segunda-feira, 20 de junho de 2011

AO AMIGO QUE PARTIIU: BARTOLOMEU CORREIA DE MELO



BARTOLA, OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM. Breve e imperfeita louvação de amigo.

No sábado passado, às 16.30, Bartolomeu Correia de Melo deixou-nos para atender a um chamado do Criador. Estava já no limiar de sua resistência física e moral, de tanto lutar para viver – ele, um guerreiro digno, obstinado e forte. Lutou enquanto pôde. Não que resistisse à fatalidade, pois era um crente nos desígnios de Deus, mas dizia a si mesmo que glorificaria o Pai, preservando, no esforço da superação e da resistência, o bem mais precioso que Dele recebera – a vida.

Nós, seus amigos, acompanhamos a luta desigual, entre o Davi que ele Ra e o Golias das insidiosa s patologias que se alojaram no corpo do guerreiro, e por isso mais valorosa. Entre o hospital e o confinamento doméstico obrigatório, vivia , no entanto, como se nada estivesse acontecendo. Mas não se enganava, nem nos enganava. Queria sorver a vida, que sempre tivera em plenitude, com sofreguidão, até o último instante.

Eu mesmo, um privilegiado, tive a alegria de receber dele uma demonstração de afeto e desprendimento, quando, já cheio de dores, que se agravaram com a descoberta de mais uma agressão à saúde, compareceu com o seu anjo da guarda, Verônica (Vera), a uma sessão da Câmara de Vereadores de Ceará-Mirim, onde apresentei um plano de revitalização e Desenvolvimento da cultura local.

Estávamos ligados por uma série de circunstâncias: éramos cearamirinenses adotivos e elegemos a cidade como a nossa pátria afetiva – compromisso de vida inteira. Por isso ele quis ser sepultado no cemitério de lá, de frente para o vale que nos embriagava desde a infância, uma referência imorredoura. Também quero depositar nele os meus restos de vida física.

Amávamos a literatura e nela encontramos uma maneira de registrar a vida que tivemos, dar o nosso testemunho da mágica e extraordinária realidade que não era visível aos olhos dos que não enxergavam. Uma realidade fantástica, que não se oferecia aos circunstantes preocupados apenas no sobreviver.

Era preciso uma lente extra-sensorial para captá-la e uma linguagem adequada para expressá-la. E Bartola conseguiu esse milagre.

Tornou-se, sem produzir-se, conduzido apenas pela sensibilidade e desejo quase obsessivo de exibir o seu povo – o nosso povo – razão maior das nossas investigações, o maior ficcionista do Rio Grande do Norte e dos maiores contistas do Brasil.

A literatura de Bartola distingue-se das demais, porque ele transcende, nas suas escrituras, a mera construção vocabular, a originalidade forçadamente distintiva, o recurso criativo extraído da fertilidade imaginativa. Diversamente de outros criadores (Guimarães Rosa e Manoel de Barros, por exemplo) ele não criou as expressões que apropriou em sua linguagem literária. Nem as utilizou em exercícios lúdicos.

Ele as recolheu nas andanças pelos caminhos do sertão e do litoral - pois sempre foi um andarilho deslumbrado - no cordel, nos repentes, nas emboladas, nas feiras livres e nas toadas dos brincantes das nossas festas populares.

Aquilo que não ouviu, intuiu, e apenas deu extensão e liberdade à linguagem popular que se escondia no pensamento e no imaginário do nosso povo. Eu lhe disse isso, certa vez e ele ficou matutando, ensimesmado, e de repente deu-se conta de que se tratava, de fato, de uma observação pertinente e me disse: sabe que você está certo? Às vezes me vejo diante de um silêncio mais falador do que todas as falas do mundo. Até de quem bebeu água de chocalho.

Os dois livros de contos que escreveu, “Lugar de Estórias” e Tempo de Estórias”, podem e com certeza serão incluídos em qualquer antologia do conto brasileiro. Nenhuma contribuição à literatura brasileira, especialmente representativa da nossa região, merece tanto destaque quanto esses dois. E não pensem que exagero, ou que aplique sobre a obra a visão de um amigo e admirador.

Também escreveu livros infantis, “O fantasma bufão” e “A roupa da Carimbamba” e um dos seus contos (“Da janela”) foi adaptado para o teatro, numa peça de um só ato.

Não sou crítico literário nem um esteta com tanta erudição que me seja dado o benefício da credibilidade. Entretanto, sou um instigador, um provocador, alguém que não se compraz em estabelecer verdades pessoais, mas em argumentar dialeticamente ou comprovar pela amostragem a verdade que se coaduna com o senso comum.

Leiam os livros de Bartola, e concordem comigo pelas evencias. Releiam, os que já o fizeram, mas desta vez com espírito crítico, analítico, sem preconceitos. Com aquela disponibilidade Gideana que se deixa seduzir, se quiser, ou amaldiçoar, querendo, mas livres para voar.

Miguel Cirilo, um dos maiores poetas que o Rn já (des)conheceu, dizia: “Posso conviver com os anjos e não me converter; com os demônios e não me pervereter”. Que seja assim a abordagem dos neófitos nas Bartolomeicas narativas, ou na releitura dos céticos ou garimpeiros de verdades.

Mas mergulhem no universo de Bartola. Não se postem como Grieco que, à parte o seu valor como crítico literário, ficou conhecido pela negação ao seu próprio ofício: “Não li e não gostei”. Porque há também quem leia e não decodifica o frasead, nem descobre nas entrelinhas.

Devo dizer que o nosso estado, (e o Brasil), perdeu um dos seus mais importantes escritores. Se não pensarmos assim, depois de ter lido ou relido os livros de Bartola, é porque somos preconceituosos, invejosos ou sofremos do complexo de inferioridade de alguns nordestinados. Aprendi que contra fatos não há argumentos.

Li e reli os dois livros, porque apaixonei-me perdidamente à primeira vista e tive que retornar a eles para uma releitura menos emocional, mais depurada, mais isenta. E aí foi que me perdi definitivamente. Passou a ser um amor infinito que, diversamente do descrito por Vinicius, seria infinito porque duraria aternamente.

Perdemos também, os seus amigos, o convívio de uma criatura a um só tempo, afável, dono de uma humanidade que porejava evidente nos gestos mais comuns, e ao mesmo tempo um homem de muito espírito, que transitava com desenvoltura do humor fescenino ao comentário satírico, passando pelas citações e reflexões eruditas.

Só não tínhamos afinidades político-ideológicas. Nesse terreno tínhamos discussões acaloradas. Ele, conservador, eu, socialista. Mas a nossa amizade estabelecia limites. Quando chegávamos às raias dos achincalhes e agressões, transigíamos nas coisas menores que não alcançavam o cerne das nossas idéias, aceita por ambos como um sinal de pacificação, uma trégua.

Cumprimentou-me civilizadamente quando Dilma foi declarada vencedora, mas não resistiu e vaticinou as piores desgraças para o nosso país, nas mãos da “camarilha” comunista. Era assim o Bartola, carne, ossos e emoções afloradas. Ele era ele, sem receio de ser o que Ra. Autêntico.

Esgotei as possibilidades de caracterizar o Bartola que muitas vezes tomei como personagem, quando o perfilei no meu livro “A Intriga do Bem”, onde o dava como anjo-torto, encarregado por Nossa Senhora da Conceição de estabelecer as fundações de Ceará-Mirim.

Perdi um amigo e um companheiro de divagações e inquietações. Perdi um contendor leal a precioso, culto e coerente com as questões de princípios que adotou, alguém que fazia diferença na cosntrução de uma convivência democrática da diversidade político-ideológico.

Ceará-Mirim e o Rio Grande do Norte perderam a sua maior expressão literária. Os humanistas, um dos seus mais renitentes retratistas e ativistas Verônica e os seus filhos, um companheiro e um pai devotado.

Que Nossa Senhora da Conceição o receba como seu acólito e o recomende ao seu filho para que ele tenha um brevíssimo estágio, pois já chegou preparado, e retorne logo a esse nosso plano para completar a sua missão.

OBS – Deixou-me o encargo de editar o seu livro de poesias “Musa Cafuza”, pois era um bom poeta embora se confessasse “intruso” nesse gênero.

Natal, madrugada de segunda –feira, 20.06.11

Pedro Simões

sábado, 18 de junho de 2011

COLOQUIO CULTURAL



Caro(a) Amigo(a):

A parceria constituída pela poetisa cearamirinense e divulgadora cultural CEICINHA CÂMARA (membro da SPVA-RN e Poetas del Mundo), pela CÂMARA MUNICIPAL DE VILA DO BISPO, pela JUNTA DE FREGUESIA DE VILA DO BISPO e pela ADC-ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA E CULTURAL DE VILA DO BISPO leva ao vosso conhecimento a realização do "COLÓQUIO CULTURAL: TRÊS TEMAS - TRÊS AUTORES", com os palestrantes: Dr. Rubens Azevedo/RN-Brasil; Dra. Selam Calazans/Rio de Janeiro-Brasil; e Dr. Carlos Morais/Lisboa-Portugal, que será realizado no dia 20 de Junho de 2011 (próxima Segunda) pelas 20:00, no Auditório do Centro Cultural de Vila do Bispo. Este evento será a concretização do intercâmbio cultural entre BRASIL (Ceará-Mirim/RN) e PORTUGAL (Vila do Bispo/Algarve), feito pela poetisa CEICINHA CÂMARA, cidadã brasileira, radicada em Portugal.

