quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ADELE DE OLIVEIRA

Natal, domingo, 13 de março de 1983

TRIBUNA DO NORTE Colaboração- 13

TENDÊNCIAS

ADELE DE OLIVEIRA, FEMINISTA QUASE INÉDITA.
Gumercindo Saraiva

Quando em 1974 escrevemos em T.N. uma série de quase cinqüenta crônicas intituladas – CEARÁ-MIRIM – TERRA DE NOSSA INFÂNCIA – recebemos cartas elogiosas de Nilo Pereira, Edgar Barbosa, Rui Pereira, Meira Pires, Oliveira Júnior, Clodomil Cabral de Trindade, Luiz Alves Correia, Franklin Jorge, a maioria, poetas, reconhecendo a pesquisa publicada acerca dos costumes, tradições e crendices, durante o tempo em que residimos naquela cidade, ocasião em que nos deram o título de “Cidadão Cearamirinense”, como fizeram outras cidades, inclusive “Cidadão Natalense”.
Interessados na complementação de biografias de seus ilustres filhos, voltamos várias vezes à Ceará-Mirim, o mais se distanciavam de nós, os informantes, nada sabendo sobre os assuntos palpitantes, isto, com relação aos poetas do vale, esquecidos, e alguns residindo no Rio, São Paulo e Rio G. do Sul. Contudo, atingimos o alvo de nossos desejos conseguindo “um punhado” de poemas da poetisa da terra, que fora nossa professora – Adele de Oliveira – nome consagrado no movimento feminista do Rio G. do Norte, quando em 1928 iniciava-se em Natal os primeiros passos, com a presença da escritora e socióloga Ioga Berta Luztz.

MODÉSTIA DA POETISA PREJUDICOU SUA VIDA

Em 1928, Adele de Oliveira estava com seus 45 anos, pois, há dúvida quanto á época do seu nascimento. Ezequiel Wanderley (1872-1933), em “Poetas do Rio Grande do Norte” (1922) registra a data de 1885, ano em que nasceu a poetisa mas, é sabido que houve um equívoco e por isso Rômulo Wanderley,”Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense”, 1967, biografando a poeta não menciona a data. E, de uma simplicidade fora do comum, podemos afirmar que Adele de Oliveira viva escondida para a cultura potiguar. Não publicava seus poemas, não dava entrevistas, trocava de assunto quando alguém perguntava-lhe acerca de correspondência mantida na juventude, com intelectuais paraenses onde seu nome era muito conhecido. Da cultura norte-rio-grandense, salientava o nome de alguns poetas de sua terra, dando destaque a Juvenal Antunes com quem mantinha uma amizade partida da infância. Mas, na intimidade, não aceitava o humor da poesia do amigo, abusando, como todos sabem, da riqueza possuída em sua cultura poética.
Duvido que tenha havido no Rio G do Norte outro poeta do timbre de Juvenal Antunes, escrevendo prosa e verso, com uma linguagem cristalina, pura, sem mancha. Como é sabido, somente com o movimento modernista de 1922, houve uma ligação entre a poesia e o humor, cuja separação e rompimento, vieram com o advento do romantismo, parnasianismo e simbolismo, proibindo terminantemente resquícios de ironia na estrutura de seus estilos.
Adele de Oliveira, vivendo intelectualmente na fase do modernismo, jamais aceitou essa doutrina, como diziam, nascida para acabar com o academicismo e com os poderes para a criatividade brasileira.

A MAIOR POETISA CEARAMIRINENSE

Maior no sentido estético, na filosofia das belas artes, Adele de Oliveira viveu princesa em Ceará-Mirim, sua terra, fazendo crescer ali um magistério. Um mundo de inteligência, por onde passaram vultos que hoje engrandecem a cultura potiguar. Mais tarde, morreu rainha, sentada num trono de glória, após ter cumprido sua missão no professorado da terra.
O ineditismo na vida intelectual de Adele de Oliveira é um fato que deveria ser estudado separadamente, visto que há muita versão e mesmo depois de muitas entrevistas com a poetisa jamais ela revelou, aquela simplicidade quase irritante. E, como dissemos-lhe certa vez, na residência do dr. José Tavares, presente sua digna esposa Juracy Tavares, jamais compreendíamos a sua vida enclausurada, isto é, afastando-se voluntariamente do grupo de intelectuais de sua época, oportunidade em que era sempre visitada por Otoniel Menezes, João Estevão Gomes da Silva, dr. Abner de Britto, Marcos falcão, Nascimento Fernandes e tantos admiradores que visitavam a terra de Edgar Barbosa e Nilo Pereira.
No início da década de 30, residindo de vez em Natal, quando viajávamos à Ceará-Mirim, sempre procurava nossa professora, a fim de ser obsequiado com seus poemas e ela, dando um “não”. Mas o “não” da poetisa era pronunciado com meiguice, carinho e afago, não sabendo ela que, após sua morte, fomos premiados com uma coleção de versos da melhor qualidade, oferta espontânea do dr.Ciro Tavares, aumentando, assim, material pertencente ao seu livro “Retalhos de Sonhos” que ainda havemos de publicar para melhor ser conhecida na nova geração.
Ás pessoas mais íntimas, Adele de Oliveira revelava que seu maior desejo era ver seu livro editado, fato que não aconteceu em vida. Caso isso não fosse realizado, ordenou aos familiares que “tocassem fogo em tudo que escrevera”.
Hoje possuímos seus versos, mas, gostaríamos de conseguir um “Diário” que se encontra em poder de uma amiga, em cujo documentário encontramos reminiscência valiosa para complemento de sua biografia.
O primeiro poema Adele compôs aos quinze anos de idade, quando falecia seu pai, viajando de Belém para Natal. Vejamos parte desse primor de poesia que a poetisa intitulou A BORDO.
“Mar e céu. Mar e céu, no convés do navio eu contemplava o mar soluçante e bravio. As ondas majestosas vinham, se espraiavam em rugidos de dor que nunca se acabavam. Na linha do horizonte o céu se unia às águas e Tudo tinha tom de tristeza e mágoa Chamei-o em vão, em vão beijei-lhe a face fria sempre o mesmo silêncio e a mesma agonia. Que martírio, meu Deus. Que horror, que desconforto, cruel desilusão, meu pai jazia Morto.”

NEM UMA NUVEM PELO ESPAÇO HAVIA...

Trata-se de um clássico da poesia norte-rio-grandense, Adele de Oliveira compôs o soneto, com um pouco de mágoa, pois desejava que o amigo demorasse mais em sua presença. Diziam até que era um amor incubado, sem jamais efetivá-lo, visto que, apenas por correspondência, trocavam beijos e abraços. É que o personagem residia bem ao norte do Brasil e, quando retornava à terra, emaranhava-se na boemia, juntamente com Prisco Rocha, Macuca, Gabriel Saraiva,Chico de Lima, dr. Oscar Brandão e alguns notívagos, cantando modinhas, acompanhadas por violões dolentes e flautas de sons aveludados. O enamorado, não resistindo à tentação dos amigos que o esperavam no pátio da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, teria dito – a Adele – começa o soneto.
Eu vou embora, antes que chova. E ela, que de perto dele sempre estar queria, o espaço olhou com perplexão singela, nem uma nuvem no espaço havia.
Segundo Adele de Oliveira, o seu amigo morreu solteiro, no ano de 1941, em Manaus, sem poder publicar o seu último livro “Cartas a Laura...”

ADELE DE OLIVEIRA PRÉ PRESA EM SUA TERRA

Em 1935, Adele de Oliveira, inconformada com os desmandos políticos existentes em Ceará-Mirim, foi presa e levada pelas ruas da cidade, até ao presídio, onde passou quase um dia, juntamente com ladrões, assassinos e marginais, aguardando que um tenente comissionado, por sinal, vindo da Paraíba, ouvisse depoimento forçado, declarações, daquela figura tão querida em sua terra.
Contudo, com mais algumas horas, eis que o prefeito, o usineiro Luiz Lopes Varela, mandou libertá-la, para a alegria de todos. Qual o crime praticado pela poetisa? Apenas, certa vez, numa roda de amigos, comentou as arbitrariedades do interventor Mário Câmara, governando o Estado numa fase das mais difíceis em sua política partidária. Lamentamos que este fato não tenha sido registrado para a nossa história, juntamente com o famigerado King-Kong, o terror do “Grande Ponto”, no início da década de 30.

