundo norte-rio-grandense a se formar em Medicina, tendo sido também jornalista, além de deputado provincial e vice-presidente da província.
               Como médico, o Dr. Vicente Inácio deixou uma valiosa contribuição científica: “Estudo do Cólera Morbus, sua Profilaxia e seu tratamento”, Impresso na tipografia “Dois Mundos”, em 1878.
               No campo político, foi sempre leal ao seu partido, o liberal. Como senhor de engenho, nunca deixou o Vale do Ceará-Mirim, não foi seduzido pela grandes cidades, enraizou-se à sua terra e, ao lado de outros proprietários, inicio o ciclo-econômico do açúcar no Ceará-Mirim.
               Segundo o escritor Nilo Pereira, neto do Dr. Vicente Inácio, “ele só deixou a sua casa pela assembléia ou pela presidência da província, mas era dali que trazia para a política e para a administração o senso de sua medida, o que lhe era possível fazer pelo Ceará-Mirim.
               A Casa Grande do Engenho Guaporé é uma edificação típica de uma época afidalgada. Ela possui uma história não apenas econômica, mas também política. Ali estiveram destacadas figuras do segundo Reinado, dos partidos Liberais e Conservadores, e do clero. É, sem dúvida, um exemplo representativo da aristocracia rural do Vale do Ceará-Mirim.
               Trata-se de uma edificação de relevante valor arquitetônico, de grande importância histórica. Construída no estilo neoclássico, apresenta partido de planta retangular, desenvolvida em um pavimento, notando-se ainda a presença de um sótão. Sua cobertura é feita em duas águas.
               A casa apresenta uma fachada emoldurada por colunas e cimalha. Possui uma janela central de acesso, e seis outras janelas, todas em arcos plenos, com cercaduras de massa. As esquadrias são de venezianas, de madeira pintada e vidro, com bandeiras de vidro, dispostos em forma de rosácea.
               A fachada ostenta ainda o esplendor do seu passado, com frontão triangular e platibanda ornada com guirlanda e rosáceas de massa.
               O mobiliário da casa obedecia ao gosto francês, muito pertinente da época em que os ricos senhores de engenho costumavam mandar os filhos estudar na Europa, de onde traziam as mesmas idéias renovadoras.
               O interior da casa não sofreu modificações significativas, conservado ainda o seu forro de madeira, piso de tijoleira no térreo e tabuado corrido no sótão.
               Em 1979 a casa, que se encontrava em precário estado de conservação, foi restaurada pela Fundação José Augusto, sendo posteriormente tombada a nível estadual, em 16 de dezembro de 1988. Atualmente funciona no local um museu, sob a responsabilidade conjunta da Fundação José Augusto e Prefeitura Municipal de Ceará-Mirim.
               A Casa Grande do Engenho Guaporé repousa em pleno Vale, conservando ainda a mesma feição de sua fabrica original, em um cenário que faz lembrar as velhas figuras que ali viveram, ou por ali passaram.
               Nilo Pereira, um neto do Guaporé declara, em um lamento de saudade:
“... já não vale insistir na grandeza daquela velha casa, onde Vicente Inácio Pereira lutou para que a civilização da cana-de-açúcar fosse uma constante do progresso, economia e o mais poderoso fator da aristocracia rural. O melhor é deixá-la adormecida ao longe como um castelo de ilusões sobre o qual pairam invisíveis mãos de bondade e cavalheirismo. Essas mãos suspensas sobre seus destinos, revelando uma solidão de claustro. É o que resta de uma vida brilhante, que se apagou num enigma.