Portanto, peço apoio de divulgação. Para isto, envio cartaz em anexo e imagens dos logotipos dos patrocinadores: Restaurante Solar do Perceve (onde a Ceicinha trabalha); Ourivesaria Luz; Restaurante Ribeira do Poço; e o Hotel Mira Sagres (onde os palestrantes vão se hospedar). E os logotipos dos apoiantes: SPVA; Poetas del Mundo; Câmara Municipal de Vila do Bispo; Junta de Freguesia de Vila do Bispo e ADC-Vila do Bispo. Eles merecem ser divulgados, por acreditarem nesta minha iniciativa e apoiarem a CULTURA. Por favor, repasse esta mensagem aos seus amigos e aos que puderem comparecer, serão bem vindos.

Agradeço antecipadamente,

CEICINHA CÂMARA

Organizadora do Evento

-De Ceará-Mirim/Rio Grande do Norte/Nordeste Brasileiro.
-Radicada atualmente em Vila do Bispo/Algarve/Portugal.
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_europa.asp?ID=6981

quinta-feira, 9 de junho de 2011

AO AMIGO QUE PARTIIU: ZÉ BARACHO




Ao amigo que partiu...
Sabe amigo, já se vão muitos anos, talvez, poucos, para você que viveu 81. São, na verdade, doze anos de convivência e amizade. Nesse curto espaço de tempo aprendi a amá-lo e respeitá-lo como a um pai.
Parece que foi ontem, que me encontrei com você pela primeira vez. Fazia um passeio de bicicleta com meu amigo Mucio Vicente, quando ele convidou-me para visitar Tabuão. Disse que lá havia um mestre de congo, uma dança folclórica... estávamos em 1999. Na época não me interessava pelas coisas da cultura de Ceará-Mirim.


Assim, conheci mestre Tião e ele me apresentou você como embaixador de congo. Sabe companheiro, não tinha ideia que aquele encontro seria o início de uma grande e verdadeira amizade e, também, me direcionaria para um dos mais importantes períodos de minha vida. Foi por vocês que me interessei pelas histórias de nossa gente e resolvi buscar, na pesquisa, os registros de nossas memórias.
Sua figura singela e personalidade forte sempre foi sua principal característica e todas as vezes que íamos para qualquer apresentação você estava lá, às vezes invocado com alguma coisa, porém, fazendo sua parte no brinquedo.



Prisão do embaixador do congo


Não tenho ideia de quantas vezes estivemos juntos, gravando, dançando, brincando, cantando, viajando, tomando conhaque, que importava o tempo, porque, como diz o poeta Alceu: “ele se dilata como um fio, elástico, caminho, estrada que nos transporta... E a gente segue o tempo e ninguém nota, seus caminhos, suas rotas, por onde o tempo seguiu”.
De repente o fim do caminhar e aí, a despedida certa, de uma realidade viva entre tantos bem-quereres, mas, a vida continua, e nos restam as reminiscências, como diz o profeta: “que vosso presente abrace o passado com nostalgia e o futuro com ânsia e carinho”.
Tenho na lembrança alguns retalhos de nossas andanças nos caminhos da cultura. Lembra da apresentação na cidade de Pureza? Andamos entre ruas e becos a procura daquelas bodegas onde encontraríamos o néctar mágico...Ufa, até que enfim vencemos o desafio e a noite foi maravilhosa!



Mestre Tião - Professor Deífilo Gurgel e Mestre Zé Baracho


Naquele dia na cidade de Pureza, mais uma vez, você surpreendeu a todos os presentes, quando na sua fala, recitou um poema improvisado, e nele, cantou e contou a história da cidade desde seu primeiro nome que se chamava Pau Darco...Aprendi mais uma naquela noite! Assim, fui digerindo todos os seus conhecimentos e, certamente, os levarei por toda minha vida e, enquanto eu tiver oportunidade, os repassarei para as futuras gerações, senão eu, mas o farei, através destes modestos escritos, que estão fluindo de dentro de minha alma.

Apresentação de Mestre Zé Baracho - Fórum Social Nordestino de 2004 - Recipe/PE

Um dos momentos mais importantes de nossa caminhada foi no Fórum Social Nordestino em 2004, na cidade de Recife. Apresentávamos a história do Congo de Guerra para uma grande plateia e, na sua fala, você perguntou aos pernambucanos se sabiam o porquê do nome Pernambuco? Eles não responderam e você falou sobre Joaquim Nabuco e, em seguida, nos presenteou com um hino tradicional de Olinda ou Leão do Norte: “os caminhos congressos sagrados, Pernambuco seguiu varonil...Recife te vê lado a lado....Na pedra onde reza o Brasil... És tu Leão, Leão do Norte...” No final, a plateia cantando o refrão Leão do Norte, o aplaudiu de pé. Foi emocionante vê-los eufóricos e felizes, porque, um potiguar estava ali, lhes ensinando um hino tradicional, que a maioria não conhecia.
Foram muitos momentos de emoção, é impossível mensurá-los, pois, faltariam linhas para descrevê-los. Um deles foi quando gravávamos uma entrevista e você cantou o romance de Dom Jorge! Fiquei encantado com sua lembrança, pois, aquele romance era cantado pelos menestréis na Idade Média e, você, estava lá, contando a história através da música: “Que que tu tem Juliana, que estás tão triste a chorar....minha mãe eu soube ontem que dom Jorge ia se casar...”.




Mestre Tião e Mestre Zé Baracho - a última vez que o vi


Nosso último encontro foi no aniversário de Mestre Tião, no domingo, 15 de maio, quando comemorava seus 97 anos. A lembrança mais recente sua, foi quando mestre Tião, tocava seu surrado pé de bode, uma acordeon de oito baixos, e cantávamos juntos a música de entrada do Congo de Guerra: nas horas de Deus amém...é padre filho e espírito santo... essa é a primeira cantiga, que nessa casa eu canto...
É madrugada e estou congelando de frio, vez em quando, entra um fio de cruviana que passa soprando suavemente, a sensação é boa e ajuda a escrever essas mal-traçadas linhas. Meu pensamento projeta quadros cinematográficos que passam velozmente deixando registrados na memória todos nossos momentos juntos...estou muito emocionado e no silêncio da sala reflito o quanto você foi importante para mim.
Vou me finalisar com um trecho da despedida do profeta de Gibran:


“Adeus, povo de Orphalese.
O dia já se foi.
E está se cerrando sobre nós, como o nenúfar se cerra sobre seu próprio amanhã. O que aqui nos foi dado, nós o conservaremos. Mais um curto instante e minha nostalgia começará a recolher argila e espuma para um novo corpo. Mais um curto instante, mais um descanso rápido sobre o vento, e outra mulher me conceberá.
Meu adeus a vós e à Juventude que passei entre vós. Foi somente ontem que nos encontramos num sonho. Cantastes para mim na minha solidão, e eu, com vossas aspirações, construí uma torre no céu. Mas agora, nosso sono fugiu, e nosso sonho desvaneceu-se, e já não é mais a aurora.
O meio-dia nos abrasa, e nossa sonolência transformou-se em pleno despertar, e devemos nos separar. Se nos encontrarmos outra vez no crepúsculo da memória, conversaremos de novo e cantareis para mim uma canção mais profunda.
E se nossas mãos se encontrarem noutro sonho, construiremos mais uma torre no céu."

É isso meu querido mestre, sua hora chegou. Que Deus o tenha em seus domínios eternos e, de onde você estiver, olhe por aqueles que aqui ficaram lutando pelo reconhecimento e fortalecimento de nossa cultura popular.
AVE, AVE, MESTRE ZÉ BARACHO!!!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GENERAL JOÃO VARELA



