quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A IMPORTÂNCIA DA ARTE

Ceará-Mirim, ao longo e sua história, sempre esteve envolta com assuntos polêmicos que desagradavam a população. A imprensa procurava injetar palavras de estímulos aos concidadãos através de artigos que infamavam o ego e a auto-estima de seus leitores. Assim, garimpando meus arquivos, encontrei algumas dessas pérolas publicadas na Folha do Valle na década de 1930.

FOLHA DO VALLE
ANNO 1 – HEBDOMADARIO DE LETRAS E NOTÍCIAS – NÚMERO 6
RIO GRANDE DO NORTE – CEARÁ-MIRIM, 31 DE MARÇO DE 1935

CEARÁ-MIRIM, ACORDA!

Ceará-Mirim já teve a sua época áurea de progresso material e intelectual. Em tempos idos, a cidade verde era uma affirmação de vida e de esforço de seu povo. Hoje, resta apenas, das recordações mais próximas, a tristeza do passado. A voragem do tempo já matou no coração dos filhos da gleba ubérrima, crostada pelos raios do sol tropical, a fé gloriosa nos seus destinos.
Enquanto a população desiludida de melhoramentos se entrega aos seus quotidiannos affazeres, a terra verde alheia à sua própria sorte ...(texto ilegível) – a última esperança de seu sonho, de sua ilusão.
Ceará-Mirim, acorda!
Desperta dessa lethargia que te mata.
Dize àqueles a quem criastes e alimentastes, que elles são os exclusivos culpados de tua decadência actual.
Ensinaios a ser dynamicos e idealistas. É preciso, para tua completa rehabilitação no conceito dos centros adiantados, que não persistam as rotinas archaicas, a indifferença criminosa pelos elevados emprehendimentos, as (...) intestinas que não constroem, a prepponderância desaggregadora dos elementos alienígenas e a violentíssima e cruel hostilização dos legítimos rebentos do teu solo.
Pobre cidade triste! Não passarás de uma vasta necrópole solitária e branca, onde mãos humanas e más plantaram as primeiras sementes do egoísmo e do pessimismo que teem desgraçado os homens.

“Aluizio Macedônio”

NOTAS DE UM IMBECIL

Ceará-Mirim, posseu valores que viajam no anonimato criminoso do ostracismo literário, aos quais urge accordar, custe o que custar.
“Folha do Valle” confiante na verdade do axioma, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, será o pingo d’água a bater sempre na consciência dos mesmos, até despertalos para a grande jornada de glória.
Para falar dos velhos citaremos entre os primeiros, o espírito altamente intelectual de Riquette Perreira, o “Ripper” assíduo na colaboração de almanaques de charadas, o qual pode com sua assistência literária, engrandecer as colunnas de qualquer orgam de imprensa.
Magdalena Pereira, figura para a qual toda e qualquer qualidade boa que se lhe empreste, é cabível e acceitável, não só pela sua inteligência privilegiada, como pelos altos dons espirituais de bondade que accentuam todo e qualquer caráter, na demonstração de grande luz que guia a humanidade, conhecida pelo suave e brando nome de virtude.
Seu estylo é macio como um arminho, pois nelle esta o reflexo da alma de quem o fez. Os assuntos de seus escritos, medram pela singeleza como que, com nervoso de ferir alguém.
Retrata Ella também, sua vida, que é sempre pautada m nunca melindrar quem quer que seja.
Espíritos assim têm muito que produzir, não podem viver no marasmo pernicioso da ociosidade intelectual.
Dolores Cavalcanti, alma mística, sempre em preces nos tepos, esquecida de que pode ser a nossa Auta de Souza, com seu estylo seráfico.
Adelle de Oliveira, que talvez pela sua convivência com as letras, no mourejar de professora, sempre nos lega, bellas produções, não se negando a um smola, quando se bate à porta de sua alma Lyra mágica.
Augusto Meira, o qual por mais que nos roube o Pará, seu talento sempre é nosso pela tradição de sua família. Daqui destas collunas, embora atrevidamente, pedimos sua collaboração para edições de honra, por termos o exemplo de que grandes árvores, a colhem sempre os pequenos que lhe suplicam um pouco de sombra, para descando de um jornada longa.
Seu talento faz ephoca, sua collaboração a qualquer jornal, seu estylo é escola e sua bondade caracteriza seu coração.
Coma boa vontade de todos, pode muito bem um dia, “Folha do Valle” ser grande como a terra que lhe serviu de berço; productivo como o Valle que lhe emballa o somno e abençoada por toda uma geração, que há de se formar em sua fenda, ouvindo e guardando santamente as lições dos mestres acima.
No próximo número trataremos dos “novos” espíritos, ainda em formação, e já dominados pela moléstia dos velhos – a preguiça literária.

“Zé do Patú”

Analisando os textos publicados 70 anos passados verificamos que a realidade atual não é muito diferente, daquela, tão preocupadamente publicada pelos colunistas Aluizio e Zé do Patu.

Atualmente os produtores de arte de nossa província estão, também, hibernando intelectualmente, uma vez que não temos o hábito de apreciar, fruir e consumir cultura.

Nossos artistas precisam de espaço e incentivo para que possam produzir com qualidade, pois, não adianta criarem suas obras sem podê-las comercializá-las adequadamente.

É necessário desenvolvermos meios onde nossa arte possa chegar até a formação escolar de base, pois, acredito que a solução está nas séries iniciais de nossas escolas, lá, poderemos fazer um trabalho primitivo em que as crianças tenham os primeiros contatos com a arte e cultura de nossa terra, através de oficinas permanentes de artes visuais, música, dança e teatro.

O ensino da arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, que caracterizam um modo próprio de ordenar e dar sentido à experiência humana, desenvolvendo sua sensibilidade, percepção e imaginação, tanto ao realizar formas artísticas quanto na ação de apreciar e conhecer as formas produzidas.

Ernest Fisher, em seu livro “A necessidade da arte”, diz que um artista só pode exprimir a experiência daquilo que seu tempo e suas condições sociais têm para oferecer. Para ele a subjetividade de um artista não consiste em que a sua experiência seja fundamentalmente diversa da dos outros homens do seu tempo e de sua classe, mas consiste em que ele seja mais forte, mais consciente e mais concentrada.

A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la com a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade. A arte é uma realidade social.

A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas, a de abrir portas fechadas. Quando o artista descobre novas realidades, porém, ele não o consegue apenas para si mesmo; ele realiza um trabalho que interessa a todos os que querem conhecer o mundo em que vivem, que desejam saber de onde vêm e para onde vão.

Assim como a linguagem representa em cada indivíduo a acumulação de milênios de experiências coletiva, assim como a ciência equipa cada indivíduo com o conhecimento adquirido pelo conjunto da humanidade, da mesma forma a função permanente da arte é recriar para a experiência de cada indivíduo a plenitude daquilo que não é, isto é, a experiência da humanidade em geral. A magia da arte está em que, nesse processo de recriação, ela mostra a realidade como passível de ser transformada, dominada e tornada brinquedo.

Ceará-Mirim é um celeiro de artistas em todas as áreas, poderia elencar dezenas de nomes, no entanto, citarei alguns como: Santana, Careca e Naldo Santiago, Mucio Vicente, Cresio Torres, Mizael Neto, Allan e Alex Miranda, Miguel Neto, Luciano, Joãozinho Sobral, Daniel Torres, Vilela, Cícero e Julio Siqueira, Ojuara, Alice Brandão, Thiago Varela, Vera Barreto, Vanilde Machado, Francisco Januncio, Francisco Navegantes, Fabio Luiz, Palhaço Pipoca, Grupo Renovação, Louc’art, escritores e historiadores como Helicarla Morais, Caio Azevedo, e tantos outros que ficaria cansativo citá-los aqui.

Nossos artistas são eternos divulgadores das alegrias e tristezas de nossa terra e, certamente, nunca deixarão de nos presentear com suas obras, porque enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A FEIRA LIVRE - Pedro Simões

Lendo o livro do meu amigo Pedro Simões “De quando tudo era azul” achei muito significativo o capítulo XVII que trata da feira livre de Ceará-Mirim lá pelas décadas de 1940 e 1950.
À medida que devorava as páginas, fechava os olhos e caminhava junto com o autor por entre as bancas, sentindo o cheiro da feira, ouvindo os burburinhos dos feirantes... é como se estivesse vivendo aquele momento tão romântico, um dia em passado muito remoto... e tão presente.
Resolvi publicá-lo em meu blog, e, também, usá-lo como trabalho nas disciplinas de Cultura do RN e Artes que ensino na Escola Estadual Prof. Otto de Brito Guerra.


“As feiras – Domingo era dia de folia. Ou não. Poderia ser no Sábado. Eram as usinas quem decidiam se seria a Sexta-feira ou o Sábado o dia do pagamento. Em decorrência de tal decisão, a feira só poderia ocorrer no dia subseqüente ao do pagamento, no Sábado ou no Domingo. E era na feira onde começava a folia, numa das inúmeras “bancas” ao ar livre, na “quadra” do mercado, ou nos “locais”, dentro do prédio público. O freguês tomava uma e outras e voltava feliz para casa, sem pensar na segunda-feira seguinte.


O prédio do mercado público da cidade foi construído pelo coronel Onofre José Soares, pai do “major” Onofre Soares Junior, que obtivera concessão do então governo provincial para explorá-lo durante vinte anos. Foi inaugurado em 1881 com manifestações de desagrado por parte do povo, rezam as crônicas, tendo em vista uma postura municipal haver determinado a mudança da feira que tradicionalmente se realizava na rua Grande, para as dependências do novo prédio. Mesmo sob o protesto, a feira, então, passou a ser realizada inicialmente dentro do prédio e depois, em torno dele.
A feira era, e ainda é, uma instituição sócio-econômica da maior importância, sobremodo nos anos cinqüenta.
Todas as ruas convergem para o “quadro” do mercado e de lá saem para o interior, num incessante ir e vir de caminhões, cavalos, burros, carroças e bicicletas. O mercado público é como uma gigantesca centopéia que oferece os seus membros a uma comunidade de formigas.
O mercado é também uma central de informações, das mais triviais – quem chegou e quem partiu ou os últimos boatos da cidade – até as mais importantes, como o resultado do jogo do bicho, o preço da tonelada de cana e as cotações de feijão, do milho, da mandioca e da farinha.
As feiras realizavam-se aos sábados, mas todos os dias os feirantes permanentes – pequenos comerciantes que não tinham um “ponto” para negociar – armavam as suas barracas estimulando a freguesia com pregões cantados ou versejados.
Do burburinho dos feirantes, destacavam-se dois setores do comércio: os vendedores de ‘mangaio’ e os curandeiros com seus remédios milagrosos, aliás, extensões do mesmo ramo de negócios. Os ‘mangaieiros’ trabalhavam com ervas, raízes e pedras, cada produto com a sua indicação terapêutica peculiar, alguns com diversificadas panacéia. A maioria dos curandeiros era composta por charlatões. Aqui e ali, muito esporadicamente, identificava-se um produto com cura atestada pela tradição, diferentemente dos mangaieiros, referenciados pelos hábitos da população pobre e por remotíssima tradição oral. Os curandeiros trabalhavam com componentes fantásticos, taticamente escolhidos para criar ilusões nos adquirentes: óleo d boto, para aumentar a virilidade; barbatana de cação, para dar força e valentia;gordura de ‘peba’ para fechar o corpo contra as ‘mulestas’. Até o caldo da ‘xamexuga’ já foi oferecido para impaludismo, por aí se veja...

