domingo, 29 de janeiro de 2023

ARTESANATO DE BILRO ESTÁ EM EXTINÇÃO

REVISTA PREÁ – Natal/RN – Ano VI – Número 20 - Out/Nov/2008

Reportagem por Sergio Vilar

ARTESANATO DE BILROS ESTÁ EM EXTINÇÃO

                A renda de bilros está em franco processo em Ceará-Mirim. A confecção de renda surgiu na cidade pelas mãos das mulheres, nas praias de Muriu e Jacumã. Não se sabe ao certo qual a época. No Brasil chegou no século XVI, na região costeira, entre comunidades de pescadores. As rendeiras ceará-mirinenses, todas elas, aprenderam com as mães ou pessoas mais velhas. E nenhuma das mais de dez rendeiras de hoje, em meia-idade – tem descendentes interessados em perpetuar a tradição. O artesanato rendeiro já foi extinto em Muriu. Hoje a praia até tem um centro de artesanato para o turista – tradicional comprador do produto – mas as peças vêm de outros estados brasileiros. A Associação da Mulher Rendeira, em Jacumã, se mantém até que as atuais rendeiras desistam da prática. A artesã Elza Bezerra, 70, lamenta o desinteresse dos mais jovens, embora não os culpe: “É um trabalho custoso e demorado. Essa garotada estuda e trabalha. Não vai querer passar o dia com umas velhas”.

                O trabalho começa ás 13 h e termina às 17 h. Apesar da concentração necessária, a “fofoca” é de praxe. È diversão garantida, disse Sônia Bezerra, 47. “Só não vem trabalhar quando se está doente”. Em regime de escala, duas rendeiras vão ao restaurante comercializar o produto. Enquanto isso, na Associação – fundada há três anos em função de incremento do turismo na região – as rendeiras usam almofadas, a linha, bilros, papelão, alfinetes e espinhos de cardeiro para produzir rendas de enlaçados minuciosos. A habilidade no domínio de até 50 bilros é conquistada com o tempo. O ritmo das mãos é frenético, fruto de uma relação antiga entre arte e paixão pela arte.

O BATIPUTÁ E O ÓLEO DE BATÍ

 

Arbusto do Batiputá - 2013 - Foto Gibson Machado

O Batiputá é um arbusto encontrado, regionalmente, nos tabuleiros entre as bacias dos rios Maxaranguape, Ceará-Mirim e Mudo.

A Ocnaceae, Ouratea parviflora conhecida popularmente como batiputá, é encontrada nos tabuleiros (cerrados) do Nordeste Brasileiro. O óleo dos frutos tem larga aplicação na medicina popular, por exemplo, na cura de processos inflamatórios e enfermidades localizadas na pele. O trabalho foi realizado com o óleo extraído dos frutos, cuja composição em ácidos graxos, foi determinado por análise qualitativa e quantitativa, pelo processo de cromatografia de fase gasosa. Através de ensaios microbiológicos "in vitro", foi avaliada a atividade antifúngica e antibacteriana do extrato bruto e de seus constituintes insaponificáveis, obtendo-se resultados expressivos nas concentrações de 500 e 250 ug/ml.

Há um estudo sobre o Batiputá de autoria, à época, da mestranda Talita Rocha de Miranda Pinto realizado pela Universidade de Ceará em 2017. Escreve a mestranda que “o Batiputá (Ouratea fieldingiana (Gardner) Engl.) de cujos frutos pode ser extraído um óleo que é utilizado tanto na culinária, para fritar peixes e carnes, quanto na medicina alternativa no combate a dores reumáticas, gripe, gastrite e inflamações. O nome popular Batiputá é dado no Nordeste do Brasil às espécies do gênero Ouratea, tratando-se de plantas pertencentes à família Ochnaceae que são plantas essencialmente arbóreas ou arbustivas, também empregadas em ornamentação urbana (BARROSO et al., 1986 apud ARAÚJO, 2010). A população costuma fazer uso das espécies de Ouratea como tônicas e adstringentes (O. castanaefolia e O. parviflora), como anti-inflamatório e em doenças da pele (O. parviflora) e no tratamento de doenças gástricas (O. spectabilis) (CORREA, 1974; PAULO et al., 1986; FELICIO et al., 2004 apud ARAÚJO, 2010)”.

A pesquisadora continua sobre o estudo: “Avaliou-se o efeito do óleo de Ouratea spp. (Batiputá) sobre a cicatrização de feridas cutâneas em modelos experimentais in vivo. O óleo vegetal foi adquirido comercialmente em Fortaleza, Ceará, Brasil, e analisado química e microbiologicamente. Camundongos (n=30) Swiss, machos, pesando cerca de 30 gramas foram distribuídos em três grupos (n=10): Grupo I tratado com NaCl a 0,9%; Grupo II tratado com óleo de Helianthus annus (grupo de referência) e Grupo III tratado com óleo de Ouratea spp. Feridas cutaneas foram induzidas no dorso de todos os animais que receberam 100 µL de cada tratamento aplicado na lesão, diariamente, por 12 dias consecutivos. Parâmetros macroscópicos e a mensuração da área da lesão foram realizadas diariamente e fragmentos das lesões foram coletados nos dias 2, 7 e 12 para avaliações histológicas. O óleo de Ouratea spp. apresentou como principais constituintes os ácidos linoléico (40,88%) e oléico (28,29%). O óleo de Ouratea sp. iniciou o processo de retração da área da lesão no 4º dia, enquanto que o óleo de H. annus e NaCl a 0,9% iniciaram o processo de retração da área da lesão no 7º e 6º dia, respectivamente (p<0,05). O tratamento com o óleo de Ouratea spp. apresentou uma colagenização mais acentuada quando comparado aos outros tratamentos (p<0,05). Estes efeitos podem estar associados aos altos níveis de ômega-6 e ômega-9 presentes nesse óleo. Concluiu-se que o óleo de Ouratea spp. apresenta um grande potencial terapêutico para uso em cicatrização cutânea. Palavras-chave: Ouratea spp., Ochnaceae, ácidos graxos, cicatrização, feridas cutâneas”.

Em 2013 iniciei pesquisa sobre a coleta e produção do óleo de Batí na comunidade de Aningas, em Ceará-Mirim/RN. Saímos bem cedo para o tabuleiro (mata nas dunas) para a coleta do fruto do Batiputá. No tabuleiro, nessa região pesquisada, há predominância de mangabeiras e batiputá. O período da coleta foi no mês de abril de 2013 quando os arbustos de Butiputá estão todos com os frutos amadurecidos.

Seleção dos frutos do Batí - 2013 - Foto Gibson Machado

Após a coleta dos frutos, foi iniciado o processo de seleção e posteriormente a trituração dos frutos através do pilão. A trituração concluída, o material passa pelo processo de lavagem para separar os resíduos de um óleo amarelado. Esse óleo é separado da água e levado para apuração em um fogo à lenha. Após algumas horas, o óleo ainda quente, é passado em um tecido para retirar os restos de material que ficaram misturados durante o processo. Finalmente o óleo de Bati está apurado e pronto para consumo.

Pilando os frutos do Batí - 2013 - Foto Gibson Machado

A produção e o uso do óleo de Batí é uma herança cultural dos povos originários que habitavam nos vales dos rios Ceará-Mirim, Maxaranguage e Mudo e seu processo de produção artesanal foi transmitido de geração a geração, por essa razão, é patrimônio cultural imaterial. Por ser sua fabricação artesanal muito trabalhosa, está ficando cada vez mais difícil encontra-lo no mercado. 

