domingo, 12 de setembro de 2010
É ASSIM QUE A GENTE FALA
NO NORDESTE SE FALA ASSIM....
O nome do cordelista é Ismael Gaião da Costa, nasceu em Recife-PE.
Engenheiro Agrônomo, Funcionário Público Federal, lotado na UFRPE - Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina.
Publicou 20 (vinte) "Cordéis" e diversas poesias (sonetos, matutas, sociais).
E o endereço para o cordel é: http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/1496943
No Brasil pra se expressar
Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fala
Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
E coisa ruim é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro
Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caxaprego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Qualquer botão é Pitoco
E confusão é Arenga
Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
E é nosso dialeto
Sendo assim, está correto
Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente
É assim que a gente fala
Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bala é Confeito
Rir de alguém é Mangar
Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Inxirir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira
Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar
Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente de casa é Terreiro
Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala
Aqui valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
E pão-duro é Amarrado
Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar em algo é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar
Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada
Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada
Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
A sandália é Percata
Uma correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
E o folgado é Folote
É assim que a gente fala
Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda
Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabuloso
Insistente é Pegajoso
Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha
Não concordo, é Pois Sim
Tô às ordens é Pois Não
Beco ao lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala
A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega
Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é um Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado
Estilingue é Balieira
Uma prostituta é Quenga
Cabra medroso é Molenga
Um baba ovo é Chaleira
Opinar é Dar Pitaco
Axilas é Suvaco
E cabra ruim é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala
Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar
A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
Tic nervoso é Munganga
Colar prova é Filar
Brigar é Sair no Braço
Nosso lombo é Ispinhaço
Faltar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Ingembrado
É assim que a gente fala
Um afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Pra perguntar como, é Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Um cabra leso é Pamonha
E manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
E coisa pouca é Tiquim
Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra, é Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Ter um azar é Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala
Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Quem está desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
Dose de cana é Lapada
Empurrão é Dá Peitada
E o banheiro é Casinha
Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina!
É assim que a gente fala
sábado, 11 de setembro de 2010
GANHEI CORAGEM
Rubem Alves
"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece",
observou Nietzsche.
É o meu caso.
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
Tardiamente.
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei:
"O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus
como fundamento da ordem política.
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.
Não sei se foi bom negócio;
o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,
é de uma imensa mediocridade.
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo
como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha
para que o povo, na planície,
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias.
Amava a prostituição.
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias
pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos.
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas.
Comprou-a e disse:
"Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa
numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado.
O povo era a prostituta.
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces;
a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola
com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos
sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões,
se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente:
judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral"
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
São seres morais.
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo,
a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente,
são incapazes de fazer mal a uma borboleta,
se incorporados a um grupo tornam-se capazes
dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos,
são capazes de pôr fogo num índio adormecido
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo
é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens
e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista
que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa.
Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam
a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung,
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares.
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche,
de Saramago, de silêncio;
não gosto de churrasco, não gosto de rock,
não gosto de música sertaneja, de telenovela,
de não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos
e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno",
à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção.",
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma vaga esperança.
Rubem Alves
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
PRÁ REFLETIR: O QUE MAIS DÓI.

