sábado, 24 de abril de 2010

MEMÓRIA DE ILHA BELA (por Clea Bezerra de Melo Centeno)

A leitura de Dever de Memória, livro publicado por Cléa Bezerra de Mello Centeno, em 2005, levou-me a refletir sobre a situação em que se encontra a extinta comunidade de Ilha Bela: quando entramos no fantasmagórico povoado não localizamos mais as residências que tantos filhos ajudaram no desenvolvimento sócio-cultural e econômico de Ceará-Mirim. As identidades daqueles que ali nasceram foram abocanhadas pelos dragões da ganância e do progresso; uma verdadeira falta de sensibilidade e compromisso com a história e a cultura de uma população genuinamente “ilhabelense” porque são filhos daquela terra, como provavelmente, os foram os remanescentes indígenas, Saquetes e Costa Silva à época do Barão Manoel Varela do Nascimento. Anteriormente o Barão comprou suas terras - Ilha dos cavalos - para desenvolvê-las junto aos seus descendentes quando construiu um verdadeiro império açucareiro, proporcionando vários empregos para várias gerações.
A comunidade de Ilha Bela não existe mais. Restam apenas as ruínas da Usina construída por Ubaldo Bezerra de Melo, pai da autora do livro, entre os anos 1934 e 1940. O monumento permanece testemunho de um ciclo áureo, esfinge canavieira, guardando, junto aos seus fantasmas e sobreviventes, segredos e lembranças de um período nostálgico.

A autora Cléa Bezerra em suas memórias destaca cada detalhe do que foi sua inesquecível Ilha Bela:

“Ilha Bela tem uma localização privilegiada. Sua posição central, em relação ao conjunto dos engenhos circundantes, permite – a quem alcança o seu ponto mais elevado, conhecido como alto – descortinar o verde intenso do canavial, estendido na vastidão da paisagem que inspirou o nome, tão bem posto, de Ilha Bela.

A Ilha pertenceu ao Barão de Ceará-Mirim, Manoel Varela do Nascimento, e a seus descendentes diretos. Até 1946, existiam, no alto, as ruínas de uma casa-grande com capela, vestígios da época de esplendor que floresceu em Ceará-Mirim, no final do Império, quando culminou o poderio político e econômico dos senhores de engenho, no período áureo do açúcar (...).

(...) Durante as férias e feriados, eles viajavam de trem para Ceará-Mirim, acompanhados de tios e primos que gostam de participar da alegria do passeio. O motorista os espera na velha estação, para conduzi-los, de carro, até Ilha Bela. Era sempre emocionante avistar o canavial ao entardecer, contemplar o verde do vale, respirar o ar fresco que trazia, com o cheiro da cana, a sensação de que estavam chegando para o reencontro com a ansiada casa de Ilha Bela – lugar onde viveram anos felizes de sua infância e adolescência!Da casa, eles lembram tudo: salas amplas, quartos aconchegantes e um grande alpendre nos fundos, com linda vista para o canavial.

O visual da sala é modesto e parece destoar dos móveis vindos de Natal, de estilo mais requintado: sofás de couro, cadeiras de balanço, birô enorme, rádio antigo... As paredes despojadas expõem, num plano bem alto, os retratos das avós Idalina e Amália, do Tio Abelardo e de Cléa, com dois anos.

As janelas da frente mostram a usina, lá embaixo, com a enorme chaminé ao lado e tudo que existe nos arredores: o escritório, a balança, os troles carregados de cana, o barracão, a pensão de Martinha e o aglomerado de casas dos moradores que se alinham em direção da porteira, estendendo-se pela estrada. Logo à direita da casa, o alto amplia as dimensões da vista até a linha do horizonte...A arcada que divide as salas, facilita a visão da sala de jantar com os móveis pesados e a grande mesa no centro. É sempre uma mesa farta e, durante as refeições, fica repleta de familiares e convidados. Os quartos ocupam, dois a dois, as laterais da casa: de um lado, ostentam longos cortinados brancos envolvendo as camas de solteiro; do outro, um grande véu sombreia o quarto de casal, todo revestido de filó (...).

Cercado de várias dependências, o alpendre é a alma da casa! Nesses espaços, os serviços domésticos se realizam numa rotina agitada, deixando impressões na memória que, até hoje, fazem recordar pessoas queridas. Popô é uma delas: chega por ali, de turbante branco, apressada e sorridente, muito disposta para recomeçar a tarefa diária de engomar a roupa da família num dos quartos, ao lado. Com o seu ferro a carvão, o abanador de palha para atiçar a brasa e pequenos produtos caseiros, realiza com tanta perfeição o seu ofício.

O alpendre tem um aspecto rústico e acolhedor: chão de cimento batido, cortiço de abelhas, bancos de jardim e duas redes brancas armadas pelos cantos. Ali acontecem o trabalho, o recreio e o recolhimento. De todos os lados, pode-se admirar a beleza do canavial e divisar, ao longe, os velhos engenhos emoldurando a paisagem. O Timbó chama mais atenção! Correm lendas sobre seu passado de escravidão e mistério, e que, de tão incríveis, fazem parte do imaginário popular da região.

Tudo é encantador em Ilha Bela! O panorama do vale, as mangueiras frondosas, os coqueiros, as bananeiras, os canteiros da horta e, mais adiante, o curral do gado. O quintal – um nível mais baixo, no extremo do alpendre – dá acesso aos caminhos que levam ao olheiro, ao riacho... Nas férias, as meninas maiores e menores gostam de sair juntas, de ir bem longe, andar naqueles matos, descobrir os atalhos, subir nos cajueiros e, finalmente, brincar no recanto mais aprazível do quintal. Ali, elas passam mansas tardes, à sombra repousante das árvores, pulando corda em todos os ritmos e variações, jogando ordekam (jogo de bola) ou academia, enquanto o grito de “mãos para o alto” ressoa, ao longe, enunciando as corridas de caubói lideradas por João Augusto, ai lado de Abelardo e seus amigos da Usina. As saudades daqueles momentos de felicidade são tão vivas que trazem os sons, os olheiros, a brisa do quintal e até as lembranças do seu chão riscado com as barras do ordekan, do traçado da academia, enfim, do convívio com uma paisagem da infância difícil de lembrar, nitidamente, em todos os matizes, mas impossível de esquecer.

Em circunstância pulsante de vida instiga a imaginação dos mais jovens, convidando-os a descobrir os divertimentos que Ilha Bela oferece. Alguns descem o pátio da usina para pegar os troles e provar a delícia do passeio, indo e vindo no trecho demarcado pelos trilhos. Outros preferem as corridas a cavalo – o melhor programa de Ilha Bela. Quem topa a aventura, segue pela estrada afora, alem da porteira, galopando livremente, a toda velocidade, com a meta de visitar os engenhos da vizinhança: Itapicuru, Alabama, Guanabara. Muitas vezes, para aliviar a corrida e torná-la mais prazerosa, todos combinam trocar o pesado galope pela maciez do trole.

Quando não é possível cavalgar, tomam o destino de Morrinhos; atravessam o canavial, numa longa caminhada a pé, para um banho nas águas límpidas da fonte – o olheiro.Os grandes espaços, à volta, estimulam o potencial de energia e criatividade de todos os que vêm passar as férias em Ilha Bela. A sala de visitas da casa e o prédio vizinho servem de palco para a montagem de “dramas” e “quadros-vivos” solenes, inspirados nos modelos vistos no colégio.