Separando o óleo do bagaço do batí - 2013 - Foto Gibson Machado
Cozinhando o Óleo de Batí - 2013 - Foto Gibson Machado
coando o óleo de Batí depois de cozinhado - 2013 - Foto Gibson Machado

Óleo de Batí já apurado - 2013 - Foto Gibson Machado

Sobre o Batiputá:

https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/28011/1/2017_dis_trmpinto.pdf

https://saboresdacidade.com/chef-bel-coelho-ensina-receita-com-oleo-produzido-pelo-povo-indigena-tremembe-da-barra-do-mundau/


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

O MERCADO PUBLICO DE CEARÁ-MIRIM

 MERCADO PUBLICO DE CEARÁ-MIRIM

Jeanne Fonseca Leite Nesi

Jornal O Poti – 25/08/1991


Foto: Gibson Machado - 2021

o ano de 1845, o Ceará-Mirim, localidade então conhecida como Boca da Mata, não passava de um simples roçado de algodão e cereais. Manoel Raposo da Câmara, senhor de engenho, e o português Francisco Bernardo de Gouveia construíram suas residências naquele local. Entre as duas habitações, cruzavam-se duas estradas: uma delas seguia de Natal para o sertão, e a outra de Jacoca para os engenhos da margem esquerda do vale.

No ponto daquele cruzamento, na embocadura das estradas para a mata, Luciano Cabral construiu um pequeno estabelecimento comercial, que mais tarde constituir-se-ia num núcleo de comercio com a feira. Aquele núcleo foi gradativamente se desenvolvendo, até tornar-se das maiores povoações da província. Logo outras ruas passaram a compor o povoado. No centro da rua principal, onde se realizava a feira, foi erguido um cruzeiro, símbolo da crença de seu povo.

Na Rua Grande foi construída uma das casas de oração, sob a invocação de Santa Águeda. A povoação de Boca da Mata foi elevada à categoria de vila, pela Resolução Provincial nº 321, de 18 de agosto de 1855, sob a denominação de Ceará-Mirim. Aquela Resolução foi suspensa por uma outra, de nº 245, de 04 de setembro de 1856, sendo finalmente restabelecida em 30 de julho de 1858, pela Resolução nº 370.

A vila de Ceará-Mirim prosperou expressivamente, sendo consequentemente elevada à categoria de comarca, por lei de 12 de agosto de 1859. Finalmente a vila recebeu os predicamentos de cidade, pela Lei nº 837, de 09 de junho de 1882.

A construção do Mercado Público de Ceará-Mirim causou grande movimentação popular. O coronel Onofre Jose Soares obteve do governo provincial a concessão para construir e explorar durante vinte anos, o Mercado público. O prédio foi inaugurado em 1881, conforme inscrição existente na fachada. A feira, que até então se desenvolvia ao longo da Rua Grande, foi obrigada por uma postura municipal, a se transferir para o novo prédio do Mercado Público, fato que causou grande rebeldia popular. A mudança definitiva da feira para o mercado, somente ocorreu após a Proclamação da República em 1889.

O coronel Onofre José Soares, nasceu a 21 de julho de 1821. Sendo homem abnegado e generoso. Prestou relevantes serviços ao Brasil Imperial, ao conseguir grande número de voluntários, com o objetivo de servir e honrar a Pátria na guerra contra o Paraguai. O coronel pertencia ao Partido Conservador, tendo sido um leal e dedicado correligionário do cel. Bonifácio Câmara, nos pleitos eleitorais de sua época.

Além do Mercado, Onofre Soares construiu diversas casas e armazéns na praça do Mercado, a qual atualmente leva o seu nome, uma justa homenagem prestada àquele que realizou uma grande soma de benefícios ao seu Estado. Faleceu o coronel em 1º de maio de 1903, na casa-grande do seu engenho São José, no município de Touros-RN.

O prédio do Mercado Público de Ceará-Mirim guarda ainda seu traçado original, de aspecto simples, implantado no centro da praça. Suas fachadas, de composição simétricas, possuem características neoclássicas, com frontões e platibandas coroadas por elementos decorativos. O prédio apresenta partido de planta retangular, com cobertura de duas águas.

As fachadas principal e posterior do prédio possuem portões centrais de ferro, em vãos de arcos plenos, ladeados por dois óculos. As fachadas laterais apresentam cada uma, três portões de ferro, também em vãos de arcos plenos, intercalados por quatro óculos.

O prédio foi tombado em nível estadual, em 21 de janeiro de 1984, tendo sido restaurado pela Fundação José Augisto. Foi reinaugurado em março de 1987.

 

 

 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A GÊNESE DE CEARÁ-MIRIM

GÊNESE DO MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM

Livro Ceará-Mirim exemplo nacional - volume I

Julio Gomes de Senna

Fugindo à regra observadora por Orlando de Carvalho sobre os municípios brasileiros, o Município de Ceará-Mirim, no Estado do Rio Grande do Norte, nasceu de um imperativo de domínio do aldeamento indígena, cuja atividade na defesa de seus interesses e direitos punha em sobressalto o estrangeiro da conquista, que procurava embargar-lhe a posse legítima de sua terra e de seus bens.

A aldeia de GUAJIRU, situada à margem esquerda da lagoa do mesmo nome, era um centro de resistência, que contava com o auxílio das incursões francesas e holandesas, interessadas no comércio do pau-brasil, inicialmente, e depois na riqueza pecuária da região.

As constantes penetrações estrangeiras pelos vales e tabuleiros potiguares e janduís, assanhavam o gentio que o colonizador tinha em mira exterminar, coisa que somente conseguiu a duras penas e, mesmo assim, pelo processo bárbaro da degradação e da intriga.

Aquele pugilo de bravos e heróis nordestinos não podia permanecer em liberdade. Precisava de um chefe estrangeiro para lhe embraçar os passos, dando-lhe aulas de submissão e de covardia, e adaptando-o à linha do cativeiro. E isto aconteceu.

O aldeamento, porém, não produziu os frutos ambicionados. Os índios, trazidos pelos portugueses e ali alojados, não suportaram os limites de sua ação e passaram a conspirar.

O caminho encontrado pelo colonizador estrangeiro para acabar com o perigo, situado nas proximidades de NATAL, foi uma pseuda-emancipação política, com a criação da Vila.

Pode alguém discordar desse ponto de vista, mas o certo é que outras razões não justificariam o açodamento com que surgiu a Vila de Estremoz. Examinando as possíveis causas econômicas, capaz de justificar a sua criação, verifica-se que eram bem pequenas. Nem mesmo o comércio do pau-brasil, feito por intermédio de uma navegação incipiente pelo Rio Gramoré, do Meio ou Doce poderia apresentar razões para isso, pois que com um simples pasto, situado na então Ilha da Redinha, à entrada da barra do Potengi, às portas de Natal, a Corte faria a necessária fiscalização para cobrança de impostos.

E, antes que Guajiru fosse distrito do Município de Natal, ao qual pertencia, foi elevado à categoria de Vila, em 1755.

Continuou, porém, a rivalidade nascida entre franceses, holandeses e portugueses, na disputa da terra comum. Guajiru hospedava elementos janduís e paiacus e as guerrilhas e assaltos eram praticados de parte a parte.


Antigo convento em Extremos
https://brechando.com/2020/12/15/esta-igreja-de-extremoz-esta-em-ruinas/

A companhia dos Jesuítas, então no Brasil, procurou parlamentar pacificamente com os elementos locais, estabelecidos na Aldeia de Guajiru, resultando no estabelecimento da Freguesia de S. Miguel. Tornando-se religiosos, os índios aceitaram o conselho dos jesuítas, evitando uma resistência que seria fatal.

O contato com os índios de Guajiru, durante essa campanha benemérita, originou a estima e o bom trato dos jesuítas.

Guajiru, agora S. Miguel de Guajiru, em homenagem ao Padroeiro local, desfrutava a paz desejada, com o respeito às suas propriedades e famílias.

Mas a administração jesuítica não agradava ao Reino português, que aspirava ao massacre aniquilador do íncola para arrebatar-lhe a terra, distribuindo-a aos seus amigos. E o caminho para isso era a administração LAICA, que somente poderia ocorrer com a criação do Município.