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.
Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.
O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.
Patativa do Assaré
SARAU BAQUIPEANO VIRTUAL
Etelvina Antunes de Lemos nasceu no Engenho Oiteiro, município de Ceará-Mirim, a 17 de maio de 1885. É filha do Coronel José Antunes de Oliveira e Joana Antunes de Oliveira. Irmã do admirável poeta Juvenal Antunes.
Estudou no Colégio São José, de Recife, e colaborou em jornais e revistas da sua terra e da capital pernambucana, usando o pseudônimo de Hortência Flores. Possui um livro de versos intitulados Violetas.
TUA CARTA (à minha filha Etelvina Dulce)
Espero ansiosa a tua carta amiga,
Portadora de afeto e de carinho.
Vale pra mim como uma jóia antiga,
Tem o calor de um rico pergaminho.
Escuto ao longe uma infernal cantiga,
Um resfôlego, um silvo, um burburinho...
É o trem que rola pela estrada antiga,
Pondo nuvens de fumo no caminho.
Ei-lo que entra altivo e triunfante,
Na pequena cidade silenciosa...
Ai como sofre quem do amor se aparta!
Pego a missiva e trêmula, hesitante,
Rasgo o envelope e rápida, nervosa,
Beijo o teu nome e leio a tua carta.
Fonte: Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense - Romulo C. Wanderley - 1965
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
PARABÉNS ALICE BRANDÃO
Mensagem enviada por Alice Brandão em 02/09/2010:
Este evento foi a publicação do meu livro que agora sou cadastrada e catalogada como membro da ABLA (Associação Boituvense de Letras e Artes)ligada a Galeria de Arte rede social p artista plásticos a Cultural Flumisense de Belas Artes/RJe ao Salão de Artes Plásticas da Liga de Defesa Nacional Espaço Cultural da Justiça do Trabalho/RJ .
Adalgisa Cuam Comendadora de Artes pela Câmara Brasileira de Arte e Cultura fez esse projeto de lançar este livro de Poesias e Arte e fui convidada (por fazer parte do Site do Saber Cultural) p expor aquele Cristo q foi o escolhido pela comissão julgadora entre tantos p ser lançado . Fiquei muito honrada c isso acho q passará minha entrevista da tvCultura SP. (n sei a data)
E qto aos "boys ao meu lado" são fãs primeiramente, meus alunos catalogados,chama-se Névio (Italiano)e o outro Jaime Colom Espanhol, q me deram a honra de acompanhar e levar até o Museu Salão da Rosas, onde foi o lançamento ontem .
Bjks mil. Sua artista Licinha
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
MADALENA ANTUNES PEREIRA
Madalena Antunes Pereira e Olympio Varella - foto datada de 28/05/1900A Ata Diurna da Sexta-feira, 12 de junho de 1959, de Luiz Câmara Cascudo, publicada no Jornal da República transmite preciosos dados da vida e morte da eterna Sinhá - moça do Ceará-Mirim.
Maria Madalena Antunes Pereira nasceu à 25 de maio de 1880 e faleceu aos 11 de junho de 1959. Sinhá moça do oiteiro, menina de engenho sonoro, coméia de escravos sem troncos e sem chibata, labuta dos citos sem lágrimas. Última sobrevivente da aristocracia rural de Ceará-Mirim sempre demonstrou um espírito fidalgo, irmã das escravas e senhora das amigas. Para todos nós, era uma valorização feminina, valorizava o sexo pela graça, pela malícia, pela finura, pela elevação da conduta vivida, em linha reta erguendo a mão para abençoar e baixando-a para escrever. Escreveu o primeiro livro de memória feminina do norte brasileiro “Oiteiro”, onde reviveu o passado trazendo-o a fixação presente pelo irreversível impulso de alegria sonora e rica como um guiso de ouro cristal. Não envelheceu para entristecer-se para anoitecer os dias contemporâneos, apenas a vida, tornou-se a mais experiente, mas vibrante, recobrindo de intenção notiva as causas que tinham desaparecido. Deus lhe deu a varinha de condão de “Maria Borralheira”, transformava em música cantigas, festas coloridas de crepúsculo e reais e noites de luar sideral as paisagens sumidas e pobres. Tudo era possível voltar a viver quando ela queria evocar.
Quando não podia mais andar, sentou-se na cadeira como uma rainha no trono para aceitar a servidão jubilosa de todos os seus, a família e os amigos que era todos a sua família também.
Ficou como uma roseira, flor de todo ano, não precisando mover-se para frutificar e deslocar-se para o milagre do perfume e da compreensão total.
Madalena lia muito, mas a sua cultura era uma soma de intuições surpreendentes. O livro pouco trazia de ensino, era sua vida interior que a iluminava toda, como uma lâmpada de prata derrama a transparência clareada pela amplidão informe. Morreu aos 79 anos ainda moça, muito mais moça do que suas trisnetas. Conservava a força exultante de um júbilo espontâneo e poderoso que se derramava ao derredor como uma luz cheia de benção.
Morreu pensando em escrever, escrever para perpetuar sua terra e sua gente num ambiente de ternura, de bondade, de cores leves e românticas do amanhecer de noivado.
A vida não conseguiu decepcioná-la, torturou-a, mas não a venceu. Madalena estava por cima do tempo, da vida, das tempestades que sacodem aqueles que andam arrastados nos caminhos do mundo. Ela voava livre de todas as leis da gravidade, no tapete mágico dos sonhos tendo na mão fina e nobre, a lâmpada de Aladim.
Só sabia escrever evocando, matando a morte pela saudade, enchendo o horizonte de versos, de anseios, de lembranças, de pensamentos idos e vividos, bailantes, intermináveis, incessantes como pirilampos.
Cascudo afirmou: Não posso vê-la, pela primeira vez imóvel e silenciosa, os olhos claros apagados e a voz sem as águas vivas da comunidade criadora. Voltando para o céu, deixo-nos a última alegria viva, familiar e linda em sua legitima telúrica, da terra do vale do Ceará-Mirim.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO
Arte – Óleo sobre tela de Alice Brandão
A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
O que eu era para vocês continuarei sendo.
Me dêem o nome que sempre me deram, falem comigo como vocês sempre falavam.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo
que nos fazia rir juntos. Pensem em mim. Rezem por mim.
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. (Santo Agostinho)
Estou novamente diante de uma folha virgem, que me pede para ser violada. Mas a libido escrevinhadora está reprimida pela emoção, um sentimento arrebatador, transcendente, traduzido numa palavra que é somente nossa, duplamente nossa, os de língua brasílica e os que a experimentam em solidão: saudade.
Tentei inúmeras vezes transpor para o papel um relato sobre a ausência de Isautina, a minha sogra, amiga solidária e sempre presente, mas não pude. Não sabia por onde começar, nem como refrear essa caudalosa torrente de lembranças e de afetos que nos leva para muito distante da margem de onde melhor poderíamos apreciar os horizontes a que nos propomos desvendar.
Quase sempre eu era arrastado pela enchente do rio da memória, que transbordava as margens e cada vez mais me afastava da visão do horizonte.
Agora eu sei por onde começar: pela revelação mais contundente, porque fora do comum. A da “sogra amiga”, partindo-se da constatação de que essa associação é inconciliável, na opinião popular generalizada. No mundo inteiro as sogras são levadas à fogueira inquisitorial como verdadeiras bruxas, e queimadas em fogo brando para arderem mais lentamente, e experimentarem dores e sofrimentos inimagináveis.
De fato, fomos, no sentido pejorativo tradicional, genro e sogra. Batemos de frente inúmeras vezes até nos fazermos entender e respeitar pelo outro, delimitando os nossos territórios. Daí pra frente, deixamos essa condição parenteral(*) e nos convertemos em amigos. Uma amizade construída a partir dos dissensos, das nossas diferenças superadas e, portanto, amadurecida, duradoura.
Amávamos a mesma pessoa. Jailza era a sua única filha e companheira. Amiga incondicional, confidente, consoladora, parceira de “buraco” e de infortúnios, alma sexuadamente gêmea, e por isso capaz de compreender os gemidos, a importância das minimalistas rusgas existenciais cotidianas, como o ato de envelhecer, por exemplo, de se sentir só no meio da multidão e uma vontade leviana de chorar.
As duas eram cúmplices e co-habitantes de um universo só delas que eu nunca quis nem mesmo trafegar, para não quebrar o encanto de um esconderijo, um refúgio, um santuário exclusivo onde se desarmavam e se convertiam nelas mesmas. Em que eram ao mesmo tempo arrimo uma da outra, numa troca permanente de afeição.
Contentei-me em ser a sombra ou a ausência, quando as duas estavam juntas, porque moravam em cidades diferentes e pouco se viam, embora se telefonassem diariamente.
Ela-Isautina percebeu a manobra através de uma das pontes mais sólidas que construímos entre nós – o sentir intuído, sem necessidade de palavras ou explicações. Era uma pessoa de muita sensibilidade e um grau de percepção incomum, beirando o extra-sensorial. Salvo quando se recusava a acreditar no que intuía, como nas questões de família que a infelicitavam. Aí se tornava uma pessoa comum, debilitada e vulnerável.
Nesses momentos, sofria um processo acelerado de um envelhecimento sobrenatural, surpreendente. As rugas aprofundavam-se, os cabelos mais se encaneciam, as costas se curvavam sob peso imaginário insuportável, os olhos se embaciavam. E a voz adquiria um tono mais brando e mais grave. Como se mastigasse o fel para torná-lo mais digestível.
Li que em certas culturas primitivas e isoladas – os esquimós, por exemplo – os mais novos mastigavam os alimentos sólidos, tornando-os pastosos, para facilitar a alimentação dos muito idosos, desdentados. Era manifestação de carinho e de dedicação aos que se haviam devotado á família.
Provavelmente dava-se algo semelhante com Isautina, de modo inverso. Mastigava as fibras, os nervos e os músculos cozidos no sal e no fel do sofrimento, para transferi-los amaciados para os que a consolavam.
Via-a chorar apenas duas vezes e nunca mais desejei vê-la assim. Era uma explosão de dor comprimida, uma expressão magoada de desespero antigo sempre recorrente. Um grito gemido, se é que me entendem. Como o silvo de uma chaleira de água fervente, resultante de uma pressão muito poderosa reprimida sob controle.
Foi quando morreu o seu filho mais velho, Jailson . E quando se sentiu impotente para corrigir uma questão familiar. Jailza me informou que ela muito chorou, também, na morte do ex-marido, em trágico acidente numa rodovia em Mossoró; que, nessa ocasião ela literalmente desabou, pela primeira vez na vida.
É evidente que deve ter chorado muitas vezes sozinha, quando podia dar vazão, sem constrangimento, á sua tristeza que vinha de muito longe, coisa muito antiga e peregrina.
De alegria, lembro-me que chorou quando a filha casou-se comigo. E quando vieram os netos.
Como dizia um outro velho amigo, Jomar Elpidio de Oliveira, referindo-se á sua própria resistência às lágrimas, morava muito longe o “chorador” de Isautina
Porque, apesar de tudo, a alegria era o seu chão. Mercadejava sempre que podia numa feira de trocas, em que a tristeza era moeda corrente para a compra do riso fácil e do desfrute da bem-aventurança da alegria. Feliz não era, mas fazia força para arrancar de dentro de si as raízes da tristeza anciã e andeja, como já foi dito.
Gostava de serestas puxadas a cerveja. Amava a vida. Era generosa e conselheira. Tomava a si os problemas dos amigos e também dos quase amigos e, mesmo sem ter sido convocada, distribuía conselhos e “carões”. Não tinha papas na língua. Na hora de dizer verdades não poupava ninguém, nem mesmo os superiores nem as autoridades em geral. Era uma dessas paraibanas do brejo, retas, transparentes, diretas, solícitas, mas arrelientas, que dão um pão para não entrar numa briga, mas, se provocadas, não saem nem com a oferta de uma padaria.
Respeitava as pessoas e se fazia respeitar por elas. Principalmente pelos homens - que eles não se metessem a besta que ela lhes punha no lugar. Era mulher valente, de pelo na venta. Havia sido Delegada da Mulher e daí em diante, responsável pela coordenação do Juizado da Infância e da adolescência da comarca de Ceará-Mirim.
