sábado, 3 de julho de 2010

JORNALZINHO DA CULTURA DE CEARÁ-MIRIM

O JORNALZINHO DA CULTURA DE CEARA-MIRIM
Edição experimental. Junho de 2010. Editado pela comissão organizadora da ACLA

A ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES
ACLA - VAI ESTIMULAR A CULTURA DO MUNICÍPIO


Uma comissão organizadora cuida da fundação da Academia Cearamirinense de Letras e Artes – ACLA, entidade que já nasce com o compromisso de estimular e preservar a riquíssima cultura da terra dos canaviais.
Composta por Gibson Machado, Lúcia Helena Pereira, Bartolomeu Correia de Melo e Pedro Simões, cearamirinenses nascidos ou adotados pela cidade, comprometidos com a cultura em suas mais variadas formas, a comissão já concluiu a as iniciativas necessárias à constituição da ACLA.
“Já contamos com Estatuto, relação de patronos, candidatos a acadêmicos e até mesmo um brasão” – relata Simões. “Temos o apoio da Academia Norte-rio-grandense de Letras e de alguns dos mais importantes intelectuais do nosso estado” conclui Pedro Simões.
De fato, a relação de patronos faz inveja a qualquer instituição cultural, dado a expressão literária dos relacionados e a sua importância no contexto regional e até nacional.
Rodolfo Garcia, por exemplo, foi membro a Academia Brasileira de Letras e a biblioteca dessa entidade tem o seu nome. Escritores como Jayme Adour da Câmara, e Júlio Gomes de Sena, de projeção nacional. Gente tombada pelo patrimônio cultural nordestino, como Nilo Pereira, Edgar Barbosa e Maria Madalena Antunes Pereira.
Poetas que fazem parte de qualquer antologia do nosso estado, tais como Juvenal Antunes, Adele de Oliveira e Anete Varela. Figuras de expressão até mesmo da política e da dramaturgia, do porte de Augusto Meira e Inácio Meira Pires.
Educador do nível do Padre Jorge O´Grady, festejado como notável em outros estados da federação.
Para que se tenha idéia de como anda a memória cultural do município, a maioria dos leitores com certeza ignorava o berço da maior parte dos patronos, não sabe nada, ou pouquíssima coisa sobre suas obras.
Pois a ACLA vai exigir dos seus acadêmicos uma monografia sobre cada um dos patronos para editá-las e distribuí-las nas escolas públicas e bibliotecas, com vistas à formação de uma consciência cultural regional.
Muita gente também desconhece os valores culturais contemporâneos. Gente que honra o patrimônio intelectual do município, tais como Sanderson Negreiros, um dos mais importantes escritores do Rio Grande do Norte, Bartolomeu Correia de Melo, reputado como um dos maiores contistas do país, Franklin Jorge, crítico literário, escritor, cronista do Ceará-Mirim, Inácio Magalhães de Sena, dos mais eruditos intelectuais do estado, autor de dois livros de memórias sobre o município.
Maria Lúcia Pereira, a poeta que tem no verde vale a sua fonte de inspiração, Anchieta Cavalcanti, jornalista, escritor e com um passado dedicado às artes cênicas da nossa terra e Pedro Simões, memorialista, cronista e contista que apropriou em seus livros o modo cearamirinense de ser.
E, finalmente, o escritor e arquivista da memória do Ceará-Mirim, Gibson Machado, grande animador da cultura popular e cioso guardião da história municipal.
A comissão organizadora da ACLA aguarda o fim do período eleitoral para implantarem a entidade, receosos de que a política partidária possa conduzir os nobres propósitos da instituição a rumos diversos dos pretendidos.
Até o momento em que editamos esse veículo, inúmeras tentativas foram feitas no sentido de obter apoio dos poderes constituídos do município – a Prefeitura e a Câmara Municipal – através dos seus titulares e nenhuma resposta foi dada, nem mesmo para que os membros da comissão fossem recebidos em audiência.
VERDE, SEMPRE TE QUERO VERDE.
(AO MEU VALE – CEARÁ-MIRIM)
Lúcia Helena Pereira


Verde, sempre te quero verde!
Vestido de esperança e dourado de sol.
Verde, sempre te quero verde
Brilhando na chuva e espreguiçando-se ao vento.
Verde, sempre te quero verde,
Iluminado e festivo
Comemorando história e preservando lembranças.
Verde, sempre te quero verde
Exibindo casarões, praças e ruas,
Patrimônios de antigas nobrezas.
Verde, sempre te quero verde,
Impetuoso, destemido e alvissareiro,
Na travessia dos séculos.
Verde, sempre te quero verde,
Na memória dos teus filhos ilustres,
Uns distantes, outros próximos do coração.
Verde, sempre te quero verde,
Coberto pelo aroma fresco das matas
E banhado pelos rios serenos,
Onde sussurram as sinfonias do tempo.
Verde, sempre te quero verde,
Embelezando-se no Oiteiro, Guaporé,
Santa Águeda, Verde - Nasce,
Mucuripe, Solar Antunes!
Verde, sempre te quero verde,
Na Usina São Francisco, Ilha Bela,
No Cumbe e Diamante.
Verde, sempre te quero verde,
Nas águas misteriosas e perfumadas dos olheiros,
Do rio Água Azul e rio Ceará-mirim sempre te quero verde Na casa - grande onde corri meus passos de criança,
E bebi água de poço refletindo a minha vida!
Verde, sempre te quero verde
Anunciando alegrias e acordando saudades.
Nas águas límpidas dos seus rios poéticos.
Verde de memoráveis figuras
Do meu bisavô - José Antunes de Oliveira,
Da minha avó paterna - Madalena Antunes,
Do meu tio-avô Juvenal Antunes de Oliveira,
Do primo amado - Nilo de Oliveira Pereira.
Ceará - Mirim de Edgar Varela e Edgar Barbosa,
Da ex-prefeita Terezinha Jesus da Câmara Melo,
De Roberto Pereira Varela e Rui Pereira Júnior,
De Adele de Oliveira e José Augusto Meira.
Verde de tantos nomes queridos:
Gracilde Correia de Melo, Idalina Correira Pacheco
Raimundo Pereira Pacheco e Olympia (meu avós maternos),
Ceará-Mirim dos meus pais:
Abel Antunes Pereira e Áurea Pacheco Pereira.
Dos meus tios: Ruy Antunes Pereira, Vicente Ignácio Pereira,
Maria Antonieta Pereira Varela e Luiz Lopes Varela,
Joana D´Arc Pereira do Couto !

Verde de Zizi -Augusto Vaz Neto- (primo tão querido),
De Herbert Washington Dantas,
Do meu trisavô - Manoel Varela do Nascimento e Bernarda.
Verde dos tios: Etelvina Antunes Lemos e Ezequiel Antunes.
Das minhas contadoras de estórias: Piô e Maroca.
Ceará-Mirim de Quincas e Lebre
Do compadre Joaquim Gomes (tocador de Rabeca),
De dona Biluca - rendeira de almofadas de bilro!
Verde, resplendente verde,
De minha Duda (Iara Maria Pereira Pinto),
De Uruca - Denise Pereira Gaspar,
De minha primeira professora: Valdecy Villar de Queiroz Soares!
Verde dos meus conterrâneos: Naide, Neire e Nadeje,
De Abner de Brito, Onofre Soares, Gibson Machado,
Waldeck Moura, Edvaldo Morais, Dr. Percílio e dona Esmeralda
A cidade verde, de canavial ondulante,
De oiticicas cheirosas, manacás, umburanas...
Ceará-Mirim – criança de 151 anos
Engalanando – se para festejar
Seu verde resplendente, luminoso e iluminado,
Brilhando nas asas dos araraús
Passeando pelo infinito
E ecoando nas sinfonias siderais,
Repercutindo - se no dobre dos sinos
Da Matriz de N.Sra. da Conceição
Ecoando pelo vale!
Ceará - Mirim! Sempre VERDE!
É assim que eu te quero!

Da série: “O Céu de Ceará-Mirim”
O DISCÍPULO DE GUTENBERG
30 de Setembro de 2008
Por Franklin Jorge



Aluísio Macedônio Lemos emociona-se ao reler as anotações que servem de matéria-prima ao livro de memórias que está escrevendo. Uma parte já foi composta em tipografia pela mulher, Dona Laurice, que se multiplica em atenções e cuidados.

Papai chegou ao Ceará-Mirim por volta de 1900, onde se casou em 1901 e lhe nasceu Adalgisa, professora durante anos no Ceará-Mirim onde era querida por todos. Casou-se com Justo, pai de José Lemos, que em 1952 repintou o teto da igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Embora nascido em Natal, Macedônio não esquece o Ceará-Mirim, onde viveu depois que retornou de Fortaleza.

Há muita coisa sobre o povo e a cidade que ocultei no meu livro. Eu me lembro que quando viemos do Ceará para o Rio Grande do Norte, em 1910, estavam construindo a ponte de Igapó. Até então a travessia era feita por meio de barcos e canoas.

O avô de Macedônio, general do Exército Brasileiro, integrou o corpo de Voluntários da Pátria e lutou na guerra do Brasil contra o Paraguai.

Era muito amigo do general João Varela, cujo nome batiza uma das principais avenidas do Ceará-Mirim. Todos os domingos, o meu avô promovia jogos de baralho na sua casa e convidava o general João Varela.

Meu avô criava um macaco que certa vez subiu na mesa em que eles jogavam e embaralhou as cartas... O episódio ficou na crônica da família. Meu avô era calmo e tinha, como o general João Varela, uma barba longa à D. Pedro 11...

O general puxava de uma perna, em conseqüência de uma refrega no Paraguai. Era um homem muito bom e querido no Ceará-Mirim.

Macedônio lembra que o avô morava num velho casarão, nos oitões da Intendência e possuía, além da patente militar, vários imóveis de aluguel.

Sustentava quinze netos. Quando estava preocupado com alguma coisa, cofiava em silêncio a barba espessa... Morreu em 1921.

Uma das coisas que Macedônio não conta em suas memórias diz respeito à discriminação social que vigorava no Ceará-Mirim como uma lei não escrita.

As crianças pertencentes a classes sociais diferentes, não brincavam juntas e, de uma maneira geral, as pessoas eram discriminadas pelos senhores de engenho. Apurava-se muita nobreza e até gente que não tinha qualidade, porque não possuía dinheiro nem tradição, discriminava aqueles que estavam socialmente um degrau abaixo.

No Ceará-Mirim, os pobres era discriminados e não entravam em casa de rico. O delicioso avoador era comido às escondidas nas casas de família, por ser considerado peixe de pobre. Era comido fora de hora, para que ninguém lhe sentisse o cheiro.

Eu me lembro de um episódio que presenciei na feira, uma manhã. Eu estava perto de um garajau de avoador quando Sérgio Fonseca, que morava no quadro do Mercado, veio na nossa direção.
O vendedor lhe ofereceu o peixe e Sérgio, ao perceber a presença de um estranho, sentiu-se ultrajado. Reagiu grosseiramente, exigindo respeito, pois peixe daquela qualidade não lhe entrava em casa. O vendedor desculpou-se como pôde, explicando que lhe havia oferecido o garajau de avoador para ele vender aos trabalhadores de suas terras...