Além das festinhas de teatro, surgem outras opções: o rádio, que desperta o interesse pela trama romanesca da radionovela “O romance de um moço louro”; o baralho, com as empolgantes partidas de sueca e sete-e-meio, até bem tarde; e as brincadeiras de escola – nas férias da professora oficial, Maria Ramalho – meras projeções de fantasias e de vivências do internato.

Ilha Bela é mais bonita no início da moagem. A paisagem muda com o acender das luzes, a visão das queimadas, a sonoridade codificada dos apitos; uma euforia geral se espalha, e tão contagiante, que motiva, todos da casa, a descer até a usina iluminada, para ver a movimentação dos troles, os burros com os cambitos cheios de cana, a botada na esteira. É interessante observar o trabalho das máquinas: as moendas esmagando a cana, a volta das turbinas, as caldeiras, o vapor, o ruído, enfim, todo o processo de fabricação do açúcar cristal até a etapa final do ensacamento. No armazém, o ar impregnado de pó branco exala o cheiro doce e típico do açúcar. Mais adiante, predomina o de alambique... Basta entrar no prédio anexo à usina, para ver a entrada do melaço, matéria-prima aproveitada no processamento do álcool, via destilação.

O passeio termina com uma parada no barracão e uma visita à pensão de Martinha, onde moram Popô e Olegário. Por ali, há sempre um foco de atrações preparadas pelas moradoras jovens que aproveitam o clima festivo da moagem para cantar e recitar num palco improvisado, tendo, como cenário, os troles cheios de cana, montados sobre os trilhos e enfileirados ao lado da usina. Na volta para casa, as meninas ficam repetindo muitas canções e guardam na lembrança."

As memórias descritas por Cléa Bezerra permanecem vivas no imaginário de quem tem oportunidade de ler seu livro DEVER DE MEMÓRIA – uma biografia de Ubaldo Bezerra de Melo. É como se fizéssemos parte daquele cotidiano longínquo e tão próximo, sentindo o cheiro do melaço, da cana e ouvindo o apito agonizante da usina fantasma.

É imprescindível refletirmos sobre a importância de cada pedacinho dos nossos patrimônios históricos que ainda estão resistindo às depredações e destruições. Cada tijolo caído é um retalho impregnado de suor, sangue e lágrima de uma legião de cearamirinenses que fizeram dessa terra primitiva o “ubérrimo mundo encantado” de hoje, como bem cinzelou na história o mestre Ruy Antunes Pereira: “Mucuripe! O meu “Mundo Encantado”, onde plantei minhas raízes emocionais”. Ilha Bela não é o Mucuripe, no entanto, nossas estirpes são oriundas das mesmas ramificações.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

NOSSOS POETAS: HONÓRIO CARRILHO

HONÓRIO CARRILHO

AS DUAS FONTES

Um dia, eu tive sede, e sede intensa
De saber, de saber...
E pensei: Vou bater na fonte imensa
Dos bons livros... Vou ler...

E fui... Ela dormia, ao pé de um monte,
Tão cristalina e pura,
Que, quanto mais bebia dessa fonte,
Maior era a secura!...

De outra vez, (como diz-mo inda a memória,
E com que grande dor!)
Tive sede... De quê? De amor, de glória?...
Tive sede de amor.

E perguntei à fonte: onde se apaga
Esta sede, onde está?
No céu, na terra, em que país ou plaga?
Onde for, irei lá!!

Mas ninguém respondeu-me; e, com malícia,
Balbuciei, então:
- Dessa, bem sei, só me dará notícia
Quem tiver coração.

Natural de Ceará-Mirim, tendo nascido a 2 de março de 1873, Honório Carrilho da Fonseca e Silva é filho de João da Fonseca e Silva e Francisca Teodulina da Fonseca e Silva.
Estudou preparatórios no Atheneu Norte-Rio-grandense, formando-se em 1895, pela Faculdade de Direito de Recife.
Foi professor-adjunto da Escola Militar do Realengo e Auxiliar do Ensino no Colégio Militar do Rio de Janeiro e, por fim, Procurador da República no Rio Grande do Norte.
Militou na imprensa de Natal “A República” e da antiga Capital Federal “O País”. Quando esteve na comarca de Prados (Minas Gerais), como promotor, fundou um jornal “Cidade de Prados”.
Faleceu no Rio de Janeiro, a 14 de novembro de 1961.


Fonte: Panorama da poesia norte-rio-grandense – 1965 – Romulo C. Wanderley.

domingo, 18 de abril de 2010

VISITA AO MESTRE LUIZ CHICO

Mestre Luiz. o galante Raimundo e José Maria (Lelo)
VISITA AO MESTRE LUIZ CHICO

Sábado, 17 de abril de 2010. Recebi um telefonema do Mestre do Boi de Reis de Matas, Luiz Chico, fazendo uma convocação para que eu fosse até a comunidade a fim de participar de encontro com o pessoal do ponto e cultura Boi Vivo.
O dia estava chuvoso, ameaçava cair um temporal. As nuvens concentravam-se sobre a cidade, mas não chovia. Era um dia triste. Eu gosto de chuva, porém, acho um dia melancólico e frio.
Assim, convidei um amigo, o Lelo, neto do saudoso Patativa do Vale, Cirineu Campos, para me acompanhar até Matas e fomos devagar, observando cada pedacinho de chão. O amigo acompanhante falava sobre o cultivo e técnica de Bonsai - que ele domina muito bem - indicando algumas árvores que ficariam legais como a miniatura japonesa: a cajazeira, o espinheiro, entre outras.
Não podia deixar de relatar a tristeza em ver tantas ruínas de velhos engenhos pelo caminho: Carnaúbal, Guaporé, Diamante, Jericó, Capela, Santa Rita, Esperança, Pedregulho, felizmente nossa alma foi contemplada com a Fazenda Nascença, ainda preservada pela família do saudoso amigo Roberto Varela.


Ruínas do Engenho Santa Rita

Parecia vê-lo naquele alpendre do casarão aristocrático, onde tantas vezes conversávamos sobre Ceará-Mirim e suas histórias. Víamos velhas fotografias e, o nobre fidalgo, ia relatando cada fragmento histórico. Era como se a máquina do tempo fosse entrando em minha mente abrindo um horizonte e, retalhos imagéticos passassem como um filme que tentava entendê-lo...

Roberto Varela e Gibson Machado (alpedre da casa grande do Engenho Nascença - 2006)

A memória instantânea parecia fazer o carro parar, era como se aquele momento fosse real e ele nos esperasse para a conversa de sempre. Não queria acreditar que tudo não passasse de pensamentos e desejos, no entanto, gostaria que fosse real. Tantas coisas tinha para aprender, pois o maior desejo do saudoso amigo, era poder contribuir para uma Ceará-Mirim grande, em que seus filhos não precisassem expatriarem-se a fim de ganhar a vida. Felizmente ficou a saudade e, com ela, posso lembrar dos bons e proveitosos momentos que passamos no velho e senhorial alpendre da Casa Grande do Engenho Nascença.
Chegamos a Matas e encontramos o Mestre Luiz em sua residência. Ele como sempre, nos recebeu amigavelmente dizendo que o dia estava mais alegre e mais bonito e isso se devia a minha visita. Essas palavras, vindo do grande sábio, me enchem de orgulho e não tenho como agradecer. Apenas fico feliz por tê-lo como um Pai, um irmão, um amigo, um ser especial que entrou na minha vida, assim como o Mestre Tião, Mestre Zé Baracho, Mestra Maria do Carmo, Mestre Birico, Mestre Manoel Rodrigues e tantos outros importantes guias de um crescimento intelectual em que aprendi a respeitar e valorizar os saberes que só pessoas iluminadas podem ensinar com humildade e sabedoria.
Quando fazíamos o caminho de volta meu amigo Lelo convidou para que entrássemos no velho Museu Nilo Pereira, antiga casa grande do Engenho Guaporé. À medida que nos aproximávamos do avelhantado casarão percebia o quanto está deteriorado. A visão que temos é de uma ruína abandonada, sem história e sem nenhuma importância.