Essa providência não se fez esperar. O Alvará assinado a 6 de julho de 1755, criou a VILA NOVA DE ESTREMOZ DO NORTE, que seria entregue a pessoa de confiança da corte. Desapareceu nominalmente Guajiru, como aldeia íncola.

Decorreram, porém, quase 4 anos sem que a instalação se fizesse, prova de que não estava em condições materiais para a transformação.

O Governo, entretanto, já não podia suportar essa tardança, possivelmente motivada pela resistência dos frades, que iriam sofrer prejuízos incalculáveis na partilha de bens móveis e imóveis.

A 3 de setembro de 1759, porém, D. José, El-Rei de Portugal, influenciado pelo Marquês de Pombal, assinava a carta Régia que proibia, sumariamente, a administração dos jesuítas. Tinha chegada a hora da consumação.

Extremoz ou, melhor, SÃO MIGUEL DE GUAJIRU, que ainda não se transformara em VILA NOVA DE ESTREMOZ DO NORTE, perdia, desse modo, a benéfica direção daqueles religiosos, justamente quando a sua população já ascendia a 1.429 almas.

Apesar dos pesares, ainda nove meses se passaram, sem que fosse instalada a VILA NOVA, coisa que somente ocorreu no dia 3 de maio de 1760.

 Mais um século de lutas

 A Vila Nova de Estremoz do Norte, que contava com 147 rapazes estudantes e 63 moças a serviço das letras e das artes, além dos afazeres da fiação e dos labores da agricultura e da pecuária, não ficou em paz com o novo regime laico dos portugueses. OITENTA ANOS ainda encheram a região de sobressaltos. Nem janduis, nem mesmo potiguares se conformavam com o confisco de suas legítimas terras.

A pacificação de Estremoz somente teve lugar no Governo de Casemiro José de Morais Sarmento, no período de 28-4-1845 a 9-10-1847.

 Área diminuída

O Município de Vila Nova de Estremoz do Norte perdeu em 11 de abril de 1833 o distrito ou região de TOUROS, que embora voltasse em 1878, separou-se definitivamente em 1884.

Transferência de sede

Razões de natureza econômica levaram o Governo a mudar para a povoação de Boca da Mata a sede do Município, com o nome de CEARÁ-MIRIM, coisa que se consolidou, definitivamente, por intermédio da Lei Provincial nº 370, de 30 de agosto de 1858.

Mais prejuízo

O Município de CEARÁ-MIRIM, em obediência ao Decreto 97, de 10 de março de 1891, perdeu a região de TAIPU, que passou a constituir célula autônoma do Estado.

Conclusão

A gênese do Município vem, pois, de um imperativo político de domínio e de força. Era a conquista da terra, o móvel de sua autonomia, que somente ocorreu depois da liquidação cruel das tribos janduís.

A sua história será contada no local que lhe está reservado na ordem dada ao assunto. Aqui apenas mencionamos a sua formação, como célula municipal.

A ILUMINAÇÃO DE CEARÁ-MIRIM

ILUMINAÇÃO PÚBLICA DE CEARÁ-MIRIM
Construção de Poste de luz elétrica

A iluminação pública de Ceará-Mirim no início da povoação era feita através de iluminaria à gás e realizada pelo acendedor de lampião, conhecido por Boca de Uruá, sobre ele, diz o escritor Nilo Pereira no livro Imagens do Ceará-Mirim: “Lá vem ele. Trazia nas mãos a tocha mágica. Dele de repente a tênue claridade idílica, que cai dos lampiões da rua, como por um milagre. O nome não sabíamos exatamente. Era Manuel. Manuel Boca de Uruá...”. Um dia, chegou a luz elétrica à motor.
Mestre João Cocentino e Dr Murilo Barros na casa do motor de luz

A luz elétrica à motor foi trazida pelos irmão Severino e Julio Ramalho. O jornal “A Razão” de 9 de setembro de 1917 noticia que Julio e Severino Ramalho se propõem a fornecer luz elétrica nesta cidade a quem com elles contratar queira com as seguintes condições: 6º - os proponentes se obrigam a fornecer luz em casas comerciais das 10 às 20 horas e às casas particulares das 18 às 24 horas. 7º - O pretendente que, iniciados os trabalhos de instalações desistir dos mesmos se obriga a pagar o material aos proponentes se a estes o tiver comprado e a importância dos trabalhos realizados até o momento da desistência. 8º - As instalações serão iniciadas logo depois da assinatura deste contrato o que importa a aceitação por parte do pretendente de todas as suas clausulas, obrigações e direitos delas decorrentes. O preço para consumo mensal obedecerá a seguinte tabela: Uma lâmpada de 10 vellas 2$500, mais de uma, 2$000. Uma lâmpada de 16 vellas 3$000, mais de uma, 2$500. Uma lâmpada de 25 vellas, 3$500, mais de uma 3$000. Uma lâmpada de 50 vellas 4$5000 e mais de uma 4$000. Uma lâmpada de 100 vellas 8$000 e uma lâmpada de 200 vellas 15$000. O jornal A Razão de 02 de dezembro de 1917 publica na coluna Boletim d’A Razão “A Inauguração da iluminação elétrica”. Ceará-Mirim realizará dia 3 de Dezembro próximo o mais importante dos seus melhoramentos de cidade civilizada de serviço de iluminação por electricidade de suas principais praças e ruas. Graças a boa vontade e relevantes esforços do Sr. Presidente da Intendência Municipal Dr. Manoel Varella e dos Srs. Julio e Severino Ramalho contratantes do mesmo serviço em lisonjeiras condições para o município dada as primeiras dificuldades do actual momento, poude Ceará-Mirim levar a efeito a sua velha aspiração de ser, embora modestamente, uma cidade regularmente iluminada Não podia ser pior o serviço de iluminação que tínhamos; o que seja uma cidade às escuras ou servida por tochas solitárias de querosene em lampiões esfumaçados, na lúgubre aparência de círios funerários, sabem os que vivem na cidade mais ou menos iluminadas e, nós outros, havemos de sabem agora. Ceará-Mirim ganhou para sua sociedade o que naturalmente, desde a sua fundação as cidades aspiram: a alegria de suas noites – uma iluminação, ao menos regular. A que a 3 inauguraremos é constituída, por ora, de 50 lâmpadas de 32 vellas, todas de filamento metálico, distribuídas do seguinte modo pelas principaes praças e ruas da cidade: Praça dd Mercado – 4, rua São José – 12, Avenida 18 de agosto – 16, praça Barão de Ceará-Mirim – 14, rua Dr. Pedro Velho – 4. Levando ao Governo Municipal, aos nossos amigos Julio & Severino Ramalho e a população desta cidade as nossa felicitações, damos abaixo ligeiro programma com que a empresa sob aquela firma pretende inaugurar aquelle serviço ás 18 horas, em presença do Governo Municipal, autoridades judiciárias e mais pessoas que o queira assistir, far-se-á a inauguração da iluminação pública da cidade tendo lugar esse acto na uzina da aludida empresa no largo do Mercado. Às 19 horas haverá na avenida 18 de Agosto, cinema campal, oferecido pelos empresários a população da cidade. Tocarão durante a inauguração e cinema campal as harmoniosas filarmônicas “12 de outubro” e “15 de Novembro”. 

CONTRACTO QUE FAZEM JULIO E SEVERINO RAMALHO COM A MUNICIPALIDADE DE CEARÁ-MIRIM PARA A INSTALLAÇÃO DOS SERVIÇOS DE ILLUMINAÇÃO PÚBLICA POR ELECTRICIDADE, DISTRIBUIÇÃO DE FORÇA MOTRIZ E DEMAIS APPLICAÇÕES INDUSTRIAES E ELECTRICIDADE NESTA CIDADE. 