Ainda me lembro que as visitas eram anunciadas com antecedência e observavam todo um ritual. O Ceará- Mirim, acredite, era assim.

Até 1920 havia muito impaludismo no município. A terra, muito encharcada e cheia de olheiros, era das mais insalubres. Os invernos, rigorosíssimos, causavam grandes estragos à saúde da população.

O Ceará-Mirim tinha alguma coisa do Pará, onde vivi e trabalhei na Tipografia Guajarina. Lá, a base alimentar também era o peixe, a farinha d’água e o açaí... No Ceará Mirim comia-se muita verdura, porque era especial e barata. O feijão verde era indispensável, assim como o maxixe e

É com indisfarçável prazer com que Macedônio reconstitui os costumes alimentares antigos.

Na mesa do meu avô sentavam-se ele à cabeceira e os netos ao redor. Ficava diante dele um prato cheio de ovos cozidos, dos quais ele comia somente a clara de seis ou mais e dava as gemas para os meninos que ficavam mais perto dele...

O passadio era farto e saudável. Não faltava na sua mesa o canjicão, o jerimum, o cuscuz, a batata doce, a macaxeira, o munguzá e, às vezes, o pão e a manteiga.

Tomava-se o café puro ou com leite. Essa primeira refeição, da qual constava tudo isso, era tomada entre as seis e as seis e meia da manhã,

antes dos meninos saírem para a escola.

O almoço era de peixe ou galinha, quando não feijão com carne verde, farofa ou pirão, dependendo do gosto de cada família. Comia-se nessa segunda refeição muita verdura. A mangaba acompanhava o peixe cozido e espremia-se o cajú sobre o pirão de peixe...

À noite o meu avô gostava de comer banana-sapo ou banana-de-velho assadas com a casca e tudo e em seguida eram fritas em azeite doce. Também constava do jantar jerimum, arroz doce, pão, queijo - quando havia -, coalhada, leite e café. A batata não era comida à noite, porque provocava gases; meu avô as chamava de “pílulas bufantes”, só recomendáveis para consumo durante o dia...

Autodidata, Macedônio foi a vida inteira jornalista e tipógrafo. Ainda hoje mantém uma revista literária, A Juriti, que já tirou para mais de 150 números, sem a ajuda de nenhuma instituição.

Em Ceará-Mirim fundei a revista “Canaviais” e o jornal “Folha do Vale”. A coleção da “Folha...” está nas mãos do historiador Manoel Rodrigues de Melo, que a pediu emprestada e nunca mais a devolveu... Havia muitos jornaiszinhos manuscritos no Ceará-Mirim e eu acho que escrevi alguma coisa a respeito numa dessas publicações... “A Juriti” já não circula há quatro anos, mas temos um número parcialmente composto.

O jornalismo abriu para Macedônio as portas da política. Integralista histórico, fundou o partido no Ceará-Mirim, onde recebeu uma comitiva liderada pelo escritor Luís da Câmara Cascudo.

Cascudinho chegou em trem especial fretado. Fizemos uma grande festa na minha casa... Naquele tempo, havia no Brasil, veja só, 152 partidos políticos, nos quais se disseminavam todo tipo de comunista.

No Brasil a propaganda anticomunista era organizada e mostrava os horrores da Espanha, com freiras espetadas nas portas de conventos e hospitais... O Integralismo reagia a tudo isso sob o comando de Plínio Salgado, grande escritor, muito caluniado por se opor ao comunismo e ao fascismo no Brasil. Foi pioneiro nessa luta, mas revelou-se um fraco, pois deixou os brasileiros na mão, ao curvar-se diante da vontade do ditador Getúlio Vargas. Nosso lema era Deus, Pátria e Família.

Macedônio informa que Cascudo era um dos chefes do partido integralista no Rio Grande do Norte.

Homem de muita cultura, Cascudinho se prejudicou por ser popular. A sociedade burguesa não suporta os homens de cultura que conquistam grande popularidade, como Cascudinho. Eu ouvia muita crítica contra ele, de pessoas que diziam que ele não sabia tanto quanto se propalava...Que o seu talento era emprestado... Foi muito satirizado pelos adversários que temiam o seu gênio e a sua cultura.

Esmeraldo Siqueira dizia sempre muito mal dele. Chegava a ser injusto e impiedoso. Insistia que Cascudinho era ignorante, não sabia nada e escrevia muita besteira.

Havia até quem dissesse em Natal que seus livros eram escritos pelo professor José lvo Cavalcante... Depois José Ivo morreu e Cascudinho continuou escrevendo e publicando um livro atrás do outro, indiferente à inveja dos conterrâneos. Seus detratores, ao contrário, não deixaram nenhuma obra. Nada, nada, nada.

Em 1935, dinamitaram a casa de Macedônio no Ceará-Mirim, na antiga rua das Trincheiras, em frente ao Teatro Operário, que desapareceu com o tempo.
Tínhamos poucos militantes, apesar de o Ceará-Mirim ser potencialmente comunista. A cidade era conhecida em toda a parte com a Moscou Pequena, de tantos comunistas que havia lá...

O povo de Ceará-Mirim gostava muito de cultura, mas era ideologicamente fraco. Não tinha capacidade de ação e todos eram muito apegados a interesses pessoais.

Agora, você sabe, sempre há dissidentes. Porém, quando se insurgiam por algum motivo, não tinham força, não tinham expressão. Foi lá que eu aprendi que o oportunismo caracteriza as massas.

Franklin Jorge, uma das maiores expressões do contemporâneo momento cultural de Ceará-Mirim.


Divulgue o Jornalzinho da Cultura.
Forme uma corrente em favor da cultura Cearamirinense.


DIVULGUE O SEU JORNALZINHO DA CULTURA
Você está convidado a fazer parte de um grupo que pretende revitalizar a cultura de Ceará-Mirim.

Escreva para

psimoes.neto@hotmail.com

quinta-feira, 1 de julho de 2010

JUNHO NO CEARÁ-MIRIM

JUNHO NO CEARÁ-MIRIM
18 de junho de 2010 Por Mariza Roque da Fonsêca
Do blog Autorretrato.zip.net

É um mês de muitas festas. Começando com o dia dos namorados (12). Pode-se dizer que é o dia mais romântico do ano! Para todos aqueles que se amam é um dia muito especial em que os amantes manifestam, com carinho especial, o seu amor.

Cartões, flores, músicas e presentes. Tudo é pouco para mostrar o quanto a outra pessoa é importante. Um jantar especial, uma volta ao lugar do primeiro encontro ou um motel fazem parte do ritual amoroso. Um passeio de mãos dadas pelo Shopping, uma sessão de cinema também é o máximo… Tudo depende do grau de intimidade que existe entre os namorados. O importante é estar juntos e felizes!

Outros dias festivos são: dia de Santo Antônio (13) o santo casamenteiro, São João (24) e São Pedro (29), os três santos das festas juninas com suas quadrilhas e comidas típicas: canjica, pamonha, milho assado e cozinhado. Bolos de milho, carimã, preto, batata e macaxeira. Delícias da culinária nordestina. Tudo de bom!

As fogueiras… Lembram a minha infância e adolescência. Meu pai fazia uma fogueira enorme. As adivinhações: da bananeira, das agulhas na bacia, da aliança no fio de cabelo, da moeda na fogueira… Eu fiz todas, era um divertimento. Entre outras datas importantes, neste mês destaco dois religiosos: Pentecostes (3) e Corpus Christi (11).

Temos, também, a semana do meio ambiente que começa no dia primeiro onde se comemora o dia da Ecologia e o dia mundial do meio ambiente (5). O dia do Funcionário Público Aposentado (17).

Tenho dúvidas sobre “comemorar”, com tantas perdas ao longo destes vinte anos. Dia da Renovação Espiritual (28), um bom motivo para rever nossa espiritualidade. Finalmente, o dia 29 que além de São Pedro, São Paulo e do Papa é também o dia da Telefonista e do Pescador, portanto, um dia de muitas comemorações.

Vamos começar este mês com a oficialização de que Natal está incluída no rol das cidades que sediarão a Copa do Mundo de 1914. Muitas pessoas ficaram radiantes com a notícia.

De minha parte receio que o ônus seja muito pesado para um país e um estado aonde tudo é deficiente: segurança, educação, saúde, moradia e a maioria dos salários são vergonhosos. Sei não… Receio que o povo pagará muito caro por isto. Mas enfim, o que fazer? Viver cada dia com fé em Deus, Sabedoria e a Esperança que nunca morre de que dias melhores virão!

A DENTADURA DE DONA MILITANA

A DENTADURA DE DONA MILITANA
21 de junho de 2010 Por Franklin Jorge

Morreu Dona Militana, mulher do povo, analfabeta e tosca, guardiã da memória da raça. Morreu um pedacinho da nossa cultura popular.

Seu grande sonho foi o de substituir os dentes sãos que Deus lhe dera por uma dentadura novinha em folha; prótese, aliás, que lhe custou uma grande angústia e uma inusitada entrevista num vespertino de Natal…

Eu nunca tive paciência para ouvir Dona Militana. Mas gosto de saber que ela existiu e deu de comer a muita gente. Inclusive a alguns sanguessugas que se travestiam de mecenas da cultura e beberam o seu sangue cruamente.

Nascida na zona rural de São Gonçalo, em 19 de março de 1925, Militana começou a vida trabalhando na roça, cortando a terra com a sua enxada e ouvindo o pai cantar durante o serviço, segundo um costume antigo que ainda alcancei no Estevão. Menino, eu me lembro que as mulheres, debaixo das abas largas dos chapéus de palha, cantavam enquanto colhiam os alvissimos e leves capulhos de algodão que iam metendo dentro dos bisacos…

Descoberta pelo pesquisador Deífilo Gurgel, em 1980, sabia decorados mais de 30 romances ibéricos, introduzidos na colônia pelos descobridores portugueses. Um achado precioso que resultaria, anos depois, na gravação de um cd-room produzido pela Fundação Hélio Galvão e o Scriptorium Candinha Bezerra, que lhe prometeu a dentadura postiça, motivo de um dos episódios mais burlescos da nossa parca história cultural…

Em 2005, o presidente Lula a distinguiu com a Comenda do Mérito Cultural. Antes, ganhou uma pensão especial da prefeitura de São Gonçalo. Porém, apesar disto, morreu pobre como nasceu.