Dentro do mercado ficava os ‘locais’. Eram boxes mantidos por inúmeras gerações da mesma família, que mantinham fiéis à venda de determinados produtos, comercializados apenas no mercado: artigos de couro, cipó, palha, flandres e certo tipo de miudezas. E também as comidas prediletas dos feirantes: caldo de cana, bolo preto, da moça, de macaxeira, de batata e de mandioca; prato-feito de almoço com carne de sol, feijão e farinha de mandioca, com direito a umas colheradas de paçoca e a um pouquinho de torresmo; café da manhã farto; xícara grande de café-com-leite, cuscuz com ovos, macaxeira, queijo do sertão, tapioca e pão com manteiga.


A relação dos produtos vendidos encheria muitas folhas de papel almaço. Chapéu de couro, rebenque, botinas e alpercatas de couro cru, sela e arreios, cangalhas, peneiras, raladores de côco, coadores, cuscuzeiros, chaleiras, candeeiros e lamparinas, penicos, bruxas de pano, mochilas, chapéus e esteiras de palha trançada, cachimbo, fumo de corda e fumo caipira para cigarros, esculturas de barro (boi, vaqueiro, cavalo, farinhada, forró, casamento, cantoria...) quadros emoldurados com figuras de santos, espingardas de soca, facões e peixeiras, bainhas, redes de dormir e de pescar, malas de madeira (maletas e malotas), caçuás de cipó, espelhinhos redondos e ovais, pavios para os candeeiros, canivetes de ‘gilete’, livrinhos de cordel, cintos e cinturões, copos e xícaras de alumínio, brinquedos toscos de madeira, destacando-se o boneco pulador e o “João redondo”. Que ninguém possa esquecer dos barulhentos rói-rois.

A praça do mercado era o centro comercial da cidade, fato que não incomodava nem preocupava os renitentes proprietários de casas residenciais. Os mesmos permitiam a utilização dos quintais como guardadouros de animais e de gêneros. Punham grandes jarras de barro nos alpendres como depósito d´água para serventia da sede dos feirantes. A hospitalidade aos interioranos era praxe na cidade, mas não havia promiscuidade. Cada família ou região contava com casas determinadas. Aquelas cujos proprietários tinham fazendas nas regiões dos hóspedes, ou suas empregadas tinham ligações familiares, ou eram agregados políticos ou afilhados. Esses apresentavam outros, que iam se incorporando à hospedaria. A obrigação dos hospedeiros era a de oferecer sombra, água e depósito. Um desses proprietários tinha um caminhão de três boléias, denominado ‘misto’, exatamente porque transportava passageiros e cargas, que tinha a concessão da linha que margeava a ribeira do vale.


O quadro do mercado era uma só festa de confraternização, alegria e muita conversa arrastada dos homens e a animada boataria das mulheres, que nem parecia que tinham se encontrado no dia anterior. Era uma profusão de cores, sons e cheiros. Muita gente descalça, ou calçando chinelas e alpercatas. Raros de botinas, mais raros ainda de sapatos. Muita gente de chapéu de palha, inclusive algumas mulheres. Poucos de chapéus de couro. Mais raros, ainda, de chapéus de massa. Calças caqui com camisas de algodãozinho e vestidos de chita. Cheiro estonteante e suor, cachaça, água de cheiro, banha nas carapinhas, colorau, dendê, peixe de sal preso, esterco e urina de animais, sarapatel, buchada e torresmo, couro cru, goiaba, manga e tempero verde.
A feira era uma festa, mesmo que não fosse, mesmo que não quisesse, mesmo que não pudesse. Os cantadores atraíam o público fervoroso, aboletados em tamboretes, apoiados nas mesas dos bares, com os violões a tiracolo. Os vendedores de cordel amplificavam os versos dos autores em engenhosos cones de folha de flandres colados à boca. A banha de porco, além da natural serventia para os assados triviais e as frituras, era anunciada também para esticar o cabelo e ser usada como lubrificante pelos noivos.
Os políticos andavam prá lá e prá cá, exibindo-se para o eleitorado do interior. Ora pagavam uma ‘chamada’ de cana para um grupo, ora presenteavam as mulheres e os velhos com ‘santinhos’ de padre Cícero e Frei Damião. Dependendo, davam panos e água de cheiro às matriarcas. Quanto maior a família, mais valioso o presente. Se estivesse pertinho das eleições punham uma chapinha com o nome dos candidatos dentro do embrulho do presente.
A hora de voltar era a hora de voltar, marcada pelo excesso de cachaça, pelo cansaço, por algum mal acontecido ou pelo prenúncio da escuridão. Então, era hora de selar e arrear os cavalos, tirar o sapato apertado, ou embarcar nos carros de boi e carroças, ou nas carrocerias dos caminhões e voltar ao assunto para mais uma semana.
Na feira ainda ficariam os desempregados e os mendigos, catadores de restos de alimentos ou que barganhavam os refugos dos vendedores. Um deles recolhia os restos do chão, quando pechinchava as miuçalhas dos feirantes, para fazer o “caldo da ressaca”, também chamado “caldo da caridade”, uma mistura de verduras, ossos e “péia” de carnes que levantava até defunto.”

A MANHÃ VERDE CINZA

11 de Dezembro de 2009... O centenário de nascimento do menino Lauro!!! Nascido no engenho Verde-Nasce e levado pelo vento às terras Guararapes.
Cada vez que leio a obra de Nilo Pereira descubro uma nova paisagem real e sentimental que faz visualizar um Ceará-Mirim totalmente emocional, cujo destino, sempre, está carregado de nostalgia e quimera, no entanto, sinto cada vez mais um anseio de coragem e disposição para manter o desejo de protegê-la do esquecimento.
Nilo Pereira escreveu em suas memórias, passagens pela cidade que tanto amou. Esse texto aqui reproduzido é parte de um capítulo de seu livro Rosa Verde publicado pela editora da Universidade de Pernambuco, em 1982.

A MANHÃ VERDE-CINZA

Lauro voltava sempre à sua velha cidade. Ia conferindo os lugares da infância. Vendo e revendo, que não é ver novamente, mas ver por dentro. A paisagem crescia de tamanho sentimental vista de longe. Esse era o segredo da dimensão romântica.

Estava na Matriz, diante do altar de Nossa Senhora da Conceição. A Virgem olhava para ele e ele a via com olhos de menino. O menino que acompanhava a avó nas missas dominicais. O menino que fez parte da Conferência de São Vicente de Paulo.
A Matriz lhe trouxe recordações. A festa de Nossa Senhora da Conceição nunca lhe saiu da lembrança. Vivia ansioso que chegasse o dia 08 de dezembro. O altar iluminado. Ela com uma coroa de estrelas. O Ceará-Mirim em peso na igreja. Do lado de fora barracas. A charanga tocando. O povo aos pés da sua padroeira.
Ali também estava um pouco do menino que começava a sentir palpitações diferentes no seu coração ingênuo. Candinha, uma das namoradas, não tirava os olhos dele. Em casa, diante do espelho de moldura dourada, passara cosmético no cabelo, que ficava de um negrume quase feroz.
D. beatriz costumava dizer:
_ Nem parece que teve os cabelos louros. Para que tanto cosmético?
Estava na moda. Candinha gostava de ver o cabelo assim negro, correto, brilhante.
O próprio Lauro, ao ver as tranças louras que sua mãe lhe mostrara, quase nem podia acreditar que fossem dele.
A festa da padroeira reunia a cidade e o vale. Era grande o movimento. A cidade saía da sua madorra habitual, movia-se, agitava-se, como se estivesse impelida por um gênio diferente: era a devoção tradicionalmente popular.
Estando ali na Matriz, de volta ao seu cenário de adolescência, Lauro lembrou-se de que nunca havia subido às torres do velho templo. Dizia-se que não se podia ter maior nem mais larga visão do vale.
Ele subiu. A escada tremia no seu abandono de muitos anos. Muita gente havia passado por ela, galgando aquelas alturas para ter o seu deslumbramento. Agora era a vez de Lauro. Lá em cima escreveria o seu nome, como tantos outros escreveram. E, depois, diria a Candinha a sua aventura, que ela reclamava há muito tempo.
Eis diante do menino – embora já homem feito – o panorama maravilhoso.
Caía sobre o vale uma neblina transparente. O verde era cinzento. A manhã verde-cinza.

Os olhos do menino se alongavam sobre o vale, coberto de névoa misteriosa, que quase escondia os engenhos e as usinas. Ele estava no alto das torres. A visão se alargava. Vinha do Gênesis. A cidade, aos seus pés, parecia dormir. Lá adiante, no verde escuro da paisagem sonolenta, uma tradição parecia morrer.
O Guaporé, imerso na neblina, s7onhava a sua grandeza morta. Tudo fechado. Onde estavam aqueles que povoaram a casa-grande abandonada. Por que esse castigo se abatera sobre aquela solidão?

CASA GRANDE DO ENGENHO GUAPORÉ

Não havia resposta para essas perguntas. O tempo era o tecido que se esgarçava com a neblina fina inconstante e lírica, que compunha o cenário bíblico.
Tudo era sereno, Lauro compreendeu, então, que só o mistério é capaz de vencer o tempo. Por isso a ficção é mais do que a realidade. Aquela neblina era a fantasia; a realidade que ela escondia se mostrava na evidência plena do sonho, da imaginação criadora, que é um momento de Poesia e de Amor.
Lembrou da sua infância. Das cheias do rio Ceará-Mirim. Das caminhadas a pé pelo vale. Dos cambiteiros dos engenhos. Os escravos. As mucamas. As amas-de-leite. Os cocheiros de velhas caleças senhoriais. Amores que foram felizes ou infelizes. Preces que subiram aos céus em,m noites de angústia. O sofrimento de uma gente – pobre ou rica – que arfava na densidade úmida do nevoeiro.
Sentiu-se um exilado. Havia alguma coisa que lhe feria a alma. Era a saudade, talvez. Talvez a ânsia de voltar. De nunca ter saído.
Mas também pensava que o exilado vê melhor quando volta. Os que nunca saíram, não sentem o impacto da beleza, mesmo quando essa beleza seja tão extraordinária.
A paisagem era aquela que Lauro tinha diante dos olhos. Apenas, a manhã acontecia diferente. Havia muito sortilégio naquilo tudo, que adormecia ao palor das horas indecisas.
Como se não faltasse nada mais para a vida daquele quadro ancestral, os sinos dobraram. Tinham um som langoroso, espaçado, ritual. Anunciavam alguma coisa. A neblina servia de lençol para encobrir e proteger as coisas vulgares. Tudo era grandioso.