O General de Brigada João da Fonseca Varela, nasceu em Ceará-Mirim, em 2 de dezembro de 1850 e morreu em Natal, aos 81 anos completos, no mesmo mês do nascimento, dia 12, em 1931.
Herói da Guerra do Paraguai, último comandante da Fortaleza dos Reis Magos, Chefe de Policia (equivalente a Secretário de Segurança) e abolicionista, foi promovido a general por ato do Presidente Epitácio Pessoa. Recebeu inúmeras distinções, entre elas a Medalha de Bravura Militar, as Medalhas das Imperiais Ordens de Cristo e da Rosa e a da Campanha do Paraguai.
Homem de muita bravura, civismo (alistou-se para a campanha do Paraguai quando tinha apenas 16 anos) e integridade moral, é motivo de orgulho para a sua cidade de nascimento e para o próprio Rio Grande do Norte e um estímulo para os seus descendentes e conterrâneos.
Nenhuma voz é mais credenciada do que a de Câmara Cascudo que a ele dedicou uma de suas Acta Diurna, publicada em 2 de julho de 1943(*):
“O Presidente Epitácio Pessoa pelo Decreto 3.958, de 24 de dezembro de 1919, conferiu aos oficiais veteranos da Campanha do Paraguai as honras de General de Brigada.
Por isso João da Fonseca Varela era o General Varela.
Recordo-o com saudade. Ato, forte, claro, a longa barba branca descendo para um busto de atleta, parecia um daqueles boers do Transval, soldados natos e comandantes desde o batizado.
Cercava-o um halo de veneração irresistível. A onda nacionalista, deflagrada por Olavo Bilac, encontrava no velho Varela um centro de atração para o nosso entusiasmo.
Em todas as festas militares ou civis onde houvesse multidão, estava presente o veterano do Paraguai, possante, sereno, fardado, o peito coberto de condecorações.
Quando as bandas executavam o hino nacional em continência à bandeira ele tirava o boné da cabeça e ficava hirto. Não fazia continência à bandeira da República porque não era a sua, a de Caxias, Osório, Porto Alegre e Pelotas, seus ídolos.
Disciplinado, saudava apenas a bandeira de sua Pátria.
Republicano na Monarquia, era monarquista na república. Monarquista platônico, respeitador das leis, lembrando sempre o imperador.
Nascera num aniversário de D. Pedro II, 2 de dezembro de 1850. Com dezesseis anos, fugindo de casa, alistou-se voluntário para a guerra contra o ditador Francisco Solano Lopez, o tiranillo do Paraguai, a 9 de março de 1865.
Seguiu no 28º Batalhão até S. Borja, onde este se dissolveu, comandado pelo norte-rio-grandense José da Costa Vilar. Incorporou-se ao 36º de Voluntários da Pátria. Alferes, passou para o 36º e depois para o 48º Batalhão e foi extinto depois de Avaí.
Varela ficou adido ao 2º batalhão de Infantaria e posteriormente ao 18º.
Bateu-se em Avaí, em Curuzu, em Curupaiti, na ponte de Itororó, em Humaitá, na batalha-modelo de Lomas Valentinas.
(...)
Feita a paz voltou a Natal e regressou ao Exército, sendo alferes efetivo.
(...)
No Rio Grande do Norte teve várias comissões, todas militares. Comandou a Fortaleza dos Reis Magos, em 1888. Ingressou no Corpo Policial da Província, sendo capitão e o seu comandante. Enfrentou, em diligências ásperas, os cangaceiros no interior norte-rio-grandense e paraibano.”
O notável Mestre de todos os norte-rio-grandenses ainda relata que o general vira Caxias, Osório, Porto Alegre, Pelotas e Fernando Machado, seus heróis, nos acampamentos e nos campos de batalha, cada qual com a sua característica, todos, entretanto, bravos guerreiros.
DIZ AINDA O GRANDE HISTORIADOR POTIGUAR QUE DIAS ANTES DE MORRER, ERGUENDO-SE COM MUITA DIFICULDADE, O VELHO GENERAL FARDOU-SE E FOI À PRAÇA PEDRO II (HOJE JOÃO TIBÚRCIO), ONDE SE ERGUIA O BUSTO DO IMPERADOR. DIANTE DO BUSTO, PERFILOU-SE, BATEU UMA CONTINÊNCIA E VOLTOU PARA CASA. PARA MORRER.

(*) – Cascudo, Luis da Câmara – “O livro das velhas figuras” – IHGRGN. 1976 (pgs. 84/86)

Fonte: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1391412562442&set=a.1298548760905.32674.1745986839&type=1&ref=notif¬if_t=photo_comment#!/photo.php?fbid=219759128042982&set=a.192837620735133.47892.100000266882272&type=1&theater

domingo, 29 de maio de 2011

Apresentação das: Banda de Música Tenente Djalma Ribeiro, Escola de Música Márcia Pires e Coral Araraú.

Realização da Fundação Nilo Pereira em parceria com os maestro Kleber Jonatan e Marcos Machado.

O evento aconteceu na Praça Barão de Ceará-Mirim em dezembro de 2007.

Esperem o vídeo abrir porque vale a pena!

http://www.youtube.com/watch?v=wTas_dG9_K0&feature=mfu_in_order&list=UL

domingo, 22 de maio de 2011

RENDEIRAS DE JACUMÃ


Eu entregando a revista Preá sobre Ceará-Mirim em que saiu reportagem sobre as rendeiras.

RENDEIRAS DE JACUMÃ - tradição das praias de Ceará-Mirim. Arte transmitida de geração a geração. As rendas produzidas em Muriu e jacumã, no passado, sustentavam as famílias das artesãs. Elas voltaram à atividade em 2003 e, atualmente, as mais velhas, se encantaram, restam apenas sete artesãs produzindo renda. É uma preocupação porque não há incentivo para atrair as mais jovens no sentido de aprender as técnicas.
É emocionante o depoimento de Marta quando diz que ama aquele ofício e fica muito triste porque tem certeza que a renda se acabará em nossas praias uma vez que elas não poderão repassar sua sabedoria às novas gerações. Marta além de confeccionar a renda, cria todos os desenhos... É uma artesã completa. É importante o poder público olhar com carinho para as rendeiras de Jacumã. Vamos pensar em incentivos para a Associação e, assim, elas possam ensinar as jovens da comunidade.
Por que não associar as rendeiras de Jacumã à produção artística do saudoso Mestre Etevaldo? As rendeiras de cerâmica do Mestre correram o mundo. Ele foi premiado com suas rendeiras em todas as feiras de artesanato que participou. Vamos fazer o marketing cultural do município com as rendeiras, assim, como o galo de São Gonçalo, o Cristo Redentor no RJ, O Laçador Gaúcho no RS.
Temos o privilégio de ter várias manifestações populares para escolher como marca de nossa cultura: Cabocolinhos (patrimônio vivo do RN). Mestre Tião (patrimônio vivo do RN), as rendeiras, a obra de Mestre Santana, entre outras. Porém, na minha humilde opinião, as rendeiras de mestre Etevaldo seria a principal delas. Os filhos do mestre, Edvonaldo e Edvaldo, continuam a produção das rendeiras herdadas pelo pai.
No restaurante Naf Naf há uma loja de artesanato e os produtos expostos são oriundos de outros estados do Nordeste. Por que não há obras de nosso Santana e dos meninos de Mestre Etevaldo lá??? Ambos, Santana e Etevaldo estão entre os mais importantes do Estado do RN. Santana inclusive representará Ceará-Mirim e o RN em São Paulo no mês de julho. Fica o questionamento para reflexão.
Quem se interessar em conhecer a Associação das Rendeiras de Jacumã, ela está instalada na Praia de Jacumã. A comercialização das rendas é feita no Restaurante Naf Naf do empresário Jessé que gentilmente cedeu um espaço para onde as rendeiras vendem e confeccionam para os turistas que lá frequentam diariamente. Valeu Jessé, são atitudes como esta que precisamos seguir para fortalecer e preservar nossas tradições culturais.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AUTOESTIMA

Minha primeira leitura hoje pela manhã foi a crônica de meu amigo Pedro Simões: AUTOESTIMA. Refleti bastante a respeito do que o mestre escreveu e, por coincidência, estava super indignado com algumas situações que acontecem em nossa província baquipeana:
Por exemplo:
1. Os servidores se dirigem ao Banco do Brasil ou Caixa Econômica e não conseguem retirar o salário porque não há dinheiro nos caixas eletrônicos. Esse final de semana o Banco do Brasil não tinham abastecido os caixas. Muitos clientes reclamavam à saída do Banco. Felizmente (ou não) nós somos pessoas “muito conformadas” e pacatos cidadãos.
2. Em pleno século XXI, regredimos ao início do século XX quando foi inaugurada a Agência dos Correios em Ceará-Mirim. Para receber correspondências temos que nos dirigir a um anexo (muito apertado e quente) do correio e enfrentar enorme fila, para receber as correspondências. Isso acontecia no incío da implantação dos Correios em Ceará-Mirim. Como ficam os pagamentos que vêm pelo Correio e chegam com atrasos? Nós que temos que pagar as multas. Há poucos carteiros para uma população “urbana” de mais ou menos 40 mil habitantes!
3. Não precisa citar os outros absurdos que acontecem pelo país, principalmente, entre àqueles que deveriam dar exemplos de cidadania, como os políticos e gestores.
4. Até quando suportaremos essa malvada larva???
Apesar de tudo isso concordo com Pedro. Devemos amar as cores da Bandeira, ter orgulho de ser Cearamirinense, Potiguar, Nordestino e Brasileiro.