A fama, como às vezes se queixava, não lhe trouxe nenhum beneficio. E, como sempre, os atravessadores ganharam mais com a sua arte do que ela própria, Dona Militana, que teve o sonho singelo de trocar a sua dentadura natural por uma postiça.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

INAUGURAÇÃO DE NICHO

Dr. José Fernandes Senna - inaugurando o nicho na E. M. Dr. Julio Gomes Senna

Dia 08 de junho de 2010 foi inaugurado na Escola Municipal Dr. Julio Gomes de Senna o nicho de vidro para exposição permanente dos equipamentos e objetos pessoais do patrono da escola o engenheiro agrônomo e pesquisador cearamirinense.
A comunidade escolar prestigiou o evento de inauguração, onde o filho do patrono da escola, Dr. José Fernandes Senna falou da contribuição que seu pai deu para a história de Ceará-Mirim através de anos de pesquisa cujo resultado foi a publicação dos livros Ceará-Mirim Exemplo Nacional volumes I e II.
Inacio Magalhães, José Fernandes e Gibson Machado
Registro de quando recebia alguns objetos de Dr. Julio Senna das mãos de seu filho José Fernandes em companhia de seu sobrinho Inácio Magalhães.
A colocação do expositor na escola foi uma conquista que já se alonga por cinco anos, desde 2006, quando conheci pessoalmente Dr. José Fernandes, temos tentado criar um espaço onde pudéssemos guardar os equipamentos e objetos pessoais de Dr. Julio Senna afim de que preservássemos o acervo, e, também, a população conhecesse sua importante contribuição para a história de Ceará-Mirim.
Meu registro ao lado do nicho de vidro na Escola M. Dr. Julio Senna
Valeu o esforço para realizar esse sonho!!!
Infelizmente não pude me fazer presente ao evento devido participar de um curso de capacitação em São José de Mipibu para a implantação do Projeto Despertar na Escola Estadual Otto de Brito Guerra do qual serei o facilitador.
Apesar da ausência, fiquei gratificado por ter sido lembrado durante as exposições da direção da escola, quando ressaltaram a nossa importância na intermediação e conclusão da montagem do mostruário, é o reconhecimento de todo nosso esforço para manter a memória de Ceará-Mirim preservada.
A diretoria da Escola Municipal Dr. Julio Gomes de Senna agradeceu em nome de toda comunidade escolar, a iniciativa do Dr. José Fernandes Senna, de instalar, com recursos próprios, o expositor na escola e, também de fazer a doação de todos os objetos expostos.
Nossa próxima meta será a criação de uma instituição cultural afim de que a memória de Dr. Julio Senna seja preservada e que o cearamirinense tenha uma referência para lutar pelos seus patrimônios histórico, cultural e ambiental.

terça-feira, 22 de junho de 2010

EVOCAÇÃO A CEARÁ-MIRIM.avi

Evocação à memória sentimental de Ceará-Mirim através de retalhos imagéticos que contam fragmentos do desenvolvimento sócio-econômico de município e, também, nos enche de recordações e lamentos por entendermos que o patrimônio cultural está desaparecimento como bruma ao vento!!!



Comentários:

Gibson, amigo:

Uma beleza de recordação, um lindo trabalho de cultuação que você faz do passado do Ceará Mirim, belo porque não passa, porquanto esteja nas retinas dos filhos, das pessoas dignas desse tempo pretérito, nos corações dos cearamirinenses, mas, também, dos filhos adotivos, dentre os quais me incluo, talvez mais como neto da cidade mágica do que mesmo um filho adotivo.

Lamentável, apenas, e deplorável, as ruínas da maioria dos engenhos, um crime de lesa-cultura, e tudo diante dos olhos passivos de quem, a exemplo das autoridades constituídas, que poderiam mover palhas na restauração desse patrimônio, dando-lhe uso parta a sua preservação, se com isso tirar a responsabilidade de todos nós, cidadãos, no caso, de pouca cidadania.

Forte abraço

Roberto Pereira
__________________________________________________________________
Consegui,Hamilton ver o vídeo que o Gibson lhe enviou, muito bom!
Fiz uma viagem virtual aos engenhos, casas grandes,etc., inclusive ao Engenho Verde Nasce, sempre mais bonito ,elegante e pomposo.
Vale destacar a beleza da letra e do fundo musical,que acompanha o vídeo.
Parabéns, Gibson, pelo seu interesse ,amor e empenho de divulgar ,a cultura e a história do nosso querido Ceará Mirim.
Vi ,também ,o vídeo , com a divulgação do projeto de Tilápias,mamão e banana,por ocasião da visita do Presidente Lula ,a Ceará Mirim.
Grande abraço para todos,Neire.

terça-feira, 15 de junho de 2010

CEARÁ-MIRIM - CABOCOLINHOS 80 ANOS - 2009

CABOCOLINHOS DE CEARÁ-MIRIM


Quando era criança morava próximo à prefeitura, onde hoje funciona a Câmara Municipal. A fase juvenil foi muito agitada e percorríamos os quatro cantos da cidade que se resumiam ao Mercado – Igreja – Rio dos Homens – Rio do Balão e Rio Água Azul. Penso que muitos jovens e crianças daquela época faziam esse itinerário durante suas brincadeiras e descobertas.

Mestre Birico e Gibson Machado
Naquela época havia muitos grupos folclóricos que se apresentavam em alguns períodos festivos na cidade. Desses, recordo bem dos Cabocolinhos, descendo as ladeiras da cidade com aquela melodia tirada de uma flauta de lata, acompanhada das batidas dos surdos e dos estalos das flechas. Muitas vezes, quando criança, chorava e corria para casa com medo, pois pensava que eram índios de verdade!!
Não sabia que o destino me colocaria tão próximo daquela manifestação popular. Em 2003 tive meu primeiro contato com o mestre Birico coordenador dos Cabocolinhos. Lembro que o via passar e pensava que era um cara difícil de se comunicar e, por isso, havia uma barreira entre nós. Naquela época já conhecia o Congo de Guerra, o Boi de Reis, e o Pastoril.

Gibson Machado - Auto da Liberdade em Mossoró - 2004

A minha amizade com o Mestre teve como ponto inicial minha primeira viagem a Mossoró quando o grupo participou das comemorações do Auto da Liberdade no ano de 2004. Sempre que posso visito meu amigo e discutimos assuntos pertinentes ao grupo. Nossa última ação juntos foi a inscrição para o Premio Patrimônio Vivo do RN em 2009.
A parceria com os brincantes é uma forma de tentarmos manter o grupo em atividade, uma vez que há muitas dificuldades com relação às influências de novas culturas no grupo, através do acesso a outras manifestações modernas que se tornam mais atrativas por serem atuais.
A nova geração de brincantes precisa aprender a valorizar as tradições, pois elas existem, dentro desse grupo, há mais de oitentas anos e é inconcebível deixá-las desaparecer. É importante que aceitemos o dinamismo dos eventos culturais sem, no entanto, transformá-los em novos elementos. Por isso é preciso ensinar os novos componentes a importância da preservação do “brinquedo”, que de certa forma, é uma representação de antigas tradições indígenas de tribos que habitavam o vale do Baquipe, hoje Rio Ceará-Mirim, onde nasceu o Índio Poti.
Os componentes do grupo são, em sua maioria, formados por jovens de uma mesma família, cuja origem é na ribeira do Rio Ceará-Mirim, conhecida como baixo vale. Atualmente são conhecidos como os “Cabocolinhos da rua da Telern” devido suas residências estarem próximas a antiga sede da Companhia Telefônica do Rio Grande do Norte.
A origem do grupo é muito discutível, pois, segundo relatos dos mais antigos, iniciou na família por volta do ano 1929. Os primeiros mestres foram Joaquim Inácio e Chico Emídio.
No inicio dos anos 1960 o mestre era Sebastião Marques e o Guia Inácio Gentil. Naquela época os brincantes eram muito mais disciplinados, pois o mestre os conduzia com uma espada e, quando necessitava, organizava a estética do grupo utilizando aquele instrumento. Em 1963 o mestre Inácio Gentil assume o grupo e continua o mesmo regime de seu antecessor. Era um tempo em que as pessoas tinham o maior prazer em dançar e brincar e, por isso, faziam exaustivos ensaios e constantes reuniões para unificar e valorizar o grupo, ali discutiam os erros e novas programações.
Em 06 de janeiro de 1995 morre Inácio Gentil – o mestre Déo – vítima de trombose. O grupo fica órfão e cumpre um ritual interno de três anos sem atividade. Em 1999 o Matruá Luiz Francelino (hoje falecido) conduz uma reunião e resolvem reiniciar suas atividades quando elegem para Mestre Manoel Clemente, um dos mais antigos brincantes e para presidente Severino Roberto. Devido a problemas pessoais Manoel Clemente afastou-se e Severino Roberto – o Mestre Birico – assumiu o comando do grupo.
O grupo é composto por uma média de 42 brincantes, sendo 34 homens e 08 mulheres. Há pessoas com 60 anos e crianças com 6 anos. A variedade de idade é uma forma de manter o grupo renovado e, também, cumprir a organização hierárquica em que o mais experiente é o guia e o menor componente fica no final da fila e é conhecido como peró-mingu.
As apresentações iniciam-se com a primeira forma que é um estilo lento em que dançam e arrastam os pés preparando-se para iniciar o Baiano que é uma dança mais movimentada onde os brincantes trocam os pés e fazem movimentos em que balançam o corpo de um lado para o outro iniciando o baiano do bêbado. Há várias formas de dançar caboclo e entre elas estão o Capão, a parte de guerra, do arco, do cipó e a despedida.
Atualmente os Cabocolinhos de Ceará-Mirim são Patrimônios Vivos do RN e representarão o Estado em todos os eventos culturais no território nacional ou internacional. A preocupação do mestre Birico é manter a tradição e preservar aquela manifestação popular com todos os traços de antigamente, pois, é importante para o município que o grupo represente suas reminiscências e costumes. Espero que o futuro testemunhe nossas preocupações e não nos deixe um presente sem passado se não fizermos alguma coisa hoje, o amanhã terá um enorme vazio no âmbito de nossas manifestações culturais.

Conheça um pouco dos Cabocolinhos clicando aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=Jne0OILOEXM&feature=channel

domingo, 13 de junho de 2010

EUCLIDENOR MARTINS

Eu presenteando o amigo com meu livro Ceará-Mirim memória iconográfica

Hoje conheci pessoalmente meu amigo Euclidenor, filho de Ceará-Mirim que foi morar em São Paulo no final dos anos 1960. Ele é irmão do pai de Euds Martinelli e fazia muitos anos que não visitava sua terra natal.
Através de conversas comigo em 2008 Euclidenor localizou sua família, sua cunhada e seus sobrinhos. Ele conta que foi um dos dias mais emocionantes de sua vida, pois perdera o contato com a família e, naquele dia em que falamos, abria-se um grande caminho para sua volta e um novo relacionamento com seus familiares que ainda não conhecia.
Ainda menino, no ápice dos arroubos juvenis, trabalhou com Milton Araujo no comércio e posteriormente, trabalhou na Usina São Francisco. Alí iniciou os trabalhos transportando açúcar em carro de mão, o que fazia com muita habilidade, chamando atenção de seus superiores que, devido a todo o esforço, o premiaram com consecutivas promoções.
Nos idos de 1960, lá para o segundo quartel daquela década, Euclidenor recebe uma proposta, talvez seu maior desafio, de ir para São Paulo com Miguel Santana e seu filho Expedito Santana, que fazia transporte de carga para aquela cidade. Viajou por oito dias sentado no capô do motor do caminhão.
Chegando a cidade de São Paulo ficou por trinta dias cuidando do quarto em que se hospedara com o filho de Miguel Santana e outros dois rapazes. Certo dia recebeu uma proposta para trabalhar com um português que tinha comércio ali perto. Posteriormente um amigo o levou para trabalhar em uma empresa transporte urbano intermunicipal Expresso São Bernardo. Iniciou suas atividades como cobrador, fiscal de linha e finalmente sub-chefe de tráfego. Sua permanência na empresa durou nove anos. Em 1972 inciou o curso de Assistente de Monitor em uma escola industrial, concluindo o mesmo em 1975, ano em que pediu demissão da empresa e foi em busca de melhores condições de trabalho. em 1975 empregou–se na Mercedes Benz trabalhando como inspetor de qualidade, saindo em 2002 como auditor de qualidade, realizando diversas auditorias e qualificações no exterior.
Do Ceará-Mirim de outrora tem muitas recordações principalmente dos lugares em que viveu e trabalhou, recorda do Boinho de seu Agenor, a loja de cal de Milton Araújo, porém, o que mais representou na sua breve estadia na cidade foram os ensinamentos de Tenente Djalma Ribeiro. Aprendeu muito com o Mestre, principalmente princípios básicos de cidadania em que o respeito e a responsabilidade estavam acima de qualquer coisa.
Foi discípulo do saudoso tenente quando era o representante do grande desbravador Baden Power, pioneiro no escotismo, e criou em Ceará-Mirim, no inicio dos anos 1960, o grupo de escoteiros São Jorge, cuja sede ficava em uma residência ao lado do velho sobrado dos Antunes Pereira, hoje Solar Antunes - sede da prefeitura.