RUÍNAS DO ENGENHO CARNAUBAL

Para os velhos engenhos Lauro volvia a sua emoção, na manhã bíblica. Estavam adormecidos. Era um domingo. As chaminés não tinham fumaça. Os que vieram para a missa das nove horas, celebradas pelo Cônego Celso Cicco, já haviam voltado aos engenhos e às suas casas, na “rua”.
Lauro fixava os seus olhos na casa-grande do engenho Guaporé. Via-se a si mesmo, na calçada, correndo de velocípede.
O rio Ceará-Mirim estava seco. Nem parecia o deus rugindo nas cheias do ano passado. Por onde andavam as lavadeiras, que vinham com as suas trouxas de roupa e se entregavam à sai faina?
A beleza da manhã impedia qualquer pensamento menos devoto. Lauro estava arrebatado pelo feitiço da aparição. Perdia-se gostosamente naquele espaço imenso, solitário e mudo. E sabia que, ao deixar a cidade, levaria consigo a carga emocional daqueles instantes de fuga, preparados por Deus.
Despediu-se do vale, já que estava no alto das torres da Matriz. Teve lágrimas piedosas diante de tudo. Trazia consigo o segredo maravilhoso da sua cidade encantada, um reino fabuloso, onde a infância era a grande força do tempo e a poeira da eternidade.
Aquele não era propriamente um dia de chuva. Era um dia de penumbra. Macio e idílico. O menino nascido no Verde-Nasce se preparava para voltar. Nunca se sentiu tão preso á sua terra e à sua gente como nesse momento. De regresso a Natal, enquanto o nevoeiro se diluía, ele pensou que não veria mais o Ceará-Mirim assim tão misterioso e poético.
De fato, nunca mais viu. A manhã da criação era somente aquela. Não se repetiria. Como não se repetiu a manhã em que Deus criou o mundo e o verbo se fez carne.

domingo, 13 de dezembro de 2009

BOCA DA NOITE

O Boca da Noite é um evento que foi idealizado pelo ator e diretor de teatro Mucio Vicente em parceria com o Conselho Comunitário do Bairro de Cinco Bocas - através do presidente Zezinho -, Luci, proprietária da Pizzaria Fornalha e Associação Cultural Engenho das Artes.

Afinalidade do evento é realizar apresentações culturais na Praça das Cinco Bocas uma vez por mês. Serão viabilizadas atrações musicais, exposição de artes plásticas e artesanato, contação de histórias, apresentação e animação com palhaços, apresentações teatrais, etc.
A primeira edição do Boca da Noite foi neste domingo - 13/12/2009, a partir das 17 horas. A programação contou com várias apresentações. Inicialmente o artista Miguel Neto fez um monólogo no papel de um matuto que contava causos. Em seguida os atores Babi e Marcelo da Companhia Louca'art apresentaram uma contação de histórias representadas por Luluzinha e Gigante. As crianças foram muito participativa e enriqueceram ambiente com suas interferências, ora aplaudindo e ora, interferindo diretamente como se fizessem parte no espetáculo.
A exposição foi abrilhantada com os trabalhos de Santana cujas esculturas se destacaram pela forma como o artista dá vida aos personagens, sejam eles bíblicos, orixás ou personalidades conhecidas. Além de Santana, o artista plástico "internacional" Ojuara também esteve contribuindo com trabalhos em tela cuja técnica é exclusividade do mestre. O artista Vilela mostrou vários trabalhos em tela onde retratava casas grande e engenhos do vale de Ceará-Mirim. O professor Gibson Machado expôs as fotografias de seu livro Ceará-Mirim memória iconográfica.

As atrações musicias ficaram por conta de Joazinho e Mizael Neto. Eles foram muito aplaudidos e a platéia participou cantando e dançando.
O mestre Bocão também participou com sua equipe de capoeira fazendo um belo show de movimentos e acrobacias, nos quais a principal atração foi o Maculelê, principalmente na magia do fogo. Foi fantástico!!!
Finalmente, Mucio Vicente encerrou o evento com alguns causos matutos já conhecidos através de seu trabalho magnifico de ator e divulgador de cordel.
Agradecemos a todas as pessoas envolvidas no evento, principalmente Misael Neto que contribuiu com o equipamento de som. Sem isso seria impossível realizar a festa. Agradecemos também ao público que foi fiel ficando até o final do show.

É necessário que as pessoas que gostam de cultura e arte compareçam ao evento e, àqueles que podem contribuir com qualquer ajuda, procurem a coordenação do projeto, pois toda realização tem um custo e nossa equipe não tem como manter, um evento dessa natureza funcionando plenamente, sem patrocínios e apoio cultural.


Fazer arte e levar cultura às pessoas é um alimento para a alma de qualquer artista e produtor cultural. É sentir-se extasiado quando identificamos a felicidade e alegria do público através dos cumprimentos e do aplauso.

O SOBRADO DOS ANTUNES E A MENINA MADALENA

O SOBRADO DOS ANTUNES E A MENINA MADALENA
Rosana Mendonça Rodrigues


O Rio Grande do Norte preserva algumas construções arquitetônicas bastante marcadas pelo período neoclássico. Em Ceará Mirim, destaca-se, dentre outras, o sobrado dos Antunes, localizado na principal avenida da cidade - Rua General João Varela - construído em 1888, por José Antunes Pereira, um cearense, coronel da guarda nacional, pai de Maria Madalena Antunes Pereira. O prédio é de grande importância histórica para o município por ter sido cenário de reuniões entre políticos, intelectuais e comerciantes, na época de maior pujança econômica e política do município, quando foi também palco de grandes encontros, festas e saraus. Para Umberto Peregrino ele “não tinha propriamente beleza, mas a severidade das suas linhas antigas impressionavam”.
O sobrado tem uma fachada principal de concepção simétrica, uma porta de acesso emoldurada por duas colunas e um frontão curvilíneo, com a inscrição ANTUNES. As esquadrias da casa são de madeira pintada e vidros, com todos os vãos em arcos plenos, características do estilo neoclássico. No ano de 1978 o sobrado foi restaurado pela Fundação José Augusto. Ainda conserva características internas originais, como parte do assoalho, a escada interna e todas as molduras de madeira, que são de pinho-de-riga.
No livro Oiteiro, escrito por Maria Madalena Antunes Pereira, o sobrado representa o “símbolo de uma modesta grandeza”. Dali ela contemplou, por muitos anos, através de suas amplas janelas, “o esmeraldino brilho dos canaviais” e sentiu, através do vento, “o aroma do fumo das chaminés distantes (...) quais turíbulos espargindo por toda a parte o incenso do trabalho”. Suas reminiscências, assim como os escritos de Nilo Pereira e Umberto Peregrino, tornaram-se valiosas fontes de leitura para os curiosos em conhecer o passado do Ceará–Mirim, a ascensão e a decadência da atividade açucareira no Rio Grande do Norte e os acontecimentos do cotidiano vivido num sobrado que se erguera com a prosperidade dos bangüês, enquanto o açúcar dera dinheiro.
A perspectiva do sobrado, feita por Madalena, revela o cotidiano de quem viveu num passado senhorial e escravista. Para alguns, Madalena foi apenas a figura de uma menina de origem patriarcal, filha de um senhor de engenho; para o escritor Nilo Pereira, uma “sinhá”. Umberto Peregrino a definiu como “senhora e alma daquela casa....guardava uma nobreza magnífica. Espírito claro e amável, bondosa e acolhedora”.
Com suas memórias, publicadas em 1952, Madalena juntou-se ao pequeno grupo de mulheres que, independente de seguir um determinado estilo literário, lançou-se às letras com o propósito de deixar registros de um passado no qual não era somente o negro que clamava por liberdade. Também a mulher, não obstante sua cor ou condição social, sentia-se “escrava” do tempo e dos costumes.
Quanto ao sobrado, presença marcante daquela época, é atualmente a sede da Prefeitura Municipal. De suas janelas, assim como o fazia Madalena, pode-se contemplar a imensidão do vale. Com um pouco de imaginação, ouve-se o apito do trem, com a sua fumaça (re)acendendo a lembrança de um passado que foi do senhor de engenho, da sinhá, do escravo, da senzala, da cana de açúcar. Completa-se, assim, um ciclo de fantasias e de sonhos.
Fonte: Ceará-Mirim tradição, engenho e arte - SEBRAE - 2005 Org.: Raimundo Arraes, Inalda Marinho, Daiane Luz e Gibson Machado.

sábado, 12 de dezembro de 2009

MANHÃ VERDE CINZA

11 de Dezembro de 2009... O centenário de nascimento do menino Lauro!!! Nascido no engenho Verde-Nasce e levado pelo vento às terras Guararapes.
Cada vez que leio a obra de Nilo Pereira descubro uma nova paisagem real e sentimental que faz visualizar um Ceará-Mirim totalmente emocional, cujo destino, sempre, está carregado de nostalgia e quimera, no entanto, sinto cada vez mais um anseio de coragem e disposição para manter o desejo de protegê-la do esquecimento.
Nilo Pereira escreveu em suas memórias, passagens pela cidade que tanto amou. Esse texto aqui reproduzido é parte de um capítulo de seu livro Rosa Verde publicado pela editora da Universidade de Pernambuco, em 1982.

A MANHÃ VERDE-CINZA

Lauro voltava sempre à sua velha cidade. Ia conferindo os lugares da infância. Vendo e revendo, que não é ver novamente, mas ver por dentro. A paisagem crescia de tamanho sentimental vista de longe. Esse era o segredo da dimensão romântica.




Estava na Matriz, diante do altar de Nossa Senhora da Conceição. A Virgem olhava para ele e ele a via com olhos de menino. O menino que acompanhava a avó nas missas dominicais. O menino que fez parte da Conferência de São Vicente de Paulo.
A Matriz lhe trouxe recordações. A festa de Nossa Senhora da Conceição nunca lhe saiu da lembrança. Vivia ansioso que chegasse o dia 08 de dezembro. O altar iluminado. Ela com uma coroa de estrelas. O Ceará-Mirim em peso na igreja. Do lado de fora barracas. A charanga tocando. O povo aos pés da sua padroeira.
Ali também estava um pouco do menino que começava a sentir palpitações diferentes no seu coração ingênuo. Candinha, uma das namoradas, não tirava os olhos dele. Em casa, diante do espelho de moldura dourada, passara cosmético no cabelo, que ficava de um negrume quase feroz.
D. beatriz costumava dizer:
_ Nem parece que teve os cabelos louros. Para que tanto cosmético?
Estava na moda. Candinha gostava de ver o cabelo assim negro, correto, brilhante.
O próprio Lauro, ao ver as tranças louras que sua mãe lhe mostrara, quase nem podia acreditar que fossem dele.
A festa da padroeira reunia a cidade e o vale. Era grande o movimento. A cidade saía da sua madorra habitual, movia-se, agitava-se, como se estivesse impelida por um gênio diferente: era a devoção tradicionalmente popular.