Pedro Simões


AUTOESTIMA – Deveríamos ampliar a nossa justificável meta de auto-valorização. Que ela não se restrinja apenas à nossa individualidade, mas alcance também os valores que compõem a nossa identidade, à nossa personalidade, que nos fazem ser o que somos. Exemplo: temos o hábito de apequenar, senão ridicularizar aquilo que nos cerca – nos...sa cidade, nossa região, e em última escala, o nosso país. O que é fruto da nossa cultura, natalense, potiguar ou nordestina, é desprezível, salvo se reverberar do eixo do sul maravilha ou do exterior.
Lambo os beiços com o hábito dos americanos de se sentirem apenas o máximo por sua nacionalidade. Usar as cores nacionais e a própria bandeira e de gabarem a sua superioridade. Do seu civismo em relação à defesa nacional e à adoção do “american way of life”, sem se preocupar se é ou não politicamente correta a sua opção: ela é americana? Então é boa e me convém.
Fico pensando que tenho dois orgulhos bem próximos de mim: Ceará-Mirim e Natal. A cidadezinha salpicada de verde, azul e amarelo que guarda num relicário a minha infância e juventude. E a capital do meu estado, com as mais belas praias do mundo, um povo cosmopolita e hospitaleiro que nunca perdeu o ar provinciano, marca que deve ser computada como vantagem, já que os “metropolitanos” se tornaram impessoais e robóticos. Um amigo de São Paulo que se mudou para cá me dizia que a vantagem dos potiguares sobre os paulistas, além das evidentes opções de qualidade de vida, era o modo com que nós “familiarizavamos” as personalidades públicas. Que aqui, à moda norte-rio-grandense, ele aprendeu a tratar com pessoas e não com instituições.
À época dizia que falava com “Gueire” (Garibaldi) e não com o governador, por exemplo. Aqui, comprava fiado na mercearia da esquina e recebia em sua casa os passarinhos, os vizinhos e amizades adquiridas instantaneamente. Na sua cidade, morou dez anos num apartamento e nunca se relacionou com o vizinho, a quem apenas cumprimentava no elevador.
Há uma coisa que lugar algum pode superar o nosso: o acervo de memórias e os testemunhos existenciais da nossa vida. E outra coisa: as provas e referências da nossa identidade.
Tenho muito orgulho de ser brasileiro, jamais pensei em ter outra nacionalidade. Cresço com o país – e como já cresci! – e tenho certeza de que os meus netos herdarão uma pátria notável, poderosa e magnânima, comprometida com a justiça social. Orgulho-me de ter dupla cidadania: cearamirinense e natalense, embora mon coeur balance pour Ceará-Mirim. E, finalmente, tenho um orgulho superlativo por ter sido nordestinado. Não recebo essa destinação como fatalidade, mas como benção, pois desde criança me assumi um lutador, aquele que viabiliza a própria sobrevivência tirando leite de pedras.
Tenho autoestima cívica também, não apenas pessoal. Por isso, não me sinto diminuído quando meus filhos e netos, entre zombeteiros e carinhosos, me tratam de “careca”, “gordo” ou “velho”. Porque, além de me saber bem conformado nos padrões individuais de medianos para superiores, sou cearamirinense, norte-rio-grandense, nordestino e brasileiro – nesta ordem. Uma glória.

ADEUS, BELO ANJO!!!

Maria da Conceição - 97 anos de cultura popular - Belo Anjo do Pastoril


Hoje o dia amanheceu triste, o ar ficou pesado, as nuvens enegrecidas e carregadas, simbolizavam luto pelo encantamento da amiga Maria da Conceição de Brito (97 anos), avó de Neto do grupo Renovação, Ela era o Belo Anjo do Pastoril. São nossos patrimônios culturais que estão cumprindo sua meta entre nós, pobres e incompreensíveis mortais.
Em agosto de 2010 escrevi no blog a respeito de Dona Maria. E, na oportunidade, solicitava as autoridades públicas a atenção para a valorização de nossas figuras populares. Personalidades que representam a memória de nossa cidade, suas tradições, suas histórias e estórias. Era necessário um olhar responsável para que pudéssemos revitalizar e valorizar as manifestações tradicionais que ainda resistiam à extinção.
Infelizmente, até o momento, nada foi feito, para que realizassem ações que ajudassem aos grupos populares e, aos atores culturais do município. Estamos prestes a sediar uma Copa do Mundo e ninguém ouve falar nada a respeito. Como vamos receber turistas que, certamente, virão conhecer a cidade com seus casarios imperiais e seus engenhos aristocráticos?
Meus sentimentos à família de Dona Maria da Conceição, em nome de todos, que como ela, lutam pela preservação e valorização de nossas tradições populares e, oremos, para que de onde ela estiver, possa nos proteger ajudando àqueles responsáveis pelas políticas públicas locais para que eles sejam, sensíveis e aprendam a valorizar e amar esta Ceará-Mirim tão castigada e esquecida.

Segue o texto que publiquei no blog em agosto/2010:



Gibson Machado e Maria da Conceição - O Belo Anjo

Sempre que falamos sobre cultura, sua preservação, sua valorização, o assunto se torna repetitivo, e, algumas vezes, inibe certas discussões em torno do tema.
Tenho falado frequentemente a respeito do cuidado que precisamos ter para manter preservadas as tradições de nossa gente e, de certa forma, proteger os patrimônios, sejam material ou imaterial, não importa, é preciso fazer alguma coisa, porque os mestres estão morrendo e não têm como passar seus conhecimentos para as futuras gerações.
O trabalho que faço na tentativa de, pelo menos, registrar as manifestações populares e as memórias dos anciões, guardiões de nossa história, é muito fragilizado, pois é impossível realizar as pesquisas e fazer os devidos registros, uma vez que o custo é alto e o tempo não é suficiente.
É necessário que o poder público tome alguma atitude nesse sentido, enquanto ainda restam, alguns mestres de nossa cultura popular, vivos e em condições de repassar seus conhecimentos.
Eu sei que há muitas dificuldades para a administração, mas, provavelmente, se todos os poderes públicos se unissem, seria possível encontrar soluções para esta grave situação.
Segunda-feira, 02 de agosto, a matriarca da família Brito, Dona Maria da Conceição de Brito, 96 anos, deu o maior susto nos familiares quando teve uma indisposição. Na idade que ela está qualquer problema de saúde, é muito preocupante. Dona Maria é avó de Neto, coordenador do grupo Renovação, e sempre esteve envolvida com a cultura popular do município, Ultimamente, era a personagem “Belo Anjo” do Pastoril, cuja mestra era Dona Maria do Carmo, que por sinal, mudou-se da cidade porque não encontrava apoio para continuar brincando com suas pastoras.
A última apresentação de Dona Maria da Conceição – O Belo Anjo do Pastoril - foi em 2007 quando nos apresentamos no Centro Esportivo e Cultural durante o encontro do Projeto Vida Nova, criado por mim e voltado para a terceira idade. Penso que aquela foi sua última apresentação no grupo e felizmente filmamos e fotografamos todos os eventos.

Pastoril - apresentação no Vida Nova

É por isso que são necessárias ações de governo que revitalizem, preservem e protejam esses mestres da cultura popular, pois, são evidentes suas fragilidades e, enquanto é tempo, precisamos fazê-los repassar seus conhecimentos às novas e futuras gerações, uma vez que já estamos lutando contra o avançado estágio de vida dos mestres, a exemplo de Dona Maria da Conceição, Zé Baracho, Luiz de Julia, Cícero Américo (palhaço do pastoril) e tantos outros anônimos que precisam ser descobertos e protegidos do esquecimento.



Cícero Américo - Palhaço do Pastoril

Tenho Saudade do Pastoril de Dona Maria do Carmo. Estivemos juntos em várias apresentações aqui em Ceará-Mirim e em outras cidades do estado. Parece que estou vendo sua emoção quando a levei para gravar as músicas do brinquedo no estúdio. Ela estava muito feliz porque sabia que todo seu esforço estava gravado e ela poderia morrer tranquila, pois, pelo menos, o registro das músicas estava garantido.


Mestra Maria do Carmo e Gibson Machado

Infelizmente o Pastoril conduzido pela família Américo está desativado e restam algumas pastoras que resistem e estão tentando manter a dança folclórica com as músicas gravadas por mim em estúdio. Espero que o grupo coordenado pelo professor Renato Brandão tenha êxito para manter-se em atividade e estarei sempre disposto a contribuir para que nossas pastoras e brincantes se mantenham vivos.

domingo, 1 de maio de 2011

DOMINGO ENSOLARADO

Panorâmica da antiga Pracinha Barão de Ceará-Mirim.


No centro a inesquecível sorveteria de José Bonifácio - demolida pelo ex-prefeito Edgar Varella


O amigo Pedro Simões continua seus ensinamentos... são importantes situações que nos faz refletir a respeito do amor à nossa terra. Suas crônicas despertam um sentimento de pertença que, na maioria das vezes, hibernam e, de repente, são eclodidos em busca de um horizonte "perdido".

Sua crônica "Domingueiras" me fez voltar ao passado e escrever algumas lembranças da infância.

Fonte da crônica:



Crônica de Pedro:

QUE FAZER DESSE SOL DOMINGUEIRO VERANEADO?