Tenente Djalma e o Grupo de Escoteiros São Jorge em frente a sede - década de 1960

Nessa casa nasceu o engenheiro Julio Gomes de Senna

Da visita de meu amigo fica a saudade e a satisfação de conhecer pessoa tão interessante. No pouco tempo em que conversamos aprendi a gostar dele e respeitá-lo, pois uma amizade sincera é muito difícil nessa atualidade maluca e globalizada. Espero que continuemos a nos comunicar sempre e que ele, seja mais um baquipiano a divulgar nossa terrinha nesse Brasil varonil de tanta diversidade.
Amigo Euclidenor obrigado pelas visitas: aos seus familiares, à sua cidade natal e a esse seu amigo cibernético que sempre estará disposto a lutar pelo bem da memória de nossa província verde aquarelada. Foi uma grande satisfação conhece-lo pessoalmente e obrigado também pelas fotografias e músicas.

sábado, 12 de junho de 2010


CARICATURA GIBSON MACHADO



PROFESSOR GIBSON MACHADO


Ao conhecer o professor
No entanto só de inglês
Nunca imaginei por nada
Isso confesso a vocês
Que esse cara seria
Quem sabe um dia
Meu amigo de vez.


Quando eu estudava
No Edgar Barbosa
Lá não tinha Arte
Nem verso, nem prosa
Quando eu imaginaria
Que esse professor seria
Um artista de sobra.


Foi quando conheci
Esse amante das Artes
Da cultura e folclore
De todas as partes
Esse é Gibson Machado
É um cabra danado
No meio das Artes


Um cara sensível
Em tudo que faz
Desenho, foto, tela
Livro, poesia e mais
É escritor, historiador
Com muito louvor
Do nosso vale de PAZ.


Um abraço ao amigo
Que muito me inspira
Que Deus o abençoe
Também sua família
E continue assim
Aqui em Ceará-Mirim
Seguindo essa trilha.



fim
Amigo Euds obrigado pela homenagem. Não sei se sou merecedor de tamanho carinho, no entanto, temos muito que contar desse caminho artístico que iniciamos juntos no início dos anos 2000. Sempre que tenho oportunidade falo sobre sua arte, sobre sua pessoa... um cara de índole ímpar, prestativo. Sempre que foi solicitado nunca deixou de contribuir para ajudar a criar nossas quimeras culturais. É isso, temos uma responsabilidade sobre nossos ombros: não deixar que nossas tradições e memória caiam no esquecimento. Obrigado.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

CORPUS CHRISTI na província do Baquipe

ltar mor da Matriz de Nossa Senhora da Conceição

"Corpus Christi", em latim, significa "corpo de Cristo". Trata-se de uma festa móvel católica que celebra o milagre da transubstanciação. Para o catolicismo, Cristo se transforma no pão (a hóstia), que se torna seu corpo, assim como o vinho se converte em seu sangue. A festa era uma das mais pomposas procissões católicas em Portugal e foi trazida para o Brasil pelos colonizadores, no século 16.
Artista plático Cícero Marques (de boné)

Aqui, numa carta de 9 de agosto de 1549, o padre Manuel da Nóbrega escreveu: "Outra procissão se fez dia de Corpus Christi, mui solene, em que jogou toda a artilharia, que estava na cerca, as ruas muito enramadas, houve danças e invenções à maneira de Portugal". (Cartas do Brasil, 86, Rio de Janeiro, 1931).
O costume de enfeitar as ruas surgiu em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais. No sul do Brasil, chegou com os imigrantes açorianos. Nas cidades que preservam a tradição, é comum ornamentar as ruas por onde passará a procissão com um tapete desenhado com serragem tingida, palha, borra de café, areia e grãos. Toda população participa do trabalho e o resultado é um grande mosaico, com símbolos cristãos, locais e nacionais, compondo uma obra de arte altamente efêmera, pois ela vai durar apenas até a passagem dos devotos.
A história da festa de Corpus Christi

Jovens montando os mosaicos

A festa de Corpus Christi é uma das mais antigas do catolicismo em todo o mundo. Foi instituída pelo papa Urbano 4°, em 1264, para ser celebrada na quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, que ocorre, por sua vez, no domingo seguinte ao de Pentecostes. Segundo a tradição, ele recebeu o segredo das visões da freira Juliana de Mont Cornillon.
Mosaicos na Rua Dr. Meire e Sá

Juliana nasceu em Retines perto de Liège, Bélgica em 1192. Ficou órfã muito pequena e foi educada pelas freiras agostinas em Mont Cornillon. Aos 17 anos começou a ter visões, que retratavam uma lua cheia com uma mancha escura. A Igreja interpretou a mensagem como sendo a ausência de uma festa para a eucaristia no calendário litúrgico. Eucaristia é justamente o sacramento católico que, através das palavras do padre, promove a transubstanciação.
Rua Dr. Meire e Sá vista da torre da igreja
O segredo de Juliana

Em 1230, Juliana confidenciou esse segredo ao arcediago de Liège, que 31 anos depois se tornaria o Papa Urbano 4°, que exerceria o cargo entre 1261 e1264. A confirmação da intenção da festa veio com um milagre que teria acontecido em Bolsena, na Itália, em 1263 ou 1264, quando um sacerdote que celebrava a missa teve dúvidas sobre a veracidade da transubstanciação. Acredita-se que, em seguida, sangue tenha escorrido da hóstia no momento em que o sacerdote a partiu. Hoje, uma mancha de sangue existente no altar da mesma igreja é atribuída a esse momento.
Juliana morreu em 5 de abril de 1258 e foi canonizada em 1599 pelo papa Clemente 8°. O decreto de Urbano 4° teve pouca repercussão, mas se propagou por algumas igrejas, como em Colônia, na Alemanha, onde o "Corpus Christi" foi celebrado antes de 1270. A festa tomou seu caráter universal definitivo a partir de 1313 com a sua confirmação pelo papa Clemente 5°.
A confecção dos mosaicos com painéis temáticos em Ceará-Mirim era um sonho de Marcos Aurélio – o Marquinhos - desde 2007. Em 2008 ele confeccionou o primeiro painel em frente a sua residência à rua Dr. Meire e Sá. Em 2009 com a colaboração com alguns amigos e fiéis ornamentaram as ruas por onde a procissão passava com bandeiras.

Este ano de 2010, igreja e fiéis, juntaram-se para confeccionarem um grande conjunto de mosaicos temáticos ao longo da rua Dr. Meire e Sá, percurso da procissão de Corpus Christi. A iniciativa foi muito louvável, pois proporcionou a criação artística coletiva, através o envolvimento abnegado das pastorais, irmandades e grupos de jovens sob a coordenação do artista plástico e acadêmico de arquitetuta Cícero Marques. Os painéis ficaram simplesmente encantadores, mostrando que é possível grandes realizações quando a coletividade está acima das dificuldades.
Trajeto inicial da procissão pela Rua Dr. Meire e Sá

A procissão estava muito organizada e as pessoas ficaram encantadas com os painéis na rua, infelizmente, talvez pela falta de hábito, em determinado momento, a multidão não respeitou as obras artísticas e a usaram como um tapete mágico que era acompanhada – FELIZMENTE - por um dos maiores patrimônios histórico e cultural de Ceará-Mirim, a Banda de Música Tenente Djalma Ribeiro.
Esperamos que a criação artística dos mosaicos temáticos se torne tradição no dia de Corpus Christi nos próximos anos. É mais um complemento que envolve a população e complementa as ações cristãs desse dia que é um dos mais importantes da igreja católica.
Parabéns aos novos sacerdotes, as equipes e a todos que ajudaram neste evento de tão significação religiosa.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/cultura-brasileira/ult1687u14.jhtm

terça-feira, 1 de junho de 2010

COMENTÁRIO DE MARIZA ROQUE

GIBSON

Esta é para você!
Para agradecer ao amigo que não ressurgiu na minha vida por acaso quando minha filha Edvane lhe enviou a poesia “Ceará-Mirim meu Amor” e que você publicou no seu blog. Daí por diante, comecei a pensar na possibilidade de criar o meu próprio blog. O que fiz e que graças a Deus me deixou muito feliz, pois teria um meio virtual de tocar o coração das pessoas mesmo sem conhecê-las (a maioria). Sentia necessidade de dar expansão a este meu singelo pendor literário. Através do blog fiz muitos amigos, renovei amizades e fiz muitos fãs como você disse. Recebi excelentes comentários e senti a presença de muitos que curtiram calados, porém identificados com o meu escrever.
Depois vieram os reveses da vida e perdi “Autorretrato” mas que, ainda continua (mesmo parado) através de pessoas que acessam o seu blog.
O Autoretrato 2, minha nova criação, também passou por um processo de silêncio causado por motivos de saúde. Foram 4 meses de ausência e também não consegui me comunicar com muitas pessoas para dar o novo site. Enviei e-mails para aquelas que comentavam através de seus endereços e, no entanto, poucos foram notificados.
E você, como sempre, está presente... me incentivando a continuar. Por isso, quero lhe agradecer e dizer que você é uma pessoa muito especial e tem um coração muito bondoso, dizendo sempre as palavras necessárias que traz de volta a nossa confiança! Desejo que sejas sempre muito feliz com a sua família que por sinal é muito linda (já vi fotos). E parabéns pelo filho Rafael já mostrando que vai ser um grande filho de Ceará Mirim.

Abraços da amiga, Mariza Roque.

OBS – Peço, colocar no seu blog o meu novo endereço:
“www.marizaroque2.zip.net” (estou sentindo a falta dos meus amigos).

MARIA ALICE BRANDÃO

Conheci Alice Brandão há alguns anos. Ainda menino a via passar em direção ao casarão de sua família, construído nos idos de 1940 pelo Mestre Manoel Marques. Sempre a admirei e, naquela época, não era ainda artista conhecida. Sua mãe, sim, era a maior artista plástica da província baquipiana de seu tempo.
Alice saiu de Ceará-Mirim, sua cidade Natal, e aventurou-se por este Brasil gigante onde tentou vencer seus próprios desafios interiores, desenvolver sua espiritualidade e aperfeiçoar a sensibilidade artística, característica da família materna.