Casa Grande do Engenho Guaporé

Junto à falência do Museu Nilo Pereira foram enterrados o passado e a glória de toda uma geração de famílias que ajudaram no desenvolvimento de Ceará-Mirim, como os Pereira e Varella. Não é possível compreender como a memória de uma cidade pode ser esquecida e abandonada às traças, aos morcegos, transformando-se em pontos de drogas e local de exercício de magia negra. Seus mortos devem estar desesperados pelo acúmulo e tanta energia negativa. Penso que um dia seremos cobrados pela magnitude do desprezo e desrespeito aos nossos patrimônios históricos e culturais.


É importante publicar textos de Nilo Pereira falando sobre o Guaporé. Assim, poderemos lembrar no velho casarão e de sua importância para a preservação da memória de nossa cidade. O texto abaixo é parte do que foi publicado em março de 1979 no livrinho lançado pela restauração da casa grande: O GUAPORÉ RESTAURADO, escrito pelo neto daquela casa, Nilo Pereira:
“Certa vez, revendo o Guaporé mergulhado na sua lenta agonia, alguém me pergunta quem eu sou, que desejava eu com tanta curiosidade por um velho solar abandonado.


Porque me detinha diante da sua fachada, examinando-a, notando que algo faltava à velha casa - os galgos de louça à entrada, o repuxo d’água, as estátuas lá em cima, simbolizando o Trabalho, a Agricultura, o Comércio e a Indústria, os lampiões de cada lado, o jardim, e na porta quase desfeita um pequeno botão que fazia tocar uma campainha.
Respondi, então, que era apenas um neto desta casa. Hoje quando a vejo restaurada, rediviva, não é outra coisa que digo: Sou neto desta casa.
(...) Lutei por esta Casa, todos o sabem, para que ela não sucumbisse. Era uma luta sentimental, decerto. Mas havia nisso também a defesa de um patrimônio histórico que podia desaparecer. Se o Guaporé morresse, se aqui agora fosse um pedaço de chão raso, ou uma construção qualquer, sem significação, ter-se-ia fechado brutalmente uma página da história do Rio Grande do Norte (...).


O Guaporé mergulhava indefeso na sua quietude de morte. A fachada resistia ao tempo. De longe dava a impressão de que a casa se mantinha na tempestade que a envolvia; mas, de perto, a desolação escrevia o capítulo extremo de um drama que chagava ao terceiro ato.”
Em setembro de 2009 o presidente da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto, me informou que existia um recurso para a restauração do casarão e que tinha sido uma decisão da JUSTIÇA. Não compreendo como já se passaram sete meses e nada foi feito a respeito.
Os vândalos permanecem freqüentando a velha casa e não é tomada nenhuma providência. Será que os vereadores não poderiam solicitar informação da Fundação José Augusto e da Prefeitura sobre essa questão???.




Casa banho do Engenho Guaporé

Parece que só uma movimentação popular é capaz de salvá-lo do total desmoronamento. Infelizmente nossos jovens estudantes não conhecem a história de nossa província, por isso, não temos como provocá-los para um apelo público em prol do casarão do Guaporé. Não conseguimos ferir o brio provinciano, inerentes naqueles que amam essa terra – que sobrevivem pressionados pela invasão alienígena e globalização cultural importada de outros centros.
No velho solar, construído por Vicente Inácio Pereira, no final do século XIX, há muito mais do tijolos e arquitetura. Há a alma de uma geração primitiva; há a memória de toda uma época aristocrática, responsável pela construção de nossa cidade. Devemos nos mobilizar para salvá-lo do abandono e, como filhos dessa terra, temos obrigação de respeitar e preservar os patrimônios que ainda resistem as vicissitudes do tempo e a falta de reconhecimento. Preservando nossas riquezas culturais, resguardaremos a memória de nossa gente e de nossa terra. AVANTE, AVANTE CEARAMIRINENSES pelo bem das futuras gerações.

Para ver a que ponto chegou a falta de respeito e cuidado com nosso patrimônio: encontrei esse vídeo no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=lE5lMb7DvNc

Acessem!!! : . (

sábado, 10 de abril de 2010

CIDADE ENCANTADA

Revendo meus arquivos encontrei um texto de Edgar Barbosa publicado no jornal A República de 13 de setembro de 1936 cujo título é CIDADE ENCANTADA. Ilustrei o texto com fotografias feitas por mim quando sobrevoei a cidade em um ultraleve.
Lendo o texto me transporto ao tempo de menino revendo brincadeiras e aventuras passadas e, mesmo assim, trago para o presente as colocações do grande mestre. A relação que faço entre passado e presente é muito atual, parece que foi escrita em nossos dias... O sol das manhãs continua esplêndido, o rio, apesar de morto, continua passando e a donzela continua adormecida esperando pelo príncipe encantado...

CIDADE ENCANTADA

Sempre que desperto a memória para a evocação das coisas felizes, é Ceará-Mirim o quadro que mais nitidamente aflora a superfície do lago onde o tempo sepulta as nossas reminiscências. Tenho dela a saudade mais doce e comovida e quando desta saudade preciso falar, sou dominado irresistivelmente pelo receio de não saber dizê-la. A sua presença em minha lembrança transforma em titubeios de menino todas as vezes que se ergam do meu coração.

É que Ceará-Mirim está entre as cidades como a Obliviou de Monteiro Lobato, que só tem por elas o passado. E o passado é uma história sempre emocionante e perturbadora. No entanto, nenhuma cidade esquecida e morta sugere como Ceará-Mirim, a impressão festiva de alegria e juventude. Dentro do meu pequeno Rio Grande do Norte ainda não vi terra mais moça e que mais sorria de esperança. Para onde se voltem os olhos de quem chega, a sua paisagem se oferece, risonhamente, convidando a um momento de ternura e tranquilidade. E por isso é que Ceará-Mirim tem a fisionomia bondosa e acolhedora que mesmo de longe seduz a quantos procurem recordá-la.




Evocando a amplidão do seu vale, a verdura estonteante dos arredores, o silêncio da sua velha e majestosa igreja, a poesia das estradas que palmilhei sem cansaço nem tédio, esqueço todas as ruínas de minha pobre cidade em cujas casas o sol das manhãs esplêndidas semeia ouro e o brilho das pedras preciosas. E então me lembro que Ceará-Mirim bem pode ser no Rio Grande do Norte, aquela moça encantada dos contos da Carochinha, que dormia na floresta à espera do príncipe que a viesse acordar.