MUSEU NILO PEREIRA


ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia, membro do IHGRN e da UBE-RN)
AINDA SOBRE O MUSEU NILO PEREIRA – ENGENHO GUAPORÉ

Felizmente nosso grito de alerta teve ouvidos lá fora. Os dois artigos publicados neste periódico, “Vergonha” e “Grito de Alerta- Ainda sobre o Museu Nilo Pereira”, alcançaram o confrade Carlos Barata, Presidente do CBG - Colégio Brasileiro de Genealogia, com sede no Rio de Janeiro, Instituição a qual pertencemos desde 2008. O professor Carlos Barata ficou chocado com a atual situação do museu e principalmente com as imagens do vídeo que lhe enviei, onde vândalos aparece apedrejando o Museu Nilo Pereira.
Segue o desdobramento a partir das matérias publicadas.
Carlos Barata escreveu: Prezados amigos museólogos e estudantes de Museologia, segue mensagem que foi enviada, por e-mail, pelo amigo Ormuz Barbalho Simonetti, Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia. Matéria será publicada em O JORNAL DE HOJE edição de sexta-feira dia 24/09/2010.
E-mail enviado a Carlos Costa, Presidente de COREM 4° Região (Conselho Regional de Museologia) por Magda Beatriz Vilela,Presidente COREM 2ª Região-RJ, ES e MG, Museóloga responsável do Museu do IHGB - Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Telefax:(21)2233-2357 Tel cel.: (21) 8182-7810

Prezado Carlos,
Encaminho o email que recebi a fim de que você possa tomar conhecimento do alerta/denúncia lançado pelo Sr. Ormuz Barbalho Simonetti, o qual me fora encaminhado pelo Prof. Carlos Barata. Não sei se terás como agir nesse caso em especial, pois me parece tratar-se de um caso onde há, nitidamente, a influência da política imunda de nosso país que tem força maior do que qualquer lei. Me senti na obrigação de repassar para você.
Desde já agradeço sua atenção.
De: Conselho Regional de Museologia
Data: 27 de setembro de 2010 20:31
Assunto: Re: URGENTE AO IBRAM: Grito de alerta - Ainda sobre o museu Nilo Pereira
http://www.youtube.com/watch?v=lE5lMb7DvNc
O VÍDEO ANEXO É UM ABSURDO (Carlos Barata)

Para: Conselho Regional de Museologia COREM
Cc: Mario Chagas, nascimento@iphan.gov.br, Julio Chaves , Olímpia , Raimundo Cova Figueiredo, Raimundo Cova Figueiredo, Raimundo Figueiredo, Ana Claudia dos Santos, Rafaela Caroline Noronha Almeida, caubarat@globo.com

Carlos,
Agradeço sua pronta resposta e também devido ao encaminhamento a quem possa, talvez, agir da melhor forma para salvaguardar esse patrimônio.

Att.
Magda Beatriz Vilela
Presidente COREM 2ªRegião-RJ, ES e MG
Telefax:(21)2233-2357
Em 26 de setembro de 2010 23:05, Carlos Costa, Presidente do Conselho Regional de Museologia COREM escreveu:

Prezada colega Magda Vilela,

De fato, trata-se de uma situação lamentável. Como bem observa, não sei se teremos como agir, frente aos parcos recursos que dispomos e as forças políticas que existem por trás da situação. Por outro lado, não nos parece que seja atribuição legal do sistema COFEM/COREMs, frente ao que versa os Arts. 7º e 8º da Lei nº 7.287/84. Tendo em vista dispormos de um instituto federal que trata de museus, encaminharei a situação ao IBRAM, através deste e-mail, especialmente ao Mário Chagas e ao Nascimento Júnior, para avaliarem a questão e indicarem um encaminhamento.
Cordialmente,

Carlos Costa.
Museólogo - COREM 1R 0211-I
Presidente do COREM 1R

Hoje quarta feira, estive no Solar João Galvão de Medeiros onde funciona o CEDOC, Centro de Documentação Cultural do Estado, órgão da Fundação José Augusto, mas infelizmente não fui autorizado a ter acesso ao acervo do Museu Nilo Pereira, que se encontra sob responsabilidade daquela Fundação. Fui informado que as peças estão bastante deterioradas e por isso, impedidas de serem vistas mesmo por pesquisadores, como no meu caso. Este acervo que até 2006 era guardado no Palácio da Cultura, hoje se encontra “armazenado” em precárias condições no Papódromo – Centro Administrativo, que funciona como depósito de coisas velhas e quebradas descartadas das diversas Secretarias do Estado do RN. Não tive acesso nem mesmo ao inventário das peças que lá se encontram, mas consegui a informação de que pelo menos o piano de calda, principal peça do acervo, com certeza não se encontra dentre as peças amontoadas naquele depósito. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Faço aqui um apelo à Assembléia Legislativa para que abrace essa luta em favor do Museu Nilo Pereira, instaurando uma CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar devidamente o que vem realmente acontecendo, ao longo desses últimos anos com aquele patrimônio histórico e cultual. Temos conhecimento de que os recursos que são conseguidos com tantas dificuldades, terminam retornando às suas origens pela incompetência das autoridades responsáveis, que numa clara demonstração de descaso e falta de compromisso com a cultura de nosso Estado, passivamente, permitem que tais recursos retornem, por falta de utilização.
Apelamos para a Ordem dos Advogados do RN, a Academia de Letras do RN, a UFRN como também a Associação dos Jornalistas do RN, enfim a Sociedade Civil organizada, para se engajarem nessa luta e numa ação conjunta, possamos devolver ao povo do Rio Grande do Norte, o museu Nilo Pereira totalmente restaurado juntamente com o que ainda resta do seu antigo acervo, antes que o tempo e o descaso dessas autoridades se encarreguem de tornar impossível, o sonho de sua restauração.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CONCURSO FOTOGRÁFICO

COMISSÃO JULGADORA DO I CONCURSO DE FOTOGRAFIA DR. JULIO GOMES DE SENNA


Quarta-feira dia 22/09/2010 convidamos os fotógrafos José Maria, Idiana Rorigues, Everaldo Leocadio e o Diretor de fotografia de cinema Valdec Moura para julgarem as fotografias do I Concurso fotográfico Dr. Julio Gomes de Senna.
O concurso fotográfico foi realizado pelos alunos das escolas do município de Ceará-Mirim e o tema foi olhares bre o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim". A premiação foi distribuída em duas categorias: Ensino Fundamental (6º ao 9º anos) e Ensino Médio.
Quando fizemos os convites aos fotógrafos, a fim de participarem do concurso, não imaginávamos que fosse um momento tão rico em informações. Foi impressionante como eles ficaram empolgados e conversavam sobre o ato fotográfico, suas emoções, técnicas e, a arte enquanto registro fotográfico.
O que ficou daquele encontro foi a certeza que devemos promover fóruns para os amantes da fotografia. Assim esses profissionais poderão discutir novas técnicas, promover ensaios fotográficos, exposições de suas obras e trocar experiências.
Vamos conversar com a Fundação Nilo Pereira e sugerir uma parceria com o Centro Esportivo e Cultural para realizarmos o I Forum de Arte Fotográfica de Ceará-Mirim. Temos muitos talentos e precisamos reunir todos os amantes da grafia da luz.
Agradecemos a Direção da Escola Estadual Prof. Otto de Brito Guerra por ceder a sala de vídeo para que pudéssemos avaliar as fotografias.
CONVITE
Convidamos aos nossos leitores a comparecer ao Centro Esportivo e Cultural dia 29/09/2010 (quarta-feira) às 20 horas para a Exposição das fotografias do concurso e a entrega das premiações.
Gibson Machado

LEITOR Nº 25 000

Queremos agradecer ao leitor Joymax Nascimento por ser o leitor nº. 25000.
Temos grande satisfação em presenteá-lo com nosso livro Ceará-Mirim memória iconográfica.
Tenha uma ótima leitura e nos ajude a lutar pela preservação de nosso patrimônio histórico e cultural.

domingo, 19 de setembro de 2010

PARABÉNS RUY LIMA

Conheci Ruy já fazem uns vinte anos e sempre o admirei pelo seu jeito de ser, apesar de que, às vezes, não concordo com algumas atitudes, mas, é o jeito irreverente de ser dele e não devemos julgá-lo por isso. O importante é apoiá-lo e reconhece-lo pelo seu talento e pela sua forma de realizar seus sonhos. O que me impressiona e, ao mesmo tempo, me faz respeitá-lo como homem, artista, produtor cultural, é a força com que conquista suas metas. Ruy é um desses caras raros, que sabem colocar sua inteligência acima de seu talento, por isso, seus trabalhos estão sempre se destacando entre as realizações provincianas... Parabéns!! E que esse novo trabalho sirva de inspiração para outros. Precisamos fazer uma revolução na arte e cultura de nossa terra. Para isso devemos lutar pelo talento em detrimento do “ego” narcisista que tanto tem prejudicado as produções locais.

Vou aproveitar a carona e publicar o texto sobre Ruy Lima escrito pelo também talentoso Eliel em seu blog Retratos e Canções:


Sábado, 18 de setembro de 2010
Ontem... Hoje... Amanhã...
Ontem...