DOMINGUEIRAS (01.05.11)
Já acordo no domingo procurando o meu cavalo branco (não o uísque, mas o animal) selado e arreado no terreiro de casa, pra me danar pelos ocos do mundo. Quando estou bem desperto descubro que estou em plena selva de concreto e asfalto, mesmo que algumas árvores dos cant...eiros da rua me remetam para o quintal do casarão de Ceará-Mirim. Fazer o que?
Vou para o meu “aquário”, um mirante que me expõe as ruas próximas e as dunas distantes, e encho os olhos de paisagens e de sonhos.
Um cachorro deposita os seus restos de lixo na calçada, e me lembro que quando criança nós entrelaçávamos os dedos indicadores e num repente, os excrementos do animal não fluíam mais, ficavam como que congelados entre o orifício e o espaço. Até que alguma senhora bondosa, numa zanga bem humorada nos fazia descruzar os dedos. E “plaft”, o sólido era atraído pela gravidade e se espatifava no chão.
A caminho do escritório, um sol veraneado e domingueiro me anima a tirar os óculos para captar de modo natural, sem anteparos, o mundo que me rodeia. É quando descubro um casal(?) de Galos de Campina. São velhos conhecidos. Quase sempre os encontro, no mesmo horário – entre 6 e 6.30 – bicando ciscos no chão.
Por isso tomei a decisão de sair todas as manhãs com a máquina fotográfica e nunca consegui flagrá-los, pois eles fogem tão logo me aproxime. Hoje tomei mais cuidado e fui me esgueirando pelo muro, sorrateiro, caviloso, dissimulado, e consegui chegar a uma distância que julguei suficiente para produzir uma obra de arte.
O sol no meu visor confundiu as imagens. E a minha visão, já cansada de 67 anos de “voyeurismo” existencial, sem os óculos, e com o olho direito aguardando o momento da cirurgia da catarata, completou o registro das dificuldades. Disparei o botão pedindo a Deus um milagre.
(Quando cheguei ao escritório e fui conferir as imagens, descobri que três das fotos esqueceram os pássaros e das três restantes, apenas uma distinguia as duas aves um exercício de adivinha. Estou decido a tratá-las no Photoshop para não admitir a derrota.)
A chave do cadeado escapuliu-me da mão e se projetou entre as grades do portão, caindo entre hibiscos do jardim da entrada. O portão impediu-me de recuperá-las. Pular o muro, nem pensar, com a cerca elétrica em funcionamento. Liguei para casa pedindo a duplicata e alguns minutos depois pude afinal entrar no meu refúgio.
Meu escritório é um caso à parte. É uma pequena construção térrea, composta por três peças: sala de estar/espera, sala de trabalho e banheiro. São apenas 40m² de área construída. Uma verdadeira caixa de Pandorra. Onde deveria ser a sala de espera, é também serventia de livros acondicionados em caixas de papelão e alguns equipamentos da antiga loja de artigos personalizados de minha mulher.
A sala de trabalho comporta a minha mesa de vidro em forma de “L”; três impressoras, um notebook e um computador de três módulos; duas poltronas azuis enormes; uma escrivaninha das antigas, integrante de um conjunto que inclui um divã em madeira e vime; uma mesa de reuniões com quatro cadeiras de vime; frigobar, som, estantes, estantes e estantes, livros, livros e livros.
Uma pequena pinacoteca com reproduções de Portinari (cangaceiros, instrumentistas e meninos caçadores e vendedores de pássaros); imagens de casarões e ruínas de Ceará-Mirim; e diplomas, títulos, medalhas. Um São Francisco de Assis Marinho e muitos gaveteiros.
É aqui que componho as minhas escrituras, reúno os amigos e atendo eventuais clientes.
Sentado diante do computador teclo essa crônica com o pensamento distante, embaralhando o que escrevo. Como estará Ceará-Mirim nesse dia de sol? Onde estaria no Ceará-Mirim o menino descalço, sem camisa, de calças curtas, mundo pequeno, curiosidade enorme, esperanças muitas, sonhos ilimitados?
Não sou lamurioso, nem vivo ancorado no passado. Sou homem contemporâneo, ajustado, tolerante, sem preconceitos. Mas que os domingos de sol veraneados são sumidouros de memórias, isso são...
Vou aguardar mais algum tempo para saborear um velho (Old) e honesto Parr e assuntar com os amigos e a família à beira da piscínica, os muitos ufanos da terra Brasílica, beijada pelo sol e pela brisa que balança a palha dos coqueiros e assanha os cabelos das morenas.
Que cada um reencontre o seu Ceará-Mirim.
Bom domingo.


Não me contive e, felizmente, pude escrever alguns retalhos da lembrança na tentativa de encontrar o meu Ceará-Mirim:

Amigo Pedro,
Menino em Ceará-Mirim, no meu tempo, bem próximo do seu, anos 1970, de pés descalços, estaria, nesse domingo, provavelmente em vários lugares imaginários e reais naquele tempo.
Normalmente, pelas 8 horas, a “fileira” de meninos fazia um cordão barulhento a caminho da residência de Antônio Potengi e Dona Ambrosina, nosso inesquecível Sítio do Pica-pau Amarelo. Nos finais de semana estaríamos jogando bola no campinho de Manoelzinho (do cartório) e seu irmão Carlos Gusmão. Certamente não existiam ali figuras mitológicas encantadas, mas, havia personagens inesquecíveis, atores de constantes batalhas futebolísticas interrompidas pelos xingamentos às mães e trocas de bofetes.
Quando não tinha futebol, como Pedrinho, Emília e Narizinho, brincávamos sobre as árvores ou correndo pelo sítio, e, muitas vezes, ficávamos sobre o “embuzeiro do sertão” pensando nas imaginárias namoradas do Instituto Imaculada Conceição.
Quem sabe, estaríamos, uma “reca” de meninos, brincando de “mãos para o alto” ou guerra de baladeiras cuja munição eram carrapateriras, no sítio da maternidade ou no Seu Antonio Ferreira, chefe da Estação Ferroviária.
Domingo ensolarado, é um dia perfeito para descer ao rio dos homens, rio do balão, brincadeiras de tica-tica no rio, pegar piabas em garrafas cheia de farinha, ou então, aproveitar o sol e sair matando “cobra rainha” com baladeira... Capturar muçuns nas locas do rio e, depois, arriscar um “roubo de cana” nos “partidos” da usina São Francisco, correndo o risco de ser pego pelos vigias.
Muitas são as atividades “traquinas” de nossa meninice, quando o domingo era dia chuvoso, aí sim, a programação era especial, se deitar nas enxurradas que desciam a ladeira do Patu e tirar as enquizilas nas águas que desciam das fortes “bicas” da casa de Seu Ozéias Araújo, famoso enfermeiro de nossa Ceará-Mirim ou então, banhar-se no olheiro, observando o vai-e-vem dos carros pipas que vendiam água na cidade.

Rua São José - hoje Manoel Varela - ao longe, a direita - a mangueira centenária de Dona Celina


Mas, falando de seu casarão na rua São José, (casa de Dr. Pedro Simões – era assim que a chamávamos – no tempo que morou por lá um rapaz chamado Aguiar) morei em frente, pelos idos de 1972, e, quando não havia ninguém na casa, pulávamos o muro, e nos deliciava com os suculentos Cajás, e muitas outras frutas que existiam no quintal. O pé de Cajá, para mim, era o mapa do Rio Grande do Norte, muito frondoso. Não lembro se cortaram a árvore, mas, parece que ainda sobrevive a nossa meninice, como a Mangueira Rosa de Dona Celina...firme e poderosa contando nossa história.
São apenas lembranças... Nossas peraltices infanto-juvenis passaram, mas a memória permanece viva pronta para viagens sentimentais e românticas.


É isso... um bom domingo ensolarado e chuvoso!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

BAÚ DE NOTÍCIAS

Ceará-Mirim, ao longo e sua história, sempre esteve envolvida com assuntos polêmicos que desagradavam a população. A imprensa procurava injetar palavras de estímulos aos concidadãos através de artigos que infamavam o ego e a auto-estima de seus leitores. Assim, garimpando meus arquivos, encontrei algumas dessas pérolas publicadas na Folha do Valle na década de 1930.

FOLHA DO VALLE ANNO 1 – HEBDOMADARIO DE LETRAS E NOTÍCIAS – NÚMERO 6 RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM, 31 DE MARÇO DE 1935


CEARÁ-MIRIM, ACORDA!


Ceará-Mirim já teve a sua época áurea de progresso material e intelectual. Em tempos idos, a cidade verde era uma affirmação de vida e de esforço de seu povo. Hoje, resta apenas, das recordações mais próximas, a tristeza do passado. A voragem do tempo já matou no coração dos filhos da gleba ubérrima, crostada pelos raios do sol tropical, a fé gloriosa nos seus destinos. Enquanto a população desiludida de melhoramentos se entrega aos seus quotidiannos affazeres, a terra verde alheia à sua própria sorte ...(texto ilegível) – a última esperança de seu sonho, de sua ilusão. Ceará-Mirim, acorda! Desperta dessa lethargia que te mata. Dize àqueles a quem criastes e alimentastes, que elles são os exclusivos culpados de tua decadência actual. Ensinaios a ser dynamicos e idealistas. É preciso, para tua completa rehabilitação no conceito dos centros adiantados, que não persistam as rotinas archaicas, a indifferença criminosa pelos elevados emprehendimentos, as (...) intestinas que não constroem, a prepponderância desaggregadora dos elementos alienígenas e a violentíssima e cruel hostilização dos legítimos rebentos do teu solo. Pobre cidade triste! Não passarás de uma vasta necrópole solitária e branca, onde mãos humanas e más plantaram as primeiras sementes do egoísmo e do pessimismo que teem desgraçado os homens.