Aos vinte e um dias do mez de setembro de mil novecentos e dezessete, vigésimo nono da República dos Estados Unidos do Brasil, nesta cidade do Ceará-Mirim, Estado do Rio Grande do Norte, perante o Doutor Manoel de Gouveia Varella, Presidente da Intendência Municipal, especialmente auctorizado para este fim em sessão de dezenove do corrente, conforme consta da respectiva acta, compareceram os Senhores Júlio Ramalho Cavalcanti e Severino Ramalho, cidadãos brasileiros, residentes nesta, componentes da firma Júio & Severino Ramalho, e declaram que vinham contractar com a Municipalidade, os serviços de illuminação pública por electricidade, distribuição de força motriz e demais aplicações industriaes de acordo com as cláusulas seguintes: 1ª Os contractantes se obrigam a fazer a iluminação publica das praças Dr. Tavares de Lyra, do Mercado, Barão de Ceará-Mirim, ruas São José, Dr, Pedro Velho e Avenida 18 de Agosto, com cincoenta (50) lâmpadas (32) cada uma, todas de filamentos metálico, dispostas conforme for mais conveniente aos interesses da Municipalidade, de acordo com os contractantes, pelo preço de duzentos mil reis (200$000) mensais, ou sejam quatro mil reis (4$000) por lâmpada, pagos no dia ultimo de cada mez, ou até o dia (10) do mez seguinte; assim como fazer distribuição de força motriz e mais aplicações de electricidade, nesta cidade. 2ª A Municipalidade se compromette a fornecer, com antecedência de trinta (30) dias do inicio da installação, os postes para canalisação e illuminação, em numero sufficiente, ficando estes no domínio e posse da Municipalidade, exceptuadas as adaptações que pertencerão aos contractantes. 3ª Caso convenha à Municipalidade faser a illuminação de edifícios públicos ou de outras ruas da cidade; quanto aquelles, correrão a installação, illuminação e conservação por conta da mesma Municipalidade, e em relação aquellas, serão a installação e illuminação feitas nas condições das clausulas 1ª e 7ª, com o abatimento de 25 %, em cada lâmpada, em ambos os casos. 4ª Os contratantes obrigam-se a fornecer instaladas e gratuitamente cento e vinte (120) vells de illuminação em edifícios públicos que o chefe do Governo Municipal indicar. 5ª A illuminação publica começará às 18 horas (hora solar) e terminará as 24, salvo nas noites de luar comprehendidas do quarto crescente a lua cheia, nas quaes não haverá illuminação. 6ª Quando convier à Municipalidade ampliar as horas de illuminação publica os contractantes obrigam-se a fornecer luz de acordo com as clausulas 1ª e 3ª. 7ª Os contractantes farão por sua conta as installações, reparos e conservação do material para perfeito fornecimento de luz à cidade. 8ª Os contractantes ficarão isentos de todos os impostos municipaes, presentes e futuros, na vigência do contracto, sobre as industrias de que trata o presente contracto. 9ª Sempre que houver atraso no pagamento do fornecimento de luz publica, nos termos das cláusulas 1ª por mais de três (3) mezes, pagará a Municipalidade juros a razão de 10 % ao anno. 10ª Os contractantes se obrigam a iniciar os trabalhos no prazo máximo de trinta (30) dias e a concluil-os no de noventa (90), contados da data da assignatura do contracto, caducando a concessão se nos prazos mencionados não forem iniciados ou concluídos os serviços contractados, salvo casos de força maior provada. 11ª O contracto vigirará até o dia trinta e um (31) de Dezembro de mil novecentos e dezenove (1919); com antecedência de noventa (90) dias o Conselho Municipal tratará da renovação ou novação do contracto, se a preferencia em igualdade de condicções em concorrência publica. 12ª Não sendo aceita a proposta dos actuaes contractantes, por não offereceram as mesmas condições, nos termos da clausula acima, fica a Municipalidade obrigada a indemnisal-os do material da installação da illuminação publica, que estiver funccionando regularmente, feito o preço da época da dita installação, com o abatimento de vinte por cento (20%). 13ª Para este fim, logo que seja inaugurada a illuminação publica, os contractantes fornecerão ao Presidente do Governo Municipal, afim de ser archivada na Secretaria da Intendência, a factura devidamente autenticada do custo do material empregado. 14ª Si a Municipalidade dentro de trinta (30) dias, decorridos de trinta e um (31) de Dezembro de mil novecentos e dezenove (1919), não tiver feito a indemnização, conforme a clausula 12ª ficam os contractantes com o direito de retirar o material da illuminação publica, inclusive o das adaptações feitas nos respectivos postes. 15ª Os contractantes se utilisarão das linhas de illuminação publica para o fornecimento de energia particular. 16ª Nenhum proprietário poderá impedir ou oppor obstáculo a que os contractantes se utilizem de muros ou fachadas dos prédios para a colocação de simples supportes, necessário a canalisação, contanto que não os danifiquem. 17ª Os contractantes ficam sujeitos a multas seguintes: a) De mil reis (1$000) por lâmpada apagada, após seis horas do aviso official. b) De trinta mil reis (30$000) quando houver interrupção geral por trez (3) dias, contados do aviso official, salvo caso de avaria grave das máquinas ou canalisação, em que, sob a inspecção do chefe do Governo Municipal, nada pagarão os contractantes, até a extincção do prazo que neste caso lhes será concedido pela Municipalidade para o restabelecimento da illuminação. (A seguir). 
O jornal A Razão publicou em sua edição de 09 de Dezembro de 1917 sobre a inauguração da iluminação pública de Ceará-Mirim por eletricidade: A honesta e operosa administração de Dr, Manoel Varella vae dia a dia impondo-se ao respeito e a consideração dos seus munícipes. Espírito progressista, amando sinceramente a sua terra, o Sr. Presidente do Governo Municipal não tem poupado esforços em dotalas dos mais urgentes e realizáveis melhoramentos reclamados pelas cidades que admiram um lugar de bem entendido destaque entre seus congênere. Agora mesmo animado deste bello movimento do progresso, que tanto recomenda o administrador inteirado de seus deveres como ao povo que o faz a frente dos seus destinos locaes, S.S. acaba de incorporar aos méritos de sua honrada administração o de nos haver dado essa illuminação modesta mas apresentável, substituindo a péssima e pavorosa illuminação publica à querosene pela asseada e elegante illuminação por electricidade. 
Como havíamos anunciado na nossa edição de domingo último, realizou-se a 3 do corrente a inauguração da illuminação publica electrica, edsta cidade. Às 18 horas, na sala de máchinas da pequena uzina da praça do Mercado, de propriedade de Julio & Severino Ramalho contractantes dos serviços a inaugurar, presentes a Intendência Municipal, cujo Presidente o Dr. Manoel Varella que não podendo assistir ao acto por se achar de lucto recente de seu venerado pae o sr. coronel José Felix fez-se representar pelo seu secretário o nosso amigo e talentoso companheiro Vicente Barbosa, autoridades juducuarias, policiaes, representantes do commercio e da lavoura e grande massa do povo, usou da palavra o sr. Sebastião Fernandes, Juiz de Dreito da Comarca, e em nome dos contractantes pediu ao sr. representante do Executivo Municipal para declarar inaugurados os serviçoes de illuminação publica, electrica da cidade. 
O Sr. Secretario da Intendência em de de S.S. declarou, então, inaugurados os referidos serviços. A um movimento do Sr. Secretario toda a cidade foi imediatamente iluminada, ouvindo-se nessa ocasião o espoucar de uma grande girândola e um trecho dos mais vibrantes do repertorio da “Philarmônica 15 de novembro”, além de repetidas aclamações ao Exmo Governado do Estado, ao Governo Municipal e à Republica. 
O representante o Sr. Dr. Presidente do Conselho acompanhado de Dr. Juiz de Direito,major Pedro de Oliveira Correia, chefe político local e diretor desta folha e de diversos cavalheiros percorreram todas as praças e ruas da cidade, achando excelente o serviço que acabava de ser inaugurado, em relação ao que tínhamos ainda há pouco. A porta da uzina, onde estacionada grande multidão em visita a mesma e a espera do cinema campal que em breve iria funcionar, solicitados pela mesma, usaram da palavra os nossos distictos e talentosos amigos Vicente Barbosa e Alberto Carrilho, os quaes concluíram as suas ligeiras, mas expressivas allocuções congratilando-se com o povo de Ceará-Mirim pelo considerável melhoramento que acabava de realizar, levantando vivas ao Desembargador Ferreira Chaves, Dr. Tavares de Lyra e ao Governo Municipal, os quaes foram calorosamente correspondidos. 
Às 19 horas deu-se inicio à sessão cinematográfica, sendo exhibida o magnifico film o “Diabo Verde”. Podemos ouvir do Sr. Louis Leferbyre competente eletricista, vindo de Natal, para inspecionar, por parte da Intendência, os serviços de installação feitos pelos hábeis e inteligentes srs. Julio e Severino Ramalho, a cuja boa vontade devemos em grande parte tão relevante progresso para nossa bela cidade, de que a installação dos mesmos serviços de illuminação eram impar. Essa expressão, em techinica, importa numa merecida e alta recomendação para os dignos contractantes. A illuminação está sendo feita conforme contracto, com 50 lampadas de 32 vellas, cada uma, todas de filamento metálico, distribuídas do seguinte modo pelas pricipaes ruas e praças desta cidade: praça do Mercado – 4, rua São José – 12, Avenida 18 de Agosto – 16, praça Barão de Ceará-Mirim – 14 e rua Dr. Pedro Velho – 4. 
O contracto auctorisa o Governo Municipal a aumentar s mesma, ainda em vantajosas condições para a Intendência logo que esta julgue necessário. Desta cidade, após feita a inauguração, foram transmitidos telegrammas para a capital, pelo governo do município e pelo nosso presado diretor e chefe major Pedro Oliveira, ao Exmo. Sr. Desembargador Ferreira Chaves e a imprensa daquela cidade, dando a boa nova de tão relevante melhoramento. 
Por muitos anos a iluminação publica de Ceará-Mirim foi através da energia produzida por motor a diesel, inclusive sendo a usina instalada próximo a linha do trem, conhecida como casa do motor. 
Na administração do prefeito Aderson Eloy de Almeida, no período de 1963 a 1968, foram iniciados os serviços de instalação da energia elétrica de Paulo Afonso. A inauguração da energia de Paulo Afonso pela Cosern foi a 22 de setembro de 1964, sendo a rede de distribuição de Ceará-Mirim, com 14 transformadores, totalizando 435 KVA para distribuição de baixa tensão. Também foi concluída a rede de transmissão Natal-Ceará-Mirim. Em 1968, os serviços com energia elétrica aparecem na planilha de despesa do município de Ceará-Mirim, com o valor de 23.700,00. 
Na administração de Ruy Pereira Junior no período de 1973 a 1976 a rede de distribuição foi expandida pera a zona rural abrangendo os distritos de Capela, Boa Vista, Coqueiros e Capoeira Grande, sendo inaugurada a iluminação publica da praia Muriu a 26 de janeiro de 1974.