Mesmo que o não seja, essa evidência não me desanima nem me entristece. De qualquer maneira a minha pobre cidade é sempre uma esperança que aflora e consola a velhice que me há de vir. Ela dorme, sim, no seio do seu vale exuberante, qual a donzela da floresta encantada. O rio passa, cantarolando como um apaixonado trovador, as cantigas que eu nunca mais ouvi. Pelas suas margens, que percorri em meus folguedos de menino, ainda se espraia, crespa e esvoaçante, a cabeleira verde das yaras. Logo depois da ponte principia a fileira de engenhos com o seu ajuntamento de palhoças, com seu cheiro de açúcar, com os seus canaviais rumorejantes. E eu tenho tanta saudade de tudo isto, que o meu desejo mais ansioso é ir dormir com a minha pobre cidade encantada o meu último sono, tendo na retina morta, como derradeiro quadro da vida, a sombra do seu vale, do seu rio e das suas manhãs esplêndidas, cheias de ouro e do fulgor das pedras preciosas.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CASA-GRANDE (Francisco de Assis Rodrigues)



Casa Grande do Engenho Carnaubal - 1º engenho de Ceará-Mirim - em avançado estado de deterioração e abandono

Símbolo da aristocracia no latifúndio chamado engenho, a casa-grande deixava clara a nobilidade, o poder, a riqueza, o mando e a influência do seu dono. Ela simbolizou, no Nordeste brasileiro, a economia do açúcar e gerou uma vida social característica de um ciclo, refeito nesta Região pelo declínio do ciclo do ouro. A ela estava associado o cenário das senzalas onde moravam os escravos.

Casa Grande do Engenho Cruzeiro (década de 1930) - atualmente está ruínas

Suas construções, algumas de expressivo valor arquitetônico, vieram de plantas de arquitetos europeus com predominância do estilo português. Em geral, quando possuíam dois pisos, eram chamadas de sobrados ou palacetes.

Casa Grande do Engenho Igarapé (Preservada)

Havia, na casa grande, destaque para as salas, denominadas de estar e de jantar, que eram, no geral, forradas de madeira, tinham piso de mosaicos vindos da Europa, madeira ou tijoláceas e eram decoradas com móveis europeus, espelhos venezianos, retratos de antepassados pintados a óleo e belas e densas cortinas de veludo ou damasco dourado. Na cozinha, lugar onde as relações sociais se tornavam amenas, conviviam a sinhá, as escravas, as tias solteiras, avós, primas órfãs, amas de leite e mulheres, às vezes livres, mas empregadas ou agregadas do senhor. Ali as amenidades de relações davam conta de todas as novidades e até das fofocas (à época chamadas chafurdos) de casamentos na justiça, gravidezes estapafúrdias e namoros proibidos no engenho e adjacências.

Casa Grande do Engenho Divisão - Demolida

É interessante ressaltar que todo o universo atingido pelos “olhos” da cozinha da sinhá era às vezes do seu conhecimento e, dependendo dos “atores”, de sua anuência. Aí, entre um cafezinho feito na hora ou uma porção de doce, as línguas davam conta de tudo que os olhos não alcançavam.

Casa Grande do Engenho Nascença (Preservada)

Com mando absoluto sobre toda a casa e sobre todo o feudo – o senhor do engenho – a ele a terra conferiu títulos nobilísticos e o caráter de dono da propriedade, dos escravos e das vidas. A ele o poder, o respeito e a justiça.


Casa Grande do Engenho São Francisco - Hoje Usina - em avançado estado de deterioração e abandono

No vale do Ceará-Mirim a casa grande do Engenho Guaporé, como tantas outras, foi símbolo e elo desta terra em suas mais sólidas relações políticas, sociais e econômicas, tanto no Estado como fora deste. Dali saíram estudos, idéias e decisões do Partido Liberal, ao qual pertencia seu construtor, Vicente Inácio Pereira – o segundo norte-rio-grandense a formar-se em medicina – deputado provincial, vice-presidente da província e jornalista.

Casa Grande do Engenho Guaporé - Hoje Museu Nilo Pereira - avançado estado de deterioração e abandono

Hoje essa casa, de estilo afrancesado, abriga o Museu Nilo Pereira – que recebe visitas de todos os que vêm ao Ceará-Mirim como turistas ou estudiosos do Estado ou da Região.

Lugar de grandes encontros políticos, sociais e religiosos, a casa-grande do Guaporé é exemplo de vestígios deixados pelo fausto em que se envolveu o verde vale do Ceará-Mirim, da segunda metade do século XIX à primeira metade do século XX.


Fonte: Ceará-Mirim, tradição engenho e arte - Sebrae - 2005








NOSSOS POETAS: ANTONIO GLICÉRIO

ANTONIO GLICÉRIO

Antonio Glicério teve apenas instrução primária. Mas, os estabelecimentos de ensino secundário foram substituídos pela tipografia de um jornal “A República”, onde trabalhou durante anos, como tipógrafo, e, em contato com escritores, poetas e cronistas, decifrando-lhes a caligrafia e lendo-lhes, em primeira mão, as produções, pôde dar expansão a sua vocação poética. Os seus versos reuniu-os num volume a que denominou Cantilenas que, por um paradoxo do destino e apesar de viver numa tipografia, não encontrou quem quisesse publicá-lo. Diz Ezequiel Wanderley em seu “Poetas do Rio Grande do Norte” que “se Deus o tivesse ajudado e a boemia permitisse, teria feito a publicação de um volume de versos, a que dera o nome de Cantilenas. Mas, no caso, a ausência da ajuda divina foi mais decisiva do que a boêmia.
Antonio Glicério nasceu em Ceará-Mirim, a 2 de julho de 1881 e faleceu na Vila de Santo Antônio, a 5 de junho de 1921. Era filho de Francisco das Chagas e Sancha Conceição.
MEU LIVRO
Oferecido à minha mãe, no meu dia natalício
Cantilenas... Meu livro. Minha vida
Em vinte e nove páginas gravadas...
Nele palpita um coração, e, em cada
Folha, se vê uma ilusão perdida...

Sem a luz imortal d uma alvorada,
Nem o aroma da flor, na haste pendida,
Ele encera somente a dolorida
História de minha alma angustiada...

Minha mãe!... Meu amor!... Doce estrelário
Que ilumina de afetos e conselhos
A escuridão do meu aniversário.

Guarda este livro, que te dou agora,
Branco – da cor dos teus cabelos velhos –
Sem perfumes de flor, sem luz de aurora.
Fonte: Panorama da poesia norte-rio-grandense - 1965 - Romulo C. Wanderley

quinta-feira, 8 de abril de 2010

COMENTÁRIO DE ROBERTO PEREIRA

Prezado amigo:

De logo, os meus saudares (um resgate ao português castiço) ao querido amigo de quem ando saudoso, notadamente da sua sensibilidade pelo vale do Ceará Mirim.

Você, no seu blog, enseja uma viagem aos arredores do passado, à aristocracia canavieira, esta a alma do Ceará Mirim que, assim, abre os seus braços aos visitantes/turistas ou aos estudiosos sequiosos por se inteirarem cada vez mais da vida de um Nordeste repleto de contradições, onde a elite, formada pela nobreza, não cruzava as calçadas com a pobreza, mormente com os escravos, sendo esta uma nódoa do Brasil que tanto empana a nossa história tão ligada à liberdade, ênfase para Pernambuco - permita-me essa digressão onde a Pátria para mim nasceu -, já que este estado se TORNOU AUTÔNOMO, em 1821, através da Convenção de Beberibe, um sim à Independência nacional, além da Revolução Republicana e Pernambucana de 1817, que se antecipou à República, da mesma forma que a Confederação do Equador, em 1824, que reuniu PE, o RN, a PB e o CE, venceu no DIA DO FICO.