Fotos de Gibson Machado

Estando ali na Matriz, de volta ao seu cenário de adolescência, Lauro lembrou-se de que nunca havia subido às torres do velho templo. Dizia-se que não se podia ter maior nem mais larga visão do vale.
Ele subiu. A escada tremia no seu abandono de muitos anos. Muita gente havia passado por ela, galgando aquelas alturas para ter o seu deslumbramento. Agora era a vez de Lauro. Lá em cima escreveria o seu nome, como tantos outros escreveram. E, depois, diria a Candinha a sua aventura, que ela reclamava há muito tempo.
Eis diante do menino – embora já homem feito – o panorama maravilhoso.
Caía sobre o vale uma neblina transparente. O verde era cinzento. A manhã verde-cinza.
Os olhos do menino se alongavam sobre o vale, coberto de névoa misteriosa, que quase escondia os engenhos e as usinas. Ele estava no alto das torres. A visão se alargava. Vinha do Gênesis. A cidade, aos seus pés, parecia dormir. Lá adiante, no verde escuro da paisagem sonolenta, uma tradição parecia morrer.
O Guaporé, imerso na neblina, sonhava a sua grandeza morta. Tudo fechado. Onde estavam aqueles que povoaram a casa-grande abandonada. Por que esse castigo se abatera sobre aquela solidão?
Não havia resposta para essas perguntas. O tempo era o tecido que se esgarçava com a neblina fina inconstante e lírica, que compunha o cenário bíblico.

Tudo era sereno, Lauro compreendeu, então, que só o mistério é capaz de vencer o tempo. Por isso a ficção é mais do que a realidade. Aquela neblina era a fantasia; a realidade que ela escondia se mostrava na evidência plena do sonho, da imaginação criadora, que é um momento de Poesia e de Amor.
Lembrou da sua infância. Das cheias do rio Ceará-Mirim. Das caminhadas a pé pelo vale. Dos cambiteiros dos engenhos. Os escravos. As mucamas. As amas-de-leite. Os cocheiros de velhas caleças senhoriais. Amores que foram felizes ou infelizes. Preces que subiram aos céus em,m noites de angústia. O sofrimento de uma gente – pobre ou rica – que arfava na densidade úmida do nevoeiro.
Sentiu-se um exilado. Havia alguma coisa que lhe feria a alma. Era a saudade, talvez. Talvez a ânsia de voltar. De nunca ter saído.
Mas também pensava que o exilado vê melhor quando volta. Os que nunca saíram, não sentem o impacto da beleza, mesmo quando essa beleza seja tão extraordinária.
A paisagem era aquela que Lauro tinha diante dos olhos. Apenas, a manhã acontecia diferente. Havia muito sortilégio naquilo tudo, que adormecia ao palor das horas indecisas.
Como se não faltasse nada mais para a vida daquele quadro ancestral, os sinos dobraram. Tinham um som langoroso, espaçado, ritual. Anunciavam alguma coisa. A neblina servia de lençol para encobrir e proteger as coisas vulgares. Tudo era grandioso.
Para os velhos engenhos Lauro volvia a sua emoção, na manhã bíblica. Estavam adormecidos. Era um domingo. As chaminés não tinham fumaça. Os que vieram para a missa das nove horas, celebradas pelo Cônego Celso Cicco, já haviam voltado aos engenhos e às suas casas, na “rua”.
Lauro fixava os seus olhos na casa-grande do engenho Guaporé. Via-se a si mesmo, na calçada, correndo de velocípede.
O rio Ceará-Mirim estava seco. Nem parecia o deus rugindo nas cheias do ano passado. Por onde andavam as lavadeiras, que vinham com as suas trouxas de roupa e se entregavam à sai faina?
A beleza da manhã impedia qualquer pensamento menos devoto. Lauro estava arrebatado pelo feitiço da aparição. Perdia-se gostosamente naquele espaço imenso, solitário e mudo. E sabia que, ao deixar a cidade, levaria consigo a carga emocional daqueles instantes de fuga, preparados por Deus.
Despediu-se do vale, já que estava no alto das torres da Matriz. Teve lágrimas piedosas diante de tudo. Trazia consigo o segredo maravilhoso da sua cidade encantada, um reino fabuloso, onde a infância era a grande força do tempo e a poeira da eternidade.
Aquele não era propriamente um dia de chuva. Era um dia de penumbra. Macio e idílico. O menino nascido no Verde-Nasce se preparava para voltar. Nunca se sentiu tão preso á sua terra e à sua gente como nesse momento. De regresso a Natal, enquanto o nevoeiro se diluía, ele pensou que não veria mais o Ceará-Mirim assim tão misterioso e poético.
De fato, nunca mais viu. A manhã da criação era somente aquela. Não se repetiria. Como não se repetiu a manhã em que Deus criou o mundo e o verbo se fez carne.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Discurso de abertura da Exposição Itinerante Ceará-Mirim memória iconográfica
Câmara Municipal de Ceará-Mirim de 10/11 a 13/11/2009


Neste último dia 05 o Congresso Nacional comemorou o Dia Nacional da Cultura, dia esse que é o mesmo do nascimento do grande Ruy Barbosa.
Sabemos que o Brasil é um dos países mais ricos em diversidade cultural. Nós recebemos influências de todos os povos que para aqui vieram neste permanente processo de colonização sobre o qual vivemos.
O Senador Cristovão Buarque dizia que o Brasil saiu da crise econômica antes de outros países, mas, do ponto de vista da cultura, nós continuamos quase um deserto. Ele defendeu medidas de incentivo direto à cultura, como a redução do preço dos livros, a criação de mais bibliotecas, a implantação do projeto Cesta Básica do livro de sua autoria, e a aprovação pelo Legislativo da proposta do Executivo da criação do Vale-Cultura, além disso, sugeriu também a escola de tempo integral para que o aluno tenha tempo de ler.
É um fato que não existem políticas públicas voltadas diretamente para o desenvolvimento e incentivo cultural e isso mostra a nossa deficiência em termo de acesso à cultura, e segundo o Senador Cristovão, isso reflete-se na Alma dos Brasileiros, contribuindo para a falta dos valores de solidariedade, para a elevação da corrupção e da violência. Segundo ele “O corpo não vai mal, mas a nossa alma continua deserta, doente.”
Segundo dados do Ministério da Cultura apenas 13% dos brasileiros frequentam cinema uma vez por ano; 92% nunca foram a um museu; 93,4% jamais freqüentaram qualquer exposição de arte; 78% nunca assistiram um espetáculo de dança; 82% não possuem computador em casa; 95,6% dos gastos familiares vão para outros bens que não os de cultura e 90% dos municípios não possuem uma única sala para qualquer atividade cultural. Além disso os brasileiros lêem apenas 1,8 livros por ano, enquanto na Colômbia esse percentual é duas vezes maior, e, na França, seis vezes superior.
Essa é uma radiografia do Brasil e Ceará-Mirim não poderia ficar fora dessa realidade.
Nós somos uma das cidades mais ricas culturalmente, aqui, temos os quatro maiores autos folclóricos, que certamente, serão encontrados em poucos lugares do Brasil. Cito como exemplo O Pastoril (tradição européia que faz louvações ao nascimento do menino Jesus), O Congo de Guerra (tradição remanescente da África e Europa, que fazem referências às batalhas medievais travadas entre moiros e cristãos e embaixadas à Rainha Ginga soberana africana), O Boi de Reis (auto nascido nos terreiros dos engenhos) e Os Cabocolinhos (tradição indígena que fazem referências as guerras e rituais tradicionais) e que só existe um grupo autêntico que o nosso.
Aqui encontramos diversas tradições que resistem as intempéries do tempo e às novas tecnologias, como por exemplo, as centenárias rendeiras de Muriú e jacumã, os artesãos em cipó de Aningas, de palha de carnaúba e agave de Ponta do Mato e Massaranduba, o santeiro de São Miguel, as tradicionais fábricas de bolo, grude e beijur do baixo vale, além disso, há os patrimônios imateriais representados pelas nossas anônimas rezadeiras, parteiras, vaqueiros, lavadeiras, a sabedoria popular dos agricultores e os artistas representados pelos escultor Santana, único do Estado com um estilo particular, o clã de Etevaldo, seus filhos Naldo e Careca produzindo produtos reconhecidos internacionalmente. A música tem grande representação através de artistas como Iranildo, Alexandre Lacerda, Tita, Marcos Câmara, Luciano e não poderia deixar de citar os grandes atores Mucio Vicente e Cresio Torres cujo trabalho é reconhecido em todo território nacional.
Diante do exposto, é necessário que todos nós, cada um fazendo a sua parte, contribua para o fortalecimento dessas tradições, assim, não veremos o futuro, sem reflexo do passado.
Precisamos construir o presente, norteado por ações pretéritas e assim projetaremos o futuro com dignidade valorizando a memória e as tradições na construção da história do nosso povo.


Poucos pensam sobre isso, mas a fotografia é tácita na vida de todos. Em nossas lembranças mais longínquas, em nossas histórias familiares e na formação da memória. A imagem fotográfica restitui narrativas emocionais, contempla a atmosfera de tempos passados e nos envolve em sua complacência de guardar o efêmero da vida para futuros enternecidos observadores. As sensações resultantes ante um documento fotográfico nos remetem a uma realidade a ser examinada delicadamente. Nesse sentido, não é a razão que rege o interesse pela fotografia. E sim, a sensibilidade do instinto que direciona o olhar.