AO MESTRE COM RESPEITO

AO MESTRE COM RESPEITO
Do livro Eu lembro, você lembra, nós lembramos... 
Maria das Graças Barbalho B. Teixeira
O ano de 1958, trás para mim, muitas lembranças em Ceará-Mirim, minha cidade natal a 30 km da capital, Natal/RN. A chegada de Seu Djalma com toda a sua família é motivo de alvoroço na cidade, trazendo para todos à realização de um sonho, que era a formação de uma banda municipal com participantes da própria cidade. Alguns músicos já existiam na cidade, todavia, faltavam-lhes, organização, disciplina, qualificação e responsabilidades profissionais. O Mestre, como todos o chamavam, abriu às portas da sede que ficava localizada entre a sua casa e o bar de Jorge na Rua do Patu, hoje, General João Varela, dando início as aulas de música para a moçada da época, e aos poucos descobrindo o talento de cada um. É claro que muitos não conheciam se quer uma clave, uma nota musical, um solfejo, uma escala, uma partitura, mas, todos se empenharam com afinco e em poucos meses os resultados já favoreciam o Mestre e toda sua competência. Seu Djalma não era um homem de muitos diálogos, sabia ser duro e exigente com os alunos; todavia, sempre foi muito respeitado e querido pelos cearamirinenses; ele chegou como sargento da polícia militar, passando depois a tenente. Para nosso deleite, a sede da banda ficava praticamente em frente da minha casa, e todas as noites muitas pessoas da rua inclusive a criançada, se aglomeravam na porta e na calçada, para ouvir os ensaios da banda, era uma festa só. Que boas lembranças me trazem os acordes dos dobrados, das marchas rancho, frevo, outras.
Banda de Música Feminina
Vale salientar que muitos dos aprendizes e posteriormente músicos profissionais, não possuíam instrumentos, utilizavam os comprados pela Prefeitura, à época, administrada por Edgar Gouveia Varela. Algumas famílias com a do meu Padrinho Zé Costa, marido de minha tia Maria, tinha condições e todos os filhos tinham seus próprios instrumentos. Outros também puderam comprar: Diassis Barbalho, Tadeu Marques, Damião, Armando e Ernani, filhos de Seu Júlio Soares que tinha um local no mercado, assim como Zé Costa, afora, outros que os já possuíam. 

O êxito da Banda ultrapassou os limites da cidade graças ao talento do Mestre e a evolução dos músicos tomou novos rumos, dando início a uma série de convites para apresentarem-se em outras cidades e na capital do Estado. Anos atrás, era tradição em cidades do interior, a criação de suas próprias bandas de música; conceituá-las com esmero passou a ser um mecanismo de disputas entre si, para ver quem era a melhor. Quando das festas de padroeiras, São João, Natal, Ano Novo e Carnaval principalmente, muitos músicos formavam suas orquestras e lá iam os mesmos a tocarem em outras cidades; era também uma oportunidade para ganhar dinheiro; vale salientar, que tudo isso era feito através de um contrato formal. Tocavam em clubes, blocos, vaquejada, etc. 

Quem não se lembra da banda tocando a alvorada no dia 08 de dezembro, acordando todo mundo com o foguetório dando vivas a padroeira, Nossa Senhora da Conceição? E das retretas? Das músicas sacras, na procissão do Senhor Morto? Do toque respeitoso na hora da elevação da hóstia nas missas solenes? Das novenas no mês de Maio? Nas datas cívicas, 07 de Setembro e nos festejos juninos (Santo Antonio, São João e São Pedro)? E no carnaval tocando frevo? Vassourinhas, Lampião, Maria Bonita; Gente de Deus parece que ainda estou em Ceará-Mirim, na minha infância e adolescência, de pé no patamar da Igreja, vendo os balões artesanalmente feitos pela família de Seu Cristino o fogueteiro, lindos, multicoloridos, subir, subir, em direção ao céu estrelado, todos batendo palmas, dando vivas, e a banda tocando. Hoje esse folguedo é proibido, por causar danos ao meio ambiente. Mais que era bonito e mágico era, muitas pessoas em suas crenças, faziam pedidos de casamento, de cura aos santos quando o balão ia subindo. 

Mas, como tudo é passageiro, esse tempo também já passou, contudo, nada mais imortal que as boas recordações, boas amizades, convívio com nossas famílias, primeiros amores; e se tudo isso é saudosismo, podem acreditar, me encaixo diretinho nesse termo. Enquanto viver, estarei sempre fazendo a conexão entre o passado e o presente; essa é uma maneira de não esquecermos nossas origens, nossa cidade natal, nossas amigas e amigos, os acontecimentos exitosos e a alegria da vida. Ah! ia me esquecendo, 1958, também foi o ano de minha 1ª Comunhão, acontecimento esse, já mencionado em um artigo anterior e também a realização do meu sonho de criança que era estudar no Ginásio Santa Águeda. Iniciava-se nesse ano, os melhores momentos da minha infância e adolescência, frente aos laços de amizade que se fizeram e que até hoje perduram.
Ao Mestre Djalma, pelo mérito e apreço que sempre teve por todos, pelo pioneirismo na fundação do escotismo em Ceará-Mirim e por ter dado a cidade um modo de vida mais dinâmico já que interagiu com a juventude e suas famílias, muitas vezes de modo disciplinar, outras vezes com muita paciência e persistência acreditando no potencial de cada um dos seus discípulos. 