É inimaginável ficar insensível às belezas e à diversificação dos estilos arquitetônicos dos casarões que foram a moradia da aristocracia aqui referida, e onde se encontra o Guaporé, onde meu pai, Nilo Pereira, passou a infância, mas já chegando na decadência da economia canavieira.

O solar onde hoje está a PREFEITURA DO CEARÁ MIRIM, cedido que foi num gesto largo de um primo meu, Rui Pereira, esplende bem a opulência de uma época pródiga e próspera.

Basta o exemplar belo e imponente da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, reconhecido como o maior templo católico do Rio Grande do Norte, e o Mercado Público Municipal, onde, vagueando por lá, saboreei a tapioca, o feijão verde com paçoca e a galinha caipira. O assunto pode encetar um capítulo seu: Sabores e saberes do Ceará Mirim.

São muitos os saberes acadêmicos, uns, de origem popular, outro, do nosso Ceará Mirim, cujo acervo de literatos honra e dignifica o NE brasileiro, num admirável ativo cultural. Diga-se o mesmo do artesanato, do folclore, dos folguedos e de brincantes que ainda hoje fazem a cultura ceará-mirinense.

Essa viagem remete também o leitor à gastronomia e à culinária do açúcar, à garapa e ao caldo de cana com pão doce, além dos derivados a exemplo da rapadura, do mel de engenho e do açúcar mascavo.

Admiro a tenacidade da gente ceará-mirinense que vem fazendo, há anos, por conta de suas inúmeras comunidades rurais, da agricultura a sua principal atividade econômica. Alias, ressalto também os assentamentos existentes na região, o que estimula a agricultura sobremaneira. Além da produção têxtil, da pesca e da agroindústria, realço o turismo que vem descortinando novos rumos ao Ceará Mirim. Impõe-se esse incentivo de forma mais açodada e profissional.

Há poucos anos obtive, junto ao SEBRAE/RN, recursos para o ROTEIRO DOS ENGENHOS, Tudo foi feito a contento. Entrementes, parece não ter saído do papel. Nenhuma cidade no Brasil tem a riqueza de engenhos e de história ligada à economia canavieira do que o nosso Ceará Mirim. E então? O que falta?

(O poeta João Cabral de Melo Neto dizia; “é mais fácil traçar no papel do que na vida”.) Esses roteiros somente serão viabilizados quando os agentes de viagens resolverem colocá-los nas suas “prateleiras”, nos seus “cardápios.” À consecução desse objetivo somente se houver esse enlace.

Lembro que PE, o RN e a PB formam a Civilização do Açúcar, iniciativa do SEBRAE/PE, assunto que foi tema de uma artigo meu no DIARIO DE PERNAMBUCO.

Por enquanto, Gibson, vamos caminhando com o desenvolvimento que se pode obter do esforço, e do "engenho e arte" da gente ceará-mirinense, passeando no seu blog que atende bem à cobiça dos visitantes e turistas, estudiosos, dos filhos de berço e dos adotivos onde me encontro por conta do DNA.

Desculpe-me a esticada deste e-mail, mas o assunto me comove e me conduz às reflexões eivadas de saudade do pai distante.

Parabéns, amigo!

Um forte abraço

Roberto Pereira.

COMENTÁRIO DE ORMUZ SIMONETTI

"O que realmente justifica a luta incansável pelo registro e valorização de nosso patrimônio histórico e cultural, são os comentários que vez por outra chegam - para servir como energia impulsionadora - nos fazendo caminhar com todo esse amor indescritível por essa terra tão querida. Obrigado ao amigo Ormuz pelo comenário e continue nos visitando."

Caro Gibson: acessei seu blog por recomendação de nossa confreira Lúcia Helena Pereira. Achei-o de muito bom gosto e interessante. Tenho por essa cidade um amor filial, pois nela vivi durante boa parte de minha vida. Cheguei nessa boa terra, vindo de Natal onde trabalhava no Banco do Brasil no ano de 1981, após sua inauguração. Vim por solicitação de primeiro Gerente da Agencia Sr. Nilson Segundo, com a missão de treinar um funcionário para atuar no como Fiscal da Carteira Rural. Era para passar um curto período de seis a oito meses. Encantei-me com a cidade, com seu povo, com o vale, os engenhos, e com os verdes canaviais. Resultado: adotei Ceará-Mirim como minha segunda casa. Permaneci nessa terra por 22 anos, até culminar com minha aposentadoria. Continuo cultivando os amigos e amando a cidade que tão bem me acolheu durante todo esse tempo. Pelo menos uma vez por semana, quando retorno de minha chácara, faço questão de almoçar na churrascaria do Junior. Sou o mais antigo e fiel cliente daquele estabelecimento, tendo acompanhado toda sua trajetória desde que deixou a Cerâmica e dedico-se ao ramo de alimentação.

Abraço,

Ormuz Barbalho Simonetti

Presidente de Instit. Norte-Riograndense de Genealogia.

Visite o BLOG:
www.ormuzsimonetti.blogspot.com

domingo, 4 de abril de 2010

UM GIGANTE SOBRE O VALE


UM GIGANTE SOBRE O VALE

I

Na Serra de Santa Rosa
Um fio d’água aflorou
Cortou sertão quente e seco
Passou por entre lajedos
E num vale se espairou.

II

Quem te viu em meses seco
Quase perdido no leito
Sobre várzeas colossais
Jamais te imaginou: furioso e roncador
Em cheias aluviais.

III

De tua margem esquerda
Como um Nilo Anordestado
Vens plantar a esperança
Com ares de confiança
Sobre um vale sombrançado

IV

De tua margem esquerda
Nascente a te alimentar
Águas azuis-verde-vida
Amuleto a consagrar.

IV

Na margem direita a Vila
Quieta e singular
Passárgada minha querida:
Paraíso potiguar


Francisco de Assis Rodrigues

MATRIZ DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

A MATRIZ DA IMACULADA CONCEIÇÃO (por Inácio Magalhães de Sena)

Ceará-Mirim município e matriz nasceu no ano de 1858 – quatro anos depois que o beato papa Pio IX proclama solenemente o dogma da Imaculada Conceição.
Foi o grande missionário frei Serafim de Catânia – nascido nessa cidade da Sicília e lançador da pedra fundamental do templo - o incentivador do culto a Nossa Senhora da Conceição. Essa devoção fez anular a dedicação a Santa Águeda, titular da casa de oração da rua Grande, cujo nome ficou consagrado ao cemitério.
A padroeira, Nossa Senhora da Conceição, teve sua imagem comprada “na cidade da Bahia” em 1858, mesmo ano da fundação, sendo de origem francesa e adquirida com doações do povo da vila. A imagem de Santa Águeda, hoje a mais antiga da matriz, foi doação da família Sobral, também fundadores do município. Uma imagem também antiga, a de Nossa Senhora do Rosário, foi doada à família Correia e, após uma geração, retornada à igreja. Outras belas imagens, em estilo mais moderno, ocupam os nobres altares; melhor mostrá-las que descrevê-las. Por doação de fiéis, diversas imagens tinham jóias de ouro ou prata – resplendores, brincos, trancelins e outros adereços religiosos – todas hoje desaparecidas. Não se sabe o nome dos padres que, com ou sem autorização dos bispos, se desfizeram desse patrimônio artístico.
Sem dizer detalhes das obras e do término da construção da matriz, existentes nos livros, venho destacar, dentre outros, alguns doadores do patrimônio paroquial, como o português Bento Viana, o coronel Onofre José Soares, o barão do Ceará-Mirim e o padre Antônio Antunes de Oliveira.
Louvo aqui, por testemunho pessoal, o senhor Milton Varela, grande benemérito da matriz. Lembro o monsenhor Celso Cicco, pároco da minha juvenfância, no encanto da festa da Padroeira e a magia do mês de maio, que afogava a igreja num mar de flores. Ah, a beleza da liturgia latina, chamando Nossa Senhora de tudo que é nome bonito!... A festa profana em torno da matriz, com cheiro de caju, carbureto e caranguejo, como dizendo que pobre e cachaceiro também são filhos de Deus.
Hoje, meu coração está traspassado por sete peixeiras, por ter a vida me expulso desse paraíso. E aqui gostaria de criar uma saudosa ladainha.
Hilda Varela Burity.
– Rogai por nós.
Dona Anita de Dr. Canindé.
- Rogai por nós.
Isabel Poty.
- Rogai por nós!
Idalina Correia Pacheco.
- Rogai por nós.
Gracilde Correia de Melo.
– Quero encontrá-las no céu!
Fonte: Ceará-Mirim, tradição, engenho e arte. Ed. 2005 - Sebrae