“Aluizio Macedônio”

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ESTÓRIA DE OITIVA DA FEIRA DO CEARÁ-MIRIM



ESTÓRIA DE OITIVA DA FEIRA DO CEARÁ-MIRIM

Bartolomeu Correia de Melo


“Diz-que sucedeu nos meados dos oitocentos...” Assim começava meu avô, Joca Correia, recontando antigas estórias de paz e fartura, ouvidas quando inda menino, nos serões de debulha na Várzea de Dentro. Se bem que, no aqui-acolá da narração, tais singelos contares algum pouco destoassem dos livros de agora, nunca chegariam à desfeita de desmentir a sisudez da história. E assim como os antigos aconteceres do lugar sempre entretinham nossa gente, decerto que hoje agradariam a ilustres visitantes. “Boca da Mata era o nome da briosa vila, de poucas ruas banguelas e casario desigual. Naquele tempo, ainda não passava o trem; passava um rio salobro, correndo entre as carnaúbas, chamado Ceará-Mirim. De começo, aquele par de ruas em cruz, marcando dois caminhos; um do mar e outro do sertão. A via mais estreita - depois batizada São José - subia a beira do vale, em busca da Jacoca; a mais larga, se espraiava no rumo do sol, à direita do rio. Essa dita Rua Grande tinha mais casas do lado de riba, olhando pro verdume das matas que ainda tomavam quase todo vale. Se bem que, no ali-acolá do horizonte, já subiam pardas baforadas, marcando os primeiros engenhos de almanjarra. Carnaubal, Ilha Bela, Porão do Norte, Capela...

Ruínas do engenho Carnaúbal


Mode aumento das almas, pela chegança doutros engenhos, diz-que feirinha acanhada brotou daquela encruzilhada. Isso, debaixo dum pé-de-pau frondoso, quase defronte à bodega dum tal Chico Bernardo. No cedinho dos domingos, depois das rezas no oratório de Sant’Águeda, se botavam naquela sombra alguns taboleiros de engodos e baganas, como doces-secos, roletes-de-cana, alfenins, farinhas-de-castanha... E fativo que também umas poucas bancas de miudezas, coisas de mimo e devoção; medalhas e rosários, velas e fogos de papoco, pra louvar a santa. Com pouco, seu Chico estendia na calçada a mangalheira sortida; de anzol a chocalho, de espoleta a corrimboque, de quicé a ponta-de-linha... Chegavam outros com teréns de palha ou de barro; chapéus e urupemas, botijas e alguidares. Daí apareceram méis-de-abelha, raízes e cascas de chá, azeites de bati e dendê, bajens de ingá e baunilha, passarinhos de cores e de cantos – pois que a mata era rica e generosa. Carnes e couros de caça e criação, peixes frescos, secos e salpresos, trazidos por caboclos praieiros e matutos pras gentes do arruado. E tanto aumentaram as mercancias que findou carecendo estender latada de palha e bambu, pro melhor abrigo de quantas vendagens e vendedores.

Bem faria gosto voltar no tempo e apreciar aquilo tudo. Pois que apontavam cristãos de quantos lados; de Gravatá, Massangana, Itapassaroca e doutras bandas mais diversas e distantes. Montados ou apeados, de charrete ou carro-de-boi, conforme as devidas posses e importâncias. Tirante escravos, crias-de-casa e outros sem-eito-nem-eira, quase todos moradores remediados da vila eram donos dalgum chão de pomar ou roçado. Daí que, na feira desse tempo, por costume de fartura, frutas e verduras quase não se viam; pois que se davam, não se vendiam. E todo-mundo mantinha, nos terreiros e quintais, galinheiros e banquetas de temperos-verdes. Nas cozinhas, pequenos fabricos de velas, sabões, águas-de-cheiro, licores e lambedores, somente pro gasto de casa.


Na feira, pouco se compravam luxos; somente comeres de passadio, misturas sem muitas finuras e aquelas coisinhas de usança e precisão do todo-dia. Moradores e rendeiros vinham comerciar grãos e farinhas (sobras das safras de meia ou terça); além disso, mel-de-furo, açúcar-bruto, aguardente ou rapadura (havidos como pagas das tarefas de eito). Havia ainda os escravos-de-ganho, fazendo biscates de balaiagem ou apregoando a vintém coisinhas de taboleiro. A modo que, quase todos, da rua ou do mato, sempre tinham bens de extração ou fabrico, produtos de plantio ou criação, pra trocar, em moeda ou escambo, por artigos que não podiam ou não sabiam fazer. Apetrechos como fósforos e pólvora, breu e querosene, arreios e ferramentas, botões e colchetes e quaisquer versidades de avios e atavios de gringa feitura.


Inauguração das torres da igreja - 01 de janeiro de 1900


A feira crescia e a vila, mudada em cidade com nome do rio, crescia com ela. A antiga mata se afogando nas ondas dum mar de canas, donde brotavam riquezas e fidalgos; passadas grandezas e presentes nostalgias. Poesia semeada nos nomes dos engenhos - Paraíso, Belo Monte, Verde Nasce, Boa Vista, Primavera... Ergueu-se a matriz e, com ordem e progresso, retirantes se enraizavam, ruas se esgalhavam e a feira florescia todo sábado e domingo.


Houve uma data incerta, mais dita como ano-da-cheia-grande, assim lembrado pelo rol dos desmantelos, quando o rio esborrotou lambendo a feira. Consta que, já nesse então, outros empalhos e pendengas pediam a mudança de lugar. Pois, já bem posta em maior das redondezas, aumentara tomando toda rua e invadira – com sujeiras, malcheiros e xingações - as nobres calçadas dalguns maiorais do lugar. Além do que, por ordens de asseio, carecia melhor resguardo pras carnes e outras comidas tementes a podrura ou azedume.

Nesse quando, ao que parece, por falta de acertos ou recursos, os feirantes e vendeiros demoravam nas carecidas melhorias. Até que um rico-homem, coronel Onofre Soares, se dispôs a construir espaçoso e bem fornido prédio de mercado, entregue no ano de oitocentos e oitenta e um. O lugar escolhido, mais arriba da nascente Rua d’Aurora, ficava perto donde foi erguido o sobrado dos Antunes. Aceiros do povoado, pois que, fazia pouco, acolá fora chão bruto de roça, quase beirando o capão do Cipó, sobejo de mata, do lado sueste. Por vintena d’anos, como contrapartida, o benfeitor gozou usufruto de taxas e alugueres.


Mercado Público de Ceará-Mirim


Debaixo desse bom abrigo ficavam pedras de açougue e peixaria, fardos de charques e avoadores, pontos de leite e queijo, locais de grãos e farinhas, além de bancas de vendagens e merendas. No derredor da larga quadra, logo se abriram mercearias, armazéns de açúcar, lojas de panos e casas doutros negócios. Daí, no grande vão restante, se arrumou, mais limpa e adequada, a nova e esperada feira.


Tempos decorridos, no abrir dos novecentos, chegava ajuda do trem, trazendo moendas e caldeiras modernosas e levando açúcar refinado das usinas. E aqui me esbarro, pois quase que enveredo noutra estória.” Mais de século depois, bem conservado em feição e tradição, o antigo mercado abre portões e corações nas noites de quinta-feira. Pra quem quiser trocar alegria por arte, diversão por cultura ou fazer algum negócio prazeroso, como ganhar amizades e gastar conversa, apreciando a cachaça e as estórias do lugar.



Publicado no livro Ceará-Mirim Tradição, engenho e arte. UFRN/SEBRAE/Prefeitura de Ceará-Mirim - 2005.

domingo, 27 de março de 2011

COMO CONSTRUIR UMA ARMADILHA PARA PÁSSAROS E CAÇADORES

O texto "Como preparar uma armadilha para pássaros e caçadores" é de Pedro Simões. As fotografias são de minha autoria, fruto de algumas andanças. Espero que as ilustrações agradem aos leitores e amantes da natureza.