Rebelde com causa

Sua rebeldia só não é maior que o seu talento e amor pelas artes. Ruy Lima, natural de Mineiro, um cearamirinense apaixonado pelo torrão natal, pode-se dizer que já fez de tudo um pouco, ou muito, se levarmos em conta que, de artista plástico a escritor, de cantor de rock a ator, e agora cineasta, essa figura irrequieta não tem dado chance ao desânimo. As dificuldades do caminho ele enfrenta com garra, é aí que entra sua rebeldia, chega a ser um mal necessário. Nessa noite de sexta-feira, 17 de setembro, Ruy conseguiu mais uma proeza: praticamente lotar a sala da Estação Cultural Prefeito Roberto Varela (antiga estação ferroviária), e olha que o espaço é bastante grande, para a estréia do seu filme Motociclistas Rebeldes.



E todos estavam lá, ou quase todos. Mas muito me admirou ver pessoas de vários segmentos da nossa sociedade prestigiando aquele acontecimento inédito. Os presentes: o roqueiro, o executivo, o motociclista, o educador, o blogueiro mais atento, o estudante e, por incrível que pareça, nenhum político (parece que o cara também é milagreiro!). Ruy Lima era só emoção. Depois de quinze anos de afastamento do mundo dos espetáculos, para sua surpresa, consegue juntar tanta gente distinta em torno de um evento seu que na verdade foi idealizado por uma boa causa. Com o objetivo de contar um pouco sobre essa sua mais nova paixão, o motociclismo, incluindo cenas em que estão sempre presentes os monumentos históricos de Ceará-Mirim, uma oportunidade de mostrar essas belezas, apesar de alguns deles hoje encontrarem-se em ruínas, mesmo assim divulgar esse nosso patrimônio em todo o Brasil e quem sabe, no mundo. Depois de conferir mais essa façanha do Ruy cheguei a conclusão de que, seja a pé, num velho fusca ou montado em sua moto, esse cara vai longe... Parabéns Ruy Lima!


COMENTÁRIO DE GERALDO PEREIRA

Geraldo Pereira - filho de Nilo Pereira
Meu Caro Gibson Machado

Belo texto o seu, enaltecendo a rosa amarela vista assim, de relance, numa hora de seu passeio em torno do rio d'Água Azul, tão enaltecido por Nilo Pereira, vezes e vezes.

Achei que o velho Guaporé estaria em processo já de restauração, haja vista a informação que tive e passei a Lúcia Pereira, minha prima, de que pelo menos R$300.000 tinham sido autorizados. Chequei a suspender um artigo que novamente fiz e até enviei a um jornal natalense, indicado pela mesma Lúcia, considerando que a casa-grande estaria livre agora do desgaste. Será que não?

SOLAR GUAPORÉ

Fonte:http://www.outraseoutras.blogspot.com/
Roberto Pereira - filho de Nilo Pereira
AINDA COM VISTAS À ESPERANÇA DE RESTAURAÇÃO DO SOLAR GUAPORÉ - MUSEU NILO PEREIRA - VEJAMOS A POSIÇÃO DO PRIMO ROBERTO PEREIRA (RECIFE/PE).

Lúcia Helena:

Eu, como você bem sabe, militei por muitos anos na seara da cultura, onde ainda permaneço pelo viés desta com o turismo. Assim, à Camões, acolhi e recolhi o “saber de experiência feito”. Sem jactância, arrisco-me, à condição de filho do meu saudoso Nilo Pereira, a emitir o seguinte parecer (parecer não é para ser, mas, ...!!!), sem antes lhe abrir os seguintes parênteses:

PRIMEIRO PARÊNTESE:

(Há mais ou menos 3 anos consegui do Ministério do Turismo, que tem uma rubrica para restauração de monumentos que tenham atratividades turísticas, um convênio no valor, à época, coincidentemente de R$ 300.000,00, para obras de restauro do Guaporé. Todavia, reunidos com técnicos da Prefeitura do Ceará Mirim, gestão da Prefeita Edinólia Melo, esposa do ex-governador e ex-senador Geraldo Melo, casal que depois recebi aqui no Recife, no meu gabinete na CTI Nordeste, vimos, eu e os técnicos, por opinião minha que era melhor devolvermos os recursos. Por que? Porque o valor liberado, apesar da contrapartida da Prefeitura à base de 10%, era insuficiente para o restauro completo. Com esse montante, far-se-ia apenas a instalação hidráulica. Perguntei: e depois? Depois, eis a fatídica resposta: “a casa continuará desabitada”).

SEGUNDO PARÊNTESE:

(Geraldo Melo, foi quem repassou à Fundação José Augusto, por comodato, o engenho pelo período de 99 anos, tempo máximo legalmente permitido. O meu pai, quando da entrega do Guaporé, após a restauração concluída, no seu discurso, vaticinou: “se a casa não tiver uso, voltará à ruína.”)

TERCEIRO UM PARÊNTESE:

(A preservação de um monumento, Lúcia Helena, você sabe bem, enfrenta dois inimigos avassaladores e acachapantes: o mau uso, um; o desuso, outro. No caso do Guaporé impera o desuso e, quando da moradia do vigilante/caseiro e, depois, das invasões, o mau uso. O Guaporé está entregue à própria sorte, malsinado o seu desuso. Então, ou o engenho é restaurado por completo e a ele é dado um uso, ou o dinheiro sai pelo ralo, como se diz no jargão popular).

O MEU PARECER À SUA CONSIDERAÇÃO:

Os R$ 300 mil agora disponibilizados, uma surpresa agradável porque sei, por fonte governamental, que o estado do RN passa por séria dificuldade de fluxo de caixa. Idem, as prefeituras. Idem, idem, a prefeitura do Ceará Mirim. O Governo Federal, de onde se poderia alocar recursos – e são muitas as fontes, a exemplo do Ministério da Cultura, o do Turismo, as Leis de Incentivo à Cultura, os patrocínios, a exemplo da Petrobras, da CEF, da Chesf, do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste (Prodetur), do Projeto Monumenta (Min. Da Cultura), o Sebrae. Só que o Governo Federal está impedido, neste período eleitoral, de conveniar com os estados, embora liberado para as Prefeituras, todavia, no ocaso de gestão implica em recolhimento para um final que se deseja de boa saúde financeira. A mesma coisa ocorre com os organismos aqui citados para um possível patrocínio. Assim, entendo que os R$ 300 mil aqui anunciados são muito bem recebidos considerando a justeza da causa em tela. Entrementes, somente aconselho o uso dessa verba se a ela for agregado um outro montante que encete a conclusão das obras de restauro, sob pena de se gastar em vão. Depois, uma restauração deve ser muito bem feita, nela não cabendo as chamadas “gambiarras”, tampouco as “maquiagens” do gosto de alguns sabidos. Uma coisa boa era se fosse viável se aproveitar o momento político para se assegurar emendas parlamentares junto aos deputados federais, incluindo-se os senadores. Ou emenda de bancada. Ou emenda regional, neste caso se impõe uma ação conjunta com os deputados do NE brasileiro, uma iniciativa fácil se levada em conta a importância da obra para a Região. Outra medida seria colocar o montante necessário no OGU (Orçamento Geral da União), iniciativa não muito difícil. Para o convênio – vale lembrar – a Prefeitura ou órgão conveniado teria que alocar, a título de CONTRAPARTIDA, 10% sobre o montante a ser alocado, contanto que os recursos liberados correspondam a 90% sobre o total. Essa injunção, recentemente aprovada através de IN 107, por se tratar de juros compostos, faz crescer a CONTRAPARTIDA que ficaria próxima a 11% do valor conveniado. Assim, os R$ 300 mil agora anunciados, podem servir – e muito – para a CONTRAPARTIDA. Portanto, precisamos de políticas públicas no trato dos fazeres e saberes culturais, coisa pouco usual.
Enfim, louvo muito - e agradecido fico, enquanto filho de NP, pelo que deixo aqui registrado o meu pendor de gratidão, também em nome de minha mãe, Lila, - com o aceno dos R$ 300 mil. Apenas, sugiro que essa verba somente seja usada quando a ela se agregar, repito, um montante suficiente à restauração completa. O uso já se tem: a Fundação Nilo Pereira, o suficiente para que o monumento se conserve na sua inteireza.
Por fim, mais um detalhe: após as minhas últimas reuniões, há 3 anos, viu-se que a Prefeitura não estava com o projeto do restauro pronto. Pior: não dispunha das previsões dos custos. Isto é, do orçamento à consecução da obra. Assim, qualquer dinheiro fica à mercê do total, sem que se saiba se é suficiente ou não. Atualmente, sinto que esse óbice já deve estar superado.
Essas ações, prezada prima e amiga - Lúcia Helena - você, árdua defensora do Guaporé e do Ceará Mirim como um todo, de Nilo Pereira, a quem os Pereira tanto devem nessa sua preservação à memória de NP, parecendo mantê-lo vivo ou redivivo a cada iniciativa sua, o meu muito, muitíssimo obrigado por este gesto seu de me enviar este e-mail tão pródigo nos passos que se deve dar rumo à restauração do Guaporé, além de sua “eterna vigilância”.

