segunda-feira, 5 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DISCURSO DE FRANKLIN MARINHO PELOS 150 ANOS DE CEARA-MIRIM


Revendo alguns arquivos, encontrei o discurso de Franklin Marinho quando era inaugurado o obelisco em homenagem aos 150 anos de Ceará-Mirim. Segue fragmentos da emoção e romantismo deste cearamirinense que ama sua terra e, dela, se apartará, quando chegar sua viagem final.
Faço questão de republicar o texto, porque no futuro, os saudosistas ou interessados pela nossa história conhecerão e/ou lembrarão do evento e das palavras brotadas do fundo da alma de um “velho” sonhador que procurou a vida inteira sua “Manhã da Criação”:
Há 50 anos eu assisti o centenário de Ceará-Mirim (...); Numa noite como essa, dos 150 anos, vir à Ceará-mirim contar algumas coisas no tempo curto, porque eu gosto de falar sobre Ceará-Mirim a noite toda, o dia todo, relembrar tudo isso, mas, é aqui na rua grande, a rua do início, onde se escuta bem a usina apitar, o trem chegar, o botador d’água de outrora, quando fecho os olhos e vejo ele passar, passou, como o açoite do chicote do cambiteiro, cortando o vento, com sua ponta de linha. O cheiro do açúcar tomando conta da atmosfera do município, o comércio satisfeito com a moagem da Usina, que a nossa vocação é canavieira, é relembrar, as pessoas que por aqui passaram, que sem pensar que isso aqui um dia ia ser tão belo e bonito, e prepararam isso com tanto amor para que hoje possamos pisar com tanta satisfação numa terra tão promissora, de um povo bom e hospitaleiro.
Falar de Ceará-Mirim é relembrar Café Filho, que conviveu aqui. Onde, ainda hoje, resta uma sua afilhada na rua Manoel Varela, Lizete, com oitenta e tantos anos, afilhada de Café com Dona Jandira.
É aqui nesse trem onde as autoridades de antigamente passavam para o sertão, era o trem que trazia do sertão, o sertanejo faminto de água, chegando na estrada velha, na estação velha, descendo do trem, olhando o olheiro imperial com as suas águas jorrando, eles lavando os braços e o rosto, com a inveja de não ter na sua terra, uma terra promissora como essa do Ceará-Mirim.
É olhar o Ceará-Mirim dos velhos juris, como falei essa semana, dos grandes advogados, aula importante para quem gostava de apreciar os presos descendo, entre quatro soldados, como se fosse um desfile e o povo nas esquinas olhando, mas, lembrar Ceará-Mirim é relembrar a velha Matriz com as missões de Frei Damião.
Relembrar Ceará-Mirim é relembrar nosso vale preto, descoberto pelo português e achando que nesta terra charcosa e molhada, a única agricultura possível seria a cana-de-açúcar. Vem daí a idéia da industrialização do engenho no cangote de besta, se modernizando pelo carnaubal em 1846. Com as moendas horizontais vindas da Europa, da Inglaterra, onde o povo dizia: “O engenho é novo, é de dona Mariana se arrocha negro que o caboclo bota a cana”, daí pra frente, a industrialização foi à passo sério, chegando a Umburana onde as moendas, a vapor, não foram colocadas por que faltou técnicos em 1856, mas, a BICA, a Santa Terezinha de Ubaldo passava a funcionar com o Engenho a Vapor. A São Francisco tomava conta da Usina, a Guanabara fechava, nascida em 25 e fechada em 45. Ubaldo abria a Santa Terezinha em 47 e fechava em 55, foram crises e mais crises, mas a Indústria sobreviveu (...).
Ceará-Mirim teve o privilégio do Barão, um dos quatro barões do Rio Grande do Norte, Ceará-Mirim teve o Manoel Varela do Nascimento na nossa aristocracia, aristocracia da guarda nacional criada pelo império, porque o império começava a se divorciar do povo pelo tamanho do país. A nobreza se tornando importante demais criou a guarda nacional. Você vê as ruas com o nome de Coronel fulano, Major fulano, coronel da guarda nacional, que foi extinta em 1918 pela República.
