sábado, 24 de abril de 2010

MEMÓRIA DE ILHA BELA (por Clea Bezerra de Melo Centeno)

A leitura de Dever de Memória, livro publicado por Cléa Bezerra de Mello Centeno, em 2005, levou-me a refletir sobre a situação em que se encontra a extinta comunidade de Ilha Bela: quando entramos no fantasmagórico povoado não localizamos mais as residências que tantos filhos ajudaram no desenvolvimento sócio-cultural e econômico de Ceará-Mirim. As identidades daqueles que ali nasceram foram abocanhadas pelos dragões da ganância e do progresso; uma verdadeira falta de sensibilidade e compromisso com a história e a cultura de uma população genuinamente “ilhabelense” porque são filhos daquela terra, como provavelmente, os foram os remanescentes indígenas, Saquetes e Costa Silva à época do Barão Manoel Varela do Nascimento. Anteriormente o Barão comprou suas terras - Ilha dos cavalos - para desenvolvê-las junto aos seus descendentes quando construiu um verdadeiro império açucareiro, proporcionando vários empregos para várias gerações.
A comunidade de Ilha Bela não existe mais. Restam apenas as ruínas da Usina construída por Ubaldo Bezerra de Melo, pai da autora do livro, entre os anos 1934 e 1940. O monumento permanece testemunho de um ciclo áureo, esfinge canavieira, guardando, junto aos seus fantasmas e sobreviventes, segredos e lembranças de um período nostálgico.

A autora Cléa Bezerra em suas memórias destaca cada detalhe do que foi sua inesquecível Ilha Bela:

“Ilha Bela tem uma localização privilegiada. Sua posição central, em relação ao conjunto dos engenhos circundantes, permite – a quem alcança o seu ponto mais elevado, conhecido como alto – descortinar o verde intenso do canavial, estendido na vastidão da paisagem que inspirou o nome, tão bem posto, de Ilha Bela.

A Ilha pertenceu ao Barão de Ceará-Mirim, Manoel Varela do Nascimento, e a seus descendentes diretos. Até 1946, existiam, no alto, as ruínas de uma casa-grande com capela, vestígios da época de esplendor que floresceu em Ceará-Mirim, no final do Império, quando culminou o poderio político e econômico dos senhores de engenho, no período áureo do açúcar (...).

(...) Durante as férias e feriados, eles viajavam de trem para Ceará-Mirim, acompanhados de tios e primos que gostam de participar da alegria do passeio. O motorista os espera na velha estação, para conduzi-los, de carro, até Ilha Bela. Era sempre emocionante avistar o canavial ao entardecer, contemplar o verde do vale, respirar o ar fresco que trazia, com o cheiro da cana, a sensação de que estavam chegando para o reencontro com a ansiada casa de Ilha Bela – lugar onde viveram anos felizes de sua infância e adolescência!Da casa, eles lembram tudo: salas amplas, quartos aconchegantes e um grande alpendre nos fundos, com linda vista para o canavial.

O visual da sala é modesto e parece destoar dos móveis vindos de Natal, de estilo mais requintado: sofás de couro, cadeiras de balanço, birô enorme, rádio antigo... As paredes despojadas expõem, num plano bem alto, os retratos das avós Idalina e Amália, do Tio Abelardo e de Cléa, com dois anos.

As janelas da frente mostram a usina, lá embaixo, com a enorme chaminé ao lado e tudo que existe nos arredores: o escritório, a balança, os troles carregados de cana, o barracão, a pensão de Martinha e o aglomerado de casas dos moradores que se alinham em direção da porteira, estendendo-se pela estrada. Logo à direita da casa, o alto amplia as dimensões da vista até a linha do horizonte...A arcada que divide as salas, facilita a visão da sala de jantar com os móveis pesados e a grande mesa no centro. É sempre uma mesa farta e, durante as refeições, fica repleta de familiares e convidados. Os quartos ocupam, dois a dois, as laterais da casa: de um lado, ostentam longos cortinados brancos envolvendo as camas de solteiro; do outro, um grande véu sombreia o quarto de casal, todo revestido de filó (...).

Cercado de várias dependências, o alpendre é a alma da casa! Nesses espaços, os serviços domésticos se realizam numa rotina agitada, deixando impressões na memória que, até hoje, fazem recordar pessoas queridas. Popô é uma delas: chega por ali, de turbante branco, apressada e sorridente, muito disposta para recomeçar a tarefa diária de engomar a roupa da família num dos quartos, ao lado. Com o seu ferro a carvão, o abanador de palha para atiçar a brasa e pequenos produtos caseiros, realiza com tanta perfeição o seu ofício.