Peço-lhe, Lúcia, que transmita ao Pedro Vicente essas minhas ponderações, todas no melhor espírito de bem servir à causa em questão, e que, filho de NP, somente posso ter para com ele o melhor sentimento de reconhecimento e gratidão. Se nada for feito, o gesto dele ficará nos corações de todos os Pereira.

Espero, na culminância, repetir os franceses: “Tout est bien qui finit bien” (“Tudo vai bem quando acaba bem”.) Desculpe-me a petulância
da tentativa de tradução, quando, você, Lúcia, é mestra no assunto

Afetuoso abraço

Roberto Pereira

sábado, 18 de setembro de 2010

A ROSA AMARELA


A Rosa Verde existe, diz Nilo Pereira, filho do Verde Nasce e neto do Guaporé: “É preciso ter olhos de infância para encontrá-la. No meio do canavial, escondida, tímida, ela floresce. Perde-se no colorido denso do vale. Só uma criança pode vê-la."

Sábado, 18 de setembro de 2010 fui com um amigo de São João do Seridó - o artista plástico Wandemberg, sua esposa Jaci e filha - conhecer o velho Guaporé. Durante a visita percebi que a Rosa Verde existe...não era bem uma rosa verde, mas, uma linda e frágil, rosa amarela...simbolicamente, uma Rosa Verde... a minha Rosa Verde.
Foi assim que eu a encontrei, entre plantas aquáticas, flutuando no heroico Rio Água Azul. Haviam feito uma limpeza na área, onde seriam plantadas mudas de cana, para a nova safra da usina.
O som da água corrente me chamou a atenção e, logo atrás da casa de banho do engenho Guaporé, descia majestoso, o resistente rio Água Azul, cortando o vale e deixando suas marcas milenares no canavial.
Observei que a terra estava removida e a margem esquerda do rio parecia ter sido totalmente revirada. Nada o protege das intempéries naturais, podendo ser soterrado pela argila depositada às margens de todo o seu curso. Demorei alguns minutos olhando aquela paisagem sem vida.
Rio Água Azul - onde a mata ciliar para protegê-lo???
Uma bomba retirava a água do rio para irrigar a plantação de cana e muitos gaviões e carcarás sobrevoavam o vale em busca de comida... faziam uma festa!!!
Desci um pouco para me aproximar da bomba e fiquei surpreso quando vi a rosa amarela, tão frágil, tão bela, estava lá, banhada pelos raios luminosos de um sol ardente que ao refletirem nas pétalas, pareciam uma luz divinal...
Sua luminosidade me fez recordar o grande neto daquela casa senhorial, Nilo Pereira, e um filme foi passando e repentinamente via aquele lugar cheio de gente, cambiteiros, meninos correndo e sinhás sendo levadas para o banho matinal na secular casa de banho em frente ao velho solar.


CASA DE BANHO DO ENGENHO GUAPORÉ

Não pude me conter e uma tristeza imensa envolveu todo meu ser... Como poderemos salvar o centenário casarão??? Como é possível pessoas inteligentes deixarem que um marco histórico e cultural como o guaporé agonize e seja engolido pela estupidez e insensatez das autoridades (IN)competentes???
É preciso enfrentar os infortúnios suscitados pelos responsáveis diretos daquele patrimônio com determinação e exigir que a justiça faça seu papel e determine a imediata restauração do casarão e de toda a área em volta do mesmo.



Os filhos de Ceará-Mirim não devem deixar que a memória da cidade seja roubada pela ganância, ignorância, insensibilidade de alienígenas que borboleteiam no vale em busca no próprio sucesso, esquecendo que, aqui, existiram pessoas e famílias inteiras que construíram uma história às custas de muito suor e sangue!!!
Não merecemos continuar derramando o mesmo suor e sangue... parece que a larva continua viva, devorando o consciente dos inconsequentes... Preciso confiar na tenacidade de minha rosa amarela... firme, viva, solitária, porém, sonhadora, acreditando que uma catarse poderá revigorar nossas quimeras seculares!!! Ave, ave, minha rosa amarela!!!



Corrimão da escada interna da casa do Guaporé em julho/2010



Roubaram o corrimão e as tábuas do assoalho do casarão - setembro/2010

Começaram a roubar as janelas... quando tomarão alguma providência??

domingo, 12 de setembro de 2010

É ASSIM QUE A GENTE FALA

Seu menino, essa menina! e num é que é assim mesmo...

NO NORDESTE SE FALA ASSIM....

O nome do cordelista é Ismael Gaião da Costa, nasceu em Recife-PE.
Engenheiro Agrônomo, Funcionário Público Federal, lotado na UFRPE - Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina.
Publicou 20 (vinte) "Cordéis" e diversas poesias (sonetos, matutas, sociais).

E o endereço para o cordel é: http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/1496943


No Brasil pra se expressar

Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fala

Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
E coisa ruim é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro

Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caxaprego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Qualquer botão é Pitoco
E confusão é Arenga

Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
E é nosso dialeto
Sendo assim, está correto

Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente
É assim que a gente fala

Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bala é Confeito
Rir de alguém é Mangar

Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Inxirir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira

Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar

Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente de casa é Terreiro

Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala

Aqui valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
E pão-duro é Amarrado

Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar em algo é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar

Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada
Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada

Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
A sandália é Percata
Uma correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
E o folgado é Folote
É assim que a gente fala

Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda

Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabuloso
Insistente é Pegajoso
Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha

Não concordo, é Pois Sim
Tô às ordens é Pois Não
Beco ao lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala

A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega

Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é um Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado

Estilingue é Balieira
Uma prostituta é Quenga
Cabra medroso é Molenga
Um baba ovo é Chaleira
Opinar é Dar Pitaco
Axilas é Suvaco
E cabra ruim é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala

Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar

A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
Tic nervoso é Munganga

Colar prova é Filar
Brigar é Sair no Braço
Nosso lombo é Ispinhaço
Faltar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Ingembrado
É assim que a gente fala

Um afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Pra perguntar como, é Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Um cabra leso é Pamonha
E manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
E coisa pouca é Tiquim

Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra, é Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Ter um azar é Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha

Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala

Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Quem está desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
Dose de cana é Lapada
Empurrão é Dá Peitada
E o banheiro é Casinha

Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina!
É assim que a gente fala

sábado, 11 de setembro de 2010

GANHEI CORAGEM

GANHEI CORAGEM

Rubem Alves

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece",
observou Nietzsche.
É o meu caso.
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
Tardiamente.
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei:
"O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus
como fundamento da ordem política.
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.
Não sei se foi bom negócio;
o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,
é de uma imensa mediocridade.
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo
como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha
para que o povo, na planície,
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias.
Amava a prostituição.
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias
pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos.
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas.
Comprou-a e disse:
"Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa
numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado.
O povo era a prostituta.
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces;
a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola
com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos
sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões,
se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente:
judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral"
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
São seres morais.
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo,
a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente,
são incapazes de fazer mal a uma borboleta,
se incorporados a um grupo tornam-se capazes
dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos,
são capazes de pôr fogo num índio adormecido
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo
é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens
e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista
que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa.
Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam
a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung,
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares.
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche,
de Saramago, de silêncio;
não gosto de churrasco, não gosto de rock,
não gosto de música sertaneja, de telenovela,
de não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos
e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno",
à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção.",
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma vaga esperança.

Rubem Alves

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PRÁ REFLETIR: O QUE MAIS DÓI.


O Que Mais Dói


O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.

É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.


Patativa do Assaré

SARAU BAQUIPEANO VIRTUAL

ETELVINA ANTUNES

Etelvina Antunes de Lemos nasceu no Engenho Oiteiro, município de Ceará-Mirim, a 17 de maio de 1885. É filha do Coronel José Antunes de Oliveira e Joana Antunes de Oliveira. Irmã do admirável poeta Juvenal Antunes.
Estudou no Colégio São José, de Recife, e colaborou em jornais e revistas da sua terra e da capital pernambucana, usando o pseudônimo de Hortência Flores. Possui um livro de versos intitulados Violetas.

TUA CARTA (à minha filha Etelvina Dulce)

Espero ansiosa a tua carta amiga,
Portadora de afeto e de carinho.
Vale pra mim como uma jóia antiga,
Tem o calor de um rico pergaminho.

Escuto ao longe uma infernal cantiga,
Um resfôlego, um silvo, um burburinho...
É o trem que rola pela estrada antiga,
Pondo nuvens de fumo no caminho.

Ei-lo que entra altivo e triunfante,
Na pequena cidade silenciosa...
Ai como sofre quem do amor se aparta!

Pego a missiva e trêmula, hesitante,
Rasgo o envelope e rápida, nervosa,
Beijo o teu nome e leio a tua carta.

Fonte: Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense - Romulo C. Wanderley - 1965

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

PARABÉNS ALICE BRANDÃO

Parabéns a minha querida amiga e artista favorita: Alice Brandão. Pela conquista do catálogo da ABLA (Academia Boituvense de Letras e Artes).