Através da produção de corriqueiros registros fotográficos familiares, alguns dos status mais importantes que a fotografia possui se refletem, ou seja: de papel cultural e de preservação da memória. De modo que será nos álbuns das famílias contemporâneas que gerações futuras conhecerão valores, costumes e símbolos sociais de determinada sociedade e seu contexto cultural.
O registro visual da vida privada - a princípio, fonte de interesse apenas do núcleo familiar retratado - é um valioso material iconográfico que cada um de nós constrói inconscientemente e que configura a nossa memória social. Assim, a fotografia, enquanto fonte primária de investigação, nos revela sua profícua e ampla latitude de significados e representações. Digamos que se trata da alteridade por excelência. Conhecer o outro retratado (seja qual for o indivíduo em foco) não é somente tentarmos apreender o passado, mas, sobretudo, vislumbrarmos traços que ajudem a entender a nós mesmos, nossa identidade e as sutilezas de como nos apresentávamos ao mundo (plasmada em representações e idealizações de outrora).
Discutir, refletir e apreender a sintaxe da imagem faz parte de minha trajetória nesta busca mágica de compreender os sentidos que o ato fotográfico deflagra.
A partir de uma análise sócio-cultural da iconografia pesquisada, remontamos narrativas simbólicas e pautas sociais determinantes para a aristocracia canavieira. De maneira que abordamos as representações visuais e conseqüentemente seus valores sociais * verdadeiros índices, quanto a questões de parentesco, gênero, cânones morais, religiosidade, costumes e relações interétnicas.
Entretanto, ao discutir sobre identidade (algo indelével aos retratos), se observa como se constrói a imagem do outro e, portanto, como os paradigmas estéticos são elaborados enquanto mecanismo de distinção social, como também expressão de poder e ideologia.
A consciência de preservar estas imagens do passado, através do empenho em colecionar retratos de famílias da nossa sociedade temos a certeza de que estamos produzindo a memória social de determinada sociedade e época. E aos que têm a devoção de colecionar, ou mesmo, de guardar fotografias, devemos a existência desta memória visual, sem a qual não teríamos surpreendente patrimônio e a possibilidade de retomá-la em nossos tempos.




Através dos registros fotográficos percebemos que boa parte da nossa história é contada por meio das fotografias. E isso acontece também com a nossa cidade, com o nosso país e com todo o mundo. A fotografia funciona como uma memória social, capaz de perpetuar momentos, pessoas e locais que nunca mais existirão da mesma forma.
Hoje temos inúmeros registros de como eram as nossas cidades, como as pessoas se vestiam, se comportavam e se relacionavam. Esses registros estão arquivados por meios de textos escritos e visuais (as fotografias) e são estes últimos, os responsáveis por deixar nossas memórias mais vivas.
Portanto, ao pensar na Exposição Itinerante com o material publicado no meu livro, objetivamos mostrar à população, principalmente a comunidade escolar, a importância que a fotografia tem como registro histórico e, também, como preservação da memória.
Dessa forma, poderemos proporcionar aos observadores e leitores do livro uma viagem ao passado onde poderão constatar que as memórias visuais são capazes de resgatar nossa história e, entendendo nosso passado, temos a possibilidade de vivermos mais seguramente nosso presente para construirmos um futuro mais sólido.

domingo, 8 de novembro de 2009

BENILDE DANTAS DE MELO

BENILDE DANTAS DE MELO

Nascido em 25 de fevereiro de 1912, no Engenho Cajazeiras, município de Ceará-Mirim, Estado do Rio Grande do Norte.
Filho legítimo de Luiz Heretiano Gomes de Melo e Albertina Dantas de Melo, sendo seus avós paternos Luiz de França Gomes de Melo e Joaquina Felismina Fonseca de Melo e avós materno Miguel Antonio Ribeiro Dantas e Rita Generosa Tinoco Dantas.
Casou-se em 12 de julho de 1935 com Judite Marinho. Tendo três filhas: Benise, Vania e Lucia.
Em Ceará-Mirim sua primeira professora foi Adele de Oliveira e estudou, também, no Colégio Pedro II em 1923. Em 1927 foi residir com a sua família em Natal, estudando no Colégio Santo Antonio e posteriormente no Atheneu Norte-Riograndense.
Seus primeiros poemas foram “Exaltação”, “Fulô de Maio”, “Aos teus anos”, “As tuas santas cartas”, dedicados a Judite, na época sua namorada.
Escreveu o primeiro livro, um romance intitulado “MOLEQUE DE RUA” que não chegou a ser publicado por ter sido roubado a bordo.
Seu segundo livro foi o “CANTO DO CANAVIAL”, poemas, publicado em 1941, tendo escrito outros que não chegou a concluir.
Foi um homem excessivamente romântico e apaixonado por sua terra natal. Compôs várias músicas e a única a ser editada foi “SAUDADE DE MURIU”.
Teve como grande incentivadora a poetisa Maria Magdalena Antunes Pereira a qual chamava de “minha mãe espiritual”.
Escreveu para vários jornais, onde teve sua coluna especial pelas cidades onde residiu: Em Salvador, com o pseudônimo de Luiz Marinho, no jornal “IMPARCIAL”, em Fonte Nova/MG no “Jornal O POVO”, em São Manoel/MG no jornal “O LABOR”, em Carangola/MG na “GAZETA DE CARANGOLA, em Sapucaia/RJ, no jornal “A SAPUCAIA”, em Recife/PE no jornal “ESTRELAS DE JUNHO”, em Vitória/ES nos jornais “A TRIBUNA” e “FOLHA CAPIXABA” e no Rio de Janeiro/RJ no jornal “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”.
Em julho de 1932, contra a vontade de seu cunhado Bertino Dutra da Silva, na época interventor do Estado do Rio Grande do Norte, participou como voluntário, da Revolução Constitucionalista do Estado de São Paulo.
Na Intentona Comunista de 1935 teve participação comandando uma coluna que partiu de Ceará-Mirim para Baixa Verde. Tomando esta cidade assumiu o controle juntamente com Manuel Alberto da Silva Filho, que era conhecido com o nome de “Tenente Lins”. De Baixa Verde, Benilde, dirigiu-se para a cidade de Seridó comandando uma nova coluna de revolucionários.
Tendo conhecimento do fracasso da revolução na Serra do Doutor, empreendeu estão a caminhada cheia de percalços de volta a Ceará-Mirim.
Sofrido, abatido, perseguido pela polícia, conseguiu chegar a sua cidade natal, após ter passado por uma experiência terrível que quase de tirou a vida. Tal fato ocorreu quando um sertanejo, reconhecendo nele, por seus rastros, um homem da cidade, prendeu-o, ameaçando-o de morte com uma faca.
Ao ser primeiro revistado pelo sertanejo e seus filhos, encontraram m seu bolso apenas moedas, um de cem réis e outra de duzentos réis. (Estas moedas encontravam-se ainda guardadas com a sua família). Diante disto, e surpreso, o homem disse-lhe: “vejo que você é uma pessoa honesta, não é um ladrão. Nós vamos ajudá-lo a sair deste aperreio”. Deram-lhe uma calça velha, camisa, alpercata e um saco contendo farinha de mandioca e rapadura para ser carregado às costas, de maneira que ele se identificasse com qualquer um dos trabalhadores da região. Indicaram-lhe o caminho para atingir o sítio de José Tinoco, seu primo. Lá chegando, e não o encontrando, pediu ao empregado um cavalo selado e partiu em direção a Ceará-Mirim.
Por intermédio de Alfredo Edeltrudes e Isaías Guedes, que lhe conseguiram um barco de pesca, saiu de Ceará-Mirim, pela praia de Muriú, indo chegar às costas de Olinda em Pernambuco, onde permaneceu escondido na casa se sua madrinha Eliza Galhardo.
Teve também a ajuda de outras pessoas, dentre elas, especialmente, a do inesquecível Luiz Varella, um dos seus maiores amigos. Luiz e sua senhora Antonieta Varella, acolheram na sua propriedade na Usina São Francisco, em Ceará-Mirim, a esposa de Benilde, Judite Dantas, que na época esta grávida, sem tomarem represálias.
Após esta temporada em Olinda seguiu, também com o auxílio de parentes, para Salvador, ficando hospedado na casa de outro grande amigo. Gastão Câmara. A pedido deste, foi trabalhar como apontador na construção do aeroporto de Santo Amaro, onde a sua esposa, já com a sua filha Beniza, foi encontrá-lo.
Sendo mais tarde reconhecido voltou a ser perseguido, tendo de fugir com a família para a Ilha de Itaparica. Neste mesmo local encontrava-se também foragido Carlos Lacerda. Ao ser preso e temendo igual sorte, apesar da ajuda que lhe davam os pescadores da ilha, resolveu Benilde fazer regressarem a esposa e filha a Natal, ao mesmo tempo em que tornou a se refugiar na casa de Gastão Câmara em Salvador.
Foi neste período que começou a escrever, com o pseudônimo de Luiz Marinho, para o jornal “IMPARCIAL”, cujos artigos mereceram elogios do ilustre escritor baiano Carlos Chiaccio. Permaneceu com Gastão até a sua absolvição, decretada por sentença do M.M. Juiz Dr. Raul machado, em 20 de junho de 1938. Absolvido, foi encontrar-se com a esposa e filha no Rio de Janeiro.
Após sete meses sem conseguir emprego foi então nomeado no ano de 1939, para escrivão de coletoria, cargo para o qual havia feito concurso antes de estourar a revolução de 1935.
Em 1941 publicou o livro CANTO DO CANAVIAL, onde demonstra todo o romantismo e paixão por Ceará-Mirim. Neste período prestou novo concurso para o cargo de Agente Fiscal do Imposto de Consumo, atual Agente Fiscal de tributos Federais, sendo aprovado, foi nomeado pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, em 23 de junho de 1943, exercendo as suas funções até a data de seu falecimento no dia 13 de fevereiro de 1952.
O poema – título de seu livro – canto do Canavial nos leva ao imaginário e, numa quimera reveladora, vamos ouvindo o eco de cantos infantis, da melodia dos eixos primitivos de carros de bois se misturado aos gemidos permanentes dos riachos circundando o vale... é como ouvir os cânticos das lavadeiras...sinfonia de reminiscências!!!