A VISITA DE DOM JOSÉ

Texto do livro “Oiteiro, Memória de uma Sinhá Moça” de Madalena Antunes - 1952

A VISITA DE D. JOSÉ

Ao descrever a religiosidade do povo de minha terra, lembrei-me de um fato ocorrido, quando Ceará Mirim recebeu pela primeira vez a visita de um bispo.
Embora fosse muito criança ainda, recordo-me dos comentários feitos. Se hoje os relembro, outro não é meu intento senão realçar num contraste, o progresso atual da nossa gente e a expressão adiantada de nossa mentalidade.
Ceará Mirim de hoje, no lugar do conterrâneo Nilo Pereira, “não é apenas uma cidade à margem de uma estrada de ferro, como se diz na simplificada niveladora dos compêndios. Ela é sobretudo uma cidade à margem de um vale; e nêste vale surgiu com o cíclo da cana de açucar a aristocracia rural, a família única dos senhores de engenho ― única pelos sentimentos, pela afeição à terra, pela grandeza do trabalho, pelas raizes morais e emocionais.”
A nossa terra de verdes canaviais será sempre olhada por seus filhos com magna emoção. E êsse aspecto da profunda admiração com que lhe recordamos os nomes e fatos ancestrais é uma prova de quantos somos dignos dela.
Tem razão Nilo Pereira:
“As cidades não morrem... Até mesmo quando caem em ruínas, salva-as do aniquilamento aquela alma fecundada que as revive.”
Há mais de sessenta anos, anunciaram os jornais e os sacerdotes nos púlpitos, a visita pastoral ao Ceará Mirim, do excelso representante da fé católica, o augusto bispo D. José da Diocese de Pernambuco, que abrangia Paraíba e Rio Grande do Norte.
Natal recebeu o príncipe da Igreja com extraordinárias e tocantes homenagens. E Ceará Mirim preparou-se também para a grandiosa visita.
A notícia percutiu por tôda parte, propagando-se com entusiasmo pela cidade e arredores atingindo mesmo os pontos mais longinquos do município, e afervorando as almas para a festiva recepção.
A distinção episcopal ia merecer uma consagrante demonstração de carinho. Nos caminhos de trânsito difícil, providenciaram-se medidas, recompondo pontes, desobstruindo rios, abrindo atalhos, de encurtamento à cidade, possibilitando o povo comparecer em dia aprazado à chegada de Sua Excelência, Reverendíssima, na santa paz do Senhor.
A cidade exultava.
Aprestavam-se comissões. As manifestações atingiram, por certo, proporções nunca vistas. O sucesso seria inevitável. E todos, sem distinção de classe, irmanados num único pensamento, só esperavam o grande dia.
Entre outras deliberações, foi aceito o fidalgo gesto de Alexandre Varela, nobre filho do Barão de Ceará Mirim, que ofereceu sua luxuosa caleça, para conduzir o eminente antistite.
Era o melhor veículo da quêles tempos adquirido na Europa, havendo apenas um similar em Recife. Para maior realce de condução, o bolieiro envergava libré. O Antonio da Gangorra, escravo de estimação dos barões, seria o condutor. Claro, alto, espadaudo, de barbas bastas, queixos rijos, braços compridos e mãos volumosas, desenvolvia grande esfôrço no ajustar-se ao casacão verde de botões dourados, da recomendável libré.
As botas a Luiz XV com palainas brancas e abotoadas por grampos metálicos prateados, também lhe davam que fazer. A cabeça suportava galhardamente, o bicudo chapéu alto e listado, com penachos multicores.
O seu maior sacrifício estava no calçar as luvas brancas,encarregadas de manter em atitude rígida as rédias dos corcéis, puro sangue, devendo segurar com elegância o chicote de vareta empalhada e sedosa, mal terminada em afilada e torcida correínha estalante.
Como aquela figura de bolieiro, com os seus bronquéis, ainda hoje se conserva nítida em meu espírito! Quem melhor do que êste heróico condutor de parelhas finas, de pescoço lustroso, colarinho alto, ressaltando a árdua responsabilidade do ofício, conduziria Sua Eminência com segurança à cidade dos verdes canaviais?
A multidão se apinhava pelas ruas, excitada pelo acontecimento inétido. Pelas avenidas embandeiradas, girândolas, música, autoridades, formatura da Irmandades, perfilamento de Oficiais da Guarda Nacional, agentes de Polícia e copiosa aglomeração de povo.
De tôda parte acorriam roceiros e tabaréus, ardorosos de verem um bispo, certamente diferente dos padres e do vigário, vestido de outra forma, andando de outro modo, até dizendo missa e abençoando de outro jeito...Tinha o povaréu rude uma noção diversa e espontânea das coisas. Ia, agora, ver de perto um bispo.
Inadvertido, incauto, impulsivo pela ignorância inculpável, superexcitado pelas emoções estranhas do momento, aquêle mundo de gente de fora d cidade e até vinda de outros municípios, deu lugar ao mais ridículo e desastrado incidente de que se poderia guardar memória.
Ao entrar a caleça do eminente D. José, em Ceará Mirim, pela Rua Grande, onde desembocava o caminho de Natal, viu-se o famoso Antonio Gangorra desapiado da boléia do carro que conduzia o bispo.
Uma onda humana, brusca e impetuosa, não lhe dera tempo de abrir a portinhola para sair o senhor bispo D. José que devia transportar a pé as ruas até chegar à igreja, abençoando o povo.
A multidão caiu sôbre o bolieiro, beijando-lhe as mão e clamando: Viva o senhor bispo! Viva o senhor bispo!
Em vão o homem se debatia nas garras do poviléu, tentando convencer o povo que não era o Bispo!
A Raquel, espôsa do Gangorra, presente, vendo o marido todo machucado, desvairada gritava:
― Minha gente! Êste não é o bispo! E’ Antonio, meu marido e o bolieiro de seu Xandú Varela!...
Enquanto isso, o Príncipe da Igreja, espírito culto e bondoso, mantia-se sereno, embora pasmado ante o espetáculo observado através dos vidros do pomposo “coupê”.
Usava o traje respeitável e austero, o solidéu vermelho e pendente ao peito, o cordel de ouro com o crucifixo rodeado de pedras preciosas...
Sentia-se, entretanto, numa cidade de comprovado e tradicional devotamento religioso, de criaturas finalmente educadas e de nobres princípios morais, tradições sociais e políticas, com filhos diplomados em Pernambuco, Baía, Rio, e no estrangeiro, uns a exercer profissões liberais e altos cargos administrativos, outros a serviço da Pátria.
(...)No dia seguinte estava anunciada a visita do bispo a Ceará Mirim. Frequentes rápidos aguaceiros, demoravam por alguns minutos a partida, até que S. Excia. Revma. Para não alterar o programa de sua viagem, depois de agradecer as obsequiosidades dos cavalheiros que o acompanhavam até à corôa, montou a cavalo e partiu com a comitiva.
Esta compunha-se de seu secretário, do padre José Alexandre, vigário de Ceará Mirim, do autor destas linhas, de um criado particular, um pagem e um guia.
Às 9 horas da manhã chegava a pequena comitiva à passagem da vila de Extremoz. Às duas montou a cavalo novamente e partiu lançando uma benção ao povo. O caminho que vai de Extremoz a Ceará Mirim é um deserto. Nem uma casa, nem uma palhoça, nem um albergue qualquer. São 24 quilômetros de fastidiosa monotonia; nunca, porém, por aquelas paragens atravessou tão elevado número de cavaleiros em uma hora dada.
As turmas sucediam-se umas às outras, sem interrupção. Trinta e três cavaleiros partiram de Extremoz e ao chegarem ao Ceará Mirim contavam-se mais de 250.
Às cinco horas da tarde S. Excia. Apeava-se à entrada da cidade onde o juiz de direito, doutor José Inácio Fernandes Barros e doutor Vicente Inácio Pereira o esperavam com suas respectivas famílias e outros cavalheiros.
S. Excia. Foi convidado a ocupar um belo “coupé”, a que estavam atrelados duas parelhas de lindos cavalos e fazer nêle sua entrada na cidade. O doutor Barros recebeu e hospedou em seu palacete o Bispo, que era ao mesmo tempo seu padrinho e amigo.
Ao entra ali S. Excia. Foi recebido por uma comissão de distintas senhoras que sôbre êle arremessaram uma saravaida de flores. A hora do jantar foi solene.
O que o luxo e o bom gôsto podiam reunir em um banquete no Ceará Mirim estava ali patente em uma mesa de 24 talheres. Era um banquete principesco. A mesa estava em forma de “T”, e a cabeceira, que representa a haste superior e horizontal, era ocupada por S. Excia. Tendo à sua direita a respeitável Sra. Baronesa de Ceará Mirim e à esquerda a distinta consorte do Sr. Doutor Barros, digna filha da Exma. Sra. Baronesa.
O doutor Barros fêz o brinde de honra ao Sr. Bispo. Foram quatro palavras eloquentes que abrangiam as virtudes e predicados do ilustre hóspede e afeiçoado padrinho; e S. Excia., mostrou-se sensível no agradecimento ao generoso anfitrião e particular amigo.
Seguiu-se então, não menos expansivo e não menos brilhantes, o do Sr. Vicente Inácio Pereira, ao qual S. Excia. Retribuiu com igual soma de afeto e cordialidade.
Cruzam-se outros brindes. Chegou a S. Excia. Ocasião de levantar o último brinde e como sempre o consagrou a S. S. Leão XIII e a S. M. o Imperador.
Era a fé e a lei que êle saudava e não faltou o sentimento de entusiasmo para aplaudí-lo.
A música em frente do palácio, também exibiu-se no hino nacional e às 9 horas e meia terminou o jantar. Pela manhã do dia seguinte, S. Excia. Revma., revestido episcopalmente, precedido das irmandades e acompanhado de uma multidão superior a 4.000 pessoas, sob o palácio, seguiu para a matriz cuja capela-mor estava decorada para a recepção do Bispo, graças aos cuidados e zêlo do vigário José Alexandre.
S. Excia. Fêz ali sua entrada solene. Terminaram as cerimônias com o “Te-Deum Laudamus”.
À tarde houve crisma. Foram oito dias de festas. As comissões sucediam-se umas às outras trazendo ao conhecimento do ilustre prelado fatos, todo agradáveis. Agora era a mocidade que falava pela bôca do seu orador doutor Matias Maciel, depositando nas mãos de S. Excia. Revma. Uma carta de liberdade em honra sua; logo eram os artistas que faziam intérpretes dos seus sentimentos ao Sr. Doutor Augusto Rapouso da Câmara; depois era a comissão de festejos, ou a Câmara Municipal que rendia preito de homenagem a S. Excia. Revma. Trazendo à sua frente como orador o doutor Meira e Sá.
Para maior realce da festa organizavam-se comissões que com maior empenho procuravam agenciar pecúlio suficiente para fazerem-se libertações.
O germen do cativeiro já ia murchando como flor venenosa. Nesta diligência distinguiram-se principalmente os srs. Capitães João Pacheco, Enéas C. de Vasconcelos, negociante Torquato Câmara e outros.

