sábado, 25 de fevereiro de 2012

O SOBRADO

O SOBRADO
Imagens do Ceará-Mirim – Nilo Pereira – 1969 – pgs. 90, 91, 92.



            Muitas vezes, quando a noite era silenciosa, o sobrado estava aceso. Destacava-se bem no alto da cidade, dominando o vale. Era dali que se podia ter a melhor visão do Guaporé, enclausurado na verde moldura “como um cisne de níveas asas repousando de um misterioso vôo”, na expressão ou, antes, na imagem realmente muito feliz de Madalena Antunes Pereira. Até hoje não vi melhor imagem do Guaporé do que essa. O cisne  está, com efeito, em repouso. Voou muito. E chegou cansado, aturdido. Voltou do mistério do seu próprio destino e guardou o seu segredo.
            Uma vez, no sobrado, numa tarde de intensidades tropicais, o vale verde como nunca, minha avó, Isabel Augusta Varela Pereira, a nossa Dobé, me perguntou:
            - Meu filho, quer ver o Guaporé pelo binóculo?
            Estávamos no sobrado, já o disse. Binóculo era ainda coisa para mim ignorada. As grossas lentes mágicas me transportaram, de repente, à velha casa em descanso, mas ainda viva. Não eram os meus olhos que iam até lá; era eu todo, numa afetuosa bilocação instantânea, miraculosa. Vi pessoas entrando e saindo. A fachada da casa estava nítida e tangível. Tive vontade de pôr a mão em tudo, pois eu estava lá, num transporte espantoso.

           

 O sobrado, além de tudo, me oferecia essa magia. Mas dele me ficou, principalmente, a visão noturna e festiva, em horas de rumor e de graça senhorial.
            Umberto Peregrino já fez a descrição dessa velha casa afidalgada, das suas reuniões, talvez as últimas da aristocracia canavieira, pois a própria cidade estava mudando, os senhores de engenho já começavam a residir em natal, e o Ceará-Mirim imergia docemente no seu sonho de Bela Adormecida no Vale.
            Nunca me esqueço da visão fantástica que, uma vez tive do sobrado. Tudo estava iluminado e sonoro. A cidade, aos seus pés, dormia feliz e repousada. Não a perturbavam os sons do piano que enchiam de valsas a atmosfera quieta e romântica. Era o dono daquela noite sua e daqueles que, ali, vinham mostrando que o Ceará-Mirim das melhores tradições estava ainda de pé.



            O sobrado – quem não o sabe? – era o de tio Olimpio e tia Madalena, construído por um homem que fez do trabalho a sua religião: - José Antunes de Oliveira. Suas linhas sóbrias e corretam, denotam o bom gosto de quem o concebeu. E o lugar onde foi elevado era já, só por si, uma impressão de domínio urbano e rural. Por ali passaram os intelectuais da cidade e os de Natal, os homens-bons da terra, os rapazes e as moças do tempo, os bacharéis e médicos que tanto realce tinham nessa velha sociedade de estruturas ainda patriarcais.
            Lembro-me muito de ter visto lá o médico Gavião Gonzaga, que se tornou, depois notável sanitarista. Tocava piano. Outro médico, que se ligou a Ceará-Mirim, foi o Dr. Waldemar Sabino Pinho, também pianista. Encontrando-me com este último em Goiana, tive oportunidade de recordar esses velhos tempos, dizendo que era capaz de solfejar ainda a valsa que ele, preferencialmente, tocava no sobrado. Admirou-se de minha memória e me disse, então, que ainda naquele momento era essa a sua valsa preferida, tantos anos decorridos.
            Por ocasião do centenário do Ceará-Mirim sugeri, em discurso, que o velho sobrado fosse adaptado para nele funcionar o Museu do Açúcar. Quanta coisa ainda a recolher e preservar da destruição! O sobrado se presta, admiravelmente, para essa função, que a própria história do Ceará-Mirim reclama.
            A idéia não caiu no vazio. O atual proprietário do sobrado, o senhor de engenho Ruy Pereira, fê-la a doação, num gesto que só merece melhor o melhor registro. Resta, agora, que o Museu seja criado ou pela própria Secretaria de Educação do Estado, ou pela Municipalidade cearamirinense. A verdade é que a cidade reclama essa realização da mais alta significação histórica e social.
            O sobrado ficou ali como um símbolo de tudo isso. Outro que também se recolheu à quietude – embora não guardasse nem o ruído nem o esplendor do primeiro – foi o palacete “toscano” de José Inácio Fernandes de Barros, na Praça da Matriz, hoje Colégio Santa Águeda.
            Um período histórico havia passado. Mas dentro daqueles casarões andava uma alma – a alma do tempo, que não se separa das coisas e só por isso é que elas não morrem. Pois até na solidão e no abandono há vida.
            Por isso mesmo o velho sobrado parece às vezes reanimar-se, como que tocado por uma varinha de condão, que é a lembrança de suas festas e dos seus encantos. Mas ele está solitário, fechado, silencioso, à espera do destino que lhe dará a história, sempre fiel à imortalidade das instituições e dos homens.

            Em 1978 o velho solar foi restaurado e transformado em sede da prefeitura de Ceará-Mirim. Depois de mais de 30 anos o sobrado está praticamente abandonado, sem manutenção, isolado, voltou ao tempo em que Nilo Pereira escreveu o texto: Ele está solitário, fechado, silencioso, à espera que o destino que lhe dará a história, sempre fiel à imortalidade das instituições e dos homens.

3 comentários:

  1. Que belo texto !! Lembro quando o sobrado era assim tão iluminado, tão cheio de vida, hoje está "solitário" ...

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  2. Mariza Roque da Fonsêca14 de março de 2012 18:09

    Amigo Gibson.
    Este sobrado sempre traz lembranças da minha infância em Ceará-Mirim. Lembro-me que, uma vez, adentrei o seu interior levada pelo meu querido pai (tinha 5 ou 6 anos). Ele pretendia alugá-lo, não sei se para morar ou abrir um novo hotel. Já tinha um na Rua Grande e era um homem muito dinâmico. Fiquei impressionada com o tamanho do prédio (criança vê tudo em maiores proporções). Também tive medo de que lá existissem fantasmas e o pensamento de que talvez fôssemos residir ali me deu um friozinho na barriga. Felizmente, nada aconteceu e eu fiquei feliz por isso!
    É um prédio muito bonito e sua história faz lembrar a época das carruagens, dos saraus, do luxo, requinte e fidalguia dos que nele viveram ou o visitaram. Um templo sagrado da cultura onde se congratulava a mais fina aristocracia. O texto de Nilo Pereira é magistral!
    Que bom que você existe e ama tanto a nossa cidade... seu passado, presente e futuro empenhando-se em fazer germinar sementes de amor por uma história que muitos nem chegaram a conhecer.
    Parabéns por ser aprovado em terceiro lugar no Concurso Público para lecionar Artes. Você merece!
    Um grande abraço da sua amiga,

    Mariza Roque da Fonsêca

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  3. VOCÊ SEMPRE ME EMOCIONA COM OS SEUS OLHOS AO PASSADO, AO MUNDO ANCESTRAL.

    GRATA.

    L.HELENA

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