Mensagem enviada por Alice Brandão em 02/09/2010:

Este evento foi a publicação do meu livro que agora sou cadastrada e catalogada como membro da ABLA (Associação Boituvense de Letras e Artes)ligada a Galeria de Arte rede social p artista plásticos a Cultural Flumisense de Belas Artes/RJe ao Salão de Artes Plásticas da Liga de Defesa Nacional Espaço Cultural da Justiça do Trabalho/RJ .
Adalgisa Cuam Comendadora de Artes pela Câmara Brasileira de Arte e Cultura fez esse projeto de lançar este livro de Poesias e Arte e fui convidada (por fazer parte do Site do Saber Cultural) p expor aquele Cristo q foi o escolhido pela comissão julgadora entre tantos p ser lançado . Fiquei muito honrada c isso acho q passará minha entrevista da tvCultura SP. (n sei a data)
E qto aos "boys ao meu lado" são fãs primeiramente, meus alunos catalogados,chama-se Névio (Italiano)e o outro Jaime Colom Espanhol, q me deram a honra de acompanhar e levar até o Museu Salão da Rosas, onde foi o lançamento ontem .

Bjks mil. Sua artista Licinha

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MADALENA ANTUNES PEREIRA

MADALENA ANTUNES PEREIRA Madalena Antunes Pereira e Olympio Varella - foto datada de 28/05/1900

A Ata Diurna da Sexta-feira, 12 de junho de 1959, de Luiz Câmara Cascudo, publicada no Jornal da República transmite preciosos dados da vida e morte da eterna Sinhá - moça do Ceará-Mirim.

Maria Madalena Antunes Pereira nasceu à 25 de maio de 1880 e faleceu aos 11 de junho de 1959. Sinhá moça do oiteiro, menina de engenho sonoro, coméia de escravos sem troncos e sem chibata, labuta dos citos sem lágrimas. Última sobrevivente da aristocracia rural de Ceará-Mirim sempre demonstrou um espírito fidalgo, irmã das escravas e senhora das amigas. Para todos nós, era uma valorização feminina, valorizava o sexo pela graça, pela malícia, pela finura, pela elevação da conduta vivida, em linha reta erguendo a mão para abençoar e baixando-a para escrever. Escreveu o primeiro livro de memória feminina do norte brasileiro “Oiteiro”, onde reviveu o passado trazendo-o a fixação presente pelo irreversível impulso de alegria sonora e rica como um guiso de ouro cristal. Não envelheceu para entristecer-se para anoitecer os dias contemporâneos, apenas a vida, tornou-se a mais experiente, mas vibrante, recobrindo de intenção notiva as causas que tinham desaparecido. Deus lhe deu a varinha de condão de “Maria Borralheira”, transformava em música cantigas, festas coloridas de crepúsculo e reais e noites de luar sideral as paisagens sumidas e pobres. Tudo era possível voltar a viver quando ela queria evocar.
Quando não podia mais andar, sentou-se na cadeira como uma rainha no trono para aceitar a servidão jubilosa de todos os seus, a família e os amigos que era todos a sua família também.
Ficou como uma roseira, flor de todo ano, não precisando mover-se para frutificar e deslocar-se para o milagre do perfume e da compreensão total.
Madalena lia muito, mas a sua cultura era uma soma de intuições surpreendentes. O livro pouco trazia de ensino, era sua vida interior que a iluminava toda, como uma lâmpada de prata derrama a transparência clareada pela amplidão informe. Morreu aos 79 anos ainda moça, muito mais moça do que suas trisnetas. Conservava a força exultante de um júbilo espontâneo e poderoso que se derramava ao derredor como uma luz cheia de benção.
Morreu pensando em escrever, escrever para perpetuar sua terra e sua gente num ambiente de ternura, de bondade, de cores leves e românticas do amanhecer de noivado.
A vida não conseguiu decepcioná-la, torturou-a, mas não a venceu. Madalena estava por cima do tempo, da vida, das tempestades que sacodem aqueles que andam arrastados nos caminhos do mundo. Ela voava livre de todas as leis da gravidade, no tapete mágico dos sonhos tendo na mão fina e nobre, a lâmpada de Aladim.
Só sabia escrever evocando, matando a morte pela saudade, enchendo o horizonte de versos, de anseios, de lembranças, de pensamentos idos e vividos, bailantes, intermináveis, incessantes como pirilampos.
Cascudo afirmou: Não posso vê-la, pela primeira vez imóvel e silenciosa, os olhos claros apagados e a voz sem as águas vivas da comunidade criadora. Voltando para o céu, deixo-nos a última alegria viva, familiar e linda em sua legitima telúrica, da terra do vale do Ceará-Mirim.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO

ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO

Arte – Óleo sobre tela de Alice Brandão

A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho.
O que eu era para vocês continuarei sendo.
Me dêem o nome que sempre me deram, falem comigo como vocês sempre falavam.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo
que nos fazia rir juntos. Pensem em mim. Rezem por mim.
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. (Santo Agostinho)