Na condição de Delegada da Mulher, prendeu muitos agressores do sexo feminino e por isso, deu força às mulheres e pôs cabresto nos ímpetos dos costumeiros torturadores de esposas e de mulheres da rua. Como espécie de Inspetora dos meninos e adolescentes, chamou muitos pais à responsabilidade e coibiu o liberalismo estimulante da paternidade machista daqueles que prendiam as suas “cabras”, mas soltavam e eram excessivamente tolerantes com os seus “bodes”.
Nesse trabalho, sempre contou com o apoio decidido da Juiza responsável pela vara especializada e pelos delegados da cidade.
Era um ser humano transitório, como as flores que só desabrocham em épocas determinadas. Nossa sorte é que ela era mais de uma dezena de espécies e por isso estava sempre florescendo. Era também instável, porque navegava entre o oceano em fúria e o mar em repouso e por isso o seu barco perdia-se entre tempestades e calmarias. Sua vida imitou a arte, fornecendo argumento para um folhetim dramático.
Quando nasceu a mãe trabalhava no cabo da enxada. Enquanto tinha leite para amamentá-la e alguém para ter a menina sob cuidados, ela foi ficando. Quando abandonou o aleitamento materno e o estômago passou a reclamar farinha, feijão e carne, a mãe entregou-a a um casal de conhecidos, para criá-la e depois ser serventia da casa, ate quando arrumasse emprego decente para sustentá-la. Em seguida, trocou a paraibana Araruna pelo solo potiguar.
A menina cresceu e começou a sofrer maus tratos. Era suficiente uma cara feia para justificar uma surra além dos limites do tolerável, que a deixava inativa no dia seguinte. Um dia, a mãe foi viver com um ex-combatente, velho conhecido, e lhe contou o infortúnio da filha. Foi o suficiente para que o companheiro, revoltado com o relato de maus tratos, fosse resgatar a menina e a trouxesse para Natal.
A menina cresceu num lar tranqüilo, com pai adotivo severo, estudou no Colégio das Neves e no Atheneu. E concluído o curso secundário foi levada pelo “padrinho” a alfabetizar os recrutas do então 16º Regimento de Infantaria, na Salgado Filho, onde o pai adotiva servia. Lá, conheceu o “Galego”, rapaz de Serra Negra, analfabeto, bonito e jeitoso, que era ordenança do padrasto. De olho em olho, toque de mãos, proximidade cheirosa, terminou em atração recíproca. Ela, uma morena bonita, de corpo roliço bem feito.
Casou-se com o ordenança, que dera baixa do quartel e agora era caminhoneiro, e foi viver em Mossoró. O marido tinha um espírito aventureiro, não conseguia esquentar lugar. Foi comerciante, dono de frigorífico, motorista particular e assentou-se mesmo havia começado, como caminhoneiro, piloto de sua própria liberdade.
Os filhos foram nascendo: um, dois, três, quatro bocas para alimentar. E o marido no mundo, deixando um dinheirinho que se acabava no meio do mês. Ela foi trabalhar. Depois, decidiu que iria para a Universidade. E foi. Graduou-se em Serviço Social e passou num concurso do estado, para lotar-se em Ceará-Mirim. O marido enfezou-se, mas, diante do inevitável, acompanhou a família, sempre com um pé na casa e outro na estrada.
Um dia o marido a põe contra a parede: ou ele ou o emprego. Preferiu o emprego, a estabilidade, a possibilidade de alimentar e de orientar os filhos na vida. Decisão que lhe custou o marido, a incompreensão de alguns filhos que a culparam pela ruptura da família e a silenciosa censura da sociedade, ainda preconceituosa, da cidade que a acolhera. E particularmente inepta por ocupar um cargo de conselheira social, vale dizer familiar – que autoridade poderia ter para apaziguar casais e orientar a educação dos filhos, com o casamento desfeito, a unidade familiar comprometida, e por decisão dela?
Impôs-se pelo trabalho, dedicação e competência. Recebeu seguidas promoções e preitos de reconhecimento profissional.
O coração era o seu órgão de choque, a caixa de ressonância dos seus embates com as desventuras que o mundo lhe impunha. Os filhos a censuravam por não cuidar-se e era mesmo que nada. O trabalho era sempre mais importante – embora fosse refúgio para não perder o juízo com tantos desencontros. Achava-se forte e portanto capaz de “tirar de letra” qualquer dificuldade. Deus a proveria, a sua fé a manteria sempre protegida.
Certa madrugada sentiu fortes dores no coração e foi levada ao hospital Dr. Percilio. O médico que a atendeu, em face da gravidade do seu estado, recomendou-lhe que viesse a Natal. Providenciou uma ambulância e a conduzimos ao Hospital Antonio Prudente, único autorizado pelo seu plano de saúde, Hapvida.
Aí começou um verdadeiro inferno. Posta numa dependência de primeiro atendimento, foi medicada segundo os padrões regulares do suposto diagnóstico de infarto. O clínico que a atendeu, fez a recomendação de encaminhamento à UTI e a possibilidade de intervenção cirúrgica. Nesse meio tempo, a matriz da empresa responsável pelo plano de saúde, a Hapvida, localizada em Fortaleza, informou que o seu prazo de Ca recomendadao, não havia sido ultrapassado. E, de fato, a carência já fora superada. Em seguida, que a recomendação do clinico não poderia ser atendida, porque não havia provisão no seu contrato. E havia.
Mesmo que não houvesse, a lei determinava o atendimento em caráter compulsório, em situações semelhantes, porque ela corria risco de vida. Esses trâmites consumiram mais de quatro horas, tempo precioso perdido em detrimento das suas chances de sobrevivência. Finalmente, desesperados, requisitamos uma UTI móvel da SAMU e, depois de mais uma hora de atendimento a procedimentos burocráticos, a dita ambulância e a respectiva equipe chegaram ela foi transportada ao Hospital do Coração.
Nessa unidade de saúde, ela foi conveniente e competentemente tratada, submetendo-se a duas cirurgias que, no entanto, dado ao agravamento do seu estado de saúde em razão da demora na tomada de providências, veio de falecer.
Morreu por negligência e omissão criminosa da dupla Hospital Antonio Prudente/ Hapvida, useiros e vezeiros deste tipo de expediente doloso, e que, nada obstante, ainda não foi suficientemente sancionado. Permanecem impunes, operando os seus negócios comerciais de modo criminoso.
Mas, sem que a ocorrência trouxesse nenhum consolo ou compensação pela perda da nossa querida amiga, as duas instituições criminosas foram condenadas, por sentença com trânsito em julgado, que reconheceu o direito à indenização dos seus herdeiros por perdas morais e materiais, reconhecendo, por conseqüência, a omissão e a negligência desses fabricantes de viúvos e viúvas.
Entre a indignação, a raiva e o sentimento de perda, prevaleceu a saudade, o sentimento de havermos sofrido a amputação de parte de nós, uma mutilação que nos deformou e cuja marca não pode ser enxertada. Uma cicatriz indelével, uma fratura exposta que nos denuncia sempre a origem: a falta do sorriso brejeiro de Isautina, do seu andar arrastado de quem padece de “esporões” nos pés, a voz roufenha pelo vício do cigarro, os vestidos de estamparias alegres, a maquiagem caprichosa, as suas mãos de fada no preparo das refeições triviais e extraordinárias, os seus resmungos cavilosos e os “carões” desconcertantes, mas tolerados.
Ficou-me uma última imagem, de uma foto tirada no São Pedro de 2008, dois meses antes de sua morte. Ela encarou a máquina com um sorriso meio debochado, cheio de brejeirice, que acentuou a falha nos dentes frontais mais expostos – uma marca pessoal. Trajava um vestido de florzinhas roceiras, bem a propósito da festa, e uma flor vermelha (uma papoula?) presa nos cabelos. A maquiagem lembrava a pintura das roceiras de antigamente.
Quando conclui a fotografia, disse-lhe que estava parecendo uma donzela do pastoril.
Ela olhou-me, zombeteira e provocadora, dizendo o seu bordão preferido:
- Você gosta de mexer, não é? Macaco não olha pro rabo...
Ainda nos vimos, e não sabíamos que seria a penúltima vez, quando veio para o velório de uma amiga, Chica, a irmã da nossa amiga Ana “Balaio”. Depois, pela derradeira Vaz, no hospital, sofrendo anginas insuportáveis mas encontrando tempo para mais um chiste: Gente ruim não morre fácil...É verdade. São os bons que Deus convoca para auxiliá-lo.
PEDRO SIMÕES – Professor de Direito (aposentado) Escritor e Advogado
SARAU BAQUIPEANO VIRTUAL
Adele de Oliveira (Álbum de versos antigos)
Que vale um beijo? Eu te pergunto. Nada,
Talvez respondas: entretanto eu digo
Que vale muito, casto, puro e amigo,
Se cai de manso numa fronte amada.
Contam que, outrora, quando a boa fada
Nas criancinhas procurava abrigo,
No lar do rico ou mesmo do mendigo,
E em mendiga sempre transformada.
Ao pé do berço, então, se ajoelhava
E na criança, calma, adormecida,
Depunha um beijo que a facilitava.
Por isso eu faço o que a amizade excita,
Beijo-te a fronte e sonho, ó flor querida,
Que um beijo meu também te felicita.
domingo, 29 de agosto de 2010
LUCIA HELENA - POETA BRASILEIRA
Lúcia Helena Pereira - [Poeta Brasileira]Escritora e poetisa LUCIA HELENA PEREIRA, do Rio Grande do Norte realizou um dos seus sonhos:conhecer a poetisa goiana CORA CORALINA.
Isso aconteceu no ano de 1973. Ela veio com uma amiga pseudo-poetisa mineira Maria de Lourdes Sena Xavier, à cidade de Goiás, onde morava a doce Cora.
Um acontecimento para ela inesquecível.Cora Coralina lhe presenteou com um lindo e delicado poema.
À Menina Nordestina do Vale Verde
(Cora Coralina)
Goiânia, 16 setembro de 1973
Assim surgiu, graciosa e simpática,
bem na porta de minha casa,
a menina nordestina,
com cheiro de cana-de-açúcar,
sorriso espelhando beleza.
Ela chegou,
pelas mãos da professora Maria de Lourdes Sena Xavier,
trajando roupinha leve e harmônica,
a mostrar sua preciosa juventude,
nas rosadas e cálidas faces,
quando emocionada abraçou-me e chorou.
Seu nome? Lucia, que já simboliza luz,
junto de Helena - que se não é de Tróia,
vem de de Atenas, com certeza.
Lúcia Helena, que jamais pisara em solo goiano,
confessou a impressão de já ter estado aqui,
tão familiar lhe pareceu a cidade,
que ela disse com muita ternura:
"Aqui sinto cheiro de flores e poesia"...
logo pedindo-me para declamar um poema.
Era a menina de um verde vale,
do interior do Nordeste,
num lugarzinho chamado, Ceará-Mirim,
terra de ilustres literatos, historiadores
e artífices da poesia,
que ela citou desenvolta,
com satisfação e nobre orgulho.
Senti grande ternura pela mimosa jovem,
que até me viu cozinhar pétalas da laranja da terra,
tiradas do pé do meu quintal,
transformadas em saboroso doce cristalizado,
que ela provou e confessou, com muita sinceridade,
jamais haver degustado nada igual.
Menininha da terra de Câmara Cascudo,
não negou sua inteligência,
e, atenta a tudo que viu em minha humilde casa,
exclamou com infinita doçura:
"esta casa deveria ser o palácio
da doçura e da poesia, porque Cora Coralina existe".
Fiquei deveras emocionada,
com o desabafo da menina nordestina,
que me trouxe alegrias e um presente expressivo,
numa caixa de madrepérola, onde um terço belíssimo estava,
para então me acompanhar,
pelo resto dos meus dias.
Para você, Lúcia Helena, menina da terra do açúcar,
dedico esses humildes versos,
estrofes da simpatia que sinto,
pela formusura do teu porte,
e pela beleza do teu sentimento poético
tão cheio de encantamento.
Receba, Lucinha, esses versinhos da Cora,
que Coralina desenhou, neste papel sem graça,
e Ana Lins enfeitou, com rabiscos de pequeninas flores,
com a ajuda de Guimarães Peixoto Brêtas,
Pois assim, minha menina, um dia me batizaram
de Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas.
Agradeço tua visita e te oferto este doce de laranja,
com muito afeto e açúcar,
para que leves à tua terra, o doce de Coralina,
já que a poesia é fraca,
não tem mesmo o grande valor,
dos mestres da Poesia Brasileira.
TRIBUTO A RAUL SEIXAS
Como de costume o número de pessoas excedeu expectativas. Veio gente de todo canto do Brasil: Fortaleza, Natal, Salvador e até Rio de Janeiro. Entretanto, o número de cearamirinenses (como sempre) era mínimo. Já era de se esperar, afinal, o preconceito da cidade em relação ao evento ainda é muito grande, além das dificuldades de patrocínio e apoio cultural.