CANTO DO CANAVIAL

Minha sombra musicada
Que mora nos meus ouvidos,
Canção de ninar meninos
Que ecoa nos meus ouvidos
Como o ciclo de um segredo....
Há quantos anos eu te escuto,
Canção que vem de minha infância,
Canção os engenhos românticos?
E esse apito dos engenhos nas madrugadas
Que eu escuto em todas as madrugadas de minha vida
Em todas as minhas tardes...
Em todas as minhas manhãs...
E essa música dos eixos dos carros de bois,
As vozes dos homens morenos nos eitos brutos
E as lavadeiras cantando na beira dos riachos...
Porque eu escuto essa sinfonia
Se estou tão longe de tudo, noutras terras?
E esse canto lamentoso do canavial
Como uma queixa de almas penadas
Que assombravam a minha meninice...
Porque ainda te escuto
Se estou longe, noutras terras?...

sábado, 7 de novembro de 2009

INÁCIO DE MEIRA PIRES

Inácio de Meira Pires, nasceu em Ceará-Mirim, no ano de 1928, na antiga rua São José, vizinho ao Centro Esportivo e Cultural. Descendente da estirpe dos Meira, sendo o Eminente Humanista e Jurista Dr. Olyntho José Meira, o seu bisavô. Desde muito cedo despertou-lhe a vocação teatral, fazendo teatro no quintal de sua casa. Estava nascendo aí, o maior homem de teatro do Rio Grande do Norte e o primeiro Teatrólogo filho de Ceará-Mirim.
Vindo morar em Natal, fundou o Teatro Mocidade e o teatro de Bairro. Escreveu a sua primeira peça que se chamou de Destino. Aos 19 anos ocorria o lançamento da sua comédia, nacionalmente, O Bonitão da Família, por nada mais, nada menos do que o maior ator da época Procópio Ferreira. De então em diante, não fez outra coisa, senão se dedicar de corpo e alma ao teatro, quer seja escrevendo, dirigindo ou representando.
Na peça - ainda inédita - O homem é o lobo do homem - a evocação do Ceará-Mirim está presente no diálogo de Bento e Dorinha, lembrando o bueiro do Engenho Jericó, a igreja de torres compridas, a Virgem da Conceição. Nesta peça, Meira Pires mostra todo o seu amor por Ceará-Mirim, a sua terra amada. Lembra o menino da rua São José, que passou a sua infância entre o seu Jericó e a rua que tanto amava.
Foi Meira Pires, o primeiro filho do Nordeste a ocupar o cargo de Diretor do Serviço Nacional de Teatro, onde lançou o Plano Nacional de Popularização do teatro, recebendo por isto, a homenagem da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), colocando no jardim do Teatro Alberto Maranhão, o seu busto. Além disso, várias placas em bronze assinalam as atividades fabulosas em benefício da cultura teatral brasileira.
Foi biógrafo amoroso e conservador do grande Alberto Maranhão, o mecenas da cultura do Rio Grande do Norte. Por mais de vinte e três anos Diretor e Superintendente do teatro Alberto Maranhão. Meira Pires fez do Teatro Alberto Maranhão, o seu lar artístico durante toda a sua vida.
Câmara Cascudo certa vez o chamou de Ventania do Nordeste. Na sua posse na Academia Norte-Riograndense de Letras, foi saudado, pelo Escritor filho de Ceará-Mirim, Nilo Pereira, que em seu discurso, chamou aquela noite maravilhosa, de a noite do Ceará-Mirim, pois lá estava o mestre Edgar Barbosa, filho também do Ceará-Mirim.
Na sua saudação a Meira Pires, disse o Mestre Nilo Pereira: “Creio que levais as folhas secas, para que na estrada, às vezes à espera, reverdeçam as árvores do idealismo sempre posto à prova. Mais do que, como disse o mestre Cascudo, ventania, acontece às vezes desabais como furacão. Podemos sentir à distância os prenúncios da tempestade”. Mostra Nilo Pereira, nesta saudação a Meira Pires, toda a força intelectual deste cearamirinense bravo e forte. Escrevendo na orelha do livro de Meira Pires, “Teatro Alberto Maranhão e seu Patrono” disse o escritor Veríssimo de Melo: “Tudo isto é trabalho de um homem lúcido e determinado, que não mede sacrifícios para a consecução dos seus ideais, que ama verdadeiramente a arte cênica e para a qual o teatro é a razão maior de ser de sua vida”. Meira Pires faleceu em 1982.
Vejamos abaixo as obras publicadas e não publicadas de Meira Pires: A mulher de preto (monólogo em dos atos); Um resto de tragédia (tragédia moderna em 3 atos); Teatro (contendo as peças Bonitão da Família e Senhora de Carrapicho); João Farrapo (peça em três atos); Cabeça do mundo (peça em três atos); Teatro que aprendí (estudos); Teatro Alberto Maranhão e seu Patrono (síntese histórica); O papel da Reserva Militar (conferência); Caxias, O Pacificador (conferência); TENAT (Um projeto cultural (discurso); Uma política de Teatro no desenvolvimento do Nordeste (estudo), dentre outras.

A importância de Meira Pires foi questionada pelo magnífico Ator e Diretor de teatro Mucio Vicente no blog de João André. É necessário respeitar as individualidades, os diferentes pontos de vistas, no entanto, na minha humilde opinião, MEIRA é reconhecido internacionalmente pela sua obra. O Serviço Brasileiro de Autores Teatrais (SBAT) reconheceu sua colaboração, à história do teatro brasileiro e do Rio Grande do Norte, alocando um busto de bronze no pátio do Teatro Alberto Maranhão em sua homenagem. Ele esteve diretor do Teatro Alberto Maranhão por mais de 20 anos e nesse período realizou vários projetos culturais relacionados ao teatro. Há ruas e salas de eventos em Natal em sua homenagem.
Penso que não podemos responsabilizar o eminente teatrólogo pela situação em que se encontram os movimentos culturais no município. Na época em que foi Diretor do SNT (Serviço Nacional de Teatro) a situação política e social era outra, o Brasil passava por um processo difícil, uma ditadura que coibia e censurava qualquer movimento artístico.
Acredito que é dever do poder público criar meios e equipamentos que proporcionem o desenvolvimento e a promoção cultural viabilizando o acesso da população as produções artísticas.
No entanto não devemos vincular homenagens a ruas, equipamentos sócio-culturais, etc, às pessoas que “somente” trouxeram benefícios materiais ao município, porque, senão, estaremos correndo o risco de nos tornarmos uma CIDADE NUMERAL.
A contribuição do teatrólogo, filho pobre do engenho Jericó, para a história do teatro em nosso estado está evidente em sua biografia, portanto, acredito que Ceará-Mirim deve homenageá-lo – como fez o SBAT – com um busto de bronze ou denominar – quando um dia existir – um teatro com o seu Ilustre Nome.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A HISTÓRIA DE EMMA

A HISTÓRIA DE EMMA




Marcello Olympio de Oliveira Barroca era filho de Victor José de Castro Barroca e nasceu em Ceará-Mirim no dia 16 de janeiro de 1856 e faleceu em São Gonçalo do Amarante.
Estudou na Inglaterra e lá conheceu a inglesa Emma Campbel nascida em 30 de novembro de 1854. Emma casou-se com Marcello e veio morar no Brasil, precisamente em Ceará-Mirim, no Engenho Verde Nasce.
Em 1880 Emma fica grávida de uma menina e, no dia 07 de fevereiro de 1881, quando está para dar à luz de sua filha, o parto complica e ela vem a falecer.
Marcello manda sepultá-la no ponto mais alto de uma colina na propriedade do engenho Verde Nasce, um lugar especial onde o jovem casal ia todas as tardes apreciar o pôr-do-sol que desaparecia à sombra do canavial. Tal atitude se deu porque a igreja não permitiu que sua esposa fosse sepultada no cemitério da cidade, uma vez que ela era de religião anglicana.
Seu túmulo foi mandado construir com proteção de grade de ferro vindas da Inglaterra e sua lápide foi confeccionada em Mármore de Carrara e trazia inscrito: “Sacred to the memory Emma – the beloved wife – Marcello Barroca. Born November 30 th 1854. Died February 7 th 1881”.
O casal teve uma filha que se chamou Emma Barroca em homenagem à mãe. Quando Emma completou 17 anos, em 03 de dezembro de 1898, casou-se com seu tio (viúvo) Apolônio Victor de Oliveira Barroca. Desse casamento nasceram 04 filhos, deixando descendência: Maria do Carmo de Oliveira Barroca; Jayme de Oliveira Barroca; Clarice de Oliveira Barroca e Maria de Oliveira Barroca.
Muito tempo depois, quando o Verde Nasce já não pertencia mais a família, começaram a surgiu histórias sobre as jóias que teriam sido enterradas com a jovem Emma e, também, começaram a surgir causos de assombrações em que a inglesa aparecia pedindo para que recuperassem aquele tesouro.
Ninguém sabe ao certo se a história procede ou se apenas são causos do imaginário popular. O certo é que o túmulo foi violado e, atualmente, restam os escombros do antigo jazigo. As grades de ferro e a lápide de mármore estão guardadas com os atuais proprietários do engenho.
Recentemente o diretor da Fundação Nilo Pereira Waldeck Araújo tentou fazer a restauração do túmulo, no entanto, a proprietária do engenho solicitou que ele se retirasse do local e que ela não autorizava tal ação.
É lamentável um caso como esse porque todos esses anos a velha ruína ficou em total abandono, exposta às intempéries do tempo. Esperamos que os proprietários do Verde Nasce, principalmente àqueles da área onde está localizado o túmulo, tenham um projeto que o salve da total destruição, afinal, é um monumento que faz parte da historia daquela região e precisa ser urgentemente restaurado, quem sabe, com isso, a inglesa possa descansar em paz (e nós também!!).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CASA GRANDE DO ENGENHO JACOCA

CASA GRANDE DO ENGENHO JACOCA
O engenho Jacoca pertenceu a Maneco França e sua casa grande foi construída em 1917 conforme está gravado na fachada frontal do casarão
Hoje, 30 de outubro de 2009, quando regressava do passeio/pesquisa em Ponta do Mato, resolvi visitar as ruínas do velho casarão da Jacoca, pois, em 2002 andei fotografando suas paredes e o que restava do antigo engenho.

A vontade e a ansidade de rever os escombros da velha casa e, poder imaginar como seria no áureo período em que era um engenho produtivo, provavelmente, aquela estrada seria tomada por animais e carros de bois, vindos do canavial, transportando a cana e o cheiro do mel deveria encher o espaço misturando-se à negras fumaça expulsa pela chaminé, obelisco canavieiro.


Para minha surpresa tudo havia se transformado na velha fazenda. Ao chegar à primeira porteira, vislumbrei uma enorme mansão construída no alto de uma colina e, imaginei o pior: o velho casarão deveria ter sido demolido. Isso me deixou muito triste e parecia que minha visita não ia valer à pena.

Quando cheguei à velha ruína meu coração bateu mais forte e fiquei deveras emocionado, ela estava lá, firme, imponente, parecia uma guardiã da história.


Em meio a tantas maldades e incompreensões presentes nos casarões e engenhos do vale encantado de Ceará-Mirim, o novo proprietário da fazenda, o senhor Gilmar da construtora Montana, teve a sensibilidade e valorizou aquele patrimônio histórico, cultural e arquitetônio, preservando sua fachada e dando-lhe uma nova funcionalidade.

Parabéns ao Sr. Gilmar e seria importante que outros proprietários de patrimônios arquitetônicos de Ceará-Mirim se espelhassem na sua atitude e restaurassem esses bens porque, assim, estariam preservando parte da história de nosso município, como por exemplo: Carnaúbal, Cruzeiro, Oiteiro, Morrinhos, Laranjeiras, Santa Rita, Santa Isabel, Guaramiranga, Ilha Bela, Santa Tereza, a antiga cadeia pública, o casarão dos Soares (Correira),a velha casa dos Meiras (proximo a Camara), o antigo olheiro, o cine paroquial entre outros.