Acrescento e agradeço também, a paciência de Jó que teve para comigo, quando dos ensaios da Banda Marcial no Ginásio Santa Águeda para os desfiles de 07 de setembro; me fez acreditar que eu tinha ritmo e habilidade para tocar tarol. Sinto-me ainda favorecida através dos meus dois queridos irmãos (Diassis – in memoriam, e Paulo), que tocavam na banda. Aliás, a maior e melhor banda de música que a cidade de Ceará-Mirim já teve. 

Encerro esse artigo, fazendo também uma homenagem a todos que a minha memória lembra e que fizeram parte da banda de música nos anos de 1958 a 1968, enlevando assim, as muitas alegrias que nos deram quando a víamos passar, perfilados, uniformizados, com seus quepes, sapatos pretos lustrosos, brilhantina no cabelo, na maior envergadura, sob a batuta do Mestre. Djalma Ribeiro da Silva – Mestre da Banda de Música de Ceará-Mirim – In memoriam Aldecerjan ( Decinha), filho de Seu Djalma – Instrumento - Piston Antonio Cerqueira Neto – (Neto) – Instrumento – Saxofone Almir (filho de Seu Djalma) – Instrumento - Tarol Antonio Borges – Instrumento – Contrabaixo – In memoriam Antonio (filho de seu Djalma) Instrumento – Bombo Armando Soares – Instrumento – Tenor – In memoriam Benedito – Instrumento – Piston – In memoriam Chico Pindoba – Instrumento – Saxofone Batista – Instrumento – Trombone de sopro ou pistol – In memoriam Cícero de Castro – ( Cisso Perrii) – Instrumento – Baixo – In memoriam Damião Soares – Instrumento - Trombone de sopro ou pistol - In memoriam Damião Velho – Instrumento – Trombone de sopro ou pistol Ernani Soares – ( Buxudinho) – Instrumento – Clarinete – In memoriam Francisco de Assis Barbalho Bezerra - (Diassis)- Instrumento – Trombone de sopro ou pistol Francisco de Assis Soares (Liliu) – Instrumento – Clarinete Ionaldo Costa – Instrumentos – Bateria, surdo, bombo Itamar Costa – Instrumento – Piston – In memoriam Irimar Costa – Instrumento - Saxofone – In memoriam Itaci Costa – Instrumento – Clarinete – In memoriam Izulamar Costa – Instrumento – Trompa – In memoriam Manoel – (Mané Beju) – Instrumento - Surdo Nenên de Chico Padre – Instrumento – Clarinete – In memoriam Paru – Instrumento – Pratos – In memoriam Paulo Barbalho – Instrumentos – Surdo e Bombo Tadeu Marques – Trombone de sopro ou pistol – In memoriam Zé Gago – Instrumento – Sax Tenor – In memoriam. “...A chegada de Seu Djalma com toda a sua família é motivo de alvoroço na cidade, trazendo para todos à realização de um sonho...”

CASA-GRANDE

CASA-GRANDE (Francisco de Assis Rodrigues)
Casa Grande do Engenho Carnaubal - 1º engenho de Ceará-Mirim - em avançado estado de deterioração e abandono
Símbolo da aristocracia no latifúndio chamado engenho, a casa-grande deixava clara a nobilidade, o poder, a riqueza, o mando e a influência do seu dono. Ela simbolizou, no Nordeste brasileiro, a economia do açúcar e gerou uma vida social característica de um ciclo, refeito nesta Região pelo declínio do ciclo do ouro. A ela estava associado o cenário das senzalas onde moravam os escravos.

Casa Grande do Engenho Cruzeiro (década de 1930) - atualmente está ruínas

Suas construções, algumas de expressivo valor arquitetônico, vieram de plantas de arquitetos europeus com predominância do estilo português. Em geral, quando possuíam dois pisos, eram chamadas de sobrados ou palacetes.

Casa Grande do Engenho Igarapé (Preservada)

Havia, na casa grande, destaque para as salas, denominadas de estar e de jantar, que eram, no geral, forradas de madeira, tinham piso de mosaicos vindos da Europa, madeira ou tijoláceas e eram decoradas com móveis europeus, espelhos venezianos, retratos de antepassados pintados a óleo e belas e densas cortinas de veludo ou damasco dourado. Na cozinha, lugar onde as relações sociais se tornavam amenas, conviviam a sinhá, as escravas, as tias solteiras, avós, primas órfãs, amas de leite e mulheres, às vezes livres, mas empregadas ou agregadas do senhor. Ali as amenidades de relações davam conta de todas as novidades e até das fofocas (à época chamadas chafurdos) de casamentos na justiça, gravidezes estapafúrdias e namoros proibidos no engenho e adjacências.

Casa Grande do Engenho Divisão - Demolida

É interessante ressaltar que todo o universo atingido pelos “olhos” da cozinha da sinhá era às vezes do seu conhecimento e, dependendo dos “atores”, de sua anuência. Aí, entre um cafezinho feito na hora ou uma porção de doce, as línguas davam conta de tudo que os olhos não alcançavam.

Casa Grande do Engenho Nascença (Preservada)

Com mando absoluto sobre toda a casa e sobre todo o feudo – o senhor do engenho – a ele a terra conferiu títulos nobilísticos e o caráter de dono da propriedade, dos escravos e das vidas. A ele o poder, o respeito e a justiça.

Casa Grande do Engenho São Francisco - Hoje Usina - em avançado estado de deterioração e abandono

No vale do Ceará-Mirim a casa grande do Engenho Guaporé, como tantas outras, foi símbolo e elo desta terra em suas mais sólidas relações políticas, sociais e econômicas, tanto no Estado como fora deste. Dali saíram estudos, idéias e decisões do Partido Liberal, ao qual pertencia seu construtor, Vicente Inácio Pereira – o segundo norte-rio-grandense a formar-se em medicina – deputado provincial, vice-presidente da província e jornalista.

Casa Grande do Engenho Guaporé - Hoje Museu Nilo Pereira - avançado estado de deterioração e abandono

Hoje essa casa, de estilo afrancesado, abriga o Museu Nilo Pereira – que recebe visitas de todos os que vêm ao Ceará-Mirim como turistas ou estudiosos do Estado ou da Região. Lugar de grandes encontros políticos, sociais e religiosos, a casa-grande do Guaporé é exemplo de vestígios deixados pelo fausto em que se envolveu o verde vale do Ceará-Mirim, da segunda metade do século XIX à primeira metade do século XX.

Fonte: Ceará-Mirim, tradição engenho e arte - Sebrae - 2005

quinta-feira, 14 de maio de 2020

SALVE MESTRE TIÃO OLEIRO



SALVE MESTRE TIÃO OLEIRO

Em outubro de 2018 o Brasil se despedia de uma grande estrela da cultura popular, o Mestre Tião Oleiro, cuja luta em defesa das tradições de sua terra, o levou ao mais alto reconhecimento quando recebeu as medalhas do Mérito Cultural pelo Governo Federal, Medalha Djalma Maranhão pela Assembleia Legislativa do RN e Medalha Deífilo Gurgel pelo Governo do Estado do RN. Todas as homenagens dentro das comemorações pelo seu centenário em 2014.

Ainda em 2014 solicitei ao presidente da Câmera de vereadores, Renato Martins, que apresentasse projeto tornando 14 de Maio Dia Municipal da Cultura. Renato apresentou o projeto e o então prefeito Peixoto sancionou a Lei.

Conheci o Mestre lá pelos idos de 1999 em um passeio de bicicleta com o amigo Mucio Vicente. Naquela oportunidade Mucio me levou até a residência do velho Griô. Fomos apresentados e marcamos outra visita para que pudéssemos conversar melhor e alongar a prosa por mais tempo.