Musico Danilo, Gibson Machado, Rafael Sobral e Bonifácio
A realização do evento anualmente contribui para a divulgação da cidade dentro e fora do estado. Além de proporcionar divertimento, lazer e rentabilidade para diversas famílias, que já usufruem economicamente do Tributo, desde os ambulantes que negociam em frente ao clube até os comerciantes do Mercado Público que são visitados durante o dia.
O curso Decisivo, como sempre, prestigiando os eventos culturais da cidade, estava bem representado por intermédio de alunos e professores, entre eles: Júlio Siqueira, Danilo Souza, Bonifácio, Rafael Sobral, Jamerson e Carlos Henrique.

A galera do Decisivo prestigiando o tributo
É importante que os cearamirinenses, principalmente o poder público e o comércio local tenham uma visão econômica e turística dessas atividades culturais, de modo que possa gerar recursos para o município.
Ah!... Falando em eventos culturais, dia 12 de setembro, às 14 horas, no bar de Sinara, ocorrerá o II Encontro de Música, Arte e Poesia do Movimento Alternativo Goto Seco, promovido pelo professor Carlos Henrique. A entrada custará dois reais e é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre os artistas ‘underground’ da nossa cidade. Espero encontrar com todos vocês lá. Abraços, galera! Até a próxima! (Rafael Sobral)
sábado, 28 de agosto de 2010
ENTREVISTA NO "CONVERSANDO COM O POVO"