VASSOURA DA PALHA DE CARNAÚBA

FABRICAÇÃO ARTESANAL DE VASSOURAS DA FIBRA DE CARNAÚBA


A carnaubeira é uma planta nativa do Nordeste brasileiro que, em condições normais cresce, em média, cerca de 30 cm por ano, atingindo a maturidade botânica (primeira floração) entre 12 e 15 anos de idade, podendo atingir uma altura superior a 10 metros e produzir entre 45 e 60 folhas anuais.
A palha é um produto da carnaúba que tem importância no Nordeste, principalmente na produção artesanal. A atividade artesanal existe nos três estados produtores, aproveitando a palha na confecção de inúmeros objetos como tarrafas, escovas, cordas, chapéus, bolsas, vassouras, redes, esteiras e cobertura de casas.
O corte da folha de carnaúba é feito com varas de bambu de três tipos, de acordo com a altura da planta (variando de 5 a 12 metros de comprimento), conhecida como “vara de cortar olho”, com uma foice presa na extremidade. O talo seco da palha serve para amolar a foice, com ajuda de terra e pedra de amolar. O trabalho de corte é árduo e oferece sérios riscos: as hastes pontiagudas das folhas podem cair sobre o operador com alta velocidade, podendo, inclusive, mudar de direção pela ação do vento; ao realizar a operação de corte, o foiceiro puxa a foice em sua direção, o que aumenta a probabilidade da folha cair sobre ele e provocar acidentes, inclusive cegueira. Apesar destas desvantagens, o foiceiro consegue obter elevada produtividade com essa ferramenta (laça 3 a 5 folhas de cada vez e corta de 1.500 a 2.000 folhas por dia).
Em geral, são cortadas de 35 a 40 folhas por palmeira, as quais, após derrubadas, sofrem o corte do talo e são aparadas em feixes com 20, 25 ou 50 folhas, dependendo da região e tipo de transporte utilizado. Os feixes, presos de 2 em 2, formam os “cambos”, os quais servem de base para o pagamento aos trabalhadores, se for o caso de serem remunerados por produtividade.
Durante a coleta, as folhas da carnaubeira são separadas em “olho”, que são as folhas mais novas, ainda fechadas, e “palha”, que são as folhas mais velhas, completamente abertas. Elas produzem o “pó de olho” e o “pó de palha”, sendo o primeiro mais valorizado por conter menos impurezas e produzir uma cera de melhor qualidade.
Do local do corte, as folhas são levadas ao lastro. O lastro é o local, ainda no campo e exposto ao sol, onde é feita a separação da palha “olho” das demais e a secagem das mesmas. O transporte das palhas até o lastro pode ser feito por jumento, carroça (puxada a boi ou burro) ou caminhão, dependendo da região. A coleta dura, em média, 120 dias, no período do verão (em que não há ocorrência de chuvas). A operação de secagem é demorada (dura entre seis e doze dias) e feita no chão, expondo o produto à chuva, desperdiçando grande quantidade de pó, principalmente no manuseio das folhas secas.
Infelizmente as reservas de carnaúba existentes em Ceará-Mirim foram derrubadas para o cultivo da cana de açúcar. Atualmente são poucas as ilhas de matas de carnaúba preservadas, podemos encontrá-las em Carnaubal e em alguns pontos no vale, principalmente entre o Engenho Igarapé e engenho laranjeira. Assim mesmo, os artesãos que utilizavam a fibra da carnaúba abandonaram o ofício em função da proibição e escassez da matéria prima.
É difícil entender o porquê das proibições, uma vez que a palha da carnaúba é renovável, e, em pouco tempo, brota e cresce para mais uma coleta. Essa atividade poderia tirar várias famílias de situação de miséria, e, também, daria atividade para jovens e adolescentes em situação de risco, evitando o êxodo para a área urbana.
Em Ceará-Mirim a Carnaúba já foi grande fonte de renda para os artesãos que viviam da fabricação artesanal dos produtos oriundos da folha de carnaúba. Aqui eram produzidos chapéus, esteiras, bolsas, tipiti, usada em casa de farinha e vassouras. Esta última ainda é produzida pela família do Sr, Manoel, conhecido por Maninho, no distrito de Ponta do Mato.



Processo de fabricação: palha aberta - primeira amarra, segunda amarra, confecção da vassoura e acabamento final

Saindo de Ceará-Mirim com destino ao distrito de Ponta do Mato cerca de 8 quilômetros, encontramos a residência do Sr. Maninho. Lá, sob um enorme cajueiro, estão espalhadas as folhas de carnaúbas já secas e prontas para serem manuseadas.

A produção de artesanato é familiar e já é uma tradição de muitos anos na comunidade e na própria família. Todos os membros da família desenvolvem uma atividade, seja na limpa das fibras até o acabamento das vassouras.

Maninho fazendo a limpeza e abrindo a palha da carnaúba.

A tarefa é dividida por etapas, primeiro Maninho abre as palhas e, com a faca, vai soltando as fibras uma das outras. Em seguida sua esposa, junta as fibras e faz uma amarração nos talos das folhas. A terceira etapa é realizada pelo filho do artesão, que evolve a parte superior das folhas com embiras de agave e em seguida faz o acabamento aparando as pontas da palha e envolve um cordão onde será posteriormente introduzido o cabo.
A produção é comercializada através de encomendas para as cidades circunvizinhas e, também, para a feira livre realizada em Ceará-Mirim aos sábados. A média de preço varia de R$ 1,50 (um real e cinqüenta centavos), depende do produto fabricado, que pode ser espanador, vassoura ou vassourão.

Maninho passa o dia trabalhando na confecção de vassouras e, à noite, vai a Ceará-Mirim para frequentar a Escola Estadual Otto de Brito Guerra onde cursa o terceiro ano do Ensino Médio. Tenho o maior orgulho de ser seu professor de Artes e foi através de um ensaio fotográfico, sobre nosso patrimônio histórico e cultural, que descobri um "patrimônio" na propria sala de aula.

Apesar de toda a luta pela sobrevivência com o trabalho artesanal, Maninho tem um objetivo de vida: cursar o IFRN - Instituto Federal de João Câmara em 2010. Faço votos que lute e persista porque assim você conseguirá seus ideais. Vá em frente!!! Você é um exemplo a ser seguido!!

domingo, 25 de outubro de 2009

HOMENAGEM AO MESTRE TIÃO OLEIRO E MESTRE JOSÉ BARACHO

HOMENAGEM AOS MESTRES TIÃO OLEIRO E JOSÉ BARACHO

Hoje, 25 de outubro de 2009, no distrito de Massangana, foi realizada ação de cidadania pela Câmara Municipal de Ceará-Mirim, cujo proponente foi o vereador Julio César.
A Câmara Municipal com essas ações vem cumprindo seu papel como instituição do povo. É importante promovê-las uma vez que são beneficiados vários cidadãos através de carteira de identidade, carteira de trabalho, certidão de nascimento, higiene bucal, atendimento médico, atendimento jurídico, palestras,lazer para as crianças presentes e etc.
Fiquei muito feliz porque o vereador Julio César sensibilizou-se e homenageou o Mestre Sebastião João da Rocha – o Tião Oleiro e José Severino da Silva – o José Baracho, durante o evento em Massangana.

Gibson Machado fazendo a apresentação dos mestres

Na oportunidade fui convidado para apresentar os homenageados à população e falar um pouco sobre suas trajetórias de vida. Segue abaixo o que pude dizer a respeito dos senis amigos... a emoção tomou conta de mim porque é difícil proporcionar momentos como este e, entre a voz e as mãos trêmulas, fui discorrendo sobre cada um deles e de sua importância para o desenvolvimento sócio-cultural de nossa Ceará-Mirim:
"Quero agradecer ao presidente da Câmara o vereador Roberto Lima e ao vereador Julio César, proponente desta homenagem, pela oportunidade de apresentar duas personalidades tão importantes na formação cultural de nosso município.
É com muita alegria que venho nesse momento apresentar duas personalidades muito importantes para a história e a cultura de nosso município, e por que não dizer, do nosso país.

Vereador Julio César durante a entrega da placa ao mestre Tião Oleiro


É um fato a questão da desvalorização dos atores culturais no Brasil. Há uma grande batalha pela preservação e fortalecimento de nossas tradições, através da tenacidade e da luta heróica de seus representantes populares.
Hoje a Câmara Municipal de Ceará-Mirim, através do vereador Julio César, vem reconhecer a importância do Mestre Sebastião João da Rocha – o Tião Oleiro e de José Severino da Silva – José Baracho – na divulgação e preservação das tradições seculares através da transmissão de valores e costumes referentes às culturas ameríndias, africanas e européias, às novas gerações.


Prefeito Antonio Peixoto fazenda a entrega da placa ao mestre José Baracho

O mestre Tião, nasceu em 14 de maio de 1914, foi menino de engenho logo cedo, cuidando da porteira da bagaceira, e, ao longo da vida labutou desde carreiro de boi, inclusive, trabalhando em Marcualhada, fazenda de propriedade do bisavô do vereador Julio César, Manoel Juvêncio. O mestre passou por todas as etapas de engenho e, entre o lazer, identificou-se com a cultura popular.
Em 1935 reestruturou a congada no engenho Guanabara, herança de seu pai o mestre João José da Rocha. Desde então tem procurado divulgar a tradição em todo o território nacional. Seu brinquedo, hoje, é conhecido no Brasil e em vários países, através do programa Toda Beleza exibido pelo Canal Futura e Fundação Roberto Marinho.
O Mestre Tião recentemente foi selecionado, pela Fundação José Augusto, como Registro do Patrimônio Vivo do RN, projeto do deputado Mineiro, que selecionou sete mestres e três grupos folclóricos do RN. Ceará-Mirim foi contemplado com a seleção do Grupo Cabocolinhos e com o mestre Tião.
O Bardo Menestrel José Baracho nasceu José Severino da Silva em 04 de julho de 1929 e, desde os 12 anos assumiu a responsabilidade da casa quando seu pai Faleceu. Ainda criança tomou para si a responsabilidade sobre seus irmãos e sua mãe e desde então nunca parou de trabalhar.
Sempre teve sua vida voltada para a agricultura, no entanto, ouvindo os cantadores de viola, que floreavam o vale com suas canções e romances medievais, resolveu que seria poeta e divulgador das histórias e romances do seu povo. Além de poeta José Baracho participou de muitas tertúlias onde a atração principal era o côco de roda, tem orgulho de ser poeta, de recitar poesias medievais em décima, sétima, oitava e decassílaba, não importa a rítmica do poema, o que interessa é interagir com a platéia improvisando e recitando uma longa toada onde o mais importante são os temas, os motes...os galopes à beira mar: "mulher nova bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor"... assim é o mestre.
Aos dez anos tomou gosto pela congada, brinquedo popular que faz referência a batalhas medievais travadas entre moiros e cristãos, mulçumanos e europeus e, também, a rainha Ginga, soberana africana que muito contribuiu para a história de nossa formação etnológica.
A Câmara Municipal de Ceará-Mirim, através do vereador Julio César, faz, hoje, o reconhecimento da contribuição que esses dois heróis têm dado para a formação da história sócio-cultural de Ceará-Mirim, que, apesar, de anônimos desconhecidos, construíram, ao longo de suas vidas, um verdadeiro patrimônio histórico, uma biblioteca de saberes populares que somente aqueles que têm sensibilidade, poderão digeri-los intelectualmente.
É preciso que valorizemos nossos pares, nossa terra, o berço onde nascemos, como diz o grande Picasso, para pintar o mundo, é preciso começar pintando nossa aldeia. E esse amor à terra está explícito na frase do mestre José Baracho: Em Tabuão eu nasci... em Tabuão eu cresci... e em Tabuão hei de morrer!!!"
Na oportunidade o vereador Julio César falou da honra que sentia em poder homenagear pessoas tão importantes e que apesar da humildade davam exemplo de dignidade e coragem em lutar pela preservação e divulgação de nossas tradições.
O prefeito Peixoto externou sua preocupação como administrador do município a respeito dos valores culturais e falou que a trajetória dos mestres servissem de exemplo e fossem seguidos pelos jovens para que as tradições fossem preservadas.
Dra. Leonor iniciou sua fala dizendo que ficou emocionada, pois sabia que este colunista, estava muito emocionado porque, certamente, aquele era um momento ímpar e acreditava na minha insistência com relação a divulgação de nossa história e que as memórias dos mestres fossem registradas e no futuro servissem de estudo e instrumento para o desenvolvimento intelectual das futuras gerações e parabenizou seu filho Julio Cesar por todas as iniciativas em prol do povo de Ceará-Mirim.