Foi a partir dessa prosa que iniciamos uma história de vida até o dia de seu encantamento. Foram muitas experiências vividas durante nosso tempo de convivência. Cada encontro com o sábio ancião era uma nova oportunidade de aprendizagem. Foram muitos ensinamentos.

Em 2002, aluno do curso de Arte pela UFRN, fizemos uma atividade para a disciplina de Folclore Brasileiro onde pesquisamos o grupo folclórico Congos de Guerra de Guanabara que era liderado pelo Mestre Tião. Durante a culminância do projeto de pesquisa, o grupo folclórico se apresentou no Teatro do Deart na UFRN. Foi uma apresentação inesquecível. Aquele dia foi o início de nossa luta em defesa da valorização, fortalecimento e preservação dos grupos tradicionais da região de Ceará-Mirim.
Em 2004 quando monitor do PROJETO MOVA BRASIL – alfabetização de Jovens e Adultos, fizemos pesquisas com os alunos sobre a cultura popular de Ceará-Mirim destacando Mestre Tião e seu grupo folclórico Congo de Guerra de Guanabara. O projeto foi classificado para ser apresentado no FÓRUM SOCIAL NORDESTINO em Recife no ano de 2004. O Fórum deu oportunidade para os Mestres Tião Oleiro e Zé Baracho mostrarem todas as suas qualidades e capacidades criativas.
Em 2008 o Canal Futura produziu um documentário chamado “A beleza do meu lugar” que homenageava 16 mestres de cultura popular de todas as regiões do Brasil e o mestre Tião estava entre eles. Esse material é divulgado em todos os países que transmitem as programações do Canal Futura. Dessa forma o mestre ficou conhecido em várias partes do mundo. O documentário concorreu ao 19º prêmio internacional de curtas em São Paulo no ano de 2008

Ainda em 2008 o Projeto Vernáculo, coordenado por Cleidiane Vila Nova, Ianne Maria e Rita Machado, produziu um vídeo sobre o Congo de Guerra de Guanabara onde apresentava a luta dos mestres Tião Oleiro e Zé Baracho pela preservação do grupo. O documentário concorreu ao 9° Prêmio de Curtas Potiguares em 2009.
Em 2009 recebeu o título de Patrimônio Vivo do Rio Grande do Norte através da Lei do Registro do Patrimônio Vivo do RN. O Prêmio concedeu uma bolsa mensal até o final de sua vida.

Apesar de agricultor e foguista de engenho de açúcar, a arte era o alimento da alma do bardo ancião, era mestre de cultura popular, sanfoneiro e cantador de coco. Viajou muito pelo interior tocando seu fole de oito baixos. São muitas histórias que um dia serão contadas.

Ficaram suas lembranças e seus ensinamentos e, o que levarei para sempre, é que nunca deixe de lutar, mesmo que a esperança esteja minada de incertezas, é preciso seguir em frente!!!

Que a arte consiga superar todas as formas de incompreensões tendo como resposta o bom combate, criatividade e muitos questionamentos!!

Textos sobre Mestre Tião:

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM - PARTE 2


Copiado do Face da ACLA Pedro Simões Neto

Dando continuidade às publicações históricas, a ACLA apresenta o segundo fragmento do livro "MUNICÍPIOS DO RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM", de autoria de Nestor dos Santos Lima.
O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM
Nestor dos Santos Lima
PARTE 2


A 29 de setembro de 1821, o Senado da Câmara de Extremoz jurava as bases da Constituição, sendo presidente o alferes Alexandre da Silva de Andrade, Francisco Xavier Torres e Luiz José da Penha.
Na madrugada de 21 de dezembro desse ano, surgiu um movimento de rebeldia contra o vigário João Ignácio de Britto.
Para diretor da vila dos índios era proposto, em verea-ção de 25 de janeiro de 1822, Manoel Ferreira Nobre.

A proclamação da Independência Nacional, em 1822, foi recebida pelo Senado da Câmara de Extremoz, composto de Pedro Paulo Vieira, João José de Mello e Francisco Xavier de Souza, que prestaram juramento de fidelidade ao Imperador D. Pedro I, de cuja aclamação só tiveram conhecimento oficial, na vereação de 15 de janeiro de 1823.

A 4 de junho de 1825, foi jurada solenemente a Constituição de 25 de março de 1824.
Os índios vilados em “Veados” eram dirigidos por cidadãos indicados ao governo da capitania pelo Senado da Câmara. Foram diretores ali, Hyppolito da Cunha Conceição, em 1822, Manoel Ferreira Nobre, em 1824, José Alves de Carvalho, em 1825, e Clemente Pio de Andrade, em 1832.

Informava, a 7 de setembro de 1839, o presidente D. Manoel de Assis Mascarenhas, à Assembleia Provincial, que “os índios de Extremoz, em número de 700, tinham uma légua de terras na cidade dos Veados, pouco trabalhavam em agricultura, viviam de pesca e de trabalhar a jornal”. (Vide Relatório, 1839).

A primeira escola primária oficial foi instalada em 1832, sob a regência de Antonio Victorino Ferreira Nobre, substituído em 1840, por José Bento da Fonseca.
A primeira Câmara Municipal de Extremoz foi eleita a 1º de junho de 1829 e empossada a 27 do mesmo mês e compunha-se dos cidadãos Manoel Varella do Nascimento, Gonçalo Ferreira da Rocha, Francisco Xavier de Souza, Felippe Varella Santiago, Francisco de Paula Soares da Câmara, Antônio Felix de Carvalho e Francisco Xavier de Carvalho.

O município de Extremoz compreendia, a esse tempo, uma Igreja Matriz, uma capela nos Touros, 5 povoações, 2 escolas particulares, tendo a da vila 12 alunos e a dos Touros 20.
A última sessão da Câmara de Extremoz, antes da mudança, foi a 22 de janeiro de 1857.
A resolução provincial n. 321 de 18 de agosto de 1855 elevou a povoação de “Boca da Mata” à categoria de Vila, com o nome de Ceará-Mirim, e para ai transferiu a sede do município. Outra resolução n. 345 de 4 de setembro de 1856 suspendeu a execução da anterior, mas, finalmente, a de n. 370 de 30 de junho de 1858 mandou efetuar a mudança. Durante 21 meses, não funcionou a Câmara Municipal, de modo que, só a 14 de outubro de 1858, é que se realizou a primeira sessão na nova vila de Ceará-Mirim, sob a presidência de Francisco de Paula Soares da Câmara e sendo vereadores Miguel Germano de Oliveira Sucupira, José de Goes de Vasconcellos Borba, Bento Gervásio Freire do Revorêdo, Padre João Coelho de Souza e Joaquim Romão Seabra de Mello.

Entre outros presidentes da Câmara Municipal, encontrava-se o cel. Luiz Antonio Ferreira Souto, no quatriênio de 1864 a 1867, quando renunciou, por ter mudado residência para Assú.
Em 1882, foi a Câmara Municipal suspensa quando era presidente o dr. Heráclio de Araujo Villar, assumindo a administração municipal o padre Antonio de Oliveira Antunes.

Ao tempo da grande seca de 1877-1879, o governo provincial criou em Extremoz uma colônia de flagelados, denominada “Sinimbú” à margem esquerda do rio “Mudo”, ou “Caratan” contendo 1.200 palhoças para 6.600 habitantes, sob a administração de Arsênio Pimentel e Westremundo Coelho.
Era presidente da província o Dr. Elyseu de Souza Martins.
Mais tarde, porém, em 1878, o vice-presidente Dr. Manoel Januário Bezerra Montenegro extinguiu a colônia “Sinimbú” e mandou arrolar o respectivo material.