Estou novamente diante de uma folha virgem, que me pede para ser violada. Mas a libido escrevinhadora está reprimida pela emoção, um sentimento arrebatador, transcendente, traduzido numa palavra que é somente nossa, duplamente nossa, os de língua brasílica e os que a experimentam em solidão: saudade.
Tentei inúmeras vezes transpor para o papel um relato sobre a ausência de Isautina, a minha sogra, amiga solidária e sempre presente, mas não pude. Não sabia por onde começar, nem como refrear essa caudalosa torrente de lembranças e de afetos que nos leva para muito distante da margem de onde melhor poderíamos apreciar os horizontes a que nos propomos desvendar.
Quase sempre eu era arrastado pela enchente do rio da memória, que transbordava as margens e cada vez mais me afastava da visão do horizonte.
Agora eu sei por onde começar: pela revelação mais contundente, porque fora do comum. A da “sogra amiga”, partindo-se da constatação de que essa associação é inconciliável, na opinião popular generalizada. No mundo inteiro as sogras são levadas à fogueira inquisitorial como verdadeiras bruxas, e queimadas em fogo brando para arderem mais lentamente, e experimentarem dores e sofrimentos inimagináveis.
De fato, fomos, no sentido pejorativo tradicional, genro e sogra. Batemos de frente inúmeras vezes até nos fazermos entender e respeitar pelo outro, delimitando os nossos territórios. Daí pra frente, deixamos essa condição parenteral(*) e nos convertemos em amigos. Uma amizade construída a partir dos dissensos, das nossas diferenças superadas e, portanto, amadurecida, duradoura.
Amávamos a mesma pessoa. Jailza era a sua única filha e companheira. Amiga incondicional, confidente, consoladora, parceira de “buraco” e de infortúnios, alma sexuadamente gêmea, e por isso capaz de compreender os gemidos, a importância das minimalistas rusgas existenciais cotidianas, como o ato de envelhecer, por exemplo, de se sentir só no meio da multidão e uma vontade leviana de chorar.
As duas eram cúmplices e co-habitantes de um universo só delas que eu nunca quis nem mesmo trafegar, para não quebrar o encanto de um esconderijo, um refúgio, um santuário exclusivo onde se desarmavam e se convertiam nelas mesmas. Em que eram ao mesmo tempo arrimo uma da outra, numa troca permanente de afeição.
Contentei-me em ser a sombra ou a ausência, quando as duas estavam juntas, porque moravam em cidades diferentes e pouco se viam, embora se telefonassem diariamente.
Ela-Isautina percebeu a manobra através de uma das pontes mais sólidas que construímos entre nós – o sentir intuído, sem necessidade de palavras ou explicações. Era uma pessoa de muita sensibilidade e um grau de percepção incomum, beirando o extra-sensorial. Salvo quando se recusava a acreditar no que intuía, como nas questões de família que a infelicitavam. Aí se tornava uma pessoa comum, debilitada e vulnerável.
Nesses momentos, sofria um processo acelerado de um envelhecimento sobrenatural, surpreendente. As rugas aprofundavam-se, os cabelos mais se encaneciam, as costas se curvavam sob peso imaginário insuportável, os olhos se embaciavam. E a voz adquiria um tono mais brando e mais grave. Como se mastigasse o fel para torná-lo mais digestível.
Li que em certas culturas primitivas e isoladas – os esquimós, por exemplo – os mais novos mastigavam os alimentos sólidos, tornando-os pastosos, para facilitar a alimentação dos muito idosos, desdentados. Era manifestação de carinho e de dedicação aos que se haviam devotado á família.
Provavelmente dava-se algo semelhante com Isautina, de modo inverso. Mastigava as fibras, os nervos e os músculos cozidos no sal e no fel do sofrimento, para transferi-los amaciados para os que a consolavam.
Via-a chorar apenas duas vezes e nunca mais desejei vê-la assim. Era uma explosão de dor comprimida, uma expressão magoada de desespero antigo sempre recorrente. Um grito gemido, se é que me entendem. Como o silvo de uma chaleira de água fervente, resultante de uma pressão muito poderosa reprimida sob controle.
Foi quando morreu o seu filho mais velho, Jailson . E quando se sentiu impotente para corrigir uma questão familiar. Jailza me informou que ela muito chorou, também, na morte do ex-marido, em trágico acidente numa rodovia em Mossoró; que, nessa ocasião ela literalmente desabou, pela primeira vez na vida.
É evidente que deve ter chorado muitas vezes sozinha, quando podia dar vazão, sem constrangimento, á sua tristeza que vinha de muito longe, coisa muito antiga e peregrina.
De alegria, lembro-me que chorou quando a filha casou-se comigo. E quando vieram os netos.
Como dizia um outro velho amigo, Jomar Elpidio de Oliveira, referindo-se á sua própria resistência às lágrimas, morava muito longe o “chorador” de Isautina
Porque, apesar de tudo, a alegria era o seu chão. Mercadejava sempre que podia numa feira de trocas, em que a tristeza era moeda corrente para a compra do riso fácil e do desfrute da bem-aventurança da alegria. Feliz não era, mas fazia força para arrancar de dentro de si as raízes da tristeza anciã e andeja, como já foi dito.
Gostava de serestas puxadas a cerveja. Amava a vida. Era generosa e conselheira. Tomava a si os problemas dos amigos e também dos quase amigos e, mesmo sem ter sido convocada, distribuía conselhos e “carões”. Não tinha papas na língua. Na hora de dizer verdades não poupava ninguém, nem mesmo os superiores nem as autoridades em geral. Era uma dessas paraibanas do brejo, retas, transparentes, diretas, solícitas, mas arrelientas, que dão um pão para não entrar numa briga, mas, se provocadas, não saem nem com a oferta de uma padaria.
Respeitava as pessoas e se fazia respeitar por elas. Principalmente pelos homens - que eles não se metessem a besta que ela lhes punha no lugar. Era mulher valente, de pelo na venta. Havia sido Delegada da Mulher e daí em diante, responsável pela coordenação do Juizado da Infância e da adolescência da comarca de Ceará-Mirim.
Na condição de Delegada da Mulher, prendeu muitos agressores do sexo feminino e por isso, deu força às mulheres e pôs cabresto nos ímpetos dos costumeiros torturadores de esposas e de mulheres da rua. Como espécie de Inspetora dos meninos e adolescentes, chamou muitos pais à responsabilidade e coibiu o liberalismo estimulante da paternidade machista daqueles que prendiam as suas “cabras”, mas soltavam e eram excessivamente tolerantes com os seus “bodes”.
Nesse trabalho, sempre contou com o apoio decidido da Juiza responsável pela vara especializada e pelos delegados da cidade.
Era um ser humano transitório, como as flores que só desabrocham em épocas determinadas. Nossa sorte é que ela era mais de uma dezena de espécies e por isso estava sempre florescendo. Era também instável, porque navegava entre o oceano em fúria e o mar em repouso e por isso o seu barco perdia-se entre tempestades e calmarias. Sua vida imitou a arte, fornecendo argumento para um folhetim dramático.
Quando nasceu a mãe trabalhava no cabo da enxada. Enquanto tinha leite para amamentá-la e alguém para ter a menina sob cuidados, ela foi ficando. Quando abandonou o aleitamento materno e o estômago passou a reclamar farinha, feijão e carne, a mãe entregou-a a um casal de conhecidos, para criá-la e depois ser serventia da casa, ate quando arrumasse emprego decente para sustentá-la. Em seguida, trocou a paraibana Araruna pelo solo potiguar.
A menina cresceu e começou a sofrer maus tratos. Era suficiente uma cara feia para justificar uma surra além dos limites do tolerável, que a deixava inativa no dia seguinte. Um dia, a mãe foi viver com um ex-combatente, velho conhecido, e lhe contou o infortúnio da filha. Foi o suficiente para que o companheiro, revoltado com o relato de maus tratos, fosse resgatar a menina e a trouxesse para Natal.
A menina cresceu num lar tranqüilo, com pai adotivo severo, estudou no Colégio das Neves e no Atheneu. E concluído o curso secundário foi levada pelo “padrinho” a alfabetizar os recrutas do então 16º Regimento de Infantaria, na Salgado Filho, onde o pai adotiva servia. Lá, conheceu o “Galego”, rapaz de Serra Negra, analfabeto, bonito e jeitoso, que era ordenança do padrasto. De olho em olho, toque de mãos, proximidade cheirosa, terminou em atração recíproca. Ela, uma morena bonita, de corpo roliço bem feito.
Casou-se com o ordenança, que dera baixa do quartel e agora era caminhoneiro, e foi viver em Mossoró. O marido tinha um espírito aventureiro, não conseguia esquentar lugar. Foi comerciante, dono de frigorífico, motorista particular e assentou-se mesmo havia começado, como caminhoneiro, piloto de sua própria liberdade.
Os filhos foram nascendo: um, dois, três, quatro bocas para alimentar. E o marido no mundo, deixando um dinheirinho que se acabava no meio do mês. Ela foi trabalhar. Depois, decidiu que iria para a Universidade. E foi. Graduou-se em Serviço Social e passou num concurso do estado, para lotar-se em Ceará-Mirim. O marido enfezou-se, mas, diante do inevitável, acompanhou a família, sempre com um pé na casa e outro na estrada.
Um dia o marido a põe contra a parede: ou ele ou o emprego. Preferiu o emprego, a estabilidade, a possibilidade de alimentar e de orientar os filhos na vida. Decisão que lhe custou o marido, a incompreensão de alguns filhos que a culparam pela ruptura da família e a silenciosa censura da sociedade, ainda preconceituosa, da cidade que a acolhera. E particularmente inepta por ocupar um cargo de conselheira social, vale dizer familiar – que autoridade poderia ter para apaziguar casais e orientar a educação dos filhos, com o casamento desfeito, a unidade familiar comprometida, e por decisão dela?
Impôs-se pelo trabalho, dedicação e competência. Recebeu seguidas promoções e preitos de reconhecimento profissional.
O coração era o seu órgão de choque, a caixa de ressonância dos seus embates com as desventuras que o mundo lhe impunha. Os filhos a censuravam por não cuidar-se e era mesmo que nada. O trabalho era sempre mais importante – embora fosse refúgio para não perder o juízo com tantos desencontros. Achava-se forte e portanto capaz de “tirar de letra” qualquer dificuldade. Deus a proveria, a sua fé a manteria sempre protegida.
Certa madrugada sentiu fortes dores no coração e foi levada ao hospital Dr. Percilio. O médico que a atendeu, em face da gravidade do seu estado, recomendou-lhe que viesse a Natal. Providenciou uma ambulância e a conduzimos ao Hospital Antonio Prudente, único autorizado pelo seu plano de saúde, Hapvida.
Aí começou um verdadeiro inferno. Posta numa dependência de primeiro atendimento, foi medicada segundo os padrões regulares do suposto diagnóstico de infarto. O clínico que a atendeu, fez a recomendação de encaminhamento à UTI e a possibilidade de intervenção cirúrgica. Nesse meio tempo, a matriz da empresa responsável pelo plano de saúde, a Hapvida, localizada em Fortaleza, informou que o seu prazo de Ca recomendadao, não havia sido ultrapassado. E, de fato, a carência já fora superada. Em seguida, que a recomendação do clinico não poderia ser atendida, porque não havia provisão no seu contrato. E havia.
Mesmo que não houvesse, a lei determinava o atendimento em caráter compulsório, em situações semelhantes, porque ela corria risco de vida. Esses trâmites consumiram mais de quatro horas, tempo precioso perdido em detrimento das suas chances de sobrevivência. Finalmente, desesperados, requisitamos uma UTI móvel da SAMU e, depois de mais uma hora de atendimento a procedimentos burocráticos, a dita ambulância e a respectiva equipe chegaram ela foi transportada ao Hospital do Coração.
Nessa unidade de saúde, ela foi conveniente e competentemente tratada, submetendo-se a duas cirurgias que, no entanto, dado ao agravamento do seu estado de saúde em razão da demora na tomada de providências, veio de falecer.
Morreu por negligência e omissão criminosa da dupla Hospital Antonio Prudente/ Hapvida, useiros e vezeiros deste tipo de expediente doloso, e que, nada obstante, ainda não foi suficientemente sancionado. Permanecem impunes, operando os seus negócios comerciais de modo criminoso.
Mas, sem que a ocorrência trouxesse nenhum consolo ou compensação pela perda da nossa querida amiga, as duas instituições criminosas foram condenadas, por sentença com trânsito em julgado, que reconheceu o direito à indenização dos seus herdeiros por perdas morais e materiais, reconhecendo, por conseqüência, a omissão e a negligência desses fabricantes de viúvos e viúvas.
Entre a indignação, a raiva e o sentimento de perda, prevaleceu a saudade, o sentimento de havermos sofrido a amputação de parte de nós, uma mutilação que nos deformou e cuja marca não pode ser enxertada. Uma cicatriz indelével, uma fratura exposta que nos denuncia sempre a origem: a falta do sorriso brejeiro de Isautina, do seu andar arrastado de quem padece de “esporões” nos pés, a voz roufenha pelo vício do cigarro, os vestidos de estamparias alegres, a maquiagem caprichosa, as suas mãos de fada no preparo das refeições triviais e extraordinárias, os seus resmungos cavilosos e os “carões” desconcertantes, mas tolerados.
Ficou-me uma última imagem, de uma foto tirada no São Pedro de 2008, dois meses antes de sua morte. Ela encarou a máquina com um sorriso meio debochado, cheio de brejeirice, que acentuou a falha nos dentes frontais mais expostos – uma marca pessoal. Trajava um vestido de florzinhas roceiras, bem a propósito da festa, e uma flor vermelha (uma papoula?) presa nos cabelos. A maquiagem lembrava a pintura das roceiras de antigamente.
Quando conclui a fotografia, disse-lhe que estava parecendo uma donzela do pastoril.
Ela olhou-me, zombeteira e provocadora, dizendo o seu bordão preferido:
- Você gosta de mexer, não é? Macaco não olha pro rabo...
Ainda nos vimos, e não sabíamos que seria a penúltima vez, quando veio para o velório de uma amiga, Chica, a irmã da nossa amiga Ana “Balaio”. Depois, pela derradeira Vaz, no hospital, sofrendo anginas insuportáveis mas encontrando tempo para mais um chiste: Gente ruim não morre fácil...É verdade. São os bons que Deus convoca para auxiliá-lo.

