sábado, 12 de dezembro de 2009

MANHÃ VERDE CINZA

11 de Dezembro de 2009... O centenário de nascimento do menino Lauro!!! Nascido no engenho Verde-Nasce e levado pelo vento às terras Guararapes.
Cada vez que leio a obra de Nilo Pereira descubro uma nova paisagem real e sentimental que faz visualizar um Ceará-Mirim totalmente emocional, cujo destino, sempre, está carregado de nostalgia e quimera, no entanto, sinto cada vez mais um anseio de coragem e disposição para manter o desejo de protegê-la do esquecimento.
Nilo Pereira escreveu em suas memórias, passagens pela cidade que tanto amou. Esse texto aqui reproduzido é parte de um capítulo de seu livro Rosa Verde publicado pela editora da Universidade de Pernambuco, em 1982.

A MANHÃ VERDE-CINZA

Lauro voltava sempre à sua velha cidade. Ia conferindo os lugares da infância. Vendo e revendo, que não é ver novamente, mas ver por dentro. A paisagem crescia de tamanho sentimental vista de longe. Esse era o segredo da dimensão romântica.




Estava na Matriz, diante do altar de Nossa Senhora da Conceição. A Virgem olhava para ele e ele a via com olhos de menino. O menino que acompanhava a avó nas missas dominicais. O menino que fez parte da Conferência de São Vicente de Paulo.
A Matriz lhe trouxe recordações. A festa de Nossa Senhora da Conceição nunca lhe saiu da lembrança. Vivia ansioso que chegasse o dia 08 de dezembro. O altar iluminado. Ela com uma coroa de estrelas. O Ceará-Mirim em peso na igreja. Do lado de fora barracas. A charanga tocando. O povo aos pés da sua padroeira.
Ali também estava um pouco do menino que começava a sentir palpitações diferentes no seu coração ingênuo. Candinha, uma das namoradas, não tirava os olhos dele. Em casa, diante do espelho de moldura dourada, passara cosmético no cabelo, que ficava de um negrume quase feroz.
D. beatriz costumava dizer:
_ Nem parece que teve os cabelos louros. Para que tanto cosmético?
Estava na moda. Candinha gostava de ver o cabelo assim negro, correto, brilhante.
O próprio Lauro, ao ver as tranças louras que sua mãe lhe mostrara, quase nem podia acreditar que fossem dele.
A festa da padroeira reunia a cidade e o vale. Era grande o movimento. A cidade saía da sua madorra habitual, movia-se, agitava-se, como se estivesse impelida por um gênio diferente: era a devoção tradicionalmente popular.

Fotos de Gibson Machado

Estando ali na Matriz, de volta ao seu cenário de adolescência, Lauro lembrou-se de que nunca havia subido às torres do velho templo. Dizia-se que não se podia ter maior nem mais larga visão do vale.
Ele subiu. A escada tremia no seu abandono de muitos anos. Muita gente havia passado por ela, galgando aquelas alturas para ter o seu deslumbramento. Agora era a vez de Lauro. Lá em cima escreveria o seu nome, como tantos outros escreveram. E, depois, diria a Candinha a sua aventura, que ela reclamava há muito tempo.
Eis diante do menino – embora já homem feito – o panorama maravilhoso.
Caía sobre o vale uma neblina transparente. O verde era cinzento. A manhã verde-cinza.
Os olhos do menino se alongavam sobre o vale, coberto de névoa misteriosa, que quase escondia os engenhos e as usinas. Ele estava no alto das torres. A visão se alargava. Vinha do Gênesis. A cidade, aos seus pés, parecia dormir. Lá adiante, no verde escuro da paisagem sonolenta, uma tradição parecia morrer.
O Guaporé, imerso na neblina, sonhava a sua grandeza morta. Tudo fechado. Onde estavam aqueles que povoaram a casa-grande abandonada. Por que esse castigo se abatera sobre aquela solidão?
Não havia resposta para essas perguntas. O tempo era o tecido que se esgarçava com a neblina fina inconstante e lírica, que compunha o cenário bíblico.

Tudo era sereno, Lauro compreendeu, então, que só o mistério é capaz de vencer o tempo. Por isso a ficção é mais do que a realidade. Aquela neblina era a fantasia; a realidade que ela escondia se mostrava na evidência plena do sonho, da imaginação criadora, que é um momento de Poesia e de Amor.
Lembrou da sua infância. Das cheias do rio Ceará-Mirim. Das caminhadas a pé pelo vale. Dos cambiteiros dos engenhos. Os escravos. As mucamas. As amas-de-leite. Os cocheiros de velhas caleças senhoriais. Amores que foram felizes ou infelizes. Preces que subiram aos céus em,m noites de angústia. O sofrimento de uma gente – pobre ou rica – que arfava na densidade úmida do nevoeiro.
Sentiu-se um exilado. Havia alguma coisa que lhe feria a alma. Era a saudade, talvez. Talvez a ânsia de voltar. De nunca ter saído.
Mas também pensava que o exilado vê melhor quando volta. Os que nunca saíram, não sentem o impacto da beleza, mesmo quando essa beleza seja tão extraordinária.
A paisagem era aquela que Lauro tinha diante dos olhos. Apenas, a manhã acontecia diferente. Havia muito sortilégio naquilo tudo, que adormecia ao palor das horas indecisas.
Como se não faltasse nada mais para a vida daquele quadro ancestral, os sinos dobraram. Tinham um som langoroso, espaçado, ritual. Anunciavam alguma coisa. A neblina servia de lençol para encobrir e proteger as coisas vulgares. Tudo era grandioso.
Para os velhos engenhos Lauro volvia a sua emoção, na manhã bíblica. Estavam adormecidos. Era um domingo. As chaminés não tinham fumaça. Os que vieram para a missa das nove horas, celebradas pelo Cônego Celso Cicco, já haviam voltado aos engenhos e às suas casas, na “rua”.
Lauro fixava os seus olhos na casa-grande do engenho Guaporé. Via-se a si mesmo, na calçada, correndo de velocípede.
O rio Ceará-Mirim estava seco. Nem parecia o deus rugindo nas cheias do ano passado. Por onde andavam as lavadeiras, que vinham com as suas trouxas de roupa e se entregavam à sai faina?
A beleza da manhã impedia qualquer pensamento menos devoto. Lauro estava arrebatado pelo feitiço da aparição. Perdia-se gostosamente naquele espaço imenso, solitário e mudo. E sabia que, ao deixar a cidade, levaria consigo a carga emocional daqueles instantes de fuga, preparados por Deus.
Despediu-se do vale, já que estava no alto das torres da Matriz. Teve lágrimas piedosas diante de tudo. Trazia consigo o segredo maravilhoso da sua cidade encantada, um reino fabuloso, onde a infância era a grande força do tempo e a poeira da eternidade.
Aquele não era propriamente um dia de chuva. Era um dia de penumbra. Macio e idílico. O menino nascido no Verde-Nasce se preparava para voltar. Nunca se sentiu tão preso á sua terra e à sua gente como nesse momento. De regresso a Natal, enquanto o nevoeiro se diluía, ele pensou que não veria mais o Ceará-Mirim assim tão misterioso e poético.
De fato, nunca mais viu. A manhã da criação era somente aquela. Não se repetiria. Como não se repetiu a manhã em que Deus criou o mundo e o verbo se fez carne.

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