Retrato do folclorista potiguar Luis da Câmara Cascudo pintado por Alice

Andou por muitas terras e, na maioria das vezes, não se adaptou. Sempre que isso acontecia alguma desculpa era criada para justificar os desacertos e nunca parava para fazer uma autocrítica. A própria artista acredita que a crítica é perigosa e pode ferir o orgulho do indivíduo, alcançando o seu senso de importância e gerando ressentimentos.
Anos de experiências e algumas desilusões ensinaram que é necessário rever velhas opiniões, convicções, alentos e temores. As lembranças e análises de ações pretéritas a fazem compreender atitudes levadas pelo entusiasmo juvenil, por isso, hoje, tem como orientação, se criticar e empregar suas experiências e conhecimentos no cotidiano para tirar boas lições de vida.
A menina Alice não se adaptava às orientações da família, e, também, ao cotidiano pacato da pequena cidade cujo jeito de viver era plenamente conservadora. Por esta razão nunca procurou conhecer sua terra profundamente e participar de sua vida social.
Suas atitudes criaram interiormente uma antipatia sobre sua cidade natal, ofuscando suas belezas, o cotidiano e a própria vida social, principalmente quando participava de reuniões com a família em que eram narradas histórias hilariantes, ouvia casos do sofrimento dos negros nas senzalas e do preconceito senhorial, cujos poder e ganância eram prioridades de uma classe alta, burguesa, em detrimento do sofrimento de seres humanos considerados inferiores. Tudo isso criou uma revolta contra tudo e todos.
Sua memória era aguçada pelo cheiro da cana, do bueiro das usinas, do manto preto de pó... de folhas queimadas, cuja consequência era o aumento de crianças e adultos com problemas respiratórios em intermináveis filas na porta do hospital e as incansáveis reclamações das donas de casa e habitantes pela sujeira causada pela fuligem das velhas chaminés.
As lembranças da artista estavam pautadas em gritos de cativos africanos, no ranger das moendas inglesas de antigos engenhos, cujo caldo de cana era misturado ao sangue, suor e óleo, fazendo funcionar uma enlouquecida e sofrida engrenagem humana.
Essa desagradável situação virou um velho hábito para ressuscitar suas recordações em que o grito que ecoa não é mais o escravo de antigamente, mas daqueles que mata a fome da ignorância, da pobreza... dos que dão a chance de sobrevivência aos trabalhadores braçais e usurpam sua liberdade para fortalecerem seus patrimônios numa nova forma de escravidão em que os serviçais ganham parcos salários levando uma vida miserável.
Dos tempos de antigamente, do Ceará-Mirim senil, recorda uma terra lendária, cheia de tradições aristocráticas, tradição rural, de idolatria, da Padroeira Nossa Senhora da Conceição... recebendo muitas Marias da Conceição em seu dia 08 de dezembro. As famílias primitivas: Os Carrilhos, Cavalcantis, Antunes, Basílios, Varellas, Pereiras, Pachecos, Sobrais, Oliveiras, Machados, Cid (seus avós) e Brandão do Patriarca Dr. Oscar Brandão, seu avô paterno.
São memórias guardadas da época em que as babás contavam histórias e lendas acontecidas no período áureo da cana de açúcar, quando as senhoras de engenhos, como Dona Domdom, queimava as negras com um ferro de passar roupas, quando estas tostavam seus vestidos ou Dona Antonia Viana, primeira esposa de Zumba do Timbó, quando mandava pregar os lóbulos das orelhas de suas escravas e depois as chamava para que parte de seu corpo ficasse no prego. Suas malvadezas proporcionaram a lenda de que em seu túmulo habitava uma serpente metamorfoseada de seu corpo inerte e sempre o ofídio místico lutava para romper as paredes do túmulo tornando-os permanentemente com rachaduras.
No período de sua permanência quando criança na Antiga Boca da Mata guarda os passeios com seu pai, o empresário Cleto Brandão, na feira livre de Ceará-Mirim, a conversa da gente do interior, o colorido de frutas e verduras, o cheiro da feira... uma babel multicolorida entrecortada de estreitos labirintos que jamais esquecerá.
Minha relação com Alice se deu em três momentos distintos. No primeiro a conheci através de sua obra e daqueles instantes relâmpagos em que nos cruzávamos na rua. O segundo momento foi em 2000 quando o artista plástico cearamirinense Vilela realizou uma vernissage e fui um de seus colaboradores. Foi nesse evento que a conheci pessoalmente, conversamos e trocamos muitas gentilezas, pois a mesma também gostaria muito de me conhecer pelos trabalhos que já fazia com cultura naquele tempo. Depois disso não nos vimos mais, ela foi embora de Ceará-Mirim, e ficamos por um longo período sem nos comunicar.
A internet tratou de nos aproximar novamente e passamos a nos comunicar frequentemente. Quando fazia meus singelos ensaios fotográficos e publicava em minha página do Orkut a artista, quando achava conveniente, usava uma das fotos como modelo para seus conhecidos quadros, ora realistas e ora picassianos o que me enchia de orgulho, pois era parceiro artístico de Alice Brandão atualmente ícone da pintura brasileira, reconhecida nacional e internacionalmente pela sua obra de mais de quinze mil quadros.
O terceiro momento que nos vimos foi em janeiro de 2010 quando a “Picassa” tupiniquim visitou nosso ubérrimo vale aquarelado. Marcamos um encontro relâmpago no qual fui presenteado com três de suas obras. Dentre as telas da artista estava uma de enorme valor histórico e cultural, pois era o retrato do famoso e temível Zumba do Timbó, coronel e senhor do engenho Timbó. Esse foi um presente especial que irá para a Galeria Municipal no dia em que o poder público, através de seu representante legal, se conscientizar e construir para Ceará-Mirim um Memorial em que a população possa conhecer sua história e sua cultura através de trabalhos artísticos, equipamentos, objetos, fotografias de seus antepassados.

Retrato do Coronel Zumba do Timbó - senhor do Engenho Timbó - pintado por Alice

Falar da Arte de Alice é uma responsabilidade indescritível, pois ela está acima de minha capacidade provinciana, no entanto, lembro das primeiras telas que vi, uma natureza morta, cujas frutas pareciam verdadeiras e os efeitos de luz e sombra vivificavam cada uma delas. A outra, uma paisagem de uma casa de campo onde podíamos sentir o cheiro do mato, ouvir a sinfonia dos pássaros e o borbulhar da água. Posteriormente percebi outras obras indiscutivelmente primorosas que eram retratos de pessoas de Ceará-Mirim.
Atualmente nossa Picassa não precisa de apresentações, pois seu talento é reconhecido por grandes nomes da arte potiguar e brasileira e suas exposições são verdadeiros passeios em que a fruição do espectador é concentrada em verdadeiras obras cuja criação é inovadora e diferenciada ou realisticamente fiel aos grandes gênios renascentistas ou impressionistas, depende do tema trabalhado.

Para conhecer parte da obra da artista e um pouco de sua biografia acesse o blog de Ceicinha Câmara:

http://nlusofonia.blogspot.com/2010/05/homenagem-artista-plastica.html

e quem interessar fazer contato com Alice e conhecer melhor sua obra acesse:

malice.bezerra@hotmail.com

licinhabrandao21@gmail.com

alicebrandao21@yahoo.com.br

Blog: http://licinhabrandao.multiply.com/


sexta-feira, 28 de maio de 2010

COMENTÁRIO DE THIAGO COSTACKZ

Ola Gibsom, td bem com vc?

Vi suas fotos no Orkut, no blog e também o vídeo de youtube sobre a situação do antigo Museu de Ceara-Mirim! Meu deus que problema este não? Uma parte tão importante da historia da cidade sendo condenada ao inferno aos pouquinho não só pela ação do tempo mais também pelas mãos assassinas destes aborígenes jurássicos inaculturados!

Quem administra ou responde pelo lugar?
(ninguém claro, se não... Não estaria assim ne?)

Bom, eu tenho muitos contatos aqui com toda mídia nacional e tenho muitos amigos, celebridades e políticos influentes.. Talvez eu possa ser útil de alguma forma... Sei La de repente vou ai pintar toda aquela fachada com minha arte para chamar atenção para a preservação do local... Meu trabalho da muita mídia e sempre que posso ajudo causas. Não sei.. é uma idéia.

Conte comigo

Thiago Costackz

POETA ZÉ BARACHO

José Severino... o Poeta Zé Baracho. Cantador de Côco, Cantador de Viola, Romances, Poemas, Temas, Galopes, Martelos, Incelências, Conhecedor de rezas e medicina popular. Como seria importante que as autoridades locais e do país olhassem nossos mestres com respeito e proporcionassem ações que valorizassem e reconhecessem esses verdadeiros representantes da cultura popular. Estar com eles é como se passasse por uma catarse e fico revigorado, não canso de ouví-los e quando surgem esses momentos tento absorvê-los com todas as minhas energias. A sabedoria dos mestres está ao alcance de todos, no entanto, poucos conseguem captá-las!!! São oitenta anos cantando o coração e a alma!!!

COMENTÁRIO DE CÍCERO MILITÃO

Amigo Gibson,

Um homem apaixonado pela sua terra, que vai buscar as raizes do seu povo, amigo do tempo, da arte e da vida. Homem sábio que conta a história dos seus casarões antigos, que varre as ruas com sua câmera, que vai nas chamadas da budega ao oitão das suas igrejas lindas. Sua família é o retrato fiel de sua verdade. Filho da arte do mato grande, filho da terra que brota a vida de um povo que esbanja cultura. Tua gente deve muito a te não apenas pelo que fázes, mas pelo que representas para Ceará-mirim e para a História desse nosso Rio grande do Norte.

COMENTÁRIO DE MARIA JOSÉ RAMALHO

Parabéns Gibson, eu, como todo povo de Ceará-Mirim, devemos nos orgulhar de tão ilustre pessoa que você é, trazendo para conhecimento de todos e, principalmente das gerações mais jovens, a cultura popular muitas vezes esquecida. É um projeto fantástico. Orgulho-me de ser sua conterrânea.

COMENTÁRIO DE JADSON QUEIROZ

Parabéns Gibson!!!
São momentos como esses que nos orgulha e mostra o amor que dedicamos a nossa terra tão querida e amada. A pureza dos músicos, a singeleza do Hino executado, o amor com que Zé Luiz o compos e a dedicação de sua parte, em mostrar a todos, o seu grande amor ao Ceará-Mirim!!! São ingredientes que tornam esses momentos tão especiais e inesquecíveis!!!!

Um grande abraço do teu pai, Jadson.