Pintura do Mestre Tião Oleiro na galeria da Fundação Roberto Marinho no Rio de Janeiro - Junto a foto a coordenadora do Canal Futura para o Nordeste Ana Amélia.
Sábado, 28 de agosto de 2010, fui convidado pelo amigo Elton Marques para participar de seu programa semanal, “Conversando com o povo”.
A pauta da entrevista foi o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim. O tema é muito abrangente e não tivemos tempo de discorrer sobre tudo quanto desejávamos.
Iniciamos a entrevista falando da atual situação do Museu Nilo Pereira, que todos de Ceará-Mirim já conhecem, pois, recentemente foi pauta na programação de televisão no estado. Durante a conversa sugeri que nossos representantes políticos se juntassem e recomendassem aos seus candidatos que registrassem uma carta de compromisso prometendo entregar o museu restaurado à municipalidade e, também, construir a casa de cultura, sonho de todos os artistas de Ceará-Mirim.
Em todo o estado do Rio Grande do Norte há Casas de Cultura em várias cidades e, Ceará-Mirim, com o potencial histórico, cultural e turístico tão rico, sempre ficou em segundo plano quando trata-se de beneficiar sua população, como diz o poeta Ivanildo Vila Nova: entra ano e sai ano e nossa cidade continua ao Deus dará...”.
Nossos patrimônios materiais e imateriais estão se extinguindo numa velocidade impressionante. É fácil verificar esses acontecimentos, basta visitar nosso vale e retornar alguns meses depois, então, confirmaremos as ocorrências, citando como referências, engenho Divisão, engenho Trigueiro, engenho União, usina Santa Tereza, engenho São Leopoldo, engenho Timbó, engenho Santa Rita, usina Guanabara, usina Ilha Bela e tantos outros que desapareceram abocanhados pela voracidade da “cana de açúcar”.
Com relação à sabedoria dos mestres de cultura popular, não precisa visita-los, é necessário somente vê-los se encantando paulatinamente, como foi o caso de tantos que por aqui passaram: Etevaldo Santiago, José Gago, Raimundinho, Seu Déo, Isabel Poti, Mané Rabequinha, José Luiz, Alzira Sá, Belchior, Amarildo, Mizael e tantos outros, que se fosse elencá-los, ficaria muito cansativo, basta representá-los pelos que aqui estão.
Atualmente todos os grupos folclóricos estão em total desamparo, pois, resistem à extinção, pela tenacidade de seus mestres, no entanto, não é suficiente para preservá-los e mantê-los atuante.
É preciso que o poder público proporcione urgentemente ações de governo para mantê-los em atividade. É importante frisar que esses folguedos não têm as mínimas condições de se manterem sozinhos e seus mestres precisam repassar seus conhecimentos às gerações mais novas.
Existe toda uma formação cultural que deveria permanecer viva nas comunidades e nas pessoas, principalmente a valorização das tradições que são passadas de geração a geração. O que verificamos é que essas reminiscências estão sendo substituídas por novos costumes através do dinamismo da própria cultura e não estamos tendo o cuidado de mantê-los juntos - o velho e o novo – de modo que nossa memória seja garantida às futuras gerações.
Fala-se muito da falta de cultura na nossa cidade e, sempre que surgem oportunidades, alguns insistem em dizer que isso é um fato rotineiro. Discordo com a afirmativa, pois, entre os anos de 2005 e 2007 foram realizadas algumas ações relacionadas as atividades culturais do município. Estou afirmando porque tudo quanto for relatado aqui têm imagens comprobatórias.
Apesar de muitos assegurarem que aquelas ações eram “cultura para elite”, no entanto, todos os eventos realizados foram em praça pública e direcionados para toda a população.
A Escola de Musica Marcia Pires atendia anualmente alunos oriundos da escola pública aprendendo teoria musical e tocar vários instrumentos e, quando havia recital, era em praça pública.
Foi criado o Coral Municipal Araraú cujas apresentações eram para o público em geral e seus componentes eram funcionários públicos e todos voluntários. Muitas vezes o coral fez ensaios concerto no palco dentro do Mercado Público.
Foi criado o projeto Olheiro das Artes cujo objetivo era proporcionar, aos alunos das escolas públicas do município, o acesso à cultura através de oficinas com artistas e artesãos dentro do Mercado Publico, todas as quintas-feiras. Esse projeto teve parceria com o Canal Futura e foi o único no Brasil que era realizado dentro de um mercado e tinha o contato direto com a população. A importância do Olheiro das Artes garantiu sua publicação no catálogo anual das ações do Canal Futura.
O Olheiro das Artes proporcionou, também, fazermos oficinas semanais com palestras, dentro do mercado, sobre o patrimônio cultural e a plateia eram alunos das escolas públicas e público em geral. Naquela oportunidade a coordenadora geral do Canal Futura, a Senhora Mariza, visitou o projeto e assistiu depoimentos de vida dos mestres Luiz Chico do Boi de reis de Matas e de Tião Oleiro do Congo de Guerra.
A visita da senhora Mariza a Ceará-Mirim inspirou a criação do projeto “Toda Beleza” realizado pela Fundação Roberto Marinho/Canal Futura e, o mesmo, foi baseado no mestre Tião. Em todo o Brasil foram selecionados 16 mestres de cultura popular para participar do documentário, entre eles, está o nosso mestre Tião Oleiro. Esse programa é transmitido diariamente em toda a programação do Canal no mundo todo, estimando-se uma média de 25 milhões de telespectadores.
Nesse período foram realizados dois fóruns de Cultura e Arte onde os participantes foram todos os grupos de cultura popular e pessoas interessadas no tema, Na oportunidade foram homenageados o escultor Etevaldo Santiago no primeiro fórum e, mestre Tião, no segundo.
Durante o intervalo dos anos citados foram publicados diversos livros com apoio publico. Além do apoio àquelas publicações, foram editados o livro Ceará-Mirim tradição, engenho e arte, pela UFRN-SEBRAE e Prefeitura de Ceará-Mirim e, o livro Ceará-Mirim memória iconográfica.
É evidente que os projetos culturais sonhados não foram realizados plenamente porque não havia políticas públicas direcionadas para a cultura e, também, os recursos não eram destinados ao órgão responsável pela cultura. As ações, por pequenas que tenham sido, foram conseguidas com muito esforço e, refletiram positivamente naqueles aos quais foram direcionadas, basta perguntar aos alunos da Escola de Música Marcia Pires, aos músicos da Banda de Musica Tenente Djalma, aos artistas, aos artesãos, aos componentes do coral, aos alunos e professores das escolas publicas que participaram dos projetos, a “todos” os grupos de cultura popular...
Todos os projetos que o mestre Tião e o Congo de Guerra participaram foram muito significativos para a divulgação dessa tradição em todo território nacional. Em 2004 apresentamos o trabalho de pesquisa, através do Mova Brasil, no Forum Social Nordestino em Recife. Em 2009 o mestre Tião e o grupo Cabocolinhos foram classificados como Patrimônios Vivos do Rio Grande do Norte. Em 2010 o mestre Tião foi classificado no projeto Culturas Populares 2009, realizado pelo Ministério da Cultura. Ele concorreu com 3000 candidatos em todo o país. São ações dessa natureza que nos confortam e, estimulam a continuar plantando as sementes... um dia abrolharão!!!
Todos conhecem minha luta pela memória de nossa cidade e, poucos, têm a consciência da importância de nossas pesquisas para o futuro de nossos conterrâneos. O tempo será a testemunha invisível das lutas incansáveis, e evidentemente, cobrará o desamparo, o desrespeito e a desvalorização pela identidade de nossa gente.
O que ameniza o desrespeito, a desvalorização, a falta de reconhecimento são aqueles que estão ligados a tudo que estamos produzindo. São pessoas que aprenderam a amar e respeitar nossa cidade através das leituras de matérias publicadas nos jornais e no blog. São elas que ajudam a criar forças para continuar tentando... São meus alunos que diariamente solicitam histórias de nossa terra e, quando os sacio com informações, tenho certeza que os ajudei a crescer intelectualmente.
A internet diminuiu a distância e facilitou o acesso à informação e, são essas informações que ajudam as pessoas distantes de sua terra, ficarem próximas... As pessoas que desconhecem suas raízes, aprenderem sua história, e, através dela, valorizar e lutar por uma terra melhor, onde a ganância e o individualismo sejam suprimidos pela solidariedade, pelo coletivo, pela honestidade, e, sobretudo, pelo amor, assim, ensinaremos nossos filhos a respeitar e preservar nossas origens.
COMENTÁRIO DE VERIDIANA GERMANO
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
FOLCLORE
Fonte: http://www.metodista.br/cidadania/numero-23/folclore-na-escola-preserva-cidadania
“Agosto é tradicionalmente conhecido como “mês do folclore”, já que desde 1965 foi estabelecido no Brasil um decreto que institui o mês do folclore em todo o território nacional.
A data pode ser uma ocasião para que professores e alunos promovam um debate sobre o espaço que as salas de aula ocupam na transmissão do patrimônio cultural do País, mesmo que as manifestações populares e o conhecimento da cultura nacional não devam ser lembrados apenas em datas comemorativas.
Para a folclorista Meire Berti Gomiero Fonseca, membro da Comissão Paulistana de Folclore, além da falta de preparo, o número reduzido de pessoas que entendem de folclore dificulta um ensino mais amplo sobre o tema. “O folclore educacional precisa ser inserido pelo menos no ensino fundamental, para as crianças”, disse Meire. “Se não resgatarmos e estudarmos o folclore ou a cultura brasileira, estamos perdendo nossa identidade e também a nossa cidadania”, acrescentou.
O Ministério da Educação (MEC) recomenda às escolas atividades que explorem tradições regionais. No caso de a cidade ou região não apresentar tantos costumes, uma saída seria desenvolver trabalhos com histórias familiares. De acordo com a professora de História Corina Cenciani Reis, que ministra aulas sobre folclore no Colégio Metodista em São Bernardo do Campo e também em escolas da Prefeitura da cidade, “valorizar a cultura é sinônimo de valorizar a identidade”.”
A Escola Municipal Prof. Cícero Varela, em João Câmara-RN está realizando o projeto de folclore cujo tema é o folclore da Região Nordeste onde as turmas pesquisam os estados de toda a região.
Os 6º anos de todos os turnos pesquisam e desenvolvem os trabalhos referentes ao Rio Grande do Norte. Na oportunidade procuramos explorar as tradições, principalmente, àquelas locais, uma vez que o município tem remanescentes indígenas na comunidade de Amarelão.
As pesquisas foram realizadas pelos alunos e em seguida foram desenvolvidos trabalhos artísticos referentes a cada uma delas.
Foram explorados temas como as plantas do sertão, os tipos humanos, os folguedos populares, o artesanato, a habitação e a confecção de maracás utilizados em rituais indígenas.
Procuramos enriquecer a exposição, que acontecerá no próximo dia 31/08, com artesões locais, representados por Mestra Maria louceira, artesã especialista em panelas e pote de barro queimado, muita antiga na cidade, e, também, proporcionar a comunidade de Amarelão divulgar seu artesanato, pois ela é a única remanescente indígena na região. Infelizmente as tentativas foram infrutíferas, devido atividades prioritárias na escola o que nos impossibilitou ir até as comunidades de Morada Nova e Amarelão fazer os devidos convites àqueles artesãos.
Alunos do 6º ano - pesquisa e desenho do Pastoril - orientados pelo artista plástico Julio Siqueira