O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM - PARTE I



Texto copiado do Face da ACLA Pedro Simões Neto


A ACLA inicia, hoje, uma série sobre as obras literárias clássicas que narram a História da nossa cidade. Com isso, a Casa de Pedro Simões tenta aproximar o passado do presente a todos os ceará-mirinenses. A organização da apresentação dessas obras foi pensada com o fim de possibilitar uma leitura gradual e progressiva, buscando manter a média de 3 páginas.
A ACLA, como guardiã da cultura de Ceará-Mirim, espera contribuir com o sentimento de identidade do nosso povo e deseja a todos uma boa leitura.
Nesta primeira parte da série, apresentaremos o primeiro fragmento da obra "MUNICÍPIOS DO RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM", de autoria de Nestor dos Santos Lima.


O MUNICÍPIO DE CEARÁ-MIRIM
PARTE 1


O território do importante e rico município de Ceará-Mirim, outrora de Extremoz, limita-se ao norte, com o município de Touros, pelo rio Maxaranguape, até a sua barra no Atlântico; a leste, com o oceano e o município de São Gonçalo, desde a barra do rio Guajerú, ou Rio Doce, passando pela lagoa de Extremoz e até a Massaranduba, pelo riacho desse nome; ao sul, com essas divisas de São Gonçalo, e a oeste, com o município de Taipu, segundo a linha estabelecida pela lei estadual n. 422 de 28 de outubro de 1917, que assim dispõe:
“Ao norte, partindo da foz do Riacho Seco, a ponta da Lagoa do Mato, pelo lado de cima; dai, em linha reta, à Passagem das Pedras; dai, à Cruz do Salvador; desta, pela estrada de Macaíba, ou das ‘Boladas’, até o Riacho do Mudo, e por este acima, até a Trempe dos Municípios, no lugar denominado ‘Poço do Juazeiro’.”.

A superfície territorial é de cerca de 2.880 quilômetros quadrados, medindo de norte a sul 48 quilômetros e de leste a oeste 60.

As terras que hoje constituem o município de Ceará-Mirim, foram concedidas a vários donatários, no início da colonização da Capitania.

Jeronymo de Albuquerque, capitão-mor do Rio Grande do Norte, concedeu várias sortes de terras, entre outros, a Affonso Alvares, em 7 de março de 1604, a Braz de Mesquita, em 2 de Junho de 1604, a Manoel de Carvalho, a Gaspar Rabello, a Domingos Álvares, a Jeronimo de Athayde e aos padres da Companhia de Jesus, em 7 de janeiro de 1607, terras essas situadas, ora na Várzea, ora no rio Seará. O capitão-mor Francisco Caldeira Castel Branco também concedeu terras na várzea do Seará, na testada das da Companhia de Jesus, a Beatriz de Paiva, filha do alferes Luiz Gomes, em 4 de outubro de 1613 (Ver. Do Inst. Hist., vol. VIII, págs. 30 a 72).

Quando, no ano de 1614, vieram a Natal o capitão mor de Pernambuco Alexandre de Moura e o desembargador Manoel Pinto da Rocha, afim de executar a provisão regia que mandava repartir e dar de novo as terras concedidas e não cultivadas, encontraram as datas concedidas no rio e na várzea do Seará umas bem aproveitadas e outras absolutamente incultas e devolutas, que eles deram a terceiros.
Segundo refere Ferreira Nobre, na sua “Breve Notícia da Província do Rio Grande do Norte”, 1877, os índios potyguares teriam fundado um estabelecimento junto à lagoa Guajeru, (hoje Extremoz) e os padres jesuítas fundaram um convento, uma bonita Igreja e um prédio com acomodação para a Câmara Municipal e Cadeia.

Não padece dúvida que os jesuítas, tendo obtido uma vasta sesmaria de quatorze léguas, que pegava da gamboa do Jaguaribe, à margem do Potengi, defronte da cidade de Natal, correndo para oeste até emparelhar com a lagoa do Guajerú, três mil braças e dez palmos, em direção ao noroeste seiscentas braças e daí até o “Mar Salgado”, (data 102 do auto de repartição de terras, cit. Ver., pág. 40), embora só tivessem ali, até 27 de fevereiro de 1611, “dois currais de vacas, algumas éguas, e dois escravos da Guiné”, tiveram necessariamente de povoar e aproveitar as ditas terras, onde fundaram o aldeamento de Guajeru, com o convento, a Igreja e mais acessórios.

Mas, tendo o alvará régio de 1755 expulsado do reino de Portugal a Companhia de Jesus, mandou vilar os índios domesticados, concedendo-lhes terras, de uma légua, em quadro, e submetendo-os a uma administração civil.
No desempenho dessa missão, o desembargador Bernardo Coelho da Gama Vasco criou a Vila de Extremoz e a instalou no dia 3 de maio de 1760, desmembrando-a da cidade de Natal, a quem pertencia.

O aldeamento jesuítico, então transformado na Vila de Extremoz, era denominado “Aldeia do Guajeru”, sob a invocação de São Miguel, compunha-se de índios caboclos da língua geral e tapuyos da nação dos Payacús (Ver. Inst. Vol. XI-XIII, pag. 178).

Outras aldeias também se formaram no aludido território doado à Companhia, como sejam a de Potyguassú ou Camarão, em Igapó, e a de Jacaúna, nos terrenos do norte, em Conapolumirim, ou Porto-mirim, como entendia o des. Luiz Fernandes (Ver. Cit., vol. VIII, pag. 102).
A mais próspera das aldeias era a de Guajeru, que se tornou “vila”, em 1760, e tal foi o seu desenvolvimento, que foi considerada “Cidade”. (V. Questão de limites entre Rio Grande do Norte e Ceará, vol. 2, pág. 55).

Os demais núcleos ficaram simples povoados, que ainda são.
O território do antigo município de Extremoz se estendia até ao de Lages, hoje; mas, os moradores dessa povoação, em virtude da Lei n. 10 de 6 de março de 1835, ficaram pertencendo à freguesia de Sant’Anna do Mattos. A área municipal correspondia à da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres e 
São Miguel de Extremoz, (lei n. 264 de 7 de abril de 1852).

Poucos anos depois de criado o município, a vila e a freguesia, isto é, em 1775, Extremoz do Norte compreendia, pelo poente, as terras até Aguamaré, onde dividia com Assu, e pelo lado leste, vinha até os limites de Natal, pelo rio Guajerú. Contava 16 fazendas, 484 fogos, e 1.123 pessoas de desobriga, sendo caboclos da língua geral 194 fogos e 194 pessoas e portugueses 208 fogos e 1.097 pessoas. (A República, de 1892, num. 159).

Erigida a vila de Extremoz e instalado o Senado da Câmara, segundo o livro mais antigo, aberto a 27 de julho de 1776, foi o município dirigido por José Gomes de Mello, como presidente do Senado, Francisco José de Amorim, como juiz ordinário, e Antônio dos Santos Vila Nova, como vereador mais velho. Depois de várias administrações locais, em que figuram os ancestrais das mais distintas famílias do município, entre as quais o sargento-mor Domingos Gomes Maciel, Alexandre Pereira de Britto, José Fernandes Carrilho, Manoel Rodrigues Braga da Luz, sargento-mor Ignácio Duarte, comandante Pedro Paulo Vieira, como juízes presidente e vereadores, eis que em 1828, foi extinto o Senado da Câmara, substituído pela Câmara Municipal, que foi instalada a 27 de julho de 1829, sob a presidência de Manoel Varella do Nascimento, que se conservou por dois quatriênios, de 1829 a 1832 e de 1837 a 1840, José Francisco Xavier da Silva, de 1833 a 1836, Joaquim José Pinto, de 1841 a 1844 e de 1845 a 1848, Manoel Teixeira da Silva, de 1849 a 1852, padre Cândido José Coelho, de 1852 a 1856, e Francisco de Paula Soares da Câmara, eleito para o quadriênio de 1857 a 1860, quando ocorreu a mudança da sede da vila e município para o lugar “Boca da Mata”, que é hoje a bela cidade de Ceará-Mirim.