COMENTÁRIO DE ROBERTO SALES

Sr Gibson,

Procurando pelo título deste texto, encontrei o seu blog e constatei que o seguinte comentário “O Ceará Mirim, por suas belezas naturais, tem despertado em seus filhos a sensibilidade artistica. Esta cronica de Mariza Roque (tia do escritor Franklin Jorge?) é prova disto.”, do Sr. José Eduardo Cunha no blog de Franklin Jorge , é a mais pura verdade pois aqui, encontro mais um filho desta terra com a sua sensibilidade artística despertada. Parabéns pelo seu blog e pelo amor que tem a sua terra!Aproveito, para colocar o mesmo comentário que fiz no blog de Franklin Jorge sobre este mesmo texto: “Tenho acompanhado o blog de Mariza e acho a sua sensibilidade artística uma dádiva para os seus seguidores. Tanto as suas crônicas quanto as suas poesias são de primeira grandeza. Mariza é uma artista sensível e, todos os seus textos, sejam em prosa ou sejam em verso, me surpreendem constantemente. Esta mulher tem a veia artística à flor da pele! Extremamente romântica, ela nos faz viajar pelos seus textos como se fôssemos nós, os protagonistas dos seus escritos.
Quero hoje, desejar a Mariza Roque todo o sucesso do qual ela é merecedora e parabenizar a cidade de Ceará-Mirim por esta filha ilustre que valoriza a sua terra e a sua gente.
Quero também, parabenizar você, Franklim Jorge, por ter esta jóia rara como tia.”
Parabéns a vc também, Gibson, por tê-la como amiga
Um grande abraço deste mais novo seguidor.
MADALENA ANTUNES PEREIRA


A Ata Diurna da Sexta-feira, 12 de junho de 1959, de Luiz Câmara Cascudo, publicada no Jornal da República transmite preciosos dados da vida e morte da eterna Sinhá moça do Ceará-Mirim.

Maria Madalena Antunes Pereira nasceu à 25 de maio de 1880 e faleceu aos 11 de junho de 1959. Sinhá moça do oiteiro, menina de engenho sonoro, coméia de escravos sem troncos e sem chibata, labuta dos citos sem lágrimas. Última sobrevivente da aristocracia rural de Ceará-Mirim sempre demonstrou um espírito fidalgo, irmã das escravas e senhora das amigas. Para todos nós, era uma valorização feminina, valorizava o sexo pela graça, pela malícia, pela finura, pela elevação da conduta vivida, em linha reta erguendo a mão para abençoar e baixando-a para escrever. Escreveu o primeiro livro de memória feminina do norte brasileiro “Oiteiro”, onde reviveu o passado trazendo-o a fixação presente pelo irreversível impulso de alegria sonora e rica como um guiso de ouro cristal. Não envelheceu para entristecer-se para anoitecer os dias contemporâneos, apenas a vida, tornou-se a mais experiente, mas vibrante, recobrindo de intenção notiva as causas que tinham desaparecido. Deus lhe deu a varinha de condão de “Maria Borralheira”, transformava em música cantigas, festas coloridas de crepúsculo e reais e noites de luar sideral as paisagens sumidas e pobres. Tudo era possível voltar a viver quando ela queria evocar.
Quando não podia mais andar, sentou-se na cadeira como uma rainha no trono para aceitar a servidão jubilosa de todos os seus, a família e os amigos que era todos a sua família também.
Ficou como uma roseira, flor de todo ano, não precisando mover-se para frutificar e deslocar-se para o milagre do perfume e da compreensão total.
Madalena lia muito, mas a sua cultura era uma soma de intuições surpreendentes. O livro pouco trazia de ensino, era sua vida interior que a iluminava toda, como uma lâmpada de prata derrama a transparência clareada pela amplidão informe. Morreu aos 79 anos ainda moça, muito mais moça do que suas trisnetas. Conservava a força exultante de um júbilo espontâneo e poderoso que se derramava ao derredor como uma luz cheia de benção.
Morreu pensando em escrever, escrever para perpetuar sua terra e sua gente num ambiente de ternura, de bondade, de cores leves e românticas do amanhecer de noivado.
A vida não conseguiu decepciona-la, torturou-a, mas não a venceu. Madalena estava por cima do tempo, da vida, das tempestades que sacodem aqueles que andam arrastados nos caminhos do mundo. Ela voava livre de todas as leis da gravidade, no tapete mágico dos sonhos tendo na mão fina e nobre, a lâmpada de Aladim.
Só sabia escrever evocando, matando a morte pela saudade, enchendo o horizonte de versos, de anseios, de lembranças, de pensamentos idos e vividos, bailantes, intermináveis, incessantes como pirilampos.
Cascudo afirmou: Não posso vê-la, pela primeira vez imóvel e silenciosa, os olhos claros apagados e a voz sem as águas vivas da comunidade criadora. Voltando para o céu, deixo-nos a última alegria viva, familiar e linda em sua legitima telúrica, da terra do vale do Ceará-Mirim.

13O ANOS DE MADALENA ANTUNES

130 ANOS DE MADALENA ANTUNES
Por Franklin Jorge

http://www.franklinjorge.com/blog/category/o-santo-oficio/

Pertence Maria Madalena Antunes Pereira ao seleto grupo de escritores do Ceará-Mirim, que, pelas características que tem em comum configuram uma escola literária. A “Escola do Ceará-Mirim”, conforme a definição argutamente forjada pelo grande critico e ensaísta José Livio Dantas:
“O traço característico dessa escola é a síntese que seus membros fazem do particular com o geral, da aldeia com o mundo, do detalhe com a macrovisão. Nisso são magistrais. Olham para o pormenor e vêem a paisagem; falam de sua querência – para nordestinizar esse bonito vocábulo gauchesco – e se universalizam; voltam-se para dentro de si próprios e redescobrem a humanidade. Não é sem razão que são chamados de humanistas, ceará-mirimente humanistas.”
Madalena Antunes não apenas se inscreve nessa tradição: funda-a, ao restaurar em um livro delicioso seus primeiros anos de vida, o que significa dizer, sua infância e adolescencia vividas na casa-grande do Engenho Oiteiro, um dos muitos engenhos então em plena atividade no ubérrimo Vale do Ceará-Mirim.
Em conferencia que fiz no Ceará-Mirim, para cerca de 400 pessoas que compareceram ao Centro Social Urbano, há alguns anos, justamente sob o tema “a escola do Ceará-Mirim”, enfatizei essa contribuição fundadora de Madalena Antunes e me detive na apreciação da obra de seus dois mais ilustres discípulos, os escritores Edgar Barbosa e Nilo Pereira, que se notabilizaram como humanistas integrais.
Neste dia 25 transcorre o 130º. Aniversário de nascimento da autora de “Oiteiro, memórias de uma menina-moça”, obra que é como que o contraponto feminino de “Massangana”, do pernambucano Joaquim Nabuco. Publicado há pouco mais de 50 anos, não se inscreve entre as obras de ficção, mas do memorialismo, da etnografia e da sociologia, embora, neste aspecto, a autora não tenha procurado ser, deliberadamente, uma fria especialista.
Seu livro é fruto da memória, da observação e da experiência; além de constituir-se em um singular documentário e o registro de uma época. Nele, avulta a presença da escrava Patica, uma espécie de astuciosa Xerazade do Vale do Ceará-Mirim, e aquela página tocante em que a autora eterniza o 13 de Maio em que a Princesa Isabel aboliu definitivamente a escravidão no Brasil.
Agora a sua neta, a neta da escritora canônica do Ceará-Mirim, Lucia Helena Pereira, chama-nos a atenção para a importância desta data que de outra forma teria certamente passada despercebida: os 130 anos de uma autora que é sem duvida a fundadora da Escola do Ceará-Mirim, cujo traço particular, conforme a admirável síntese de José Livio Dantas, seria essa maneira de urdir com talento, cultura e sensibilidade admiráveis, “(…) a síntese que seus membros fazem do particular com o geral, da aldeia com o mundo, do detalhe com a macrovisão. Nisso são magistrais. Olham para o pormenor e vêem a paisagem; falam de sua querência – para nordestinizar esse bonito vocábulo gauchesco – e se universalizam; voltam-se para dentro de si próprios e redescobrem a humanidade. Não é sem razão que são chamados de humanistas, ceará-mirimente humanistas.”

domingo, 23 de maio de 2010

I CONCURSO DE FOTOGRAFIA DR JULIO GOMES DE SENNA

No Brasil estamos vivendo um período em que a supervalorização de culturas importadas pela globalização da informação, sobrepõe-se às nossas tradições, entrando em um processo gradativo de desvalorização da cultura genuinamente brasileira.
O patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim tem sofrido intenso processo de deterioração, principalmente os patrimônios arquitetônicos, através de seus casarios e dos velhos engenhos construídos no período da aristocracia canavieira. Embora não podemos esquecer os patrimônios imateriais que já estão em avançado processo de extinção.
O Centro Esportivo e Cultural, juntamente com a família do cearamirinense Julio Gomes de Senna, engenheiro agrônomo que tanto contribuiu para o registro da história do município, quando publicou os livros Ceará-Mirim Exemplo Nacional volumes I e II e, também, registrou através de fotografias o cotidiano da cidade nas décadas de 1930 a 1970, estão promovendo o “I Concurso de Fotografias Dr. Julio Gomes de Senna”, com o objetivo de divulgar e valorizar o patrimônio histórico, artístico e cultural de Ceará-Mirim, através das escolas publica e privada.
O concurso levará os alunos do município a pesquisar, conhecer e divulgar o patrimônio histórico e cultural do município através da “I Exposição Olhares sobre o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim” que será realizada pelo Centro Esportivo e Cultural nos dias 05 e 06 de Agosto de 2010.
As pesquisas realizadas pelos estudantes de Ceará-Mirim proporcionará o acesso ao conhecimento da história e da formação sócio-econômica e cultural de nosso povo. Dessa forma esperamos acender a chama do "patriotismo" local de modo que nossas tradições sejam revigoradas e valorizadas por esta geração "cibernética".
O olhar através da fotografia possibilitará o aluno a ver o patrimônio de Ceará-Mirim com mais sensibilidade o que tornará possível uma visão crítica sobre a importância da preservação e da manuntenção da memória baquipiana.
O Centro Esportivo e Cultural através da Diretoria de Cultura tem buscado contribuir para o desenvolvimento cultural de Ceará-Mirim, no entanto, a instituição não tem condições de manter projetos culturais permanente, por isso, espera o apio cultural do comercio local, dos amigos do Centro e dos amantes de Ceará-Mirim.
Informações com Gibson Machado: 9104-9145