atividade finalizada
Pesquisa e desenho dos Cabocolinhos de Ceará-Mirim
atividade finalizada
Pesquisa e desenho do Boi de Reis
Atividade finalizada
Pesquisa e desenho de habitações do Rio Grande do Norte

pesquisa e desenho das plantas do sertão do Rio Grande do Norte
oficina de pirogravura - artista plástico Julio Siqueira
oficina de máscara - orientação de Prof. Gibson Machado

quarta-feira, 18 de agosto de 2010
PROJETO DESPERTAR - PRIMEIRO ENCONTRO
As mais elevadas taxa de desemprego no país são registradas entre os mais jovens. Além da inexperiência no mundo do trabalho, a educação formal muitas vezes não prepara o estudante para a vida profissional.
O projeto Despertar procura mudar essa preocupante realidade através do estímulo ao empreendedorismo entre jovens estudantes. Alunos do ensino médio, com idade a partir de 15 anos, ampliam sua visão de mundo, e passam a identificar suas potencialidades e a descobrir novas oportunidades. O jovem passa a ver sua realidade e sua escola de forma totalmente nova.
O Despertar causa impacto não apenas no seu público. Em cidades do interior, onde as escolhas são poucas, o projeto movimenta toda a comunidade, pois o empreendedorismo é transmitido no sentido de fortalecer a crença em um futuro melhor, onde cada um é capaz de construir e empreender.
O corpo docente, que previamente ao seu engajamento seletivo ao projeto é submetido a um treinamento de 180 horas aula, também muda sua forma de encarar a relação professor/aluno. Atualmente o SEBRAE/RN desenvolve o Projeto Despertar nas escolas públicas, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, através da Coordenadoria de Ensino Médio.
Idéia Básica do Projeto
“Despertar” no aluno do ensino médio das escolas públicas estaduais do RN, a vocação para empreender, proporcionando-lhe uma visão de futuro, tendo em vista:
• Os desafios e as oportunidades do mundo do trabalho;
• O desenvolvimento econômico LOCAL/REGIONAL;
• A geração de novos negócios, a partir do estímulo ao conhecimento e o acesso à informação.
Como Começou
Em 2001 o Sistema SEBRAE passou por uma revisão institucional, criando várias prioridades, dentre elas, disseminar a educação empreendedora a partir do ensino formal, visando atender as classes menos favorecidas que estavam nas a escola publicas, ás portas do mercado de trabalho e sem perspectivas. Neste sentido foi firmada em 2003, parcerias com as Secretarias Estaduais de Educação de todos os estados, visando a preparação básica de alunos para o mundo do trabalho por meio do desenvolvimento de competências empreendedoras.
Público Alvo
Alunos do ensino médio das escolas públicas estaduais do Rio Grande do Norte.
Conteúdo Programático
São 96hs de aula distribuídas da seguinte forma:
• Atividades em sala de aula: 10 encontros de 3hs (30hs);
• Atividades de campo: pesquisas, visitas a empresas, contato com empreendedores, reuniões com as equipes (36hs);
• Organização e realização da Feira do Jovem Empreendedor (30hs);
Programa de Formação de Professores
O programa de formação de professores possui uma caga horária de 60hs distribuídas da seguinte forma:
• Seminário de Sensibilização para o Projeto (4hs);
• Fundamentação em Empreendedorismo. Curso “Sebrae Empreender” (27hs);
• Capacitação na Metodologia para aplicação em sala de Aula de Aula (24hs);
• Oficina de Implantação do Projeto na Escola (4hs);
Fonte: http://www.sebrae.com.br/uf/rio-grande-do-norte/areas-de-atuacao/capacitacao-empresarial/despertar
O Curso de Empreendedorismo do Sebrae está sendo realizado na Escola Estadual Professor Otto de Brito Guerra, na cidade de Ceará-Mirim/RN e tem como facilitador o professor Gibson Machado Alves.
As aulas do curso iniciaram neste 18 de agosto de 2010, formando uma turma de 32 alunos do ensino médio da escola estadual professor Otto de Brito Guerra, com faixa etária entre 15 e 26 anos.
Prof. Gibson - orientação para a construção do painel de apresentações
A aula inicial foi muito interessante, pois buscou a interação do grupo através da socialização e auto apresentações como forma de integrar o grupo.

Apresentações dos alunos
Os cursandos construíram um painel com figuras recortadas de revistas representando, individualmente, suas personalidades Posteriormente foram feitas as devidas apresentações individuais.

Observei que a maioria de nossos alunos tem muita timidez e precisam de estímulos para puderem se relacionar coletivamente e, incentivados, passaram a fazer relatos individuais com mais desenvoltura.
Esperamos que a turma seja mais produtiva nos próximos encontros, pois perdemos muito tempo na construção das tarefas programadas, no entanto, o 1º encontro foi bastante produtivo e positivo.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
MUSEU NILO PEREIRA...VERGONHA!!!