O BOI DE REIS DE MATAS


Pátio da Capela de São Geraldo em Pedregulho

O BOI DE REIS DE MATAS

No dia 19 de março de 2010 fui convocado pelo Mestre Luis Chico para comparecer na comunidade de Matas, no Assentamento Pedregulho, afim de participar da apresentação do Boi de Reis durante o encerramento das festividades de São José. Não tinha como faltar ao "apito" do Mestre!!!
Já se passaram alguns anos desde que tive a honra e a grande satisfação de conhecer o Mestre Luis Chico. Lembro-me que fazia um trabalho para uma parenta dele e ela trouxe algumas fotografias de uma apresentação do Boi-de-reis na comunidade de Matas.

Chegada dos Galantes do Boi de Reis

Na ocasião não me chamou muito a atenção, no entanto, quando me aprofundei no trabalho, percebi que aqueles personagens da fotografia me lembravam o tempo de infância quando assistia, nos anos 1970, o boi-de-reis desfilar no carnaval de Ceará-Mirim, juntamente com as tribos indígenas, os cabocolinhos, bambelô, os blocos de rua, etc.
Em 2000 resolvi fazer uma visita ao Mestre e fiquei impressionado com sua simplicidade. Aquele homem tinha uma sabedoria impressionante. Na medida em que íamos conversando minha admiração aumentava cada vez mais e, a partir daquele dia, ficamos amigos e, sempre que posso, vou ao seu encontro enriquecer-me com sua sapiência.
A história do Boi-de-Reis no Rio Grande do Norte, segundo o folclorista Deífilo Gurgel, remonta aos festejos que em Portugal e no Brasil marcavam o ciclo natalino nos séculos passados e ao desenvolvimento da pecuária nordestina, determinando o surgimento de todo um complexo cultural que favoreceu, sobremodo, a evolução do folguedo, nos seus estágios mais primitivos.


Apresentação da figura da Burrinha

Era um Auto hierático do ciclo natalino e vinculava-se, em suas origens, aos Ternos e Ranchos que, nos séculos passados, percorriam as ruas de nossas cidades, visitando as residências de pessoas amigas, onde, recebidos com lautas ceias, cantavam e dançavam, comiam e bebiam tudo em louvor ao nascimento do Messias.
Os Ranchos ou Reisados apresentavam-se sempre conduzindo um animal de fantasia e tomavam os mais variados nomes, sob a invocação desse animal ou de planta ou ente fantástico que levavam. Havia assim o reisado da Borboleta, do Maracujá, da Caipora, etc.