Primeiro você desfia as palhas do coqueiro para fazer os palitos. Depois, você os aplaina com uma faca bem afiada e vai buscar uma madeira porosa e leve. Então, faça uma armação com a madeira - a estrutura da caixa e do alçapão - e vá enfiando os palitos de coqueiro formando uma espécie de cerca. Entre a caixa e a tampa, ponha uma pequena dobradiça, ou amarre com barbante a parte móvel – a tampa da caixa. Ponha uma isca: pedacinhos de pão, alpiste, fubá de milho...e misture com um pouco de azul – o engodo do céu. E leve o seu artefato para o meio do mato, se possível, à beira de um regato. Arme-o e fique à espreita entre os arbustos. Pode demorar um pouco. A paciência o recompensará. Afinal você é um caçador. Enquanto espera, o caçador de pássaros olha ao seu redor e lentamente vai absorvendo a paisagem. Registra o verde, que se camaleoa em uma infinidade de tons, desmaiando bem pertinho do amarelo e quase morrendo próximo do marrom. Percebe o som do vento agitando a folhagem e o reconhece como transporte de uma multiplicidade de aromas que o embriagam, e o nauseiam – desde o adocicado e o propriamente dito vegetal, até a matéria em decomposição. Distingue minúsculos, graúdos, lentos e apressados habitantes da mata pelo ciciado das folhas secas que os denuncia. Observa que as flores silvestres são espécies de caboclas interioranas sem maquiagem, beleza simples, natural, despretensiosa e, todavia, cheia de graça. Percebe uma sugestão, apenas uma sugestão de perfume, a um só tempo sutil e delicado como o vôo das borboletas e a plumagem das aves solta no ar. É um “cheiro da imagem”, como diz muito bem o poeta Manoel de Barros. Uma nesga de azul com esfumados brancos o atinge nos olhos quando descobre o céu. Imagina, mais do que vê, uns raios amarelos, filigranas douradas penetrando a mata rala. E um insólito girassol bebendo um que outro raio como fosse um absinto, um licor, um conhaque que o inebria, levando-o para o interior da tela de Van Gogh, onde delira. Um riacho serpenteia e murmura sobre um leito pedregoso. Um arrulho (ou o sibilar de uma cobra?). Pela primeira vez observou que as águas que vão passando, trazidas pela corrente, jamais tornarão. Então é preciso fixá-las na memória. Nem imagina a dificuldade em separá-las para distingui-las. Então, com a imagem da última corrente homenageia as que se seguirão. Longe, um cavalo relincha e menos longe, ouve um aboio e os chocalhos de algumas reses à beira do descaminho. É quando um passarinho descuidado pousa ao seu lado e começa a ciscar o chão, ignorando a sua presença. Estava ao alcance da mão e não é possível que não o tivesse visto, ele, uma ameaça à sua liberdade e à sua própria existência. Mas era tão frágil, tão inocente e tão trêfega a avezinha. Dava pequenos pulos para deslocar a sua magreza e o seu bico diminuto explorava o solo com experiência e rapidez, à procura de alimento. Não sei por que lhe veio à memória o título de um livro – “Pauta para passarinho” – cuja capa é composta por um bando de pássaros agrupados sobre fios, como fossem notas musicais (claves de sol?) sobre pautas. E lhe veio um contraponto ao lirismo da lembrança: quando foi criança matava passarinhos com baladeiras, só pelo prazer de ver as aves abatidas pelo certeiro da pontaria. Nem se dava ao trabalho de apanhá-las, tanto mais de servir-se delas como alimento. Afinal, para que vieram ao mundo as avezinhas? Tentou vê-las nas copas das árvores, nalgum galho, bebendo na beira do riacho, soltas riscando o céu ou aprisionadas numa gaiola. Lembrou então da música sertaneja em que alguém furara os olhos do Assum preto, para que ele cantasse melhor. Uma malvadeza sem igual. Isso ele nunca fizera. Com o juízo já bicado pelo remorso, ouviu o alerta do bem te vi, em vôo rasante sobre sua cabeça. Ora, ora, viu o quê? Avisava ao passarinho que estava ao seu lado a sua figura ameaçadora? Ou simplesmente aumentava o seu remorso? Como fosse para apaziguá-lo, uma lavadeira, pequenina, pernalta, de passinhos rápidos e miúdos como é da sua natureza, marcou com minúsculas e quase imperceptíveis pisadas, a margem úmida do rio. A lenda lhe chegou instantânea, acompanhando a descoberta. A música a avivou: “Lava, lava, lavadeira, quem te ensinou a lavar, foi, foi, foi, foi o peixinho do mar...lá pras bandas do nordeste, lavadeira tem valor, porque lava a roupinha, a roupinha de Nosso Senhor...” Pois é, concluiu, esses pequeninos voadores foram distinguidos por Deus para uma missão especial. Afinal, o seu ofício é o deslumbramento. Têm o canto, a plumagem, o vôo...são simpaticamente buliçosos, graciosos, e tão à vontade no espaço que até parecem inquilinos do céu. Como se estivesse despertando de um desvario, correu até a arapuca e a desmanchou, jogando-a no rio. Pôs as mãos nos bolsos e margeou o riacho, pés descalços chapinhando na água, assobiando uma toada bem antiga da infância. Ali perto uma sabiá lhe saudou e ele lhe respondeu com uma imitação bem grosseira do canto da ave. A tarde se pôs na armadilha da noite.

Amigo Pedro, desculpe a falta de modéstia, mas você fez esse poema especial para mim. Fotografei pensando nele sem ao menos conhecê-lo. rsrsr

sábado, 26 de março de 2011

FEDERAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE

E-mail enviado por Pedro Simões Neto:

Prezado(a)s Amigo(a)s:
Ontem, às 19 horas, na sede da Academia Norteriograndense de Letras, na rua Mipibú, foi criada e constituida a FEDERAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE, entidade que congrega todas as instituições privadas de cultura em atuação no estado.
Aprovada a criação e o Estatuto, elegeu-se a diretoria.
Dentre os membros que compõem a diretoria, Ceara-Mirim foi homeageada com uma das mais importantes diretorias da nova entidade - a DIRETORIA DE PROMOÇÕES E EVENTOS - que cuida, como o nome indica, da programção, planejamento, logística e da execução de todos os eventos ao encargo da FINSC.
É oportuno também saber que a Academia Cearamirinense de Letras e Artes - ACLA - intega o Conselho Deliberativo da FINSC, na condição de sócia fundadora.
Os dirigentes das mais importantes entidades culturais reunidas nessa ocasião, manifestaram interesse em conhecer detalhes da ACLA e se surpreenderam com a relevância dos nosso patronos e o ambicioso programa a que se propõe a nossa Academia.
Desnecessário dizer do nosso orgulho, que é extensivo a todos os cearamirinenses, especialmente aos que apreciam os nossos valores e tradições.

Um bom fim de semana

Pedrinho de Doutor Percilio

Do Blog de Miranda Gomes

FUNDADA A FEDERAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE - FINSC.
Em ASSEMBLEIA GERAL ESPECIAL, realizada ontem, 25-03-2011, às 19 horas, na sala ONOFRE LOPES DA ACADEMIA NORTE-RIO- GRANDENSE DE LETRAS, nesta cidade, com expressivo comparecimento de representantes de diversas entidades culturais do nosso Estado, foi fundada a FEDERAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE.
Na ocasião foi aprovado o seu ESTATUTO SOCIAL e escolhidos os integrantes da DIETORIA EXECUTIVA, CONSELHO FISCAL E COMISSÃO DE ÉTICA E DISCIPLINA PROVISÓRIOS, os quais deverão cuidar do registro da nova Entidade.
OS NOMES ESCOLHIDOS PARA O COMANDO DA FINSC SÃO:
DIÓGENES DA CUNHA LIMA – PRESIDENTE
JURANDYR NAVARRO DA COSTA - VICE-PRESIDENTE
CARLOS ROGBERTO DE MIRANDA GOMES - PRIMEIRO SECRETÁRIO
JAIR FIGUEIREDO - SEGUNDO SECRETÁRIO
PEDRO SIMÕES NETO - DIRETOR DE EVENTOS E PROMOÇÕES
LUCIANO ALVES DA NÓBREGA - DIRETOR DA REVISTA
ORMUZ BARBALHO SIMONETTI - DIRETOR FINANCEIRO
CONSELHO FISCAL: ENÉLIO PETROVICH, GLEY NOGUEIRA GURJÃO, ELDER HERONILDES DA SILVA E ZELMA FURTADO; COMISSÃO DE ÉTICA E DISCIPLINA: ANNA MARIA CASCUDO BARRETO, DORIÉLIO BARRETO DA COSTA E EDUARDO GOSSON.
A nova Instituição Cultural adotou como lema a expressão "OMNES UNUM SINT' (UNIDOS SEREMOS UM).
Recebi a indicação do meu nome para uma diretoria tão importante, como uma homenagem que os sócios fundadores prestaram à ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES, que é fundadora e membro do Conselho Deliberatio.
LONGA VIDA À CULTURA!