Aqui fizemos história, daqui saíram muitos, gente de ceará-mirim, da nossa aristocracia, por falta de escolas em Natal, por falta de escolas em Ceará-Mirim, foram buscar o saber e  aí fizeram o nome do Ceará-Mirim. Hoje procura-se São Paulo para buscar emprego. Muitos daqui, naquela época, na estração da borracha, procuraram o Pará, como Juvenal Antunes, que saiu agora na televisão naquele seriado Manaus. Em 1947 faleceu Juvenal, o grande poeta, mas foi os Meiras, saídos do Diamante, do Livramento, diamante das águas cristalinas, que foram para o Pará erguer a bandeira do Ceará-Mirim. Governando o Pará. Indo para o Senado da República no Rio de Janeiro, Dr. Augusto Meira, autor do hino do Rio Grande do Norte de 1929, foram histórias, foi Nilo, que saiu de Ceará-Mirim menino, foi pra Pernambuco ser secretário, ser deputado, ser escritor, acadêmico de Letras, quando os acadêmicos diziam que o Egito está pra o Nilo como o Nilo está para Ceará-Mirim, eram os homens que levaram o nome da nossa terra, já que não puderam ficar aqui no nosso vale, mas, não se esqueceram da beleza dessas manhãs frias do vale, lá eles escreveram, eles levaram o nome como Rodolfo Garcia, saído daqui menino, se perpetuou o historiador da historia do Brasil, tendo seu retrato em várias academias de Letra do Brasil. É tanta gente que nem lembro tanto, mas, não são só os nomes importantes, mas tem os que aqui ficaram, Mané rebequinha do Olheiro, analfabeto, vigia, bêbado, dizendo versos, mas, não escrevia de analfabeto, e eu também ouvia, mas num me lembro mais para escrever não me lembro mais dos versos de Rebequinha. É Amelia Barroca morando acolá, de família tradicional, malcriada, dizendo desaforo a todo mundo, mas, tem uma tradição de história. Era Mandinga, que nos nossos carnavais no frevo quebra de asa, é os caboclinhos, era Manoel Droga no pitoco, os caboclo tá no oco e Mané Droga no Pitoco, tocando na gaita, virando bicho,  quando era Sexta-Feira de Meia Noite, o povo dizia. Eram os pastoris de Vitalino (...).
Essa beleza, misturando-se com a aristocracia da terra, a aristocracia vibrava no vale pela sua condição do poder econômico a cidade era mais um tipo de favela e o povo do pátio do mercado ficava a admirar o vale olhando o casarão do museu tantas luzes, tantos faróis e tantas acesas, que ali ficavam admirando, é a negra Raimunda que em 1877 na grande seca, vinda do sertão, com os filhos morrendo, doou os filhos todos. Dr. Barroca mandou ela ser, na Inglaterra, a cozinheira dos seus filhos. Raimunda fez história, Nilo Pereira a chamava Vitoriana por que ela viu a Rainha Vitória passar numa esquina. Voltando a Ceará-Mirim ensinou inglês a Nilo Pereira e Edgar Barbosa. Raimunda uma história bonita do Verde-Nasce.
Quanto tempo se passou, tanta história que eu havia assistido nesse tempo de vida, eu gosto tanto desta terra, que eu não bebo, não farreio, mas sou um boêmio das noites, perambulo por essas ruas no sereno da madrugada, vendo minha cidade dormir, às vezes, acordo cedo para ver o Ceará-Mirim despertando, isso para mim é uma satisfação, é uma vida, é uma vivência (...).
A maior festa social do Ceará-Mirim, que para mim é feira, 52 dias do ano, onde se encontra o povo do leste e do oeste, discutindo ferro de gado, gado sumido. Andar na feira de camarão, onde tem caldo de cana, tem galinha comum, galinha pé seco, e ninguém pede pra entrar nem pra sair e, lá, se discute de tudo. Eu sou um freqüentador assíduo, sem nada ter com a feira, eu entro e saio, entro e saio o dia todo, vocês me desculpem a extensão do meu discurso, das minhas palavras, é a emotividade, obrigado.

Nota do blog: Próxima semana iniciarei as gravações para registro de memória do confrade Franklin Marinho. Serão muitas fitas, histórias e causos.

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