Discurso da ex-vereadora Leonor em homenagem aos mestres e ao seu filho o vereador julio Cesar

Acredito que as preocupações do prefeito Peixoto e do vereador Julio César com o fortalecimento e preservação de nossas tradições venham proporcionar estudos e ações voltadas para a cultura e arte de nosso município.
As ações e políticas de governo relacionadas a cultura devem ser implementadas com urgência, porque nosso patrimônio material e imaterial está sendo corcomido pela ação do tempo, pelas novas tecnologias, e, principalmente, pela falta de sensibilidade e desconhecimento da história e cultura de uma terra que já foi berço de grandes intelectuais e contribuiu para o desenvolvimento sócio-cultural do Estado do rio Grande do Norte .
As chaminés, esfíngies do vale, não podem deixar que o enigma da cana desapareça, na fulingem do tempo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

BRASÃO DA FAMÍLIA SOBRAL

Sobral Família proveniente de Joaquim Inácio da Cruz Sobral, fidalgo da casa real do Conselho de D. José I, do Conselho da Fazenda, Tesoureiro do Real Erário e Morgado do Sobral de Monte Agraço a quem o mesmo príncipe, pelos serviços recebidos, concedeu carta de armas de mercê nova a 07 de dezembro de 1776. este Joaquim Inácio era irmão de José Francisco da Cruz Alagoa, morgado de Alagoas a que o Rei também concedeu carta de brasão de armas de mercê nova, relativas ao último apelido.
As armas de Joaquim Inácio da Cruz Sobral são cortados: o primeiro de azul, com cinco estrelas de ouro de seis raios postos em cruz; o segundo de prata ondado de azul: bordadura de vermelho, carregada da legenda Nomen Honorque Méis em letras de ouro, Timbre: um galgo de prata coleirado de vermelho, com uma chave de ouro na boca.


O GALGO


O galgo caracteriza-se essencialmente pelas formas esguias: pernas curtas e finas, corpo comprido, mas o tórax bastante largo, calda longa, delgada, ligeiramente curva, cabeça estreita, com focinho pontiagudo.
Essa beleza de formas faz com que o galgo fosse considerado essencialmente aristocrático, sendo comum nos quadros antigos aparecerem fidalgos em companhia de tais animais.
A pelagem é geralmente curta, lusídia e de coloração uniforme, ma existem também variedades de pelos compridos.
A sua constituição anatômica torna-o particularmente adaptado a corrida, sendo por isso muito apreciado para a caça de animais corredores, especialmente a lebre.

O TREM DE CEARÁ-MIRIM

JORNAL DE DOMINGO – Natal, Domingo, 18 de novembro de 1984
O TREM DE CEARÁ-MIRIM
Nilo Pereira

Foto do trem na Estação de Ceará-Mirim - 1939 - autor: Julio Senna


O trem e o automóvel são duas fixações de infância. Ambos representam duas etapas do progresso que chegava. Menino de engenho, vi o carro-de-boi aposentar-se, ou arrastar-se, langoroso, por velhas estradas. Nada mais triste do que aqueles bois imponentes, murchos, cabisbaixos, que só servem para puxar o carro. Lá vão eles, solitários, como quem perdeu tudo.
A precedência histórica do trem sobre o automóvel é apenas um fato consumado; não altera no sentimento de menino a constância lírica com que os novos tempos chegam e passam ao coração humano como páginas de um romance proustiano.
O cavalo de sela nunca foi para mim uma atração. Sei bem que fazia parte da paisagem dos engenhos. O senhor-de-engenho, diz Gilberto Freyre em NORDESTE,, é um centauro: metade homem, metade cavalo. Uma outra vez fui com meu pai da “rua” (a cidade) para o Guaporé. O que verdadeiramente me encantava era a viagem de trem e, depois, a de automóvel.
Quando ouço em velhos filmes o apito de uma locomotiva, sinto que desperta o menino que anda comigo. Que nunca me deixou. Bastava ouvir o silvo para correr à janela e esperar a máquina que resfolegava e lentamente se aproximava da estação.

Locomotiva Katita - primeira a fazer o transporte entre Natal - Ceará-Mirim - Museu do Trem em Recife/PE

O aspecto é de uma baronesa. Entra imperialmente na cidade. Ou vem dos lados dos tabuleiros como uma serpente em fogo, ou dos lados da casa do general João Varella. De qualquer maneira, uma soberana. Uma salamandra que não de queima nas casas.
A noite o seu farol dá a cidade adormecida fulgurações estranhas. Há figuras espectrais que se movem como que tangidas pela feeria daquele olho luminoso.
O trem chegava de Lages, ponto terminal. Tinha razão de vir cansado, exaurido. Um jogo de lanternas dizia se ele podia aproximar-se ou não. Um outro sinal mostrava que devia entrar num desvio. Tudo isso o menino da janela ia percebendo. Mas não sabia que estava incorporando a cena à sua futura lembrança. À curtição dos tempos.
O Ceará-Mirim é uma cidade urbana. Urbana e rural. Participa de duas naturezas. Do vale recebe a inspiração poética, a luz intermitente dos seus pirilampos, uma brisa suave, intemporal, que refresca as almas. A cidade basta-se a si mesma. Mas, sendo menos viçosa do que o vale dá a impressão de ser cidade morta. Pelo menos era assim na infância. Tal como a recordou Edgar Barbosa em páginas de Antologia, como se falasse de uma Itaoca ou de Oblívion, lembrando Monteiro Lobato.
Essa cidade morta de repente criou vida. Mas, permanece intocável na saudade dos verdes anos.
Sua vida começa a agitar-se com a chegada dos primeiros automóveis, tinha de ser fatalmente um Ford de bigodes, com faróis de acetileno. Pertencente a Pedro Fernandes, comerciante.
O Ford obrigou o preto Antônio Rufino a parar a sua carroça, transportadora de açúcar. Lembro-me perfeitamente desse bom homem. Era simples e obediente como um animal doméstico. Cuido ouvi-lo tangendo os seus bois, que acudiam, solícitos, pelos nomes: Maravilha, Generoso, Boi de Cambão, Espeto.
Era o caminhão de Julio e Severino Ramalho que dava entrava triunfal, inaugurando a civilização industrial, a tecnologia, que ainda não tinha esse nome. Quando se escrever a história do Ceará-Mirim, esses dois irmãos serão lembrados pelo sei pioneirismo. Foram eles que inauguraram a luz elétrica, no Ceará-Mirim. O motor ficava à rua da Aurora. Era barulhento.Lá em baixo na rua Grande, não se podia dormir com o ronco sincopado da nova maravilha. A máquina vencia a tranquilidade, o imobilismo da cidade antiga.
Depois, veio o caminhão “Saurer”, alemão, de Joel Villar, para quem olhávamos com um grande respeito: tinha um braço cortado, que perdeu em Canudos. Era nosso herói. O nosso Bayard, sem medo e sem mácula. Quando, mais tarde, li OS SERTÕES de Euclydes da Cunha, em vão procurei o nome de Joel. Era um soldado como outro qualquer, mas a quem não faltou, decerto, o heroísmo de tantos outros. Faltava-lhe a legenda.
Mas eu falava do trem do Ceará-Mirim. As locomotivas eram alemãs ou norte-americanas. As primeiras tinham mais majestade. Eu as associaria, mais tarde, ao poderio pan-germânico. Ao Kaiser, ao Kromprinz e mesmo Nietsche. (E o grande mal do homem, a imaginação. Só não somos felizes porque somos dotados de imaginação e com ela botamos tudo a perder).
Minha primeira viagem de trem foi com o meu cunhado Francisco Fernandes Sobral, promotor público do Ceará-Mirim. Ele, todo entregue a leitura do romance de Dannuzzio – IL FUOCO – uma coqueluche das épocas. Eu, embevecido pela paisagem. O verde do vale era uma fantasia para os olhos virgens de um adolescente. As árvores correndo, desabuladas. A parada de Extremoz.A lagoa. Um mundo que nascia. E o menino crescendo com essa visão mágica.
O momento supremo era a passagem pela ponte de Igapó. Sem nenhum anúncio a locomotiva entrava., airosa, destemida, naquele corredor metálico sobre o Potengy. Os vagões se agitavam como impulsionados por um movimento Infreme. O trem mostrava sua força, o seu vigor dominando aquele desafio.
Hoje, quando vejo a velha ponte partida ao meio, abandonada, simples ferro velho, curtindo o seu ostracismo, a sensação que tenho é que mutilaram a minha infância.
Se ela ficou imprestável, merecia outro tratamento. Morreu devagar, ela se dava pressa aos trens. Que sustentava os pesos daquelas composições fantásticas capazes de varar mundos. Na ponte, desarvorada, ficou o apito nostálgico da locomotiva como uma dobre de finados.
Não posso ser indiferente a esse espetáculo. Tudo se restaura, hoje em dia. Mas a ponte de Igapó definha. O tempo se encarrega de fazer dela um repasto de ingratidão.
Por solicitação de Edgar Barbosa (quantas vezes passamos pela mesma ponte e tivemos os mesmos sustos!) escrevi uma pequena nota sobre a nossa Ponte S. Luiz. Já não sei por onde anda essa antiga página. Sei que ela conserva uma nostalgia incurável. Gerações e mais gerações passaram por ela. Duvido que ela, já velhinha, tenha perdido a memória. Não, ela se lembra de tudo, a ponte da infância, que ainda me liga à utopia, a nossa maior realidade.