ENCONTRO EM TABUÃO - MENINOS DO CONGO

Gibson Machado, Emiliana e os meninos do Congo
Sábado, 19 de março de 2011, estive em Tabuão para nos reunir com os (ex) componentes do grupo folclórico Congos de Guerra.
Fiquei animado porque surgia uma luz no fim do túnel, havia interesse partindo da comunidade, através da jovem Emiliana, que junto com outras pessoas criaram o Centro Cultural de Tabuão.
O grupo tem como objetivo fomentar a cultura, o esporte e a educação no distrito, através de palestras, oficinas e, principalmente, o resgate das tradições populares como, danças, artesanato de palha de carnaúba e cerâmica, que eram, tradicionalmente, produzidos na região.
Foi difícil juntar os jovens para que fizéssemos uma explanação da importância do Congo de Guerra para o município de Ceará-Mirim e Estado do RN. Levei imagens que havia filmado ao longo desses 20 anos de pesquisas e dois documentários realizados sobre o grupo e o mestre Tião Oleiro.
O mestre Tião (96 anos) não estava presente, mas, foi substituído pela figura importante do embaixador do Congo, o mestre Zé Baracho (81 anos). Conversamos, eu e ele, por uma hora até que seis jovens apareceram para ouvir o que tínhamos pra dizer.
Mestre Baracho, muito triste, dizia que não valia a pena insistir naquele brinquedo porque as pessoas valorizavam apenas o football e aquela velha cultura, definitivamente, tinha se acabado, pois, ele e mestre Tião, não tinham mais fôlego para lutar pela revitalização do folguedo.
Procurei fazer com que os garotos compreendessem que o futuro da congada estava em suas mãos e que eles deveriam lutar para revigorar o brinquedo, pois, era uma tradição centenária e, precisavam protegê-la do abandono e da iminente extinção.
Saí de lá muito inseguro! Não sei se consegui despertar, neles, o interesse por ações que mobilizassem a comunidade em busca da preservação do Congo de Guerra. Recebi um telefonema de Emiliana informando que tinha conseguido dezessete adesões e que os meninos gostariam de marcar um dia para ensaiar as danças e as músicas.
Um novo amanhecer surgiu no crepúsculo da esperança, sei que não será fácil conduzir esse processo, no entanto, é preciso estar presente para dar força aos jovens de Tabuão. Haverá muita resistência, pois, nossos adolescentes não têm o hábito de cultuar as coisas passadas, é preciso enfrentar essa realidade e ensiná-los a valorizar e preservar a memória de sua gente.
Quarta-feira, 30 de março, estarei em Tabuão com dois professores do IFRN para que eles conheçam os mestres Tião e Zé Baracho e analisem a possibilidade de incluí-los em projetos culturais realizados por aquela instituição. Havia marcado para essa quarta-feira ensaio com os adolescentes do congo e, em virtude de acompanhar o professor Pablo Capistrano, irei na sexta-feira a tarde fazer o ensaio.

ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES

Ceará-Mirim tem a sua academia de letras fundada em 22 - 03-2011, em Assembléia Geral Extraordinária.
Dr. Pedro Simões Neto - Presidente da Academia Cearamirinense de Letras e Artes (ACLA).
Membros presentes na Assembléia de fundação da ACLA: Gibson Machado, Franklin Marinho, Lucia Helena Pereira, Osmuz Simonetti, Francisco Assis Rodrigues,Janilson Dias e Pedro Simões.

Pedro Simões Neto - Presidente - Franklin Marinho, Ormuz Barbalho Simonetti, Francisco de Assis Rodrigues, Janilson Dias de Oliveira e Lúcia Helena Pereira - os novos imortais (dos onze) submetidos à votação.
Membros fundadores da ACLA: Gibson Machado Alves (Vice-Presidente), Franklin Marinho, Ormuz Simonetti, Francisco de Assis Rodrigues, Janilson Dias de Oliveira e o exmo. Presidente - Pedro Simões Neto.
A Assembléia de Fundação da ACLA transcorreu em clima perfeitamente democrático, para aprovação do que foi discutido e aprovado na Assembléia Especial de 18 de novembro de 2010, realizada em Ceará-Mirim.
Na referida Assembléia, foram apreciados: o anteprojeto do estatuto da ACLA; sugestão do brasão; o lema da academia; os patronos e acadêmicos.
Patronos: Nilo Pereira, Edgar Barbosa, Juvenal Antunes de Oliveira, Maria Madalena Antunes Pereira, Adelle de Oliveira, Augusto Meira, Rodolfo Garcia, Júlio Gomes de Sena, Inácio Meira Pires, Jayme Adour da Câmara, Padre Jorge O´Grady de Paiva, Elviro Carrilho da Fonseca, Herculano Bandeira de Melo, José Emídio Rodrigues Galhardo, José Alcino Carneiro dos Anjos, Francisco Pereira Sobral, Etelvina Antunes de Lemos, Antônio Glicério, Dolores Cavalcanti, Francisco de Salles Meira e Sá, Anete Varella, Rafael Fernandes Sobral, José Pacheco Dantas e Manuel Fabrício de Souza.
Os imortais da ACLA, sócios fundadores:
Pedro Simões Neto, Gibson Machado Alves, Ormuz Barbalho Simonetti, Bartolomeu Correia de Melo, Lúcia Helena Pereira, Francisco de Assis Rodrigues, Maria Leonor Soares, Franklin Marinho de Queiroz, Ciro José Tavares, José de Anchieta Cavalcanti e Janilson Dias de Oliveira e sócios correspondentes: Hamilton de Sá Dantas e Geraldo José Marques Pereira.
A Assembléia Geral Extraordinária para fundação da academia cearamirinense de letras (ACLA), foi realizada no escritório de advocacia do Dr. Pedro Simões Neto, à rua alcides araújo, 1840, Capim Macio, no horário das 20 às 22:30, contando com sete membros.
Aprovados os 42 artigos do estatuto da ACLA, a escolha de sócios honorários e beneméritos, e assim por diante, com assinatura dos membros presentes, para, finalmente, se fazer a execução da parte cartorária da academia.
Muitos projetos de relevância estão inseridos no estatuto da academia, dando, ao vale verde, esta bandeira das letras e da arte que o rio grande do norte faz por perpetuar.
O capelo terá a cor verde - canavial com friso dourado. A sede provisória será no centro cultural de Ceará-Mirim, vez que, a sede ainda está em estágio de planos, com a doação de um terreno pelo conterrâneo Hamilton de Sá Dantas.
A data da solenidade será marcada a posteriori.
Parabéns ao nosso vale verde!!!

sexta-feira, 25 de março de 2011

TRIBUTO A AMARILDO

Sonho realizado!!!
O lançamento do livro de poemas de Amarildo foi um grande sucesso. Sobretudo por ter sido um sonho de muitos cearamirinenses que eram amigos do poeta. Àqueles que não foram ao evento perderam uma oportunidade de vivenciar momentos que ficarão para sempre em nossas memórias.

Escritor Caio Azevedo - Abertura do evento e apresentação do Trio Shalon

Inicialmente o escritor Caio Azevedo fez a abertura, convidando os organizadores do livro, Gibson Machado e Pedro Simões, para homenageá-los com uma monção de congratulações manifestada pela Câmara Municipal, através de seu presidente Ronaldo Marques Rodrigues.

Recebendo a Monção de congratulação pela Câmara Municipal de Ceará-Mrim das mãos do parceiro de evento Rossini Cruz


Pedro Simões agradecendo a Monção de Congratulação e falando sobre o lançamento do livro do poeta Amarildo e da Criação da ACLA

Na sequência o Trio de cordas Shalon executou uma peça do Mágico de Oz que impressionou a todos os presentes, principalmente por se tratar de três jovens talentos que fazem parte da nova geração de músicos cearamirinenses. Eventos dessa natureza é uma janela para a divulgação de novos artistas que surgem na cidade e permanecem no anonimato por falta de oportunidade. Quem tiver interesse em contratar o Trio Shalon entrar em contato com Aristildes pelo fone 9176-2545.

Trio de cordas SHALON

Muitos amigos de Amarildo deram depoimentos e contaram alguns causos que ficaram marcados na vida de todos, principalmente, os mais íntimos, por terem convivido mais tempo com ele e dividido suas angustias e lamentos por seus amores impossíveis.

Parazinho, Marcos Brandão, Fonseca e João Maria

O ambiente do Centro Esportivo e Cultural foi organizado pelo produtor cultural Rossini Cruz proprietário da Budega Véia e parceiro no projeto. A ideia era fazer uma ambientação que inspirasse uma velha budega onde poetas e cantores pudessem soltar a alma e viver momentos de pura exaltação. Assim aconteceu, todos os que participaram, o fizeram com muito entusiasmo.
A plêiade de artistas presentes no evento era uma riqueza indescritível, havia estilos para todos os gostos, poetas conhecidos como Bob Motta e Almir, deram um show de interpretação.


Poeta Bob Motta

Poeta Almir

O músico e, agora, advogado Marcos Brandão foi muito gente boa, pois adiou um compromisso para vir homenagear o amigo e companheiro de boemia. Junto com Toinho Parazinho tocaram a música VOCÊ, música de Amarildo em que ele canta um de seus amores Quixotesco...a Dulcinéia dos sonhos!


Marcos Brandão e Toinho Parazinho - ensaio para interpretar a música "você".

Amigos e parceiros lembraram os tempos de barzinho e serenatas, brincaram, contaram causos, declamaram poesias, fizeram tudo aquilo que puderam para relembrar o velho amigo, entre eles, Parazinho, João Maria Bigodinho, Fonseca, Chico Neguinho, Zé Walter e Gilsinho, este último, falou por todos os presentes, principalmente pela sobrinha do poeta que estava com a família e ficou muito emocionada.
A publicação do livro foi uma iniciativa da ACLA Academia Cearamirinense de Letras e Artes através do selo Edições Ceará-Mirim, sendo a primeira publicação de uma série de livros programados.
Para o evento acontecer o Centro Esportivo e Cultural e a ACLA tiveram como parceiros A Budega Véia, Marcos SOM, Alves Auto-peças e, principalmente, os artistas que fizeram com que a noite fosse maravilhosa.
No próximo ano será o 1º Tributo a Amarildo e, desde já, estamos solicitando a todos que tiverem fotografias, vídeos ou qualquer documento que faça referencia ao poeta que doem para Gilsinho, pois estamos organizando o memorial e, também, lutaremos para gravar um cd com suas músicas mais conhecidas.

Parazinho, Marcos Brandão, Gibson Machado e Fonseca