Apresentação da figura encantada do Jaraguá

No Nordeste brasileiro, devido ao desenvolvimento da pecuária, determinou o surgimento das mais variadas manifestações e influências em nossa cultura popular. Os Reisados sempre encerravam com a exibição da figura do Boi, por isso, sua supervalorização entre as manifestações populares nordestinas.
Luis da Câmara Cascudo, em suas pesquisas, considera que as Tourinhas portuguesas teriam sido o marco inicial, a influência mais significativa do Auto do Boi. Elas consistiam em uma pantomima em que um rapaz, metido numa armação de cipós, recoberta de pano, imitando um touro, corria atrás de seus companheiros para atingi-los, numa tourada de brincadeiras.


Apresentação da principal figura, o Boi

A primeira notícia do Bumba-meu-boi data de 1840, publicada no jornal O Carapuceiro, escrita pelo padre Lopes Gama. Naquele tempo o folguedo era considerado brincadeira da ralé.
O Bumba-meu-boi é um auto popular com bailados e cantos, tratando de assunto religioso ou profano, representada no ciclo natalino (dezembro e janeiro). A este tipo de espetáculo ou folguedo Mario de Andrade denominou dança dramática, em contraposição às danças puras, que não apresentam qualquer encenação teatral. O Bumba-meu-boi é a representação da morte e ressurreição do próprio animal.


Mestre Luis Chico



A história do Boi-de-reis em Ceará-Mirim, provavelmente, se inicia com o desenvolvimento da economia canavieira, pois, há relatos de grupos existentes nos velhos engenhos primitivos.
O folguedo existente em Matas é remanescente de antigos grupos que existiam na ribeira do rio Ceará-Mirim entre as comunidades de Capela, Matas e Mineiros. Ele surgiu no início dos anos 1950 com a chegada de um taipuense que fazia a figura do Mateus e montou o grupo cujo primeiro Mestre chamava-se Zé de Rosa.
A partir de 17 de maio de 1957, com a saída do Mateus, o senhor Luis Chico assume o grupo e, também, a figura do Mateus, passando a liderar seus marujos até os dias atuais. Durante esses 53 anos o folguedo tem enfrentado as mais variadas dificuldades, desde a morte dos velhos marujos até a desvalorização do brinquedo pela sociedade e, principalmente, pelo poder público que não viabiliza oportunidades para a sua preservação.
Apesar de todas as dificuldades o Mestre Luis Chico tem sido um verdadeiro Herói na condução de uma tradição tão importante para a história e cultura de nosso município.
O Boi-de-reis é formado por personagens humanos, animais e seres fantásticos. Os humanos são o Mateus, O Birico, Nanã, os Galantes e as Damas. Atualmente os animais são a Burrinha e o Boi e representando os seres fantásticos, o Jaraguá.
Todos os participantes diretos são do sexo masculino. Os personagens femininos são rapazes ou meninos travestidos. É o caso da Nanã e das damas.
Atualmente o folguedo tem sofrido muitas transformações, principalmente no que diz respeito às figuras, pois já não existe tempo suficiente para suas apresentações. As encenações que havia durante o evento, também, foram abolidas, pois a duração fica em torno de vinte a trinta minutos, o que impossibilita desenvolvê-las plenamente, principalmente a moagem do engenho e a matança e ressurreição do boi.
A representação do boi, atualmente, limita-se a danças e cantigas, como as cantigas de abertura, compreendendo saudações e louvações aos “donos da casa”, ao Messias, pelo seu nascimento e aos Santos Reis; loas declamadas pelo mestre e pelo trio de cômico, Mateus, Birico e Nanã; apresentação das figuras da Burrinha, Jaraguá e o Boi e as cantigas de despedidas.
Os enfeitados do boi são o mestre, as Damas e os Galantes. Eles se apresentam festivamente vestidos, cantam velhas cantigas religiosas, louvações e saudações, além de tradicionais baianos. O Mestre é o responsável pela brincadeira, é a pessoa que contrata as apresentações e convoca os componentes do grupo para os ensaios.
Os Galantes, em numero de quatro, vestem-se de maneira idêntica ao Mestre. Durante a representação, dispõe-se em duas alas ou cordões e realizam evoluções, cruzamentos, meias-luas, etc. As Damas, em número de duas, são meninos de dez a doze anos, travestidos de mulher.
A figura principal do folguedo é o Boi. É o último que se apresenta. Depois que ele sai de cena, cantam-se as despedidas.
No último dia 19 de março fui à comunidade de Matas, no assentamento Pedregulho, juntamente com o pessoal do Ponto de Cultura Boi Vivo (João Lins, Bianca e Lenilton) onde, assistimos e registramos a apresentação do Boi-de-reis que encerrava as festividades do padroeiro São José. Quando terminou a Novena toda a comunidade ficou para prestigiar o evento. O mais impressionante foi a participação de todos os presentes acompanhando e aplaudindo os bailados cantados pelo mestre Luis. Crianças e adultos prestavam atenção aos movimentos e encenações representadas pelas figuras do folguedo.


Os brincantes do Boi de Reis, eu e a equipe do ponto de cultura Boi Vivo.

Em 2008 fui procurado por um amigo contemporâneo do tempo que estudava na UFRN, João Lins, teatrólogo e arte-educador, habilitado em artes cênica. Ele estava organizando, com outras pessoas, um ponto de cultura, cujo fim era a revitalização e preservação dos grupos de Boi-de-Reis existentes na grande Natal. Na oportunidade ele perguntou o que podia ser feito para incluir o Boi de Matas e, prontamente, procurei Mestre Luis e falei sobre o projeto do ponto de cultura Boi Vivo e da possibilidade de fazermos uma parceria que seria muito significativa para o fortalecimento e preservação do grupo.
No início de 2010 João Lins procurou-me e solicitou que marcássemos uma reunião, com o pessoal do Ponto de Cultura Boi Vivo, afim de que pudessem conhecer a comunidade de Matas e iniciar os primeiro contatos com os brincantes do boi. A partir desse momento, foram discutidos alguns detalhes sobre o projeto e as oficinas foram iniciadas.
O objetivo do “Boi Vivo” é, durante três anos, realizarem várias oficinas em que os brincantes do boi terão oportunidades de participar de aulas de músicas manuseando diversos tipos de instrumentos, aula de dança para aprimorar a expressão corporal, aulas de confecção de figurinos e finalmente, fechando o ciclo, será produzido documentário sobre o folguedo.
Nesse período o Boi Vivo estará auxiliando o Mestre Luis e seu grupo, o que proporcionará muitos contatos com outros grupos e com algumas instituições fazendo com que sejam conhecidos fora da comunidade e, também, possam participar de eventos dentro e fora do Rio Grande do Norte.
Acredito que a contribuição do Boi Vivo proporcionará muitos momentos de felicidades para a comunidade de Matas, principalmente, porque, certamente, eles deixarão a semente do respeito e da valorização plantadas nos corações e nas mentes daqueles que ficarão ligados às atividades culturais e reflexivas, cujos focos principais são: o fortalecimento, o revigoramento, a revitalização e, acima de tudo, a preservação de uma manifestação popular secular de nosso vale, vale que viu tantas tradições serem levadas pela fuligem de chaminés esquecidas.