Foi com muita tristeza que, pela segunda vez, nesses últimos três meses, visitei as ruínas do que foi, há bem pouco tempo, o Museu Nilo Pereira em Ceará-Mirim RN. No último mês de maio, lá estive no finalzinho de tarde quando voltava de minha chácara, que fica no vizinho município de Maxaranguape. Naquela ocasião fui atraído pela beleza da lua cheia que surgia por trás do casarão do antigo Engenho Guaporé. Construído em meados do Século XIX, mais precisamente em 1850, em estilo neoclássico, o casarão foi residência do segundo vice-presidente da província do Rio Grande do Norte, Vicente Nelson Pereira, genro do Barão de Ceará-Mirim.
Fazia algum tempo que não percorria aquela estradinha que lava ao casarão. Costumava visitá-lo nos anos 80 e 90, quando trabalhava no Banco do Brasil e fazia fiscalização nas propriedades rurais da região.
Aproveitei o ensejo para ver de perto, a situação em que o mesmo se encontrava, pois naquela semana havia me chegado, por e-mail, uma filmagem de vândalos atirando pedras nos vidros que adornavam portas e janelas. Era uma cena deplorável. Uns rapazes filmavam os outros, que naquela euforia bestial, se revezavam em atirar pedras, ao tempo que deliciavam-se com a destruição do patrimônio público e a memória da cidade. Fiquei horrorizado pela cena e lamentei que aquilo estivesse sendo praticado por jovens, que pareciam ser estudantes que para ali tinham se dirigido com esse propósito, já que o museu está localizado em uma área que não é passagem para lugar nenhum.
Infelizmente a situação em que se encontrava o Museu, era pior do que eu havia imaginado. A guarita que fica na entrada, estava em ruínas. Suas portas e janelas foram arrancadas, e parte o telhado já havia caído. A estrada, calçada com blocos de cimento, que dá acesso ao Solar, estava totalmente coberta pelo mato, assim como o estacionamento.
Aproximei-me da porta, mas não tive coragem de entrar, pois como disse, já estava escuro e as casas de marimbondos caboclos, pendiam das portas e janelas em posição ameaçadora. Eram eles, junto com morcegos os guardiões daquele patrimônio. Na entrada principal, impávido, lá estava um grande sapo cururu, bem postado na soleira, como se fosse o mordomo a espera do visitante. Esperava, talvez, alguma mariposa descuidada que por ali passasse em busca dos canaviais, que lhe complementaria sua refeição diária. Fiz algumas fotografias e prossegui viajem.
Hoje, como retornei da chácara mais cedo e estava acompanhado por alguns amigos, resolvi percorrer novamente aquele caminho coberto de mato, que leva ao Museu, com a intenção de mostrar aos amigos que me acompanhavam a situação de abandono que se encontrava aquele patrimônio de inestimável valor histórico. Novamente me senti desconfortável diante daquelas ruínas, principalmente por ele ser parte da história da cidade de Ceará-Mirim, cidade que aprendi a amar e respeitar desde que aqui cheguei no início dos anos 80, para inaugurar a Agência do Banco do Brasil. Fiz e faço parte dessa cidade onde trabalhei durante 23 longos anos e conquistei grandes amigos.
Diante daquele quadro desolador, não pudemos deixar de nos perguntar: onde estão os Órgãos Públicos encarregados de manter e conservar aquele patrimônio? Porque deixaram a situação chegar até esse ponto? Que foi feito do mobiliário antigo que aqui existia? Onde estão as várias peças, confeccionadas em jacarandá, e o belo piano de calda que adornava a sala principal? É bem provável que hoje faça parte da mobília da casa de algum esperto, do tipo que considera o patrimônio público, como privado.

Adentramos ao casarão e pudemos constatar o que já imaginávamos quando chagamos próximos a entrada principal. Um verdadeiro espetáculo de destruição. Para todos os lados que olhávamos e por todos os cômodos que passávamos a visão era a mesma. Cheguei ao pé da bela escada de madeira que lava ao sótão e resolvi subir. Temeroso pela minha segurança, pois não sabia o estado que ela se encontrava, prossegui degrau por degrau até chegar lá em cima. A todo tempo me desviando de morcegos e marimbondos, consegui chegar são e salvo até a parte mais alta do velho casarão.

O sótão, composto por vários cubículos, é beneficiado por uma boa ventilação. Uns compartimentos com mais altura e outros, acompanhando o telhado, terminam em locais tão baixos que não permitem uma pessoa ficar em pé. No centro, onde fica a parte mais alta, uma janela para o nascente e outra para o poente, compõem sua arquitetura. Daquele local a visão é deslumbrante. Para o nascente se descortina o verde vale com seus canaviais ondulados ao sabor do vento. Para o poente vemos alguns coqueiros centenários e por trás deles o verde escuro da mata, que esconde aos pouco o crepúsculo que chega com o final da tarde, também constitui uma visão maravilhosa.

Ainda foi possível observar que a última seção do corrimão da escada, que também servia de parapeito, havia desaparecido. O piso ainda apresenta bom estado, em virtude de ter sido feito com madeira de lei. Entretanto, não pude deixar de notar que algumas tábuas estavam soltas, como se alguém as tivesse “preparado” para lavá-las em outra oportunidade. Talvez a mesma pessoa que se apropriou indevidamente do corrimão da escada.
Quando já me preparava para descer, fui surpreendido com uma visão inusitada. Num canto do corredor, que separa as duas extremidades da casa, quase despercebido, lá estava imóvel e bem acomodado, o velho cururu. Não sei como o batráquio conseguiu chegar até aquele local, pois para isso, teve que vencer três lances de uma escada íngreme e de degraus muito estreitos.
Mas, o importante é que ele conseguiu, pelo simples fato de ter tentado. E nós porque não tomamos o exemplo daquele velho morador do museu e também tentamos fazer algo para salvar aquele monumento enquanto as paredes ainda resistem ao abandono, ao descaso das autoridades e ao ataque dos vândalos?
Por que não tentamos conseguir um pouquinho do nosso suado dinheiro, que principalmente nessa época, é usado na compra de votos e consciências desse nosso povo sofrido e culturalmente ignorante, para recuperar uma parte da nossa memória? É justamente MEMÓRIA o que mais nos falta. Está literalmente em nossas mãos a oportunidade de mudar, escolhendo administradores comprometidos com a melhoria da Nação, principalmente no que se refere à educação. Um povo sem educação é presa fácil e sempre será refém de políticos espertalhões.
Natal, 13 de agosto de 2010.
sábado, 7 de agosto de 2010
O SUSTO DO BELO ANJO
Gibson Machado e Maria da Conceição - O Belo AnjoTenho falado frequentemente a respeito do cuidado que precisamos ter para manter preservadas as tradições de nossa gente e, de certa forma, proteger os patrimônios, sejam material ou imaterial, não importa, é preciso fazer alguma coisa, porque os mestres estão morrendo e não têm como passar seus conhecimentos para as futuras gerações.
O trabalho que faço na tentativa de, pelo menos, registrar as manifestações populares e as memórias dos anciões, guardiões de nossa história, é muito fragilizado, pois é impossível realizar as pesquisas e fazer os devidos registros, uma vez que o custo é alto e o tempo não é suficiente.
É necessário que o poder público tome alguma atitude nesse sentido, enquanto ainda restam, alguns mestres de nossa cultura popular, vivos e em condições de repassar seus conhecimentos.
Eu sei que há muitas dificuldades para a administração, mas, provavelmente, se todos os poderes públicos se unissem, seria possível encontrar soluções para esta grave situação.
A última apresentação de Dona Maria da Conceição – O Belo Anjo do Pastoril - foi em 2007 quando nos apresentamos no Centro Esportivo e Cultural durante o encontro do Projeto Vida Nova, criado por mim e voltado para a terceira idade. Penso que aquela foi sua última apresentação no grupo e felizmente filmamos e fotografamos todos os eventos.

Pastoril - apresentação no Vida Nova
É por isso que são necessárias ações de governo que revitalizem, preservem e protejam esses mestres da cultura popular, pois, são evidentes suas fragilidades e, enquanto é tempo, precisamos fazê-los repassar seus conhecimentos às novas e futuras gerações, uma vez que já estamos lutando contra o avançado estágio de vida dos mestres, a exemplo de Dona Maria da Conceição, Zé Baracho, Luiz de Julia, Cícero Américo (palhaço do pastoril) e tantos outros anônimos que precisam ser descobertos e protegidos do esquecimento.