PEDRO SIMÕES – Professor de Direito (aposentado) Escritor e Advogado

SARAU BAQUIPEANO VIRTUAL

NUM POSTAL

Adele de Oliveira (Álbum de versos antigos)

Que vale um beijo? Eu te pergunto. Nada,
Talvez respondas: entretanto eu digo
Que vale muito, casto, puro e amigo,
Se cai de manso numa fronte amada.

Contam que, outrora, quando a boa fada
Nas criancinhas procurava abrigo,
No lar do rico ou mesmo do mendigo,
E em mendiga sempre transformada.

Ao pé do berço, então, se ajoelhava
E na criança, calma, adormecida,
Depunha um beijo que a facilitava.

Por isso eu faço o que a amizade excita,
Beijo-te a fronte e sonho, ó flor querida,
Que um beijo meu também te felicita.

domingo, 29 de agosto de 2010

LUCIA HELENA - POETA BRASILEIRA

Lúcia Helena Pereira - [Poeta Brasileira]
Fonte:http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com/search/label/L%C3%BAcia%20Helena%20Pereira%20-%20Poeta%20Brasileira

Escritora e poetisa LUCIA HELENA PEREIRA, do Rio Grande do Norte realizou um dos seus sonhos:conhecer a poetisa goiana CORA CORALINA.
Isso aconteceu no ano de 1973. Ela veio com uma amiga pseudo-poetisa mineira Maria de Lourdes Sena Xavier, à cidade de Goiás, onde morava a doce Cora.
Um acontecimento para ela inesquecível.Cora Coralina lhe presenteou com um lindo e delicado poema.

À Menina Nordestina do Vale Verde
(Cora Coralina)
Goiânia, 16 setembro de 1973

Assim surgiu, graciosa e simpática,
bem na porta de minha casa,
a menina nordestina,
com cheiro de cana-de-açúcar,
sorriso espelhando beleza.

Ela chegou,
pelas mãos da professora Maria de Lourdes Sena Xavier,
trajando roupinha leve e harmônica,
a mostrar sua preciosa juventude,
nas rosadas e cálidas faces,
quando emocionada abraçou-me e chorou.

Seu nome? Lucia, que já simboliza luz,
junto de Helena - que se não é de Tróia,
vem de de Atenas, com certeza.

Lúcia Helena, que jamais pisara em solo goiano,
confessou a impressão de já ter estado aqui,
tão familiar lhe pareceu a cidade,
que ela disse com muita ternura:
"Aqui sinto cheiro de flores e poesia"...
logo pedindo-me para declamar um poema.

Era a menina de um verde vale,
do interior do Nordeste,
num lugarzinho chamado, Ceará-Mirim,
terra de ilustres literatos, historiadores
e artífices da poesia,
que ela citou desenvolta,
com satisfação e nobre orgulho.

Senti grande ternura pela mimosa jovem,
que até me viu cozinhar pétalas da laranja da terra,
tiradas do pé do meu quintal,
transformadas em saboroso doce cristalizado,
que ela provou e confessou, com muita sinceridade,
jamais haver degustado nada igual.

Menininha da terra de Câmara Cascudo,
não negou sua inteligência,
e, atenta a tudo que viu em minha humilde casa,
exclamou com infinita doçura:
"esta casa deveria ser o palácio
da doçura e da poesia, porque Cora Coralina existe".

Fiquei deveras emocionada,
com o desabafo da menina nordestina,
que me trouxe alegrias e um presente expressivo,
numa caixa de madrepérola, onde um terço belíssimo estava,
para então me acompanhar,
pelo resto dos meus dias.

Para você, Lúcia Helena, menina da terra do açúcar,
dedico esses humildes versos,
estrofes da simpatia que sinto,
pela formusura do teu porte,
e pela beleza do teu sentimento poético
tão cheio de encantamento.

Receba, Lucinha, esses versinhos da Cora,
que Coralina desenhou, neste papel sem graça,
e Ana Lins enfeitou, com rabiscos de pequeninas flores,
com a ajuda de Guimarães Peixoto Brêtas,
Pois assim, minha menina, um dia me batizaram
de Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas.

Agradeço tua visita e te oferto este doce de laranja,
com muito afeto e açúcar,
para que leves à tua terra, o doce de Coralina,
já que a poesia é fraca,
não tem mesmo o grande valor,
dos mestres da Poesia Brasileira.
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WWWWWWW
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"Dileta amiga Lucia Helena - poeta da Rosa Verde encantada - como é difícil voltar ao passado e descobrir o quanto deixei de aprender e crescer intelectualmente.
O analfabetismo cultural é cruel...no incicio dos anos 1980 tive a oportunidade de trabalhar com pesquisas de diamantes na região de Goiás e, naquela oportunidade, coletamos amostras no rio que passa na cidade, exatamente sob a ponte que fica ao lado da casa de Cora Coralina.
Fiquei sabendo que ali morava uma pessoa importante, mas, para mim, à época, ela era mais um habitante daquela cidade monumento que apenas passei, e, nem ao menos, "ví" os casarões. Assim é a vida, quem sabe noutra oportunidade visitatrei o museu como recordação!!" (Gibson Machado)

TRIBUTO A RAUL SEIXAS

Texto de meu filho Rafael Sobral publicado no Jornal Decisivo:

Neste último sábado, dia 21 de agosto, ocorreu o XXI Tributo a Raul Seixas. O evento, que começou às 3 horas da tarde, contou com diversas atrações musicais e também exposições sobre a vida do ‘Maluco Beleza’.
Como de costume o número de pessoas excedeu expectativas. Veio gente de todo canto do Brasil: Fortaleza, Natal, Salvador e até Rio de Janeiro. Entretanto, o número de cearamirinenses (como sempre) era mínimo. Já era de se esperar, afinal, o preconceito da cidade em relação ao evento ainda é muito grande, além das dificuldades de patrocínio e apoio cultural.

Gibson, Erivan Seixas e Rafael Sobral
Enfrentando todos esses obstáculos, o organizador Erivan Lima já mantém o tributo há vinte e um anos e possui reconhecimento nacional. Inclusive, há o interesse do evento ser inserido no filme que está sendo rodado sobre a vida de Raul Seixas.

Musico Danilo, Gibson Machado, Rafael Sobral e Bonifácio

A realização do evento anualmente contribui para a divulgação da cidade dentro e fora do estado. Além de proporcionar divertimento, lazer e rentabilidade para diversas famílias, que já usufruem economicamente do Tributo, desde os ambulantes que negociam em frente ao clube até os comerciantes do Mercado Público que são visitados durante o dia.
O curso Decisivo, como sempre, prestigiando os eventos culturais da cidade, estava bem representado por intermédio de alunos e professores, entre eles: Júlio Siqueira, Danilo Souza, Bonifácio, Rafael Sobral, Jamerson e Carlos Henrique.