O alpendre tem um aspecto rústico e acolhedor: chão de cimento batido, cortiço de abelhas, bancos de jardim e duas redes brancas armadas pelos cantos. Ali acontecem o trabalho, o recreio e o recolhimento. De todos os lados, pode-se admirar a beleza do canavial e divisar, ao longe, os velhos engenhos emoldurando a paisagem. O Timbó chama mais atenção! Correm lendas sobre seu passado de escravidão e mistério, e que, de tão incríveis, fazem parte do imaginário popular da região.

Tudo é encantador em Ilha Bela! O panorama do vale, as mangueiras frondosas, os coqueiros, as bananeiras, os canteiros da horta e, mais adiante, o curral do gado. O quintal – um nível mais baixo, no extremo do alpendre – dá acesso aos caminhos que levam ao olheiro, ao riacho... Nas férias, as meninas maiores e menores gostam de sair juntas, de ir bem longe, andar naqueles matos, descobrir os atalhos, subir nos cajueiros e, finalmente, brincar no recanto mais aprazível do quintal. Ali, elas passam mansas tardes, à sombra repousante das árvores, pulando corda em todos os ritmos e variações, jogando ordekam (jogo de bola) ou academia, enquanto o grito de “mãos para o alto” ressoa, ao longe, enunciando as corridas de caubói lideradas por João Augusto, ai lado de Abelardo e seus amigos da Usina. As saudades daqueles momentos de felicidade são tão vivas que trazem os sons, os olheiros, a brisa do quintal e até as lembranças do seu chão riscado com as barras do ordekan, do traçado da academia, enfim, do convívio com uma paisagem da infância difícil de lembrar, nitidamente, em todos os matizes, mas impossível de esquecer.

Em circunstância pulsante de vida instiga a imaginação dos mais jovens, convidando-os a descobrir os divertimentos que Ilha Bela oferece. Alguns descem o pátio da usina para pegar os troles e provar a delícia do passeio, indo e vindo no trecho demarcado pelos trilhos. Outros preferem as corridas a cavalo – o melhor programa de Ilha Bela. Quem topa a aventura, segue pela estrada afora, alem da porteira, galopando livremente, a toda velocidade, com a meta de visitar os engenhos da vizinhança: Itapicuru, Alabama, Guanabara. Muitas vezes, para aliviar a corrida e torná-la mais prazerosa, todos combinam trocar o pesado galope pela maciez do trole.

Quando não é possível cavalgar, tomam o destino de Morrinhos; atravessam o canavial, numa longa caminhada a pé, para um banho nas águas límpidas da fonte – o olheiro.Os grandes espaços, à volta, estimulam o potencial de energia e criatividade de todos os que vêm passar as férias em Ilha Bela. A sala de visitas da casa e o prédio vizinho servem de palco para a montagem de “dramas” e “quadros-vivos” solenes, inspirados nos modelos vistos no colégio.

Além das festinhas de teatro, surgem outras opções: o rádio, que desperta o interesse pela trama romanesca da radionovela “O romance de um moço louro”; o baralho, com as empolgantes partidas de sueca e sete-e-meio, até bem tarde; e as brincadeiras de escola – nas férias da professora oficial, Maria Ramalho – meras projeções de fantasias e de vivências do internato.

Ilha Bela é mais bonita no início da moagem. A paisagem muda com o acender das luzes, a visão das queimadas, a sonoridade codificada dos apitos; uma euforia geral se espalha, e tão contagiante, que motiva, todos da casa, a descer até a usina iluminada, para ver a movimentação dos troles, os burros com os cambitos cheios de cana, a botada na esteira. É interessante observar o trabalho das máquinas: as moendas esmagando a cana, a volta das turbinas, as caldeiras, o vapor, o ruído, enfim, todo o processo de fabricação do açúcar cristal até a etapa final do ensacamento. No armazém, o ar impregnado de pó branco exala o cheiro doce e típico do açúcar. Mais adiante, predomina o de alambique... Basta entrar no prédio anexo à usina, para ver a entrada do melaço, matéria-prima aproveitada no processamento do álcool, via destilação.

O passeio termina com uma parada no barracão e uma visita à pensão de Martinha, onde moram Popô e Olegário. Por ali, há sempre um foco de atrações preparadas pelas moradoras jovens que aproveitam o clima festivo da moagem para cantar e recitar num palco improvisado, tendo, como cenário, os troles cheios de cana, montados sobre os trilhos e enfileirados ao lado da usina. Na volta para casa, as meninas ficam repetindo muitas canções e guardam na lembrança."