Cícero Américo - Palhaço do Pastoril
Tenho Saudade do Pastoril de Dona Maria do Carmo. Estivemos juntos em várias apresentações aqui em Ceará-Mirim e em outras cidades do estado. Parece que estou vendo sua emoção quando a levei para gravar as músicas do brinquedo no estúdio. Ela estava muito feliz porque sabia que todo seu esforço estava gravado e ela poderia morrer tranquila, pois, pelo menos, o registro das músicas estava garantido.
Mestra Maria do Carmo e Gibson Machado
Infelizmente o Pastoril conduzido pela família Américo está desativado e restam algumas pastoras que resistem e estão tentando manter a dança folclórica com as músicas gravadas por mim em estúdio. Espero que o grupo coordenado pelo professor Renato Brandão tenha êxito para manter-se em atividade e estarei sempre disposto a contribuir para que nossas pastoras e brincantes se mantenham vivos.
ALTAS HORAS
À memória de
Maria Alves Correia;
Tia, madrinha e parteira.
RASPINHA de lua minguante; grilos trincando a friagem. Poste da esquina, abajourado de mariposas, sem dar bom vencimento ao pardume. Casaronas de escuros beirais, umas-noutras arrimadas, pareciam cochilar, enquanto o sereno brumoso punha-se orvalho, embaçando vidraças. Tirante a safadeza dos gatos rasgando o sossego dos telhados, nem viv’alma nas sombras da ruazinha quase beco.
Um vulto apressado, rente às paredes, virou a esquina. Na quarta casa, chegou-se ao vão duma janela. Batidas respeitosas soaram ladeira abaixo.
- Dona Neném?... – toque-toque – dona Neném... – toque-toque – dona Neném!...
- Quem chama?! – disse voz malacordada.
- Benedito... Ditim da Jacoca. – anunciou ainda maneiroso.
- Deus te salve, esse-menino! Em que te valho? – atendeu mais esperta.
- Zefa-minha entrou nas dores...
- Derna de?...
- Boquinha-da-noite.
- De tempo?
- Diz-que não...
Passos enchinelados trouxeram luz pras brechas da porta. Já destramelando, gritou pra dentro:
- Oh, Aleluia; te alui dorminhoca! Atiça o fogo prum cafezinho!
Rangeram as dobradiças. Lamparina mostrou setentona de alvura corada, bem-disposta, sem negar idade. Dureza do rosto e firmeza da fala não lhe escondiam a ternura. Ele sorriu uma careta encandeada.
- Bença?...
- Bençoe. Entra, senta e aguarda. Já lhe aprontam um esquenta-bofe.
- Tem precisão, não, madrinha.
- Acalma, home! Peguei teu pai, pego teu filho... Fhum!
- ...
- Quede transporte?
- Falei o jipe de Biel; não tarda, risca aí fora.
- Não carecia de tanto. Nem meia légua, daqui pra Jacoca... Bastava trazer montaria mansa.
- E minha madrinha inda se garante em riba dum cavalo?
- Ora pois!... No osso, não monto; daí que possuo todo arreamento, pra essas horas mesmo.
- Haja saúde, com a devida graça!
- Melhor deixar pro leite do menino que pra cachaça de Biel. Fhum!
Falou de mal, prepare o pau. Nisso, chegou o transporte; ringindo grilos, motor velho pigarrando. No que ele esbarrou, ela botou-se à porta. E foi dizendo, nos conformes da simpatia:
- Se apeie prum moca, compadre, enquanto me avio!
- Deixe proutra vez, minha madrinha; diacho desse carro anda mole de estancar e duro de pegar... Se tiro o pé...
Ela espiou pros faróis mortiços, como fossem o olhar do carro a confirmar tal desculpa.
- Então aguarde um pisco; já-já apronto meus troços! – recruzada a sala, embiocou na camarinha – Oh, essa-menina, vê um cafezim pra Biel!
E voltou de roupa trocada, caqueando tinidos de ferros e frascos numa bruaca de lona puída. Naquilo se dando por satisfeita, logo inquiriu mando.
- Vumbora?!
Adélia pediu abença e Ditim largou a xícara num caritó. Biel – vrum-vrum! – reatiçou o motor.
Sem mais tardar, embarcaram. Foi-se o jipinho, assim meio penso, aos traques e puns, fobicando madrugada afora...
Ceará-Mirim, março de 2008
Bartolomeu Correia de Melo
ALGUMA COISA ESTÁ FORA DE ORDEM
Fonte: http://www.paraibanews.com/colunistas/alguma-coisa-esta-fora-de-ordem/
Alguma coisa está fora de ordem
Célia Leal
O escritor Ariano Suassuna em uma matéria publicada num jornal sobre o chamado forró estilizado, que está lotando casas de show e praças públicas, principalmente nas idades interioranas do Nordeste, ficou escandalizado ao ouvir algumas das músicas de várias bandas que seguem essa linha grotesca, do achincalhe e da desmoralização a mulher.
As suas considerações renderam críticas e durante uma das suas aulas-espetáculo, ano passado, ele foi bastante criticado, por ter ‘malhado’ uma música da banda Calipso, apontada de mau gosto. Quando mostraram a Ariano algumas letras das bandas desse tipo de ‘forró’, ele
exclamou: ‘Eita, que é pior do que eu pensava’. Do que ele pensava e do que muito mais gente jamais imaginou.
Para conhecer algumas letras e as respectivas bandas, Ariano foi na fonte e lá se deparou com “Calcinha no chão” (Banda Caviar com Rapadura),“Zé Priquito” (Cantor Duquinha), “Fiel à putaria” (Banda de Felipão Forró Moral), “Chefe do puteiro” (Banda Aviões do forró), “Mulher roleira” (Banda Saia Rodada), “Mulher roleira a resposta” (Banda Forró Real).
Encontrou também “Chico Rola” (Banda Bonde do Forró), “Banho de língua” (Banda Solteirões do Forró), “Vou dá-lhe de cano de ferro” (Banda Forró (Chacal), “Dinheiro na mão, calcinha no chão” (Banda Saia Rodada), “Sou viciado em putaria” (Banda Ferro na Boneca), “Abre as pernas e dê uma sentadinha” (Banda Gaviões do forró), “Tapa na cara, puxão no cabelo” (Banda Swing do forró) entre tantas “pérolas” desta artilharia que anda povoando a mentes de quem, parece não pensa, desconhece a boa música brasileira. Diante de todas essas possibilidades, Ariano Suassuna disse que toda essa esculhambação tem uma origem.
Veja o que escreveu o mestre:
‘O culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. “ Faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se.
Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos Alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa.
Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.
Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é “ E vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos, não precisa dizer mais nada.
A minha opinião comunga com a do mestre e de tanta gente que gosta da boa música brasileira. O que percebo é que essas “músicas” incentivam e estimulam a violência; tornam as relações banais e fazem acreditar que a porrada e a falta de respeito entre as pessoas estão “na crista da onda”.
Neste sentido, a vida perde toda a sua essência. O que nos move é o princípio do prazer.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
SARAU BAQUIPEANO VIRTUAL
Receba, nesta flor, minha proposta
que, parecendo tímida, é insistente.
Daquelas fantasias que mais gosta,
pretendo partilhar, discretamente...
Mais que sorriso, espero por resposta,
aquele suspirar que, então, pressente
cada arrepio, quando alguém lhe encosta,
na morna flor do corpo, um beijo ardente.
Mas, além da paixão, não queira laços
de saudade ou remorso e, sem dilema,
esqueça a flor, os versos, os abraços...
E aceite, assim sem juras, este amor
que apenas dura, intenso qual poema,
enquanto passa, frágil como flor.
Bartolomeu Correia de Melo