JULIO GOMES DE SENNA

JULIO GOMES DE SENNA
Julio Gomes de Senna nasceu em Ceará-Mirim a 20 de maio de 1897, era filho de Galdino Gomes de Senna e Maria Gomes de Senna e casado com Maria Salomé Fernandes de Senna. Do casamento teve três filhos, Nilton Fernandes Senna (felecido), Jose Fernandes Senna e Nedy Fernandes Senna. Faleceu no Rio de Janeiro aos 10 de junho de 1972.
Concluiu o curso secundário no Atheneu Norte Riograndense, em Natal, formou-se em 1933, como Engenheiro Topógrafo e Rural, na Escola Superior de Medicina Veterinária e Agronomia de Belo Horizonte/MG e, como Engenheiro Agrônomo pela Escola Agrícola da Bahia, Salvador, em 1935. No Rio de Janeiro fez o Curso Normal de Técnico em Assuntos Postais-Telegráficos, na Escola de Aperfeiçoamento dos Correios e Telégrafos, em 1940. Recebeu títulos do Curso de Agrônomo Regional pelo Ministério de Agricultura e do Curso de Ecologia Agrícola do Professor Girolamo Azzi, da Escola Nacional de Agronomia. Foi também diretor, em 1938, do Campo Experimental “Octavio Lamartine”, em Jundiaí – Macaíba – RN, do Ministério da Agricultura.
No DCT, exerceu ainda, entre outras chefias, a de chefe de tráfego postal da Diretoria Regional do Distrito Federal (GB-Rio); de Inspetor Geral do DCT e de Presidente de várias Comissões de Inquéritos Administrativos.
Em 1942 foi comissionado chefe da Seção do Pessoal da Diretoria Regional dos Correios do Estado de Goiás, sendo em 1944, requisitado por Dr. Pedro Ludovico, Interventor Federal, ao Sr. Presidente da República, para chefiar a Seção de Engenharia e produção, do Município de Anápolis, Estado de Goiás.
A experiência com pesquisas científicas se deu a partir da defesa da tese de graduação “O algodão e as secas do Nordeste”, em 1935 quando colava grau de Engenheiro-Agrônomo na Escola Agrícola da Bahia.
Em 1939 foi convidado pelo então prefeito de Ceará-Mirim Pedro Heráclito Pinheiro, para fazer o levantamento geográfico do município, ainda não existente, em obediência aos dispositivos do Decreto 311, de 2 de março de 1938 e, naquela ocasião completou suas anotações anteriores, já enriquecidas de dados colhidos em 1915, quando, como diarista da “Comissão de Estudos do Vale do Ceará-Mirim”, do Governo Federal e sob a direção do engenheiro Abreu e Lima, foram encarregados de fazer a medição e o alargamento do leito do Rio Água Azul, no trecho Usina São Francisco – Bacia do Pirpiri, além de outros trabalhos.
Em 1956 apresentou no II Congresso Brasileiro de Engenharia e Indústria, realizado no Rio de Janeiro sob os auspícios do Clube de Engenharia uma tese sobre a cultura do trigo, baseada nas condições ecológicas do Goiás. Intitulada “A Farinha de Trigo poderá ser fabricada no Centro Geográfico da Nação Brasileira”, que foi aprovada, conforme consta em seus “Anais”.
As anotações registradas por Dr. Julio Senna durante o período em que prestou serviços no vale do rio Ceará-Mirim resultaram na publicação dos livros Ceará-Mirim exemplo nacional volumes I e II, que trata de um estudo detalhado sobre o município porque é Geografia, uma História, uma Sociologia, um trabalho de reflexão e pesquisa, em que o autor deixa fluir todo o sentimento pela terra e um apelo às novas gerações para que estudem os nossos problemas.
O acesso à obra de Julio Senna está restrita a poucos livros e são muito difíceis de serem encontrados. Os livros estão esgotados e não há interesse do poder público em reeditá-los. Estamos fazendo o possível para terminar a diagramação do material para a publicação do volume III do Ceará-Mirim exemplo nacional, que trata de anexos dos volumes anteriores. É possível que a publicação esteja pronta até setembro de 2010.


Gibson, José Fernandes (filho de Julio Senna) e Lucineide (vice-diretora da Escola Julio Senna)


Meu primeiro contato com Dr. José Fernandes Senna, filho de Julio Senna, foi em 2007 quando visitou Ceará-Mirim junto com sua esposa e sua irmã Nedy. Conversamos uma tarde inteira e, desse encontro, surgiu uma grande amizade entre nós. Durante todo esse período em que nos comunicamos, ele foi trazendo muitos pertences de seu pai para que no futuro colocássemos em uma sala na Escola Municipal Dr. Julio Senna.

Exposição com equipamentos e arquivos pertencentes a Julio Gomes de Senna

Em março o corrente ano, durante a programação de aniversário da escola, fui convidado pela direção para expor o material usado pelo Dr. Julio Senna em suas pesquisas pelo vale e, também, fazer palestra sobre o seu patrono. Aceitei o convite e sugeri que convidássemos o sobrinho de Julio Senna, o também cearamirinense Inácio Magalhães de Sena, para falar sobre seu tio e sua importância para Ceará-Mirim.


Inacio Magalhães de Sena (sobrinho de Julio Senna) e Gibson Machado

O evento foi muito gratificante e o público presente estava muito atento e concentrado nas palavras de Dom Inácio, que emocionado, contava toda a história do grande pesquisador, sua trajetória para o sul e seus trabalhos no Brasil central.
Após a palestra de Inacio, fiz uma pequena viagem através de registros fotográficos feitos pelo engenheiro agrônomo durante seus trabalhos no vale de Ceará-Mirim entre 1939 e 1970. São fragmentos históricos que chamaram a atenção de todos como se tivessem em um túnel do tempo.

Gibson Machado fazendo exposição fotográfica sobre Julio Senna

Para homenagear Julio Senna o Centro Esportivo e Cultural, através da diretoria de cultura, realizará o I concurso fotográfico Dr. Julio Gomes de Senna com o tema: “Olhares sobre o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim”. O objetivo do concurso é proporcionar aos alunos das escolas publica e privada, a pesquisa e o conhecimento da história do município através de seu patrimônio histórico e cultural e, também, incentivar a fotografia como meio de contar história e fazer arte.
As inscrições serão feitas nas escolas parceiras e terá premiações para duas categorias: 6º ao 9º ano (1º lugar: 200,00, 2º lugar: 100,00 e 3º lugar: 50,00) e Ensino Médio (1º lugar: 300,00, 2º lugar: 200,00 e 3º lugar: 100,00).
A culminância do concurso será nos dias 5 e 6 de agosto de 2010 com a I exposição “Olhares sobre o patrimônio histórico e cultural de Ceará-Mirim”. A premiação será divulgada no dia 06/08 e terá uma premiação surpresa através de eleição feita pelo publico.

sábado, 15 de maio de 2010

MESTRE TIÃO - 96 ANOS

VIDA VIVA E BEM VIVIDA!

Gibson Machado e Mestre Tião com sua "concertina"

Hoje é mais um dia especial! Especial porque, depois de tantas tentativas de visitar meu amigo Mestre Tião, consegui superar os tropeços diários da falta de tempo. Ontem, 14 de maio de 2010 foi mais um dia inesquecível na vida do mestre Tião Oleiro do Congo de Guerra de Tabuão. Há 96 anos nascia um caboquinho, um neguinho – como ele costuma dizer – no eito do canavial, cheirando a bagaceira e mel de engenho. São anos de experiências enveredadas por caminhos diversos, caminhos que, muitas vezes, foram tortuosos e amargos. No entanto o que torna esse relicário humano especial é sua forma de viver. Sua senectude é a prova maior de que a vida está sendo generosa, pois o que mais o faz feliz é poder contar com a presença de seus familiares e amigos. O mestre em sua plena sabedoria entende que a idade altera a forma como se sente a vida. Lembra que a mocidade, quando no frescor da vida, envolve quimeras e utopias, otimismos e uma intensidade de anseios que os mais velhos não têm… e que a passagem da juventude, à maturidade e à velhice, envolve experiências, verdades, reflexões novas, que alteram os nossos valores e a forma como vemos e sentimos a vida. Cada ano que passa é como uma fita cinematográfica cujos quadros se projetam na tela da memória e contam toda sua trajetória de vida: a lembrança do tempo de pastorador de porteira na bagaceira do Engenho Grande, as brincadeiras com os meninos do Engenho Laranjeiras de Joca Sobral. São vivencias que o ajudaram a construir uma vida repleta de experiências cujos fragmentos de memória fazem marejar os olhos sulcados pelo tempo, esse senhor passageiro que, como diz Marco Aurélio, imperador e filósofo romano, “é de uma voragem tremenda; assim que uma coisa nos é trazida à vista, logo é dela varrida, e outra toma o seu lugar, antes de também ela desaparecer. Dessa forma a vida do homem na natureza, nasce, vive e transcende e diante do mistério da vida, nos comparamos ao inexistente, que segundo Pascal, na natureza somos um nada comparado ao infinito, um tudo comparado ao nada, algo intermédio entre o nada e o tudo. Somos incapazes de ver o nada de que somos feitos, o infinito em que estamos engolidos. Minha visita à comunidade de Tabuão foi muito gratificante, pois tive a felicidade de levar comigo dois amigos muito especiais: O pintor e poeta Vilella e Mestre Joaquim, um octogenário no alto dos seus 86 anos, que nos presenteou com o inseparável companheiro de 78 anos, um surrado cavaquinho cujos acordes nos fazia sonhar junto ao mestre.

Mestre Joaquim (86 anos) e seu inseparávl cavaquinho

Ao chegar à comunidade fizemos uma surpresa ao Mestre Tião, pois o mesmo fazia muito tempo que não encontrava seu amigo e companheiro de congada Joaquim. Foi uma verdadeira festa que ficou mais emocionante quando o velho embaixador do Congo de Guerra Zé Baracho se juntou ao grupo. Fiquei um bom tempo observando a sintonia que existia entre os amigos e, nesse ínterim, cantavam, tocavam e relembravam tempos pretéritos de orgias e festas. Eu, que não fui bôbo, filmei e fotografei aquele momento inesquecível.

Mestre Zé Baracho, Mestre joaquim, Gibson Machado, Mestre Tião e familiares

Não esperava que fosse ser uma tarde de grande significado cultural. Para se ter uma idéia da importância desse dia, os mestres juntos somam 262 anos de vida e, desses, 226 anos foram dedicados a cultura popular. Mestre Tião começou a brincar congo aos oito anos, portanto, são 78 anos de folclore; o Mestre Zé Baracho tem oitenta anos e setenta de folclore; o Mestre Joaquim, tem oitenta e seis anos e 78 de folclore, portanto, esses baluartes são bastiões de nossa cultura popular e tem toda uma trajetória de vida dançando, cantando e conduzindo uma tradição popular secular, cujo fim, infelizmente, é a eminente extinção, uma vez que nossas manifestações tradicionais estão esquecidas e não temos meios para fazê-las resistirem ao abandono. Atualmente nossas manifestações populares estão tendo um tratamento secundário, talvez, a situação financeira que o país passou tenha contribuído para que nossos grupos folclóricos não tenham sido convidados para nenhum evento, sejam privados ou públicos, e, também, é incompreensível como os autênticos representantes de nossas tradições não tenham participado dos encontros de cultura realizados no município e no Estado. Penso que é necessário romper as barreiras do individualismo forrento e buscar soluções coletivas que salvem nossa história, nossa memória, nossas tradições da invasão de culturas alienígenas, introduzidas em nossas vidas através da globalização e da aculturação feroz que nos impõem as esferas superiores. Na Lei Orgânica do Município de 2006, no capítulo VII da Educação, Art. 115, § 2º diz que: As escolas de primeiro e segundo graus incluem entre as disciplinas oferecidas o estudo da Cultura norte-rio-grandense e cearamirinense, envolvendo noções básicas de literatura, artes plásticas e folclore do Estado e do Município, bem como noções básicas de agricultura, pecuária, especialmente, nas escolas da zona rural. Diante disso, é preciso refletirmos, enquanto educadores, se realmente estamos cumprindo o que a Lei orienta. Sinceramente, não acredito que isto esteja sendo feito em todas as escolas. Certamente há algumas isoladas que obedecem essa orientação. Outras, o fazem em datas comemorativas cujos trabalhos são praticamente os mesmo ano após ano. É imprescindível que os educadores da rede estadual e municipal, façam capacitações dentro da área de estudo solicitada pela Lei, para que possam ajudar nossos estudantes a conhecer sua história e, com isso, aprender a valorizar e proteger as tradições, a memória e, acima de tudo, crescer como cidadão amando sua terra, aquilatando cada pedacinho deste vale suntuoso e ubérrimo. Há a esperança de que haja uma sensibilização por parte dos gestores municipais quando sinalizam com possíveis políticas públicas culturais que, provavelmente, venham fortalecer e valorizar nossas tradições e, assim, tenhamos a certeza de que os verdadeiros representantes de nosso folclore sejam redescobertos e que tenham oportunidades de mostrarem, enquanto vivos, a potência de seus conhecimentos, porque somente eles, são capazes de repassá-los às novas gerações, por isso, é imprescindível que as ações de governo sejam implementadas urgentemente antes que nossos mestres de encantem.