As memórias descritas por Cléa Bezerra permanecem vivas no imaginário de quem tem oportunidade de ler seu livro DEVER DE MEMÓRIA – uma biografia de Ubaldo Bezerra de Melo. É como se fizéssemos parte daquele cotidiano longínquo e tão próximo, sentindo o cheiro do melaço, da cana e ouvindo o apito agonizante da usina fantasma.

É imprescindível refletirmos sobre a importância de cada pedacinho dos nossos patrimônios históricos que ainda estão resistindo às depredações e destruições. Cada tijolo caído é um retalho impregnado de suor, sangue e lágrima de uma legião de cearamirinenses que fizeram dessa terra primitiva o “ubérrimo mundo encantado” de hoje, como bem cinzelou na história o mestre Ruy Antunes Pereira: “Mucuripe! O meu “Mundo Encantado”, onde plantei minhas raízes emocionais”. Ilha Bela não é o Mucuripe, no entanto, nossas estirpes são oriundas das mesmas ramificações.

3 comentários:

  1. Caro anigo Gibson, li com muita atenção o relato sobre ILHA BELA, foi impossível conter as lágrimas, as vezes que visitei o que era ILHA BELA, tive a mesma senssação que o povo iraquiano teve ao voltar para o seu povoado e encontraram tudo destruido pela guerra.Se pedro filho de Geraldo Melo tivesse optado para transformar ILHA BELA em distrito,teria sido melhor do que a total distruição. Ali estão inficadas as nossas raízes que jamais apagarão, ali, quando nós filhos de ILHA BELA entramos ali, ouvimos vozes, sussurros e muitas vezes barulho dos vagões chegando carregados de cana.Foi ali que presenciamos numa tarde nublada um desfeixo de um noivado espetacular, quando o noivo por nome bininha, desiludido pelo final do noivado com toinha de jorge, subiu no chaminé de 63 metros de altura e quis pular ´só sendo contido com a chegada da noiva e a promessa que o noivado seria renovadao. Foi ali que eu comi o meu primeiro doce de leite da minha vida na casa da minha madrinha Lurdes Ramalho esposa do padrinho Eloi Ramaho ambos já falecidos. Ali tinha clube social,ambulatório,cooperativa,feira,futebol, lapinhas, pastoril, carvalhada,cavalgada,vaquejada,congo de guerra,boi de reis, festas juninas, de natal,novendas de maio, e carnaval.A PERGUNTA QUE FICA É A SEGUINTE, PORQUE PEDRO MELO DESTRUIU TUDO AQUILO?

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  2. Olá!!
    Queria parabenizá-lo pelo post. Fiquei muito interessado em adquirir o livro dessa escritora. Você poderia me informar onde posso comprá-lo?
    Agradeço antecipadamente.

    FSM


    É verdadeiramente lamentável a atitude de alguns que como detentores do poder acabam por utilizá-lo de maneira negativa, sem o menor respeito à dignidade e identidade cultural de outros.
    Espero que essa atitude DESUMANA sirva para que o povo veja a total incompatibilidade dessas pessoas, nomeadamente PEDRO MELO conforme foi dito pelo Fernando Dias anteriormente, com o poder político.
    Dessa maneira,com o povo esclarecido, evita-se o erro de os eleger para cargos públicos.
    Diante do que aqui foi exposto, é visto que são pessoas que procuram a selvageria ao invés da preservação da memória. Pessoas que construíram uma IDENTIDADE FINANCEIRA às custas de muitos que perderam o "paradigma" da sua IDENTIDADE CULTURAL.
    LAMENTÁVEL E IRREVERSÍVEL DOR!!!!!

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  3. Preclara autora.
    Meu bisavô, Antonio do Valle Moreira, era caiçara e vivia da pesca. Foi agraciado com a honraria de nobre "Barão de Ilhabela". Não no século xx. Tal honraria lhe foi concedida por relevantes serviços prestados ao Império no século 19. Mais precisamente, aos vinte e sete dias do mes novembro do ano da graça de NOSSO SENHOR JESUS de 1834.
    Caso seja de vosso mister, possuo todos os documentos originais, alem do brazão da família e do prato de prata como era costume na época presentear o mais novo "conviva" da nobreza
    E-mail: ivan.iunes@gmail.com
    Obs: não tenho o sobrenome de meu bisavô pq. Era materno. Meu pai era arabe, e na cultura dele filhos varões não herdam nome da parte feminina.


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