A galera do Decisivo prestigiando o tributo

É importante que os cearamirinenses, principalmente o poder público e o comércio local tenham uma visão econômica e turística dessas atividades culturais, de modo que possa gerar recursos para o município.
Ah!... Falando em eventos culturais, dia 12 de setembro, às 14 horas, no bar de Sinara, ocorrerá o II Encontro de Música, Arte e Poesia do Movimento Alternativo Goto Seco, promovido pelo professor Carlos Henrique. A entrada custará dois reais e é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre os artistas ‘underground’ da nossa cidade. Espero encontrar com todos vocês lá. Abraços, galera! Até a próxima! (Rafael Sobral)

sábado, 28 de agosto de 2010

ENTREVISTA NO "CONVERSANDO COM O POVO"

ENTREVISTA NO PROGRAMA “CONVERSANDO COM O POVO” DE ELTON MARQUES NA 87 FM

Pintura do Mestre Tião Oleiro na galeria da Fundação Roberto Marinho no Rio de Janeiro - Junto a foto a coordenadora do Canal Futura para o Nordeste Ana Amélia.

Sábado, 28 de agosto de 2010, fui convidado pelo amigo Elton Marques para participar de seu programa semanal, “Conversando com o povo”.
A pauta da entrevista foi o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim. O tema é muito abrangente e não tivemos tempo de discorrer sobre tudo quanto desejávamos.
Iniciamos a entrevista falando da atual situação do Museu Nilo Pereira, que todos de Ceará-Mirim já conhecem, pois, recentemente foi pauta na programação de televisão no estado. Durante a conversa sugeri que nossos representantes políticos se juntassem e recomendassem aos seus candidatos que registrassem uma carta de compromisso prometendo entregar o museu restaurado à municipalidade e, também, construir a casa de cultura, sonho de todos os artistas de Ceará-Mirim.
Em todo o estado do Rio Grande do Norte há Casas de Cultura em várias cidades e, Ceará-Mirim, com o potencial histórico, cultural e turístico tão rico, sempre ficou em segundo plano quando trata-se de beneficiar sua população, como diz o poeta Ivanildo Vila Nova: entra ano e sai ano e nossa cidade continua ao Deus dará...”.
Nossos patrimônios materiais e imateriais estão se extinguindo numa velocidade impressionante. É fácil verificar esses acontecimentos, basta visitar nosso vale e retornar alguns meses depois, então, confirmaremos as ocorrências, citando como referências, engenho Divisão, engenho Trigueiro, engenho União, usina Santa Tereza, engenho São Leopoldo, engenho Timbó, engenho Santa Rita, usina Guanabara, usina Ilha Bela e tantos outros que desapareceram abocanhados pela voracidade da “cana de açúcar”.
Com relação à sabedoria dos mestres de cultura popular, não precisa visita-los, é necessário somente vê-los se encantando paulatinamente, como foi o caso de tantos que por aqui passaram: Etevaldo Santiago, José Gago, Raimundinho, Seu Déo, Isabel Poti, Mané Rabequinha, José Luiz, Alzira Sá, Belchior, Amarildo, Mizael e tantos outros, que se fosse elencá-los, ficaria muito cansativo, basta representá-los pelos que aqui estão.
Atualmente todos os grupos folclóricos estão em total desamparo, pois, resistem à extinção, pela tenacidade de seus mestres, no entanto, não é suficiente para preservá-los e mantê-los atuante.
É preciso que o poder público proporcione urgentemente ações de governo para mantê-los em atividade. É importante frisar que esses folguedos não têm as mínimas condições de se manterem sozinhos e seus mestres precisam repassar seus conhecimentos às gerações mais novas.
Existe toda uma formação cultural que deveria permanecer viva nas comunidades e nas pessoas, principalmente a valorização das tradições que são passadas de geração a geração. O que verificamos é que essas reminiscências estão sendo substituídas por novos costumes através do dinamismo da própria cultura e não estamos tendo o cuidado de mantê-los juntos - o velho e o novo – de modo que nossa memória seja garantida às futuras gerações.
Fala-se muito da falta de cultura na nossa cidade e, sempre que surgem oportunidades, alguns insistem em dizer que isso é um fato rotineiro. Discordo com a afirmativa, pois, entre os anos de 2005 e 2007 foram realizadas algumas ações relacionadas as atividades culturais do município. Estou afirmando porque tudo quanto for relatado aqui têm imagens comprobatórias.
Apesar de muitos assegurarem que aquelas ações eram “cultura para elite”, no entanto, todos os eventos realizados foram em praça pública e direcionados para toda a população.
A Escola de Musica Marcia Pires atendia anualmente alunos oriundos da escola pública aprendendo teoria musical e tocar vários instrumentos e, quando havia recital, era em praça pública.
Foi criado o Coral Municipal Araraú cujas apresentações eram para o público em geral e seus componentes eram funcionários públicos e todos voluntários. Muitas vezes o coral fez ensaios concerto no palco dentro do Mercado Público.
Foi criado o projeto Olheiro das Artes cujo objetivo era proporcionar, aos alunos das escolas públicas do município, o acesso à cultura através de oficinas com artistas e artesãos dentro do Mercado Publico, todas as quintas-feiras. Esse projeto teve parceria com o Canal Futura e foi o único no Brasil que era realizado dentro de um mercado e tinha o contato direto com a população. A importância do Olheiro das Artes garantiu sua publicação no catálogo anual das ações do Canal Futura.
O Olheiro das Artes proporcionou, também, fazermos oficinas semanais com palestras, dentro do mercado, sobre o patrimônio cultural e a plateia eram alunos das escolas públicas e público em geral. Naquela oportunidade a coordenadora geral do Canal Futura, a Senhora Mariza, visitou o projeto e assistiu depoimentos de vida dos mestres Luiz Chico do Boi de reis de Matas e de Tião Oleiro do Congo de Guerra.
A visita da senhora Mariza a Ceará-Mirim inspirou a criação do projeto “Toda Beleza” realizado pela Fundação Roberto Marinho/Canal Futura e, o mesmo, foi baseado no mestre Tião. Em todo o Brasil foram selecionados 16 mestres de cultura popular para participar do documentário, entre eles, está o nosso mestre Tião Oleiro. Esse programa é transmitido diariamente em toda a programação do Canal no mundo todo, estimando-se uma média de 25 milhões de telespectadores.
Nesse período foram realizados dois fóruns de Cultura e Arte onde os participantes foram todos os grupos de cultura popular e pessoas interessadas no tema, Na oportunidade foram homenageados o escultor Etevaldo Santiago no primeiro fórum e, mestre Tião, no segundo.
Durante o intervalo dos anos citados foram publicados diversos livros com apoio publico. Além do apoio àquelas publicações, foram editados o livro Ceará-Mirim tradição, engenho e arte, pela UFRN-SEBRAE e Prefeitura de Ceará-Mirim e, o livro Ceará-Mirim memória iconográfica.
É evidente que os projetos culturais sonhados não foram realizados plenamente porque não havia políticas públicas direcionadas para a cultura e, também, os recursos não eram destinados ao órgão responsável pela cultura. As ações, por pequenas que tenham sido, foram conseguidas com muito esforço e, refletiram positivamente naqueles aos quais foram direcionadas, basta perguntar aos alunos da Escola de Música Marcia Pires, aos músicos da Banda de Musica Tenente Djalma, aos artistas, aos artesãos, aos componentes do coral, aos alunos e professores das escolas publicas que participaram dos projetos, a “todos” os grupos de cultura popular...
Todos os projetos que o mestre Tião e o Congo de Guerra participaram foram muito significativos para a divulgação dessa tradição em todo território nacional. Em 2004 apresentamos o trabalho de pesquisa, através do Mova Brasil, no Forum Social Nordestino em Recife. Em 2009 o mestre Tião e o grupo Cabocolinhos foram classificados como Patrimônios Vivos do Rio Grande do Norte. Em 2010 o mestre Tião foi classificado no projeto Culturas Populares 2009, realizado pelo Ministério da Cultura. Ele concorreu com 3000 candidatos em todo o país. São ações dessa natureza que nos confortam e, estimulam a continuar plantando as sementes... um dia abrolharão!!!
Todos conhecem minha luta pela memória de nossa cidade e, poucos, têm a consciência da importância de nossas pesquisas para o futuro de nossos conterrâneos. O tempo será a testemunha invisível das lutas incansáveis, e evidentemente, cobrará o desamparo, o desrespeito e a desvalorização pela identidade de nossa gente.
O que ameniza o desrespeito, a desvalorização, a falta de reconhecimento são aqueles que estão ligados a tudo que estamos produzindo. São pessoas que aprenderam a amar e respeitar nossa cidade através das leituras de matérias publicadas nos jornais e no blog. São elas que ajudam a criar forças para continuar tentando... São meus alunos que diariamente solicitam histórias de nossa terra e, quando os sacio com informações, tenho certeza que os ajudei a crescer intelectualmente.
A internet diminuiu a distância e facilitou o acesso à informação e, são essas informações que ajudam as pessoas distantes de sua terra, ficarem próximas... As pessoas que desconhecem suas raízes, aprenderem sua história, e, através dela, valorizar e lutar por uma terra melhor, onde a ganância e o individualismo sejam suprimidos pela solidariedade, pelo coletivo, pela honestidade, e, sobretudo, pelo amor, assim, ensinaremos nossos filhos a respeitar e preservar nossas origens.