O Centro Esportivo e Cultural sempre tem contribuído para que possamos realizar nossos contatos com os mestres e, também, possibilitado, na medida do possível, eventos culturais em nossa cidade. Agradecemos ao presidente da instituição Ubiratam Severo por ter nos doado o bolo do mestre Tião.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

13 DE MAIO - A LIBERTAÇÃO


São poucos os registros que tratam da escravidão em Ceará-Mirim. Muitos que escreveram sobre o período áureo da cana-de-açúcar, o fizeram destacando a fidalguia, o fausto... a história negra desse tempo foi esquecida pelos nossos escribas. O que temos como registros são fragmentos isolados como no livro "Oiteiro" Memória de uma SInhá Moça de Madalena Antunes Pereira, publicado em 1957. A narrativa da memorialista nos faz ter uma idéia de como foi o dia 13 de maio de 1888 no interior do engenho Oiteiro e na vizinhaça do vale.

A LIBERTAÇÃO

(...) Em 1919 perdí a minha inesquecível Patica. Não lhe faltaram, na hora extrema, os cuidados e carinhos de que era merecedora num justo tributo do arraigado amor da minha parte.
Pus-lhe nos últimos momentos a vela na mão. Também ela iluminara-me a infânica e, ao perdê-la na idade madura, sentia-me órfã pela segunda vez, visto que perdera meus pais.
Seputei-a condignamente ao lado daquele que fôra tudo na vida para mim. A minha proteção abrangeu o espôso que deixara, alquebrado e doente, o querido "carreiro", seu único amor.
Ambos só dixaram o Oiteiro por morte.
Recordo-me de episódios anteriores à Abolição. No écran dos meus oito anos ficaram gravados. Conversas que eu entendia, outras que ficavam confusas.
A Tonha vinha me contar: "Sinhá Lica", os nêgos está dizendo na cozinha que vai tudo se libertá. Cada quá vai pra onde quizé... A Emilia dixe que vai pro Pará... Minha avó Tetê já dançou na cozinha, dizendo que vai pro sertão e me carrega! E encostando o rostinho no meu: Mas eu não vou, não, fico brincando com você, não é?...
Sentindo um apêrto no coração, dizia-lhe, então:
— Tonha, não vá, não. Eu lhe dou aquêle vistidinho de bolinhas azuis...
Indagava constrangida: Patica também vai?
Ela estalava a língua: Quá! Dixe que não deixa Sinhá Moça, nunca... As nêgas da cozinha manga dela...
Os rumores cresciam, avolumando-se, como as águas de uma enchente. Dos recantos do país chegavam notícias assustadoras para os escravocratas.
Os negros mostrava-se nas senzalas vizinhas com semblantes alegres, refletindo o que confusamente ouviam pelos cafés, no mercado da cidade, nas "vendas", e espreitavam à surdina o interior das casas dos senhores. Repetiam decorados trechos dos jornais e panfletos espalhados pela cidade. Falavam de homens chamados José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e principalmente um poeta, Castro Alves, todos falando e escrevendo a favor dos escravos!
Tonha chegava, esbaforida, da feira dos sábados, e desabafava:
— Sinhá Lica, é verdade, mesmo... Eu ouví se dizê no mercado, que um tá de Joaquim Quimbuco é o mais danado de tôdo a favô dos nêgo.
A criolinha agitava-se de um lado a outro, demonstrando, sem o saber, o frêmito da raça. Mas, ao mesmo tempo estava tristonha, porque ia me deixar... Anseios de libertação?
Liberdade! Nunca fôra cativa, apenas era filha e neta de escrava; a mãe morrera no poder de outro senhor e a avó conseguira ficar com ela complacência dos senhores.
Mas, Tonha era livre! Bem liberta de preconceitos, de tudo! Sim, bem ao contrário de mim, a eterna escrava das injunções sociais, do meio, das épocas, obrigada ainda aos mistérios de minha cosciência... Como teria de invejar, mais tarde, a independência de Tonha!
Quando brincávamos de "dona de casa", ela escolhia sempre o papel de senhora, e eu ficava sendo a escrava... Então obedecia-lhe cegamente. Se não arrumava direito a sala das bonecas, ela tomava ares de nobreza, advetindo-me. "Eu não sei aonde estou que não te dou-te uns cocorotes..." E eu os receberia, se ela mos tivesse dado, passiva e conformadamente, porquanto achava tão suave o jugo da minha "Senhora Tonha"!
O 13 de Maio aproximava-se veloz. Os escravos tinham no olhar brilho estranho e nas fisionomias tonalidades benditas, olhos abertos à esperança... A liberdade é como o sol, espalhando reflexos mesmo antes de aparecer no horizonte.
Só a Patica não mudara, continuando dócil àqueles que nunca deixariam de ser senhores do seu afeto. Mostrar-se jubilosa seria melindrá-los. O amor tem as sutilezas do perfume.
Onde encontraria eu na vida inteira outra alma igual àquela que se mostrava tão triste dentro de sua nobre alegria, para não me perturbar?
Coração de princesa acorrentado às senzalas. Catres como reflexos de tronos...
Em nossa casa chegavam comadres pobres, de minha mãe, as que nunca tiveram escravos, abordando com disfarce o assunto da abolição, que a todos empolgava.
Contavam coisas incríveis dos "Senhores". Imaginavam como iria ficar a dona Dondon, que queimava as negras com o ferro de engomar em braza, quando lhe tostavam os vestidos; a dona Joaquina, que prendia o lóbulo da orelha da escrava no portal, e, depois, chamava-a de certa distância, imperiosamente, tendo a escrava que atender, senão seria pior... E a infeliz ia ao seu encontro deixando na porta o pedaço da orelha! Contavam a indignação de seu juiz de direito, quando, certa vez fugira de propriedade próxima da cidade, uma negrinha que, entrando em sua casa se lhe ajoelhou aos pés, pedindo misericórdia. Trazia o corpo chagado de surras horríveis, infligidas pela Senhora.
A espôsa do juiz, uma excelente criatura, horrorizara-se ao constatar no corpo da infeliz, feridas sêcas, algumas sangrando, ainda recentes! A cabeça era um sarapatel!...
Então, o magistrado mandou que a abrigassem em sua casa, dizendo: Quero ver quem a poderá tirar daqui!
E as mulheres bendiziam o juiz de direito de Ceará-Mirim.
Muitas destas histórias eu e Tonha escutávamos escondidas, pois minha mãe não queria que as ouvíssemos. Então, a negrinha sobressaltada conjecturava: "Sinhá Lica, eu estou com medo de nascê de novo, pedirei a mamãe comprá-la para mim...
Não me recordo propriamente do 13 de Maio e das festas ocorridas naquele dia em Ceará-Mirim. Lembro-me apenas que foram pomposas e que um cachorrinho do reino criado por uma das minhas tias fugiu aterrorizado com os foguetes e a música. Voltando ao engenho, ia ela sem os escravos e sem o cãozinho, o que me causou pena. Esta perda fixou-se mais em meu espíirito que todos os demais acontecimentos daquele dia, que deu liberdade a milhões de criaturas acorrentadas a um eterno cativeiro. Data da abolição! Quem a compartilhou jamais a esquecerá. Os senhores atônitos abriram as cancelas e por elas passaram para o campo da igualdade democrática todos os mártires da desigualdade sinistra.
As senzalas esvaziaram-se por encanto.
Tôdas? Não! Vejamos como contou uma escava o seu dia de libertação.
"Quando atravessei quase correndo pela última vez, o corredor daquele inferno, e passei pelo terreiro, já estava Zefa, sentada, de mão no queixo. Perguntei-lhe, admirada:
Então, Zefa, não vens conosco? Estamos livres! Vamos viver a vida que todos têm direito na sagrada iguladade. Já não seremos mais "coisa", somos gente. Devemos tudo isso à santa princesa Isabel! Vamos, Zefa! Vamos levantar-lhe um altar! Que santa mais santa que a filha do nosso rei Pedro II? Qual mais caridosa, dadivosa e humana? Vamos! Saiamos o mais breve possível dêste inferno!
A Zefa Mulambo, como era conhecida, não se movia... Apenas as mandíbulas trabalhavam, mascando lascas de fumo. Faltavam-lhe células de sensibilidade. O rosto perdera a expressão. O queixo fino, sem o apoio dos dentes, estirara-se, tomando a forma de um tamanco, e o pescoço mostrava a grossura das veias dilatadas pela esclerose. Gritei-lhe outra vez ao ouvido:
— Vem, Zefa! Vinga teu filho no triunfo de hoje! Vinga o filhinho que mataste ao palpitar no ventre cativo, despenhando-te do lagedo para que êle morresse e não viesse a ter a tua sorte! Vem, criatura de Deus, vinga-te do passado, cruzando livre pelas barbas dos "senhores"! Escuta os jornais de tôda parte que estão trombeteando que "a liberdade é o favo de mel fabricado na colméia da pátria".
Vamos provar deste mel dulcíssimo!
Eu estava louca, delirante de felicidade! Distribuí beijos para os que me liam as notícias dos jornais! Decorei-as tôdas.
A macróbia não se movia...
Gritei-lhe novamente:
— E teu filho, não o vingas? Já esqueceste a tragédia?
Ao escutar a palavra – filho, estremeceu... levantou a cabeça, fitando-me apalermada:
— Ah! Sim, a criança que morreu da queda?
— Sim, repondí calorosamente, teu filho, lembras-te?
Os olhos então fuzilaram-lhe, as sobrancelhas se lhe eriçaram como asas esburacadas de um corvo ferido, tentando em vão alçar vôo... Os glóbulos avermelhados pareciam prejetar-se fora das órbitas.
A velhice é estanque de lágrimas, como a vergôntea sêca que não tem seiva. Todavia a palavra – filho - qual centelha inapagada do coração de mãe, fê-la, inesperadamente, estremecer, se bem nela tudo houvesse morrido ao gêlo dos 60 anos de cativeiro!...
— Vamo-nos embora, Zefa! Ainda insisti na derradeira solicitação...
Olhou-me aparvalhada, e resmungou:
— Não! Eu fico aqui mesmo, já me acostumei..."
Princesa Isabel! Glória de uma pátria! Mulher divina redimindo uma raça! Santa que deveria estar nos altares!
Escravidão... Lei iníqua, porém, lei...